CAPÍTULO 3 – O JUIZ E A PROVA: INSTRUMENTOS PARA A OBTENÇÃO DE
3.7 Algumas Questões Controvertidas
3.7.3 Busca pela Verdade e Princípio Dispositivo
Sempre que se fala sobre poderes instrutórios do julgador os princípios que vêm à mente são o dispositivo e inquisitivo. De um lado, diz-se que o primeiro limita os poderes instrutórios do julgador, uma vez que a iniciativa em termos de ação e provas caberia, de forma exclusiva, às partes. De outra banda, o segundo quer fazer crer que cabe ao julgador perquirir sobre as provas acerca dos fatos sobre os quais a demanda está assentada.
Ocorre que tradicionalmente a doutrina relaciona o conteúdo do princípio dispositivo com a atividade do magistrado no campo das provas (BEDAQUE, 2011, p. 93-94). Pacífico (2001, p. 152), ao tratar do tema, diz que a doutrina clássica tem por hábito vincular os poderes instrutórios do juiz à natureza da relação de Direito Material trazida ao processo, afirmando-se que se for de direito disponível a iniciativa e a condução do feito são praticamente exclusivas das partes, enquanto se for de direito indisponível a amplitude de poderes do julgador é potencializada.
No mesmo sentido são os dizeres de Didier Júnior (2007, p. 52), o qual assim se manifesta:
quando o legislador atribuiu às partes as principais tarefas relacionadas à condução e instrução do processo, diz-se que se está respeitando o denominado princípio dispositivo; tanto mais poderes forem atribuídos ao magistrado, mais condizentes com o princípio inquisitivo o processo será. A dicotomia princípio inquisitivo-princípio dispositivo está intimamente relacionada à atribuição de poderes ao juiz: sempre que o legislador atribuir um poder ao magistrado, independentemente da vontade das partes, vê-se manifestação de "inquisitoriedade"; sempre que se deixe ao alvedrio dos litigantes a opção, aparece a "dispositividade".
Ocorre que a ideia de dicotomia entre os princípios mencionados é derivada de mentalidade atrasada e relativa à fase em que o Direito Processual Civil não possuía o reconhecimento e autonomia científica dos dias atuais. Hoje em dia não se pode mais manter posições herméticas como a mencionada. É preciso que seja feita a conjugação entre os diversos institutos jurídicos envolvidos nos questionamentos, a fim de que deles seja extraído o resultado mais útil para o sistema. Com o princípio dispositivo não é diferente. Deve ele ser encarado com base na visão publicista de processo, sem deixar de notar que o papel do julgador mudou e não é mais aquele de mero expectador do embate travado entre as partes.
Neste sentido, Pacífico (2001, p. 153) ensina que desde a emancipação do Direito Processual, passando a ser, reconhecidamente, ciência autônoma, bem como após estudos que tiveram por objeto o princípio dispositivo, a diferença entre o poder de disposição das partes sobre o direito material e sua indisponibilidade sobre o mecanismo processual, sobretudo no que toca à produção de provas, permitiu que parte da doutrina chegasse a uma interessante conclusão, a de que os poderes instrutórios do juiz não seriam influenciados em razão da natureza da relação substancial sobre a qual se fundamente o processo.
O reforço que tem ganhado os poderes instrutórios do julgador vem sendo reconhecido cada dia mais por nossos Tribunais Superiores, isso em razão da consciência de que é necessária a reestruturação do Poder Judiciário. Trilhando esse caminho, o Superior Tribunal de Justiça proferiu importante decisão, recente, conferindo ao magistrado poderes de direção e instrução inclusive no processo de execução, no qual é reconhecidamente menor a intervenção do juiz, pois já se parte da definição e acertamento do direito material. O resumo da decisão citada é o seguinte:
PROCESSUAL CIVIL. EXECUÇÃO. NOMEAÇÃO DE LEILOEIRO PELO EXEQUENTE.ART. 706 DO CPC. INDEFERIMENTO POR JUSTO MOTIVO. AUSÊNCIA DEOBRIGAÇÃO DE HOMOLOGAÇÃO PELO JUIZ. ARTS. 125 E 598 DO CPC. LIVRE CONVENCIMENTO MOTIVADO DO JULGADOR. IMPOSSIBILIDADE DE SINDICÂNCIA.
