i ntervenção e p revenção dAS d ificuldAdeS de A prendizAgem no
A mBiente e ScolAr
A partir da perspectiva do saber fazer, neste capítulo você terá os seguintes objetivos de aprendizagem:
3 Conhecer algumas estratégias de intervenção e prevenção das dificuldades de aprendizagem que podem ser desenvolvidas na escola.
3 Analisar os efeitos da intervenção psicopedagógica na escola e na família do aluno com dificuldades de aprendizagem.
87 Intervençãoe Prevençãodas dIfIculdades de aPrendIzagemno ambIente escolar Capítulo 4
c ontextuAlizAção
Você tem estudado, ao longo deste caderno, que as dificuldades de aprendizagem (DAs) permeiam o ambiente escolar, gerando problemas de diversas ordens e culminando no fracasso escolar de muitas crianças e jovens. Você também verificou, no capítulo anterior, que os professores e coordenadores escolares podem identificar algumas dessas dificuldades de aprendizagem, a fim de que o aluno receba o tratamento adequado para superá-las. Além disso, você percebeu que existem diversos profissionais que podem contribuir, como serviço especializado na escola, para o diagnóstico e tratamento das dificuldades de aprendizagem.
Atividade de Estudos:
1) Você sabe dizer quais profissionais são indicados para trabalhar com as dificuldades de aprendizagem na escola? Cite um desses profissionais e apresente um resumo de suas funções, frente às DAs.
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Neste capítulo, você conhecerá algumas estratégias de intervenção e prevenção das dificuldades de aprendizagem. Algumas dessas estratégias podem ser desenvolvidas pelos próprios professores no ambiente escolar; outras, no entanto, devem ser desenvolvidas pelo psicopedagogo, profissional encarregado de lidar com as dificuldades de aprendizagem no ambiente escolar.
Antes de continuar seus estudos, reflita por um instante: Por que o psicopedagogo é o profissional mais indicado para lidar com as dificuldades de aprendizagem na escola?
De acordo com Neves (apud BOSSA, 2007, p. 19),
a psicopedagogia estuda o ato de aprender e ensinar, levando sempre em conta as realidades interna e externa da aprendizagem, tomadas em conjunto. E, mais, procurando colocar em pé de igualdade os aspectos cognitivos, afetivos e sociais que lhe estão implícitos.
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Em outras palavras, a psicopedagogia é uma área do conhecimento que lida exclusivamente com o ato de aprender e tudo o que está implícito nesse ato. Isto significa dizer que a preocupação profissional do psicopedagogo não está focada no comportamento do aluno ou nos métodos de ensino. A atuação do psicopedagogo abrange esses aspectos, mas não somente eles. Assim, a psicopedagogia considera todos os aspectos da aprendizagem.
Para Weiss (apud BOSSA, 2007, p. 20), a psicopedagogia “busca a melhoria das relações com a aprendizagem, assim como a melhor qualidade na construção da própria aprendizagem de alunos e educadores”.
Na sequência deste capítulo, você poderá analisar os efeitos da intervenção psicopedagógica na escola e na família do aluno com dificuldades de aprendizagem.
Preparado(a)?
i ntervenção p SicopedAgógicA
O psicopedagogo, no contexto escolar é, acima de tudo, o de investigador das questões que levam ao aprendizado e ao não-aprendizado. Com o olhar investigativo aliado aos conhecimentos inerentes à psicopedagogia, o psicopedagogo terá condições de intervir de forma preventiva, ou seja, intervir com a finalidade de evitar que os problemas de aprendizagem aconteçam.
Bossa (2000) nos faz pensar sobre a importância da presença do psicopedagogo na escola, apresentando algumas situações que comumente ocorrem nesse espaço. Veja as situações indicadas por Bossa (2000):
Uma criança pode ter dificuldades de aprendizagem para manter seu pensamento concentrado, não prestando atenção no que a professora está falando [...]
Pode ainda ter dificuldades em fazer sua mão obedecer na hora de escrever, demorando um tempão para fazer a lição e mesmo assim a letra fica feia [...]
