4. ORIGEM, DESENVOLVIMENTO E CRISE DO SISTEMA FINANCEIRO
4.7 Os discursos e as ações em busca da solução para a crise
4.7.1 O comportamento do dólar no contexto da crise
Muito antes da crise de 2008, o dólar americano vinha em um processo longo de crescente enfraquecimento frente à maioria das moedas dos outros países (não desenhando uma trajetória linear, mas flutuante – como será mostrado no Capítulo 7). Mesmo em relação à moeda brasileira, o real, é possível calcular uma perda média de mercado de 75%, tomando o período que vai de nov/2002 a set/2008 (conforme Gráfico 1, abaixo), portanto, anterior à crise. Por exemplo, a relação dólar/real (taxa de câmbio de mercado) estava em torno de 3,8 em nov/2002, passando para 2,0 em set/2007 e alcançando um patamar relativamente baixo de 1,6 em set/2008. A partir de então, retorna de forma súbita ao ponto de 2,3 no início de 2009,
daí então começa novamente desenvolver uma trajetória de queda, alcançando o patamar 1,56 em jan/2012, porém com viés oscilante de subida. Hoje (10 de outubro de 2016) está em torno de 3,2.
Gráfico 1– Relação Dólar/Real: Taxas de Câmbio de Mercado e Taxa de Câmbio “Correto”39(jun/1994 a mai/2015)
Fonte: <http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=2192>. Acesso em: 8 jul. 2015.
Essa nova tendência pode ser explicada por conta dos constrangimentos econômicos e financeiros do mercado mundial e das incertezas nas expectativas de retornos dos investimentos nos ativos provocadas pela crise do subprime. De fato, no ápice da crise de 2008, houve uma fuga de dólares de vários países (inclusive do Brasil), buscando refúgio nas aplicações em títulos do Tesouro americano, configurando-se uma nova tendência de apreciação do dólar que é vista até os dias atuais.
Entrementes, se tomarmos a taxa de câmbio “Correto”, pode ser percebido, no mesmo Gráfico 1, uma tendência crescente da taxa cambial, do período em tela: julho de 1994 a maio de 2015. Por um lado, a explicação para esse evento está relacionada à variação positiva e
39Taxa de Câmbio “Correto”, refere-se à taxa de câmbio obtida de acordo com a teoria da paridade de poder de
compra, PPC. Por um lado, na sua versão relativa, o PPC nos diz que a razão dos preços de um bem na mesma moeda deve ser constante ao longo do tempo. Por outro, a versão absoluta nos diz que, no longo prazo (supondo que não existam custos de transação e que os bens sejam homogêneos), o valor da moeda de um país é completamente determinado pela razão entre o preço doméstico e o preço externo, conforme relação:
* , , , t i t i t i P P E .
intermitente dos preços domésticos (inflação); por outro, pelo fato de que nosso regime cambial nunca ter sido verdadeiramente flexível, mas de uma flexibilidade suja, Dirty
Floating Exchange – a autoridade monetária, no caso, o Banco Central do Brasil, está sempre
atuando no mercado de câmbio (política de intervenção), em conformidade com os interesses da política monetária dominante.
Portanto, esse fenômeno somente pode ser compreendido e explicado se fugirmos à racionalidade fria da concepção de dinheiro da corrente monetarista neoclássica e ampliarmos para um olhar sociopolítico do dinheiro (ou da sociologia econômica), expandindo o foco no sentido da construção de um conceito de moeda de referência internacional como fato social global, expressão simbólica das contradições da atual estrutura da geopolítica internacional do modo de produção capitalista, o que será buscado no próximo capítulo deste trabalho.
