Como comentamos anteriormente, é de suma importância que a contabilidade possua uma linguagem universal para que suas demonstrações sejam facilmente compreendidas nos mais diversos países. Já vimos, também, que muitos órgãos internacionais têm trabalhado incansavelmente para que esse processo de harmonização da contabilidade se torne realidade. Porém a harmonização é mais difícil de ser adotada pelos países que seguem a filosofia Code Law, como é o caso do Brasil e alguns países da Europa Ocidental.
Mas, a comentada evolução do mercado acionário, a própria profissão, o ensino, a pesquisa, o conhecimento da evolução no mundo relativo à contabilidade, a reação aos órgãos que regulam pensando em si mesmos e outros fatores vão pressionando para que se tenha, nesses países de Code law, um desatrelamento da contabilidade dos interesses fiscais, que se tenha uma visão das demonstrações contábeis não tão exageradamente conservadora, que se tenha uma preocupação com os demais usuários externos e se consigam, assim, balanços de melhor qualidade para os usuários externos em geral. (Os usuários internos, ou seja, a própria
administração da empresa, sempre têm condições de produzir relatórios gerenciais conforme as práticas que consideram mais informativas) (MARTINS; MARTINS; MARTINS, 2007, p.12).
No Brasil, as dificuldades de convergências não seriam diferentes, pois segundo afirmação de Martins, Martins e Martins (2007), há décadas um grupo procurava eliminar as diversidades contábeis, criando um organismo que fosse único no processo de normatização contábil, constituído por diversos agentes envolvidos.
Vários projetos de lei foram enviados ao Congresso, mas todos sem sucesso.
Essa necessidade de se ter uma contabilidade mais transparente e confiável se torna urgente no início do ano 2000, inclusive no Brasil, quando o mundo descobre, perplexo, que grandes companhias americanas estão envolvidas em fraudes contábeis gigantescas.
Diversos fatores foram decisivos a adesão do Brasil ao modelo IFRS, especialmente por força dos inúmeros escândalos provocados em companhias americanas, as quais, revelaram ao mundo a fragilidade do modelo americano. Outro fator predominante à adesão de inúmeros países ao IFRS está diretamente ligado a questões econômicas, onde a economia americana se encontrava em crise, enquanto a comunidade europeia mantinha-se em crescimento constante. Foi um duelo, uma verdadeira queda de braço entre o modelo americano (FASB) e o modelo europeu (IASB) (JOCHEM, 2012, p.7).
Faremos, em seguida, um breve relato dos escândalos que envolveram as grandes companhias americanas e europeias, no início do século XXI, para podermos ter a dimensão da importância da contabilidade no mundo corporativo.
P rinCiPAiS F rAudES C onTábEiS do i nÍCio do S éCuLo xxi
Em 2002 e 2003, uma série de escândalos contábeis abalou o mundo. Nos Estados Unidos e na Europa várias companhias admitiram que fraudaram suas demonstrações contábeis com o objetivo de manipular seus resultados (SOUZA;
SCARPIN, 2006).
País Empresa Práticas de Contabilidade
USA Enron
Desvios de dívidas para associadas e superestimação de lucros: Com participações em pequenas empresas que não constavam no balanço, a Enron escondeu bilhões em dívidas. No último balanço publicado, a empresa superestimou os lucros em quase 600 milhões de dólares e fez desaparecer dívidas de quase 650 milhões de dólares. A manipulação não parou por aí, pois além de esconder os passivos, a Enron também vendeu bens a essas empresas por preços supervalorizados, a fim de criar falsas receitas. A empresa foi forçada a reajustar o valor de seus resultados de 1997 a 2000 diminuindo seu patrimônio em US$ 1,25 bilhões.
USA WorldCom
Ativação indevida de gastos: Manipulação extremamente simples de resultado. A empresa colocou no balanço 3,8 bilhões de dólares como investimentos, quando na verdade eram despesas. A compra de bens duráveis, que trarão retorno direto, pode ser depreciada no balanço em um período longo. Os gastos do dia a dia, por outro lado, devem ser reconheci-dos como despesa imediatamente.
Itália Parmalat
Evidenciou ativos inexistentes: Evidenciou 3,95 bilhões de dólares que, supostamente, estavam depositadas em um banco nas Ilhas Cayman e que, na verdade, não existiam.