Às vezes, para entender a matéria, a criança precisa aprender coisas que ainda não lhe ensinaram, e que só depois de aprender essas coisas é que consegue entender o que a professora diz [...]
Uma criança pode não aprender porque não sabe lidar com as leis e regras da vida [...]
Uma criança pode ter problema de saúde que atrapalha sua aprendizagem escolar [...]
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Uma criança pode ir mal na escola por ser muito desorganizada [...] (BOSSA, 2000, p. 50-59).
A partir das situações apresentadas por Bossa (2002), percebemos que a presença do psicopedagogo na escola se justifica pelo olhar especializado sobre o processo aprendizagem, pelo entendimento que esse profissional possui sobre os aspectos que promovem ou dificultam a aprendizagem humana. Neste sentido, vale lembrar que o insucesso (ou fracasso) escolar é gerado, segundo Patto (apud BOSSA, 2002), por um conjunto de situações, como métodos de ensino inadequados, dificuldades de aprendizagem, desmotivação no processo de ensino-aprendizagem, trabalho infantil, ausência de acompanhamento especializado e ausência de estratégias educacionais específicas, entre outras.
Um estudo realizado pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) apontou que o fracasso escolar gera consequências sociais lastimáveis, como despreparo profissional, desemprego, marginalidade e violência, entre outras. Para saber mais, acesse:
http://libdigi.unicamp.br/document.
O psicopedagogo pode e deve intervir nas causas do fracasso escolar, seja nas dificuldades de aprendizagem, nos problemas decorrentes delas, na reflexão acerca dos métodos do professor ou na relação professor-aluno. Bossa (2002) explica que o papel do psicopedagogo no ambiente escolar é caracterizado por:
• proporcionar a reflexão na escola, para que os valores e crenças em relação à aprendizagem sejam repensados; para auxiliar nas estratégias metodológicas e na observação avaliativa do aluno;
• orientar os pais para pensarem sobre as dificuldades de seus filhos;
• compreender o potencial e as necessidades da criança, em suas diferentes faixas etárias;
• incentivar propostas de trabalho em equipes e o ensino pela pesquisa;
• orientar a adaptação de linguagens e materiais, quando for necessário.
Psicopedagogo na escola se justifica pelo olhar
especializado sobre o processo aprendizagem, pelo
entendimento que esse profissional
possui sobre os aspectos que promovem ou dificultam a aprendizagem
humana.
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Vale dizer, ainda, que a ação do psicopedagogo na escola deve ter, primeiramente, um caráter preventivo. Veja o que Bossa (2007) nos diz a esse respeito:
A psicopedagogia, no âmbito de sua atuação preventiva, preocupa-se essencialmente com a escola. Dedicando-se a áreas relacionadas com o planejamento educacional e assessoramento pedagógico, colabora com os planos educacionais e sanitários no âmbito das organizações, atuando em uma modalidade cujo caráter é clínico, ou seja, realizando diagnóstico institucional e propostas operacionais pertinentes (BOSSA, 2007, p. 88).
Com base em Bossa (2007), podemos afirmar que o trabalho do psicopedagogo perpassa o espaço e a atuação dos profissionais da escola e vai além dela, chegando à família da criança em processo de aprendizagem formal (ou escolar). Nas subseções seguintes, você refletirá sobre a atuação desse profissional na relação com os professores e com a família do aluno.
a) Atuação do psicopedagogo com os professores
O psicopedagogo não deve assumir a função do professor ao intervir no processo de ensino-aprendizagem, mas deve orientar e conduzir a reflexões e vivências que aprimorem essa relação afetiva dele com os alunos. Sabemos que a afetividade não altera diretamente a estrutura no funcionamento da inteligência, mas pode fazer avançar ou atrasar o desenvolvimento cognitivo dos indivíduos. A respeito disto, Abreu e Masetto (1990, p. 115) afirmam que “é o modo de agir do professor em sala de aula, mais do que suas características de personalidade, que colabora para uma adequada aprendizagem dos alunos”. Por isso, o professor deve estabelecer relações afetivas com seus alunos. Que atitudes implicam nessa relação afetiva do professor e aluno?