SÚMULA 7/STJ. 1. Infere-se do art. 706 do CPC (o leiloeiro público será indicado pelo exeqüente [sic]) ser juridicamente possível a indicação de leiloeiro público pelo exeqüente [sic], o que significa dizer que o credor tem
o direito de indicar, mas não de ver nomeado o leiloeiro indicado, porquanto inexiste obrigação de homologação pelo juiz. 2. "Dentre os poderes que o Código de Processo artigos 125, I; 130,ambos c/c art. 598 confere ao juiz na direção do processo de execução, subsume-se o de determinar atos instrutórios necessários para que a execução se processe de forma calibrada, justa, de modo anão impor desnecessários sacrifícios ao devedor" (REsp n.
71.960/SP,Rel. Min. João Otávio de Noronha, Quarta Turma, julgado em 25/3/2003, DJ 14/4/2003, p. 206). Recurso especial improvido.50
A realidade de outrora está se alterando, influenciada pelo reconhecimento da autonomia do Direito Processual Civil, bem como pela evolução do pensamento publicista do processo e sobre tal mudança de paradigmas, bem como sobre o aparente embate entre os princípios dispositivo e inquisitivo. Theodoro Júnior (2004, p. 24) diz que "modernamente, nenhum dos dois princípios merece mais a consagração dos Códigos, em sua pureza clássica.
Hoje as legislações processuais são mistas e apresentam preceitos tanto de ordem inquisitiva como dispositiva".
Não por outro motivo, Bedaque (2011, p. 94-95) destaca que a interpretação do princípio e dos seus efeitos, no que se refere à atividade probatória do julgador, por vezes é equivocada, de modo que é necessário, em primeiro lugar, delimitar o real significado do princípio e o seu campo de abrangência.
Assim, na tentativa de definir o conteúdo e o alcance do princípio dispositivo, acompanhando a moderna doutrina, prefere-se o conceito fornecido por Bedaque (2011, p.
98), adeptos que somos da visão publicista do processo:
diante de tanta polêmica em torno da terminologia adequada para representar cada um desses fenômenos, e até mesmo da exata configuração deles, preferível que a denominação "princípio dispositivo" seja reservada tão somente aos reflexos que a relação de direito material disponível possa produzir no processo. E tais reflexos referem-se apenas à própria relação jurídico-substancial. Assim, tratando-se de direito disponível, as partes têm ampla liberdade para dele dispor, através de atos processuais (renúncia, desistência, reconhecimento do pedido). E não pode o juiz opor-se à prática de tais atos, exatamente em virtude da natureza do direito material em questão. Essa sim corresponde à verdadeira e adequada manifestação do princípio dispositivo. Trata-se de um princípio relativo à relação material, não à processual.
Não se deve confundir causa de pedir e pedido com meios de prova e princípio dispositivo, o que invariavelmente tem ocorrido. Nesse sentido é que Bedaque (2011, p. 102) prossegue com seus ensinamentos afirmando que os sujeitos processuais têm a capacidade de estabelecer limitações quanto aos fatos a serem examinados pelo juiz, porém não têm o poder
50 Superior Tribunal de Justiça. Recurso Especial n. 1354974/MG. Relator: Humberto Martins. Brasília, 05 de março de 2013.
de definir quais meios de prova serão utilizados para tanto, ou seja, não podem delimitar os meios de prova que o julgador irá entender necessários para a formação do convencimento dele. E quanto a essa atuação do julgador, salienta Bedaque (2011, p. 102) que não se trata de simples conduta supletiva, pois ele deve atuar de forma dinâmica, visando a reproduzir nos autos um retrato fiel da realidade jurídico-material. A atividade instrutória do juiz, como se nota, está diretamente vinculada aos limites da demanda, que, ao menos em princípio, não podem ser ampliados de ofício51. Nessa medida, à luz dos fatos deduzidos pelas partes, deve o julgador desenvolver toda a atividade possível para atingir os escopos do processo, limitado apenas aos fatos, porém não impedido de lançar mão de todos os meios de prova necessários para a solução da demanda.
Assim sendo, a interpretação que se deve dar ao princípio dispositivo é no sentido de que ele limita a atividade do julgador apenas em relação à possibilidades das partes abrirem mão do direito material em si, jamais alcançando o instrumento processual, sob pena de perda da sua utilidade e isso, caso venha ocorrer, é extremamente prejudicial para a efetividade e a justiça dos provimentos jurisdicionais, pois se correria o risco de deixar ao alvedrio das partes o controle da instrução do processo, quando na verdade o magistrado é o destinatário das provas e ninguém melhor do que ele para definir quais devem ser produzidas, a fim de que se consiga atingir o grau de certeza necessário para que a decisão seja proferida com segurança.