Holanda Royal Ahold
Inflou rendimentos: a empresa anunciou que tinha seus rendimentos inflacionados em pelo menos US$500 milhões, baseados em conduta da U.S. Foodservice, Inc. uma subsidiária de total propriedade da Ahold. A empresa informou também os investidores que a Ahold estaria reformulan-do os rendimentos anunciareformulan-dos anteriormente, que tinha inapropriadamente consolidado, referente a certos empreendimentos conjuntos.
fim de demonstrar aos investidores que estavam diante de uma companhia sólida e rentável, e, com isso, atrair cada vez mais interessados na companhia.
Pode parecer estranha a prática de criação de lucros irreais;
essa prática, entretanto, tem a ver com a forma de remuneração que é paga aos executivos dessas grandes corporações; tais executivos recebem ações, que somente podem ser vendidas se a empresa atingir um determinado grau de rentabilidade;
por não ter sido atingida a rentabilidade projetada, os diretores, orientados pelos “consultores”, resolveram inflar os lucros, criando-os artificialmente, provocando a distribuição de dividendos (irreais, portanto) e elevando o preço das ações no mercado, momento em que passaram a vender as suas ações, roubando (e não lucrando, como querem alguns), com esse ato criminoso, o dinheiro do público (MACHADO, 2002 apud SOUZA; SCARPIN, 2006, p. 7).
Quadro 9 - Escândalos Financeiros nos Estados Unidos e na Europa entre 2002 e 2005
Fonte: Adaptado de Souza e Scarpin (2006).
Esses escândalos foram manchetes nos noticiários do mundo todo, levando a uma grave crise de confiança no mercado financeiro. Diante desse novo e assustador cenário, os Estados Unidos e Europa precisaram repensar a filosofia do FASB e IASB.
Os norte-americanos se aprofundaram no assunto, concluíram que não só a filosofia do FASB e forma de atuação estavam adequadas, mas também como toda a sua filosofia. Na realidade, a única crítica foi de que precisava voltar a ser mais Principles oriented do que vinha sendo, mas nada mudou lá. O problema não estava nas regras contábeis, mas sim no comportamento de algumas pessoas que, além de não seguir a filosofia da essência sobre a forma, cometeram fraudes. Problema de comportamento e caráter pessoais, não do modelo de normatização. Tanto que mudaram as regras relativas ao processo de auditoria independente, mas não os da normatização contábil ou das regras contábeis em si (MARTINS; MARTINS; MARTINS, 2007, p.18).
Tradução de: Principles oriented orientado em princípio.
USA Bristol-Meyers Squibb
Inflou receitas com vendas: Durante os anos de 2000 e 2001, a empresa farmacêutica “empurrou” seus produtos para os distribuidores, com uma campanha agressiva de descontos e incentivos que podem ter inflado a receita em até 1 bilhão de dólares. O resultado? Os clientes ficaram com estoques superdimensionados. O laboratório já informou que neste ano deve faturar apenas metade do total de 2001. A posição da Bristol-Meyers Squibb é de que não houve irregularidade contábil. A Securities Exchange Commission (SEC) ainda investiga o assunto.
USA Merck
Manipulação de receitas e custos: A empresa inflou as receitas e os custos na mesma proporção. O resultado líquido não foi afetado, mas as vendas sim, o que induziu o investidor a acreditar no crescimento da companhia. A manobra contábil fez o faturamento crescer 12,6 bilhões de dólares indevidamente.
USA Xerox
Lançou contratos de aluguel de equipamentos como receitas de ven-das: A empresa admitiu ter inflado as receitas em US$ 1,9 bilhão durante cinco anos, declarando erroneamente vendas de equipamentos e contratos de serviços. A Xerox declarou ter registrado US$ 6,4 bilhões como receitas de venda, sendo que US$ 5,1 bilhões desse montante foram na realidade recebidos por aluguel de equipamentos, serviços, terceirização de docu-mentos e receitas financeiras. A manipulação da contabilidade ajudou a companhia a cumprir as previsões de lucros.
Europeia também parou para pensar, analisou e concluiu a mesma coisa, que o problema não estava apenas nas normas contábeis, mas sim no comportamento das pessoas, decidiu-se, então, por continuar em seu plano de aplicação das normas internacionais, que acabou sendo implementado a partir de 2005. Nele, as companhias abertas lá teriam que ter seus balanços consolidados conforme as IAS (International Accounting Standards – Normas Contábeis Internacionais).
Não podemos deixar de mencionar, ainda, que, devido a esses escândalos, os Estados Unidos aprovaram, em julho de 2002, a Lei Sarbanes-Oxley (SOX), trazendo grandes avanços e novas práticas de governança corporativas.