Um professor disposto a estabelecer uma relação afetiva com seu aluno:
• elogia, estimula, encoraja a ação ou o comportamento do aluno; alivia a tensão em aula;
• favorece o aumento da autoestima do aluno, com expressões como “muito bem” ou “vá em frente”;
• ouve e considera as ideias dos alunos;
• observa a necessidade de cada um de seus alunos;
• permite que os alunos se expressem, criticando, sugerindo atividades para as aulas;
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• conhece e respeita a história de vida do aluno, sua condição sociocultural;
• estabelece uma relação de confiança e respeito mútuo.
Em alguns casos, o professor não consegue estabelecer essa relação de afetividade com seus alunos. Muitas vezes, está tão envolvido com seus afazeres profissionais, como o cumprimento do conteúdo, os prazos estabelecidos pela escola, as avaliações e a organização dos materiais didáticos, que deixa de lado a vivência de situações que poderiam criar ou reforçar a relação empática com seus alunos ou, o que é pior, acaba não percebendo o distanciamento em relação a alguns alunos, dificultando, com isso, o processo de aprendizagem desses alunos.
É nesse momento que o psicopedagogo pode interferir. O psicopedagogo, com o olhar de quem está do lado de fora dessa relação (entre o professor e o aluno), vê diversas possibilidades de interação, fornece subsídio para os casos específicos, sensibiliza ambas as partes, mostra os limites dessa relação e contribui para que os vínculos construídos entre eles sejam de confiança e respeito, favorecendo sempre a autonomia e a empatia.
A ação psicopedagógica é, nesse contexto, minuciosa e requer ética e profissionalismo do psicopedagogo. É uma intervenção que deve perpassar o ponto de vista do aluno (com suas dificuldades, necessidades e também potencialidades) e do professor (com seus métodos, suas experiências, seu orgulho e sua formação), sem perder o cerne de seu trabalho, que é a aprendizagem, a qual, nesse caso, depende da relação afetiva entre as partes.
De acordo com Bossa (2002), o psicopedagogo deve agir como assessor ou membro da equipe pedagógica da escola, ouvindo e discutindo os assuntos pertinentes à aprendizagem dos alunos, elaborando propostas educativas, propondo mudanças, fazendo mediação entre os diferentes grupos envolvidos na relação ensino-aprendizagem (alunos, professores, famílias e funcionários), aprimorando metodologias e estratégias que garantam melhor aprendizagem, colaborando na formação dos professores e possibilitando a ampliação de seus conhecimentos sobre o aluno.
Para aprofundar sua reflexão sobre a importância da relação afetiva entre professor e aluno, leia:
RIBEIRO, Marinalva Lopes; JUTRAS, France. Representações sociais de professores sobre afetividade. Estudos de Psicologia, Campinas, nº 1, março 2006. Disponível em: <http://pepsic.bvs-psi.org.br/scielo.php? script=sci_
arttext&pid=S0103-166X2006000100005&lng=pt&nrm=iso>.
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Em suma, podemos afirmar que a intervenção psicopedagógica, na relação professor-aluno é, acima de tudo, uma ação ética e profissional que utiliza recursos próprios da psicopedagogia para contribuir com o bom andamento do processo de ensino-aprendizagem no ambiente escolar.
Veja na subseção que segue como o psicopedagogo pode intervir com a família do aluno no processo de aprendizagem.
b) Atuação do psicopedagogo com a família
Para iniciarmos nossa reflexão sobre a importância da família no processo de aquisição e internalização de conhecimento e seu papel fundamental no combate às dificuldades de aprendizagem, leia o relato de caso que segue e, APÓS, responda ao que pedimos.
Relato de Caso História de Mauro
A família de Mauro (10 anos) buscou ajuda em função de suas dificuldades na escola. Ele mostrava-se inseguro e lento na realização das tarefas, não conseguindo assumir sozinho as tarefas de casa, lendo e escrevendo com dificuldade.
A seguir estão destacados alguns aspectos importantes da história de Mauro colhidos na entrevista com seus pais.
