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Quando falamos de normas internacionais de contabilidade, estamos falando de um projeto ousado e muito complexo, pois envolve mexer na estrutura conceitual básica de contabilidade de todos os países. Todos os países que adotarem esse novo padrão de contabilidade precisarão rever e adaptar a contabilidade de acordo com os IFRS. Pelo que podemos ver, apesar de ser um projeto arriscado, vem dando certo, pois cada vez mais países adotam esse padrão e estão em processo e convergência de suas normas ao padrão IFRS.
Para entender melhor as IFRS, você deve pensar nelas como o produto de muito estudo de grandes especialistas. São as normas emitidas pelo IASB e cujo principal objetivo é a transparência nas informações contábeis com foco na harmonização contábil.
As normas internacionais de contabilidade estão dispostas em estruturas que compreendem cinco tipos de pronunciamentos técnicos, que são: Frameworks, IAS, IFRS, SIC e IFRIC. Vamos ver cada uma desses pronunciamentos abaixo:
a) Framework: São as estruturas conceituais básicas, portanto, não são pronunciamentos contábeis, e sim uma orientação a ser seguida para a elaboração das demonstrações contábeis. É importante que saibamos:
caso haja algum conflito entre as IFRS e as estruturas, sempre as IFRS é que deverão prevalecer. Conforme FIPECAFI (2010, p. 37), os pressupostos básicos das estruturas são os Princípio da Competência e Continuidade;
• Características Qualitativas: As estruturas possuem também características qualitativas, que são fundamentais e não podem ser ignoradas na apresentação das demonstrações contábeis. São elas:
Relevância e Representação Fidedigna. “As características qualitativas são atributos que tornam as demonstrações contábeis úteis para os usuários” (FIPECAFI, 2010, p. 37).
− Relevância: São relevantes as informações capazes de influenciar a tomada de decisão do usuário.
Para serem úteis, as informações devem ser relevantes às necessidades dos usuários na tomada de decisões. São relevantes quando podem influenciar as decisões econômicas, ajudando-os a avaliar os impactos de eventos passados, presentes ou futuros ou confirmando ou corrigindo as suas avaliações anteriores (FIPECAFI, 2010, p. 37).
Representação Fidedigna: As demonstrações contábeis devem representar fidedignamente a estrutura patrimonial, de forma confiável e adequada, conforme a realidade da entidade. Para que isso seja possível, deve-se considerar a essência das transações, e não apenas sua forma jurídica, ou seja, a essência prevalece sobre a forma.
Para ser confiável a informação deve representar adequadamente as transações e outros eventos que ela diz representar. Assim, por exemplo, o balanço patrimonial numa determinada data deve representar adequadamente as transações e outros eventos que resultam em ativos, passivos e patrimônio líquido da entidade e que atendam aos critérios de reconhecimento (FIPECAFI, 2010, p. 37).
Além dessas duas características fundamentais, é importante saber que para uma informação ser útil, ela deve ter materialidade. A materialidade não é uma caraterística fundamental, porém ela é intrínseca. A relevância da informação é material se sua omissão ou divulgação distorcida puder influenciar na decisão do usuário.
A materialidade depende do tamanho do item ou do erro, julgado nas circunstâncias específicas de sua omissão ou distorção. Assim, materialidade proporciona um patamar ou ponto de corte ao invés de ser uma característica qualitativa primária que a informação necessita ter para ser útil (FIPECAFI, 2010, p. 37).
Pois bem, vamos exemplificar todo esse conceito de representação fidedigna.
Representação fidedigna é reconhecer as operações exatamente da maneira como elas acontecem, e não como a Lei exige que elas sejam reconhecidas.
Como exemplo, podemos citar a depreciação. Ora, vamos pensar na depreciação como é feita no Brasil. A Receita Federal fornece as taxas que devem ser utilizadas e o tempo de vida útil dos bens classificados no imobilizado. Todas as empresas utilizam-se de uma mesma taxa de depreciação, não se levando em consideração as características de utilização desses imobilizados, que, com certeza, não são as mesmas para todas as empresas. Veja que essas taxas de depreciação dificilmente vão coincidir com a realidade dos desgastes de bens de todas as empresas.
