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C APÍTULO 3

No documento DIFICULDADES DE APRENDIZAGEM (páginas 53-85)

o S p rofiSSionAiS dA e ducAção e

AS d ificuldAdeS de A prendizAgem : d iAgnóStico

A partir da perspectiva do saber fazer, neste capítulo você terá os seguintes objetivos de aprendizagem:

3 Analisar os problemas que geram dificuldades de aprendizagem e são gerados por elas.

3 Identificar os profissionais especializados para diagnosticar as dificuldades de aprendizagem no contexto escolar.

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dificuldadEsdE aPrEndizagEm: diagnósticO Capítulo 3

c ontextuAlizAção

No capítulo anterior, você verificou as diferentes terminologias utilizadas na escola para indicar as dificuldades de aprendizagem.

Você reparou que, independente da terminologia utilizada, no espaço escolar, as dificuldades de aprendizagem nos remetem a alunos “heterogêneos que apresentam desordens específicas, manifestadas por dificuldades na aquisição utilização e compreensão do sistema auditivo, da fala, da leitura, da escrita e do raciocínio matemático”? (FONSECA, 1995, p. 71).

Essas desordens na aprendizagem que atrapalham o desenvolvimento de crianças e de jovens em processo de aquisição de conhecimento podem nos levar a pensar em uma educação especializada com condições próprias para suas necessidades. Assim, pesquisadores como Fonseca (1995), Ballone (2003), Smith e Stick (2001) defendem a idéia de educação diferenciada para aprendizagem significativa. Sob este ponto de vista, você observará, nas próximas páginas, exemplos de comportamentos típicos dos portadores de dificuldades de aprendizagem, com o intuito de refletir sobre os possíveis diagnósticos que podem ser traçados no contexto escolar e relacioná-los com a ação docente e a de outros profissionais envolvidos com a educação.

d ificuldAdeS de A prendizAgem nA

e ScolA

Vale ressaltar, nesta seção, que uma criança com dificuldades de aprendizagem (DA) não é uma criança com deficiência. Fonseca (1995, p. 92) elucida que as crianças com DA são normais em alguns aspectos, “mas desviantes e atípicas em outros que, por si só, exigem processos de aprendizagem que não se encontram disponíveis, por agora, no envolvimento da ‘classe’ regular, dita normal.”

Você conhece alguma criança assim? Que características cognitivas e de comportamento essa criança apresenta? Fonseca (1995) nos dá dicas a esse respeito:

As suas principais características compreendem uma dificuldade de aprendizagem nos processos simbólicos:

fala, leitura, escrita, aritmética, etc., independentemente de lhe terem sido proporcionadas condições adequadas de desenvolvimento (saúde, envolvimento familiar estável, oportunidades sócio-culturais e educacionais, etc.). A criança com DA manifesta uma discrepância no seu potencial de aprendizagem e exibe uma diversidade de comportamentos

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que podem ou não ser provocados por disfunção neurológica.

Manifesta freqüentemente dificuldades no processo de informação quer ao nível receptivo, quer ainda no nível integrativo e expressivo. Usualmente revela-se como uma criança inteligente. Inverte letras: ‘d’ por ‘b’ ou ‘u’ por ‘n’;

números: ‘6’ por ‘9’ ou lê ‘bar’ por ‘dar’, ou ‘96’ por ‘69’, etc.

Esquece-se com freqüência. Não aprende seqüência dos dias da semana, dos meses ou das estações do ano. Fala em histórias fabulosas, mas não consegue saber quanto é 2+2.

Por vezes é tagarela, não pára de falar. Está em permanente atividade, não se concentra, é muito distraída e teimosa.

(FONSECA, 1995, p. 252).

As características mencionadas por Fonseca (1995) podem gerar ou ser geradas pelas dificuldades de aprendizagem. Além dessas características gerais dos indivíduos com DA, existem outras que estudaremos na sequência desta seção. São elas: problemas de atenção, problemas perceptivos, problemas emocionais, problemas linguísticos e problemas motores.

O termo “problemas” utilizado nesta seção é sugerido pelo autor Fonseca (1995) e deve ser entendido como uma característica que pode ser encontrada nas pessoas que têm DA. Dessa forma, o termo

“problemas” não significa uma “coisa ruim”, mas uma característica do indivíduo que tem dificuldades de aprendizagem.