‘Achei muito bem feito para o pai que nasceu um menino. Eu disse que ele seria a pulga na sua camisola” (fala da mãe referindo-se ao nascimento de Mauro). Mauro referindo-sempre foi mais lento, demorou para falar e andar. Dormiu na cama dos pais até os 2 anos de idade’.
As hipóteses trazidas pelos pais quanto às causas dos problemas de Mauro na escola são diferentes. O pai pensa que a mãe atua como uma ‘bengala’ para o filho na hora das tarefas. Isto torna Mauro dependente e, por isso, depois, não consegue fazer as tarefas sozinho em aula. A mãe diz que o pai é muito ausente, não olha suas tarefas. Mauro fica muito triste com isso e, então, vai mal na escola. O pai acusa a mãe de ser muito próxima de Mauro e ela, por sua vez, o culpa por sua ausência.
A intervenção psicopedagógica,
na relação professor-aluno é, acima de tudo, uma ação ética e profissional que
utiliza recursos próprios da psicopedagogia para contribuir com
o bom andamento do processo
de ensino-aprendizagem no ambiente escolar.
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Nos relatos da mãe, percebe-se o quanto Mauro comporta-se como seu porta-voz e fica clara a aliança estabelecida com o filho.
A disputa de poder entre o casal aparece frequentemente.
Ambos se mantêm rígidos em suas posições de responsabilizar o outro pelo fracasso do filho. Não conseguem estabelecer trocas e pensar numa forma comum de ação com o filho.
Um desautoriza o outro constantemente: se a mãe telefona para cobrar que Mauro faça as tarefas, por exemplo, o pai atende o telefonema em casa. Comunica ao filho o pedido da mãe, mas o autoriza a não realizar a tarefa naquele momento. Ao referir-se às intermináveis brigas com o marido, Vera (a mãe) diz que separação é para gente corajosa e este não é seu caso.
Parece que Mauro oferece o seu sintoma para proteger o casamento dos pais que, enquanto olham para as dificuldades do filho, deixam de resolver a sua relação conflituosa. A dificuldade de aprendizagem de Mauro talvez seja um dos poucos fatos em torno do qual o casal se ‘reúne’, mesmo que seja para brigar.
Fonte: ZORTÉIA, Ana Maira. Família: lugar onde se aprende a aprender? Pensando Famílias, nº 1, p.17-30, ago. 1999.
Disponível em: <http://www.domusterapia.com.br/pdf/
PF1Zort%C3%A9a.pdf>. Acesso em: 25 abr. 2009.
Atividade de Estudos:
1) Em sua opinião, por que Mauro não tem muito sucesso na escola?
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2) Como os pais de Mauro poderiam ajudá-lo no processo de aprendizagem?
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Segundo o relato de caso, podemos perceber que o problema de Mauro é muito útil ao casal, pois ele se tornou a única possibilidade de diálogo entre eles. A partir dessa relação, essa família condenou Mauro a ter dificuldades de aprendizagem na escola. Neste sentido, Fernández (apud ZORTÉIA, 1999, p. 23) afirma que
uma criança aprende a caminhar, não porque tem pernas, e sim porque seus pais desejam que ela caminhe e a consideram capaz de caminhar, apesar de saberem que quando uma criança caminha sozinha, poderá ‘escapar’ e ir até aonde eles não poderão controlá-Ia.
Isto nos revela que a família se constitui em nós, a base de nosso desenvolvimento, ou, como afirma Zortéia (1999), é na família que temos nossa primeira (e primordial) aula.
Nesta ‘aula familiar’ [...] onde os pais são os mestres e os irmãos os companheiros de classe: os estilos de comunicação parental seriam os métodos de ensino; a estrutura e hierarquia familiar seriam as técnicas de ensino; as atividades e os temas das conversas familiares seriam o currículo; as atribuições positivas seriam os fatores de motivação para as crianças aprenderem e os objetos enriquecedores que fazem parte da casa seriam os materiais educativos. (ZORTÉIA, 1999, p. 22).