Segundo afirmam Souza e Scarpin (2006), a SOX, como é conhecida essa lei, trouxe consigo várias alterações nos métodos de governança corporativa, com o objetivo de reforçar o controle e divulgação das práticas contábeis, com a finalidade de reparar a perda de confiança nos líderes empresariais norte americanos e reforçar a importância dos padrões éticos na preparação das informações financeiras reportadas aos investidores.
Ainda segundo os autores acima citados, com a SOX a autorregulamentação da profissão de Ciências Contábeis no que se refere à auditoria das demonstrações financeiras de empresas de capital aberto deixa de existir e é criado o Conselho de Fiscalização de Auditoria de Companhias Abertas, o PCAOB - Public Company Accounting Oversight Board, sob supervisão da SEC - Securities and Exchange Commission.
As informações a seguir foram extraídas e poderão ser consultadas no site: <http://www.portaldeauditoria.com.br>.
A SOX se aplica a todas as empresas, sejam elas americanas, sejam estrangeiras, que tenham ações registradas na SEC (Securities and Exchange Comission, o equivalente americano da CVM brasileira).
Isso inclui as empresas estrangeiras que possuem negociações nas bolsas de valores dos EUA.
Dividida em onze títulos (capítulos), com um número variável de seções cada um, totalizando 69 seções (artigos), a SOX obriga as empresas a reestruturarem processos para aumentar os controles, a segurança e a transparência na condução dos negócios, na
A SOX se aplica
administração financeira, nas escriturações contábeis e na gestão e divulgação das informações. Na prática, define por lei e torna obrigatória uma série de medidas que já era considerada, no mundo todo, como prática de boa governança corporativa.
A SOX prevê a criação, nas empresas, de mecanismos de auditoria e segurança confiáveis, definindo regras para a criação de comitês encarregados de supervisionar suas atividades e operações, formados em boa parte por membros independentes. Isso com o intuito explícito de evitar a ocorrência de fraudes e criar meios de identificá-las quando ocorrem, reduzindo os riscos nos negócios e garantindo a transparência na gestão.
Além disso, torna os Diretores Executivos e Diretores Financeiros explicitamente responsáveis por estabelecer e monitorar a eficácia dos controles internos em relação aos relatórios financeiros e a divulgação de informações. As empresas de auditoria, os advogados contratados ganham maior independência, mas também aumenta muito o grau de responsabilidade sobre seus atos.
Também aumenta muito a regulamentação sobre as modalidades de contratação de tais serviços (auditoria, legais, etc.), sobre o relacionamento entre empresa e estes prestadores de serviços e sobre os limites de atuação (serviços que podem e não podem ser prestados) e a gestão de eventuais conflitos de interesses.
Para supervisionar os processos de auditoria das empresas sujeitas a SOX, foi criado o Public Company Accounting Oversight Board (PCAOB, ou seja, Conselho de Auditores de Companhias Abertas), que tem a missão de estabelecer as normas de auditoria, controle de qualidade, ética e independência em relação aos processos de inspeção e a emissão dos relatórios de auditoria.
São previstas inspeções às empresas de auditoria para obrigá-las a cumprir as regras estabelecidas e estar sempre em consonância com a SEC.
A SOX se refere de forma explícita aos GAAP (Generally Accepted Accounting Principles), na versão US GAAP, para a definição de quais sejam as normas e práticas contábeis a serem aplicadas. Está em andamento, sob a coordenação da SEC, um processo oficial de adoção do padrão IFRS (International Financial Reporting Standards), de influência europeia e administrado pelo IASB (International Accounting Standards Board), no lugar do US GAAP, que deverá se concluir em 2016.
As penalidades pelo descumprimento da SOX, em relação à integridade e fidedignidade das demonstrações financeiras e a certificação de demonstrativos em desacordo com a lei, são uma multa de até USD 1.000.000 e/ou a reclusão por até 10 anos. Quando o descumprimento da lei for intencional (normalmente com finalidades fraudulentas) a multa aumenta para até USD 5.000.000 e a reclusão pode chegar a 20 anos.
contábeis, vimos que na Europa também ocorreram escândalos na mesma época.
Nesse sentido, Gornik-Tomaszewski e McCarthy (2005 apud SOUZA; SCARPIN, 2006) afirmam que:
Inicialmente a União Europeia criticou duramente a SOX em função do aumento nos custos de suas companhias que tinham ações nas bolsas de valores dos Estados Unidos para se adequar às novas regras impostas pelo SEC e pela PCAOB. Porém, após os escândalos da Parmalat e do Royal Ahold esta posição mudou e hoje os Estados Unidos e a União Europeia trabalham em clima de cooperação no sentido de buscar soluções aos problemas ocorridos no passado e de evitar que novas fraudes aconteçam.