Atividade de Estudos:

Antes de verificarmos os problemas dos indivíduos com DA, leia o relato de caso que segue e, depois, responda o que pedimos.

Relato de caso

Tenho uma criança de 8 anos e 7 meses que recentemente me tem apresentado algumas alterações na escrita e na leitura. Note que ela está conosco desde janeiro e, nessa altura, não apresentava estas dificuldades. É uma criança que chegou a nós com uma linguagem e vocabulário muito pobre, linguagem frequentemente à bebê... Tem evoluído muito desde janeiro, mas nos últimos 15 dias apresenta estas alterações que lhe vou falar. Na escrita, a partir do ditado, escreve: viva (original é VIVE); lustar (original é ILUSTRA);

a (original é AL); Vide (original é VIDA); ixa (original é PEIXE); Do

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(original é DA). Quando realiza cópia da lousa, escreve: do (original é DA); dios (original é DIAS); Rodos (original é RODAS); no (original é NA); batatas (original é BATATES); Xilofona (original é XILOFONE).

Fonte: MARTINS, Vicente. Dislexia: relatos de casos. Disponível em: <http://

inforum.insite.com.br/840/3395723.html>. Acesso em: 20 abr. 2009.

1) Em sua opinião, quais são as características da criança que aparece no relato de Martins (2009)?

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a) Problemas de atenção

De acordo com Fonseca (1995, p. 253), os problemas de atenção consistem na dificuldade que a criança tem em “fixar a atenção, não selecionando os estímulos relevantes dos irrelevantes”. Esta dificuldade interfere na percepção e, consequentemente na aprendizagem, pois, como sabemos, a atenção compreende uma organização interna e externa de estímulos que recebe e integra as mensagens sensoriais.

É comum, na escola, denominarmos crianças desatentas como crianças com Transtorno de Déficit de Atenção/ Hiperatividade (TDAH). Você sabe o que é o TDAH?

Assista ao vídeo explicativo sobre TDAH. Disponível em: <http://

www.tdah.org.br/videos/videos02.php?id=1>.

Este vídeo trata do TDAH e sua importância. Foi produzido pela Janssen-Cilag com conteúdo exclusivamente fornecido pela Associação Brasileira de Déficit de Atenção (ABDA).

Segundo a Associação Brasileira de Déficit de Atenção, TDAH é

um transtorno neurobiológico, de causas genéticas, que Problemas de atenção consistem

na dificuldade que a criança tem em

“fixar a atenção, não selecionando os estímulos relevantes

dos irrelevantes”.

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aparece na infância e freqüentemente acompanha o indivíduo por toda a sua vida. Caracteriza por sintomas de desatenção, inquietude e impulsividade, sendo chamado, às vezes, de DDA (Distúrbio do Déficit de Atenção). Em inglês, também é chamado de ADD, ADHD ou de AD/HD.

(ABDA, 2009).

De acordo com os especialistas que se organizam na ABDA (2009), o TDAH se caracteriza por dois tipos de sintomas que são: 1) desatenção; 2) hiperatividade-impulsividade.

Nem toda criança que se apresenta desatenta possui TDAH. Muitas vezes, a criança apenas precisa de estímulos adequados às suas habilidades. Para diagnosticar o TDAH, foi elaborado um questionário, intitulado SNAP-V. Esse questionário fornece indícios para diagnosticar o TDAH, mas o diagnóstico final deve ser dado por uma equipe de especialistas.

Veja a seguir, o SNAP-V.

Para cada item, escolha a coluna que melhor descreve o (a) aluno (a) (MARQUE UM X):

Nem Só

um um Bastante Demais

pouco pouco

1. Não consegue prestar muita atenção a detalhes ou comete erros por descuido nos trabalhos da es-cola ou tarefas.

2. Tem dificuldade de manter a atenção em ta-refas ou atividades de lazer.

3. Parece não estar ouvindo quando se fala

direta-mente com ele.