4.8 Conclusão
O objetivo deste capítulo foi buscar compreender e explicar a gênese, o desenvolvimento e a crise do sistema financeiro e monetário internacional, bem como as novas configurações assumidas pelo dinheiro na contemporaneidade (do dinheiro de papel, padrão ouro/prata, ao dinheiro fiduciário, sem lastro algum). Nesse sentido, e por conta da limitação imposta pelo recorte temático, foi feita toda uma gama de descrição e análise do sistema financeiro e monetário internacional, evidentemente a partir do sistema monetário britânico até alcançar o sistema atual, o americano, e suas acumuladas e mal resolvidas crises. Foi visto como, dentre os principais metais preciosos, o ouro acabou se consagrando como moeda internacional, através de um conjunto inicialmente assistemático de normas e regras que possibilitou a consolidação do mercado mundial, funcionando como elemento facilitador das transações do comércio internacional de bens e serviços. Isso graças à imposição de um país, no caso a Inglaterra, que, após fazer a primeira revolução industrial, na segunda metade do século XVIII, emerge como potência econômica e militar mundial e estabelece sua unidade monetária como moeda de referência das trocas no comércio internacional (ou seja, o padrão ouro-libra), fixando de uma vez por todas sua hegemonia imperial.
A Pax Britannica, juntamente com seu sistema monetário internacional, consegue, de certa forma, impor uma relativa estabilidade política e econômica tanto na Europa como no resto do mundo por quase um século, ou seja, de 1815 a 1914, em particular a estabilidade das
transações do comércio mundial. A referida estabilidade se deu por conta de que a Inglaterra funcionava como uma espécie de financiador de última instância (credor internacional), financiando, através de empréstimos, o processo de industrialização dos demais países; em contrapartida, estes abriam seus mercados e possibilitavam o crescimento do comércio mundial, de maneira que, atuando em conjunto, garantiam o bom funcionamento do mecanismo de ajuste do padrão ouro-libra.
Todavia, o acúmulo de problemas e contradições inerentes a todo e qualquer sistema imperial (e de sua unidade monetária) provocou a instabilidade do padrão-ouro e da libra esterlina durante toda a década de 1930, principalmente com a eclosão da Primeira Guerra mundial e a instalação da Grande Depressão de 1929. Tudo isso fez com que o padrão inglês, após o fim da Segunda Guerra Mundial, cedesse lugar para um novo sistema monetário internacional, o americano.
O sistema monetário americano foi consolidado através de compromissos, acordos e convenções estabelecidos na Conferência Financeira e Monetária das Nações Unidas, ou seja, os Acordos de Bretton Woods, de 1944. Além de estabelecer um regime de câmbio fixo, o mais importante compromisso assumido pelas nações em Bretton Woods foi o controle de capitais internacionais (consenso entre os dois planos em litígio, o de Keynes e de White). Este foi, até o início dos anos 1970, capaz de assegurar aos países algum tipo de imunidade frente às pressões nas balanças de pagamentos e dava a liberdade para que seus governos orientassem suas políticas monetárias para outros alvos, como a geração de emprego e aumento de renda, sem se preocuparem muito fortemente com a questão do câmbio, uma vez que podiam, com certa tranquilidade, fazer as alterações necessárias para os ajustamentos cambiais de suas próprias moedas.
A Pax Americana (que só será consolidada, de fato, após a queda do Muro de Berlim e o esfacelamento da URSS, no fim dos anos de 1980 e início dos anos de 1990) começa a ser construída a partir da Segunda Guerra Mundial, em 1945, data que coincide com implantação dos Acordos de Bretton Woods, quando o dólar passa a ser moeda de referência internacional (the world's reference currency), com os Estados Unidos impondo-se como nação hegemônica mundial, estabelecendo um novo período de relativa tranquilidade geopolítica entre boa parte dos países europeus e do resto do mundo (que não faziam parte ou não estavam coligados com a URSS). Contudo, um dos pilares do sistema Bretton Woods, o controle dos fluxos de capitais internacionais, foi abandonado no início dos anos 1970, abrindo caminho para o seu próprio fim.
O desmantelamento do sistema Bretton Woods preparou o terreno para a desregulamentação e plena liberdade de movimentação dos fluxos de capitais internacionais que, juntamente com os processos de globalização neoliberal e destruição improdutiva, provocados pelas inovações financeiras, construiu, ao longo de mais de quatro décadas, a maior crise do sistema financeiro e monetário internacional de todos os tempos, a crise de 2008.
5. CONTROVÉRSIAS SOBRE A CRIAÇÃO DA MOEDA INTERNACIONAL NA