Para compartilhar com a ideia acima exposta, temos também:
Com o passar do tempo, verificou-se que os investidores estavam dispostos a pagar mais por empresas que adotavam boas práticas de governança corporativa e que tais práticas não apenas favoreciam os interesses de seus proprietários, mas também a longevidade das empresas (CVM, 2014, p. 162).
Caro (a) acadêmico (a), veja que esse cenário de grandes mudanças nas práticas contábeis internacionais influenciaram o Brasil e o levaram a repensar suas técnicas contábeis para se manter competitivo no mercado financeiro internacional e garantir investimentos estrangeiros nas nossas companhias.
Nesse contexto temos:
O ambiente internacional impõe práticas saudáveis a todos os participantes de mercados de capitais relevantes, incluindo os emergentes, como o Brasil. [...] O aumento do fluxo de capitais internacionais para o Brasil, assim como a presença de companhias brasileiras junto aos mercados globais, torna indispensável um relacionamento estreito e qualificado com as normas vigentes em outros países e as expectativas desses investidores em relação à divulgação de resultados das companhias brasileiras nas quais investem (CVM, 2014, p. 18-19).
Outro fator determinante para o Brasil foi a crescente adesão de vários países aos padrões IFRS (International Financial Reporting Standards), aliada à questão econômica, visto que os Estados Unidos passavam por uma crise enquanto os países europeus se mantinham em crescimento. Segundo Jochem (2012), o marco divisor, demonstrando claramente a intenção do Brasil em convergir suas demonstrações contábeis para o modelo IFRS, foi o Projeto de Lei n. 3.741/2000.
O Projeto de Lei n. 3.741/2000 surgiu a partir de anos de estudos de um grupo de trabalho composto por representantes de diversas entidades interessadas nas
demonstrações contábeis. Esse grupo foi constituído pela CVM – Comissão de Valores Mobiliários, que reuniu investidores, auditores, analistas e pesquisadores, os quais prepararam um esboço do que se pretendia com a convergência dos padrões internacionais de contabilidade no Brasil.
Então, o objetivo desse Projeto de Lei foi aprimorar as normas contábeis em vigor no país, alterar e revogar dispositivos da Lei n. 6.404, de 15 de dezembro de 1976. Ele é aplicado às sociedades de grande porte e trata das disposições relativas à elaboração e publicação de demonstrações contábeis.
Para complementar as informações, sugerimos a leitura do Projeto de Lei n. 3.741/2000 – Disponível em: <http://goo.gl/omiqsd>.
O mercado internacional também pressionava o Brasil por não estar avançando em relação à adoção dos padrões IFRS. Com isso, o Presidente da República na época, Luiz Inácio Lula da Silva, levou o assunto ao Ministério da Fazenda, que começou a cobrar agilidade na votação do Projeto de Lei n.
3.741/2000, a fim de que possamos avançar nessa questão.
Você pode acompanhar, nesse tópico, que as convergências às normas internacionais pelo Brasil a essa altura já é um caminho sem volta.
Além disso, Cova (2008) afirma que a exigência de utilização das IFRS no Brasil pode retirar obstáculos referentes a padrões contábeis e, portanto, garantir às companhias brasileiras um acesso mais fácil aos mercados de capitais dos Estados Unidos e da União Europeia. Trata-se de uma oportunidade, sobretudo, às companhias já adaptadas às rigorosas práticas de governança corporativas aplicáveis naqueles mercados.
Caro (a) acadêmico (a), em seguida, dando continuidade aos nossos estudos de como o Brasil aderiu aos padrões internacionais de contabilidade, conheceremos quais as entidades que estiveram envolvidas nesse processo de convergência das normas brasileiras de contabilidade.
Atividades de Estudos:
1) Com os escândalos nas grandes companhias americanas, os Estados Unidos aprovaram, em julho de 2002, a Lei Sarbanes-Trata-se de uma
oportunidade, sobretudo, às companhias já
adaptadas às rigorosas práticas
de governança corporativas aplicáveis naqueles
mercados.
governança corporativas. Essa lei inicialmente foi criticada pela União Europeia em função do alto custo de implantação para as suas companhias, que tinham ações nas bolsas de valores americanas. Quais os motivos que levaram a União Europeia a mudar sua posição em relação a SOX?
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2) As empresas envolvidas nesses escândalos no início desse século, manipulavam seus balanços a fim de demonstrar aos investidores que estavam diante de uma companhia sólida e rentável, e, com isso, atrair cada vez mais interessados na companhia. Uma das companhias envolvida nesses escândalos foi a Enron nos Estados Unidos. Como ela manipulava seu balanço?
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