4. Não segue instruções até o fim e não ter-mina deveres de escola, tarefas ou obrigações.

5. Tem dificuldade para organizar tarefas e atividades.

6. Evita, não gosta ou se envolve contra a vontade em tarefas que exigem esforço mental prolongado.

7. Perde coisas necessárias para atividades (p. ex.:

brinquedos, deveres da escola, lápis ou livros).

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Como avaliar:

1) se existem pelo menos 6 itens marcados como “BASTANTE” ou “DEMAIS”

de 1 a 9 = existem mais sintomas de desatenção que o esperado numa criança ou adolescente.

2) se existem pelo menos 6 itens marcados como “BASTANTE” ou “DEMAIS”

de 10 a 18 = existem mais sintomas de hiperatividade e impulsividade que o esperado numa criança ou adolescente.

O questionário SNAP-V é útil para avaliar apenas o primeiro dos critérios 8. Distrai-se com estímulos externos.

9. É esquecido em atividades do dia-a-dia.

10. Mexe com as mãos ou os pés ou se remexe

na cadeira.

11. Sai do lugar na sala de aula ou em outras situa-ções em que se espera que fique sentado.

12. Corre de um lado para outro ou sobe demais nas coisas em situações em que isto é inapropriado.

13. Tem dificuldade em brincar ou envolver-se em atividades de lazer de forma calma.

14. Não pára ou freqüentemente está a “mil por hora”.

15. Fala em excesso.

16. Responde as perguntas de forma precipitada antes de elas terem sido terminadas.

17. Tem dificuldade de esperar sua vez.

18. Interrompe os outros ou se intromete (p.ex., mete-se nas conversas / jogos).

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(critério A) para se fazer o diagnóstico. Existem outros critérios que também são necessários.

IMPORTANTE: Não se pode fazer o diagnóstico de TDAH apenas com o critério A! Veja abaixo os demais critérios.

CRITÉRIO A: Sintomas (vistos anteriormente).

CRITÉRIO B: Alguns desses sintomas devem estar presentes antes dos 7 anos de idade.

CRITÉRIO C: Existem problemas causados pelos sintomas acima em pelo menos 2 contextos diferentes (por ex., na escola, no trabalho, na vida social e em casa).

CRITÉRIO D: Há problemas evidentes na vida escolar, social ou familiar por conta dos sintomas.

CRITÉRIO E: Se existe um outro problema (tal como depressão, deficiência mental, psicose, etc.), os sintomas não podem ser atribuídos exclusivamente a ele.

Fonte: ABDA. SNAP-V. Versão em português validada por Mattos P. et al. 2005.

Disponível em: <http://www.tdah.org.br/diag01.php>. Acesso em: 21 abr. 2009.

Verifique que, para um indivíduo ser considerado suspeito de portador de TDAH, é preciso que seis itens do questionário SNAP – V sejam marcados como bastante ou demais. Isto nos leva a crer que nem todas as crianças por nós denominadas como desatentas são portadoras de TDAH e que nem todos os portadores de TDAH possuem exatamente os mesmo sintomas. Veja o caso de Beto, no relato que segue.

Relato de Caso Minha Vida

Ele era uma criança levada, que não parava no lugar e não se concentrava em nada. Diziam que ele era hiperativo, mas pera aí?

Como podia ser hiperativo uma criança que ao jogar videogame ou assistir a um jogo do Flamengo na televisão ficava horas e horas parada sem ao menos piscar os olhos?

‘Mal-educado!!!!’ ‘Sem limites!!!!’ ‘Capeta!!!!’ ‘Disperso!!!!’

‘Louco!!!’ eram frases que ele comumente ouvia.

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Ele sofria com isso, porém sempre se considerou como os outros, pois tinha uma vida parecida com a dos seus amigos, mesmos hábitos, costumes, cultura, mas sempre fazendo as coisas muitas vezes sem pensar. Mesmo assim, ele não era somente defeitos; assim como perdia amigos facilmente, os recuperava com seu carisma e sua inteligência.

Inteligência que incomodava a muitos, pois não o viam estudar muito, se empenhar e mesmo assim colher como frutos, bons resultados... ‘Mas pera aí, ele nunca pode ser um bom aluno!’ ‘Ele só pode estar colando’.