É no ambiente familiar que ensaiamos nossas ações para a vida social e escolar. Assim, precisamos encontrar no espaço familiar um ambiente seguro, onde possamos expressar o que pensamos e sentimos, de respeito e amor, para que aprendamos a confiar em nós mesmos e nos outros. De acordo com Andrada (2007, p. 36)
A família é a matriz da identidade, sendo que a experiência de identidade nos traz um sentido de pertencer e outro de ser separado. O primeiro sentimento emerge de dentro da família, com as interações que ali ocorrem e que permitem a adaptação da criança aos padrões de interações da família.
O segundo sentido ocorre com a participação da criança em interações em diferentes contextos familiares e diferentes sub-sistemas dentro da família (o sub-sistema fraterno, os primos, etc.), assim como em contextos fora da família.
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Desse modo, a maneira como nos relacionamos com o mundo que nos cerca faz parte da gama de experiências que vivenciamos no seio familiar.
A aprendizagem é decorrente e dependente dessas experiências familiares.
Por exemplo, uma família que considera a aprendizagem escolar (ter bom desempenho na escola, passar de ano, etc.) um valor primordial, terá um(a) filho(a) que valorizará igualmente a aprendizagem.
Por esse motivo, a primeira suspeita do psicopedagogo ao examinar, na escola, uma criança com dificuldades de aprendizagem, é a relação parental.
Para ilustrar a importância dessa relação, leia o relato de caso que segue.
Relato de Caso O Caso de Laura
Laura (8 anos) tem como principal queixa, da escola e de seus pais, sua falta de atenção e compreensão das tarefas que lhe são atribuídas e uma alta atividade motora. Ao conversarmos com os pais de Laura, entre outros aspectos, é fácil perceber que a mãe ao dar instruções à sua filha não consegue tratar de um tema de cada vez. Ela descreve mais ou menos assim os pedidos feitos à Laura na hora da saída de casa para a escola:
‘Peço que Laura acabe logo seu almoço, tenho que lembrá-Ia para pegar a roupa do balé e a merenda e escovar os dentes... Às vezes pergunto e descubro nesta hora que ela não concluiu seus temas!’
Parece que nesta família a regra é: a mãe fala e os outros escutam.
Torna-se, assim, impossível para Laura organizar-se frente a tantas demandas de uma só vez. É provável que ela nunca tenha tido em casa o espaço e o tempo para perguntar-se internamente o que gostaria ou deveria fazer primeiro dentre tantas ordens.
Da mesma forma que Laura não é ouvida em seu grupo familiar, não pode estar atenta e ouvir na sala de aula. Não é capaz de selecionar entre tantos estímulos externos qual é o mais relevante, para que possa centrar sua atenção em um problema de cada vez e resolvê-Io com competência.
Laura apresenta prejuízos em sua autonomia moral e intelectual.
Parece não saber ao certo quem é. Em um de nossos encontros, brincamos de repórter e ela precisava responder, entre outras coisas, com quem gostaria de se parecer. Laura respondeu: ‘Eu queria ser parecida comigo mesma’.
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Fonte: ZORTÉIA, Ana Maira. Família: lugar onde se aprende a aprender? Pensando Famílias, nº 1, p.17-30, ago. 1999.
Disponível em: <http://www.domusterapia.com.br/pdf/
PF1Zort%C3%A9a.pdf>. Acesso em: 25 abr. 2009.
O psicopedagogo, no ambiente familiar, deve incentivar a aprendizagem, orientando pais e filhos a agirem de maneira favorável, proporcionando reflexões acerca dos aspectos de sua relação familiar. Neste sentido, Zortéia (1999, p. 29) nos diz que,
No trabalho com estas famílias, precisamos buscar a relação entre o modo como vivem os momentos de mudança (nascimentos, mortes, crises...) e o modo de operar do sujeito que não pode aprender. Diante de um problema, a família vai utilizar aqueles esquemas de ação que conhece na tentativa de solucioná-Io. Precisamos avaliar se existe flexibilidade, espaço para ser criativo nestes momentos ou se a solução de problemas implica sempre na repetição de padrões previamente estabelecidos.
Visto que a ação psicopedagógica é importante no ambiente escolar, na orientação dos professores, no cuidado das relações entre aluno e professor e nas relações parentais, em função do processo de aprendizagem, vejamos a seguir alguns exemplos de estratégias para prevenção das dificuldades de aprendizagem na escola.
