2. A MOEDA INTERNACIONAL, UMA ABORDAGEM SOCIOECONÔMICA E
2.4 Dinheiro, Estado e Sistema Social
2.4.1.1 Habermas
Habermas concebe o dinheiro (e o poder) como o elo mais forte entre o sistema e o mundo da vida, razão pela qual, no processo de colonização do mundo da vida pelo sistema, o dinheiro funciona como padrão de racionalização e instrumentalização (ferramenta). Nesse sentido, é importante compreender tais conceitos habermasianos.
Com efeito, para construção de sua abordagem social, alicerçado nas teorias de sistema, Habermas (2012a) parte da utopia durkheimiana da existência de uma sociedade completamente integrada, onde a coesão social é obtida pela percepção dos poderes sobrenaturais, sagrados, de maneira que os conflitos na obtenção do poder ou de interesses econômicos são assegurados pelos hábitos, crenças e religião. A pessoa tem uma existência social total; ainda não se percebeu enquanto ser individual, como sujeito. A linguagem ainda é fracamente utilizada, de maneira que não joga nenhum papel na intermediação das relações sociais, mesmo entre o sagrado e o profano.
Todavia, com o transcorrer do tempo, a experiência do dia a dia e a prática da linguagem e dos atos comunicativos vão decisivamente reforçando os processos de obtenção do entendimento, colocando ao largo e deixando para trás, cada vez mais, a força da tradição
normativa e da justificação religiosa. Dessa maneira, a dimensão sagrada vai cedendo lugar ao discurso na obtenção do consenso, ou seja, tem-se uma espécie de transição entre interação mediada pelo simbólico para a interação mediada pela fala.
A evolução social é entendida por Habermas (2012b, p.277) como “um processo de diferenciação de segunda ordem”, posto que o mundo da vida e o mundo do sistema se diferenciam não apenas e tão somente à proporção que a racionalidade do primeiro e a complexidade do segundo crescem, mas na medida em que o mundo da vida se diferencia do mundo do sistema. Sendo assim, em sociologia, segundo ele, o processo de desenvolvimento da sociedade percorreu diferentes níveis evolutivos: “sociedades tribais, sociedades tradicionais, organizadas por meio do Estado, e sociedades modernas (que possuem um sistema ecônomo diferenciado)” (HABERMAS, 2012b, p.277). Nessa trajetória histórica evolutiva, ocorrem mecanismos sistêmicos que vão se desprendendo de forma gradativa das estruturas sociais por meio das quais se realiza a integração social.
Esse processo evolutivo, segundo Habermas (2012b), se deu por meio de quatro mecanismos de diferenciação sistêmica e que foram se configurando através da seguinte sequência: diferenciação segmentária, estratificação, meio de controle e organização estatal. A cada nova dimensão do processo de diferenciação sistêmica, espaços estruturais são desprendidos e toma lugar novos graus de complexidade, “com novas especificações funcionais e para uma integração mais abstrata das novas diferenciações” (HABERMAS, 2012b, p. 300).
Em sociedades arcaicas, as interações são determinadas pelo repertório de papéis do sistema de parentesco [...]. Em sociedades tribais estratificadas, quando surge um sistema de status em que as associações familiares são hierarquizadas de acordo com a nobreza, os papéis referentes ao sexo e à geração são relativizados: para o status social do indivíduo, a posição da família à qual pertence é mais importante que o lugar que ele mesmo ocupa no interior da família [...]. Quando a estrutura da sociedade não é mais determinada pelo parentesco, mas pelo Estado, a estratificação social é acoplada a características da participação no poder político e à posição no processo de produção [...]. Finalmente, a autoridade do Estado e o poder político em geral são relativizados perante a ordem do direito privado tão logo o dinheiro, que constitui um meio de controle, é institucionalizado numa forma jurídica que visa a um intercâmbio econômico despolitizado. (HABERMAS, 2012b, p. 301-302).
Portanto, a cada nova dimensão, o sistema exigia estruturas institucionais específicas como, por exemplo, o surgimento das classes. Num primeiro momento, classes políticas, depois, classes econômicas, em função da transição entre representações convencionais e, mais tarde, pós-convencionais do direito e da moral. Isso se deu por conta de que as novas
dimensões de diferenciação do sistema apenas poderiam ocorrer quando o estabelecimento da racionalização do mundo da vida atingisse um nível correspondente.