Eis então que ele cresceu, a criança hiperativa mal-educada virou um jovem. Ele, agora mais velho, continuava tendo muitos amigos, saía, se divertia e jogava muito bem futebol, algo em que definitivamente se concentrava e parecia até uma pessoa ‘normal’;

ele era o capitão de seu time da escola, exercia toda sua liderança em quadra e se orgulhava muito disso.

Na sala de aula, parecia que sua liderança se tornava algo negativo, o fazia não ter forças para estudar, para prestar atenção, atrapalhava a turma, desconcentrava os professores e criava muitas inimizades. Inimizades essas que não acreditavam como ele podia obter bons resultados. E as vítimas de sua tenebrosa atitude sem limites? Ele não pode corresponder às expectativas.

Ele era o capitão do time, ele era querido...

Ele era um menino-problema; em sala de aula, ele era odiado.

Como sua vida não era feita só de futebol, ele foi campeão no campo, e foi derrotado fora dele; foi perseguido como um bandido sem direito a legítima defesa; afinal foi pego várias vezes em flagrante, com sua maligna hiperatividade e sua temível impulsividade.

Orgulhosamente, foi lhe dado o veredicto final, como um juiz que dá uma sentença a um réu; sua reprovação em matemática foi ovacionada pelos guardiões da boa conduta e da paz escolar, e sua conseqüente saída da escola como um início de um novo ciclo de alegria, sem ele, aquele menino, que jogava bem futebol, mas somente isso.

Ele chorou, perdeu seus amigos, sua escola, mas mais do que tudo isso, perdeu sua auto-confiança.

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Ele já estava se tornando um adulto e, por meios do destino, sua mãe conheceu um médico que tratava de um tal ‘déficit de atenção’.

Seria tão somente o 445º tipo de tratamento para curar aquele garoto-problema, algo que até o mesmo já estava praticamente convencido que era.

Mandaram-no tomar Ritalina, um remédio ruim, que tira fome, e que lhe daria mais atenção e blá blá blá !!! Algo que ele já estava cansado de ouvir. Ele tomou a medicação sem crença nenhuma naquilo.

E o tempo foi passando, ele vivendo sua vida, em uma nova escola, procurando seu lugar no time de futebol do colégio...

Em 4 anos, ele se tornou capitão do time. E mais: foi campeão vencendo a sua ex-escola; se formou como um dos melhores alunos da turma, passou para a faculdade que queria, tirando nota 10 na prova de matemática, a matéria que o fez passar um dos seus piores momentos ao ser reprovado.

Hoje ele está na faculdade. Ele ainda tem muito o que viver, com seu jeito hiperativo, desatento, mas agora controlado, sem deixar de ser ele mesmo. Ele vai vivendo, com o intuito de um dia poder mostrar que não era um bandido, um mal-educado nem um

“sem limites”; era apenas uma pessoa diferente e, como todas outras pessoas diferentes, pode e deu certo na vida.

Hoje ele é feliz, tem uma namorada, estuda o que gosta, tem muitos amigos, sua família se orgulha dele e, acima de tudo, ele próprio sabe o que tem e vive feliz com a sua realidade.

Ele deseja que o que ele sofreu, outras pessoas não sofram um dia.

Ele?

Sou eu...

Beto (Contato através de [email protected])

Fonte: ABDA. Disponível em: <http://www.tdah.org.br/

reportagem01.php?tipo=T>. Acesso em: 21 abr. 2009.

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Para saber mais sobre TDAH leia: PAUL; George J. Du;

STONER, Gary. TDAH nas escolas: orientações práticas e essenciais para professores, educadores e profissionais envolvidos com as necessidades de alunos com TDAH. São Paulo: M.B do Brasil LTDA, 2002.

Agora que você já estudou alguns dos problemas de atenção, vamos verificar os problemas perceptivos mais investigados pelos teóricos que tratam das dificuldades de aprendizagem.

b) Problemas perceptivos

O sistema perceptivo faz parte do sistema nervoso central, ou seja, é o cérebro quem recebe os estímulos (por meio dos órgãos do sentido: visão, audição, tato, olfato e paladar) e, em seguida, processa as informações sensoriais.