Para aprofundar sua reflexão acerca do papel da família e do psicopedagogo no processo de aprendizagem, leia:
ROCHA, Liseti Maria Sitja. A desorganização familiar, os comprometimentos emocionais e as dificuldades de aprendizagem.
Revista Monographia, Porto Alegre, nº 3, 2006. Disponível em:
<http://www.fapa.com.br/monographia>. Acesso em: 10 de junho 2009.
Atividade de Estudos:
1) Complete o quadro a seguir com a síntese das ideias trabalhadas nesta seção.
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Ação psicopedagógica na escola Ação psicopedagógica na família
d ificuldAdeS de A prendizAgem nA
e ScolA : A lgumAS e StrAtégiAS
Ao longo deste caderno, você estudou as dificuldades de aprendizagem sob diversos enfoques. Viu também, que essas dificuldades geram muitos prejuízos ao desenvolvimento de uma criança ou jovem, o que nos impulsiona a somar esforços, com profissionais especializados, a fim de impedir que as DAs se instalem no processo de aprendizagem dos alunos. Muitas vezes, uma boa estratégia de ação, pode prevenir que as DAs gerem problemas mais sérios ao desenvolvimento do aluno.
Neste sentido, toda estratégia de prevenção das DAs começa por uma postura investigativa sobre o processo de aprendizagem do aluno. Essa ação investigativa pode ser traduzida como uma observação do desempenho do aluno na sua capacidade de aprender, sob todos os aspectos que podem gerar aprendizagem.
Assim, a observação dos aspectos motores, perceptivos, emocionais, linguísticos e de atenção deve ser capaz de evidenciar a existência ou não das DAs, para, depois disso, serem feitos os encaminhamentos necessários aos profissionais especializados.
As estratégias de ação que nos permitem observar, criticamente na escola, o
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desenvolvimento perceptivo, motor, linguístico, emocional e de atenção do aluno, podem evitar que as DAs prejudiquem a sua vida escolar e social.
Considerando que essa investigação (que visa observar o desempenho do aluno na escola) pode ser desenvolvida no ambiente escolar pelos próprios professores, retomaremos a análise sobre os problemas que geram ou são gerados pelas dificuldades de aprendizagem, visando apresentar algumas estratégias de ação que têm a finalidade de investigar (observar) e prevenir as DAs.
a) Estratégias para problemas de atenção
No capítulo três, você estudou que os problemas de atenção consistem na incapacidade de “fixar a atenção, não selecionando os estímulos relevantes dos irrelevantes” (FONSECA, 1995, p. 253). Além disso, você estudou que a desatenção e a impulsividade podem ser evidência de um problema neurológico conhecido como TDAH e que deve ser tratado por uma equipe de profissionais especializados.
Considerando esse problema, veja a seguir algumas estratégias que têm o objetivo de investigar se os alunos possuem problemas de atenção e/ou impulsividade.
Brincadeira – Coelho sai da toca
Objetivo: Verificar o nível de atenção da criança e sua resposta aos comandos da brincadeira.
Material: Nenhum.
Técnica: A turma deve estar dividida em trios. Cada trio será dividido em toca e coelho. A toca será feita por duas das crianças do trio, com as mãos dadas e erguidas, figurando o telhado de uma casa. O coelho (o outro aluno do trio) deverá ficar dentro da toca (no meio das duas crianças, que estão com as mãos erguidas em formato de telhado de casa). Um aluno, ou o próprio professor, fará o papel do coelho sem toca e ficará andando entre as tocas, a fim de tomar o lugar de um dos coelhos. Ao comando desse aluno ou professor, todos os coelhos deverão sair de suas tocas e se dirigirem para outra. O coelho que estava sem toca, tomará a toca de alguém. Sempre sobrará um coelho sem toca, como na figura que segue.
As estratégias de ação que nos permitem observar,
criticamente na escola, o desenvolvimento
perceptivo, motor, linguístico,
emocional e de atenção do aluno,
podem evitar que as DAs prejudiquem
a sua vida escolar e social..