A racionalização do mundo da vida pode ser entendida como uma dinâmica crescente de liberalização do potencial de racionalidade que emerge no próprio agir comunicativo. Assim, na medida em que os componentes estruturais do mundo da vida crescentemente passam a se diferenciar, tanto mais os contextos de interação tornam-se sedimentados às condições de uma compreensão compartimentada pela racionalidade motivada, ou seja, a própria condição para a formação de um consenso que tem como base a autoridade do melhor argumento. Nessas condições, o consenso, mesmo em caso de conflito, é assegurado em um grau de abstração mais elevado, razão pela qual se vislumbra uma universalização e configuração de orientações balizadas em valores sugeridos institucionalmente aos agentes.
Na rede de interação, observam-se duas posições contrárias: de um lado, o agir comunicativo se afasta cada vez mais das tradições e normas religiosas; do outro, as interações se dividem no agir orientado para o sucesso e no agir orientado para a compreensão compartilhada, resultando, assim, em dois subsistemas de ação racional em vista de uma finalidade. A pressão no sentido da racionalização se torna tão claramente forte que se acaba por requerer, demasiadamente, utensílios da compreensão compartilhada pela linguagem – impondo, nesse contexto, sua substituição por outros meios de comunicação, notadamente pelo dinheiro.
Sendo assim, no sistema habermasiano o dinheiro é o elo equidistante que caracteriza a dualidade entre os mundos (da vida e do sistema), ou seja, representa a racionalidade que os mantêm dialeticamente conectados: a racionalidade instrumental e a comunicativa. Com efeito, segundo Dodd (1997), mudanças na estrutura jurídica, como subsistema do sistema social, dão a base para “a separação entre a vida econômica e os valores e atividades associados à política e à tradição. O dinheiro tem estado no centro desse processo” (DODD, 1997, p. 128). Assim, o dinheiro é uma representação simbólica tanto do capital quanto do trabalho, externalizando a faculdade da liberdade burguesa de fazer seus contratos em benefício próprio, razão pela qual os processos de integração no mundo da vida e no mundo do sistema têm se dissociado.
Esse mecanismo de dissociação ocorre por meio da racionalização, fomentando riscos na perspectiva tanto do sistema quanto do mundo da vida. Por um lado, no que se refere ao mundo da vida, na maior proporção em que “as práticas e instituições sociais particulares se expõem a críticas e debates”, dentro do arcabouço e dos princípios da ação comunicativa, “tanto mais vulneráveis elas se tornam” (DODD, 1997, p. 128). Por outro, no que diz respeito
à integração do sistema, isso pode ser nocivo, pois a ação econômica e seus processos de tomada de decisões políticos, para se legitimarem, têm de se valer da cultura e das instituições do mundo da vida. Os riscos suscitados no processo da dissociação não ficam, contudo, restritos a cada esfera da sociedade moderna como entidades afastadas uma das outras, mas têm a ver com a relação entre elas.
O que parecia ser um ganho em eficiência, do ponto de vista do sistema, poderá ser profundamente perturbador no âmbito do mundo vital. É exatamente o que acontecerá se o desenvolvimento do mundo vital for inibido ou, mais especificadamente, se o mundo vital for colonizado pelo sistema. A colonização interna do mundo vital se refere ao processo mediante o qual as instituições e imperativos associados com o sistema se expandem e invadem ou colonizam as instituições e valores associados com o mundo vital. Esse processo é mediado pelo dinheiro e pelo poder, e entra em profundo conflito com a forma de raciocínio na qual o mundo vital se baseia. A colonização interna distorce a consciência do mundo vital porque a racionalidade instrumental sufoca o mundo vital, onde a racionalidade comunicativa deveria predominar. Por essa razão, aspectos cruciais do processo de dissociação têm sido patológicos, levando a profundas tensões sociais e culturais. (DODD, 1993, p. 129, grifo nosso).
Nessa moldura habermasiana, o dinheiro codifica muitos dos aspectos da ação comunicativa, mas não em sua totalidade. Sendo assim, para Dodd (1993, p. 129), “a linguagem não pode ser de todo desenraizada do mundo vital e codificada sob a forma de um meio monetário que circula no sistema sem nenhuma referência aos princípios do mundo vital”.
Uma vez que existe, conectada com o mundo da vida, uma dimensão fiduciária no processo de troca monetária, não se pode cogitar a possibilidade de que tal codificação perpetrada pelo dinheiro venha a ser independe do mundo da vida. Portanto, enquanto instituição social, o dinheiro necessita estar balizado em normas jurídicas do mundo da vida e esta é sem dúvida uma disposição específica das sociedades modernas.