Desenvolver o sistema perceptivo subentende a capacidade de extrair significação do envolvimento, ou seja, internalizar os resultados da experiência e da prática.

Fonseca (1995) nos explica que a percepção humana só ocorre quando a estimulação sensorial recebida pelo indivíduo está próxima do nível sensorial já existente, intrínseco, nesse mesmo indivíduo. Além disso, o desenvolvimento perceptivo compreende uma hierarquia no desenvolvimento motor, pois

a capacidade perceptiva de discriminar, analisar, sintetizar, reconhecer e armazenar estímulos e suas relações está indissociavelmente ligada à manipulação de objetos e à elaboração, que por sua vez produz estimulação em feedback, posteriormente ligada ao cérebro. (FONSECA, 1995, p. 255).

Os estímulos visuais e auditivos, ainda que não sejam os únicos estímulos possíveis de imprimir funções no sistema perceptivo, são imprescindíveis para o seu desenvolvimento. Nesta seção, estudaremos apenas os sistemas perceptivo, visual e auditivo, por serem, segundo Fonseca (1995), os sistemas mais estudados. Sendo assim, veja, a seguir, quais as implicações do sistema perceptivo visual e auditivo separadamente.

Fonseca (1995, p. 255) afirma que o desenvolvimento perceptivo-visual emerge da integração dos seguintes processos sensório-motores:

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• Processo antigravítico: Engloba as aquisições motoras básicas (reptação, quadrupedia, controle postural, locomoção bípede, etc.) decorrentes essencialmente de leis de maturação biológica – lei cefalocaudal e lei próximo-distal.

• Processo de interiorização corporal e espacial: Resulta da construção da imagem do corpo e subsequente da lateralização e da direcionalidade que, por implicação, vão estar na base das funções de orientação e exploração (‘radar do Eu’).

• Processo de identificação e manipulação: decorre do contato com o real e com os objetos. A ação sobre os outros e com os outros mediatizada com os objetos, verdadeiros representantes dos outros e dos seus afetos, proporciona a descoberta dos mesmos. Descoberta essa, realizada pela preensão fina, dado que os objetos passam a ser reconhecidos nos seus atributos, propriedades e características. A visão, coordenando com a exploração da mão, vai integrando seus feedbacks tatilquinestésicos, criando imagens que vão diferenciando e consolidando, permitindo, por consequência, a reexperimentação visuoperceptiva dos aspectos motores.

Veja o significado de algumas palavras utilizadas por Fonseca (1995), na citação anterior, de acordo com o Weiszflog (2008):

Reptação: andar de rastos; rastejar.

Quadrupedia: andar com quatro pés. Engatinhar.

Lei cefalocaudal: o desenvolvimento começa na cabeça e progride para as outras partes do corpo.

Lei próximo-distal: o desenvolvimento físico do tronco para os membros.

Tatilquinestésico: Estímulos responsáveis pela monitorização dos movimentos, auxiliando-nos a andar, correr e realizar outras atividades cinéticas, segura e coordenadamente.

Quando o indivíduo possui disfunção em um dos processos mencionados, o sistema perceptivo não se desenvolverá plenamente. Na prática, isto significa dizer que o indivíduo terá dificuldades em “reproduzir formas geométricas, em distinguir figura-fundo, em detectar inversões e rotações de figuras, em transferir relações espaciais, em identificar letras em palavras, etc.” (FONSECA, 1995, p.

257). Veja os exemplos que seguem.

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Figura 6 – Reprodução de formas geométricas e de grafismos de uma criança

Fonte: FONSECA, Vitor da. Introdução às dificuldades de aprendizagem. 2. ed. Porto Alegre: Artemed, 1995. p. 257.

Figura 7 – Exemplo de dificuldade em discriminar posições no espaço

Fonte: FONSECA, Vitor da. Introdução às dificuldades de aprendizagem. 2. ed. Porto Alegre: Artemed, 1995. p. 258.

Figura 8 – Exemplo de dificuldades em distinguir figura-fundo

Fonte: FONSECA, Vitor da. Introdução às dificuldades de aprendizagem. 2. ed. Porto Alegre: Artemed, 1995. p. 258.

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O desenvolvimento perceptivo-auditivo, ao contrário do visual, é ininterrupto e primitivo. Além disso, é capaz de captar todas as informações sonoras que permeiam os meios. Não é novidade dizer que a audição é essencial para a comunicação interpessoal e para a aquisição da linguagem. Devido a essa relevância, o sistema perceptivo-auditivo “é um sistema de alerta e de atenção pluridimensional, pois capta informações de todos os lados.” (FONSECA, 1995, p. 263).

Assim como no sistema perceptivo-visual, o auditivo apresenta funções de tratamento de informação, como a função de recepção, associação e expressão.

Fonseca (1995, p. 263) nos explica que:

Nas funções receptivas, podemos destacar a discriminação auditiva, a identificação fonética e a síntese auditiva, seguir direções, etc. Nas funções associativas, podemos diferenciar o complemento de palavras e frases, a memória de curto e médio termo, a associação auditiva ou audiovisual, etc. nas funções expressivas, podemos equacionar: articulação, vocabulário, narração de histórias por imagens, etc.

Quando o indivíduo possui problemas no sistema perceptivo-auditivo, terá grande dificuldade em discriminar pares de palavras e classificar frases absurdas, como, por exemplo: Os pássaros dão frutos? (neste caso, pássaros deveriam ser árvores). Os indivíduos com DA no sistema perceptivo-auditivo podem compreender uma palavra, mas não as outras da frase, deixando de compreender seu sentido.

Outros problemas, como identificação fonética e síntese auditiva, podem ser revelados no indivíduo com problemas no sistema perceptivo-auditivo. Isto nos indica que indivíduos com tal problema têm dificuldade em:

• Identificar o primeiro som das palavras que ouve, como, por exemplo:

na palavra “casa” não identifica a letra “C”.

• Completar palavras, como, por exemplo: “moran____”, para morango.

• Completar frases simples, como, por exemplo: “O gato subiu no muro e __________”

• Responder frase-estímulo, como, por exemplo: “O alface maduro é verde, o tomate maduro é___________ “

• Participar de provas de vocabulários e narração de histórias.

Os problemas perceptivos mais investigados pelos estudiosos da temática são os visuais e os auditivos. Com isso, vale lembrar que não são os únicos que compõem o sistema perceptivo, existindo os sistemas motor, psicomotor e tátil.

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Para saber mais sobre os outros sistemas que compõem o sistema perceptivo, leia: FONSECA, Vitor da. Introdução às dificuldades de aprendizagem. 2. ed. Porto Alegre: Artemed, 1995.

Agora que você já conhece duas dificuldades específicas (de atenção e perceptiva) que os indivíduos com DA podem apresentar, vamos compreender como os problemas emocionais podem inferir no cotidiano dos portadores de DA.

Atividade de Estudos:

1) Faça uma pausa em seus estudos para organizar seu conhecimento. Preencha o quadro a seguir com o que pedimos.

Principais características

Problemas de atenção Problemas perceptivos

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c) Problemas emocionais

Quando falamos em desenvolvimento emocional, estamos nos referindo aos sentimentos que nos constituem enquanto seres humanos. Sendo assim, é fácil deduzir que todos os seres humanos são constituídos por sentimentos. Assim, quando acontece algum problema com o sistema emocional, o desenvolvimento do ser humano é afetado.

Atividade de Estudos:

1) Você consegue listar algumas situações que podem gerar problemas emocionais em um indivíduo? Use o espaço a seguir para listar algumas dessas situações.

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Certamente, as situações descritas por você e tantas outras podem influenciar a vida de um indivíduo sob todos os aspectos, inclusive a aprendizagem. Isto porque as emoções têm uma relação íntima com a aprendizagem, assim como os problemas emocionais têm relação com as dificuldades de aprendizagem.

Mas o que são emoções? Segundo Ballone (2003, p. 32), emoções são

“complexos psicofisiológicos que se caracterizam por súbitas rupturas no equilíbrio afetivo de curta duração, com repercussões consecutivas sobre a integridade da consciência e sobre a atividade funcional de vários órgãos”. De acordo com Ballone (2003), as emoções podem influenciar de tal maneira o organismo de um indivíduo que suas consequências podem ser vistas fisicamente.

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