A representação fidedigna é justamente isso, admite-se que as empresas se utilizem da essência sobre a forma para reconhecer as taxas de depreciação, que é o nosso exemplo, e não mais as taxas exigidas pelo fisco. Como ficaria essa questão?
Vamos imaginar que determinada empresa adquira um veículo pelo valor de R$ 50.000,00 e que pretenda utilizá-lo por um período de 5 anos e, após esse tempo, pretende vende-lo. A lei admite depreciá-lo a uma taxa anual de 20%,
portanto, após transcorrido o prazo de 5 anos, este veículo estará totalmente depreciado e seu valor contábil será zero. Porém nós sabemos que ao final dos cinco anos, este veículo ainda terá valor no mercado, não é mesmo? Vamos admitir que ao final de cinco anos a empresa consiga vender o veículo por R$
15.000,00. A esse valor de mercado, ao final do período de vida útil que a empresa definiu, nós chamamos de valor residual, e é este valor que estará reconhecido no balanço patrimonial após 5 anos, e não mais o valor zero. Veja como ficará o cálculo desse exemplo pelos dois métodos.
Quadro 5 - Exemplo de cálculo de depreciação
Fonte: A autora.
Veja que estamos usando a essência sobre a forma para reconhecer o veículo no Imobilizado da empresa. A essência é o fato como ele realmente é, ou seja, uma representação fidedigna da transação, que prevaleceu sobre a forma, que é a Lei. Observe a diferença entre as duas práticas em relação ao valor reconhecido no imobilizado após transcorrido o prazo de depreciação.
a) IAS (International Accounting Standard): são os primeiros pronunciamentos que foram emitidos pelo IASC. Esses pronunciamentos continuam em uso e aos poucos estão sendo convertidos em IFRS.
b) SIC (Standing Iterpretations Committee): são interpretações técnicas dos IAS.
c) IFRS (International Financial Reporting Standard): são os pronunciamentos contábeis de acordo com os padrões internacional de contabilidade.
Depreciação Fiscal
Custo do Veiculo R$ 50.000,00
Taxa Depreciação anual 20%
Valor Residual 0,00
Valor da Depreciação Anual R$ 10.000,00
Valor contábil após 5 anos 0,00
Depreciação conforme IFRS Representação Fidedigna
Custo do Veiculo R$ 50.000,00
Taxa Depreciação anual 20%
Valor Residual R$ 15.000,00
Valor da Depreciação Anual R$ 7.000,00
Valor contábil após 5 anos R$ 15.000,00
d) IFRIC (International Financial Reporting Iterpretations Committee):
são interpretações das normas IFRS.
Como vimos anteriormente, uma IFRS passa por basicamente seis estágios normativos até que seja considerada uma norma e esteja pronta para ser usadas pelos países que tenham interesse em sua adoção. Estudaremos, a seguir, cada um desses processos para que possamos compreender a logística envolvida na criação de uma IFRS.
As informações a seguir foram extraídas e poderão ser consultadas no site: <http://www.ifrs.org/>, no link Desenvolvimento Padrão.
• Definição de Agenda: Na Definição de Agenda, o IASB avalia os méritos de adicionar um item de potencial de sua agenda, que nada mais é do que um plano de trabalho, considerando-se as necessidades dos investidores e também a relevância de tal item. O IASB considera relevante se atender às seguintes definições:
− A relevância para os usuários da informação e da finalidade da informação que poderia ser fornecida;
− Se orientação existente está disponível;
− A qualidade de maior convergência;
− Restrição de recursos.
Para ajudar o IASB a criar sua agenda futura, as pessoas envolvidas são convidadas a identificar, avaliar e levantar questões que possam justificar a atenção do IASB. Novas questões também podem surgir a partir de uma mudança na Estrutura. Além disso, o IASB levanta e discute temas da agenda potenciais à luz dos comentários de outros organismos de normalização e outras partes interessadas, o Conselho Consultivo IFRS e Comitê de Interpretações do IFRS, bem como pessoal e outras recomendações.
O IASB recebe solicitações dos constituintes para interpretar, analisar ou alterar publicações existentes. Os envolvidos consideram todos esses pedidos, resumem as principais questões levantadas e apresentam ao IASB, de tempos
em tempos, como candidatas para serem consideradas nas próximas agendas do IASB.
• Planejamento do Projeto - Ao adicionar um item à sua agenda ativa, o IASB também decide se irá conduzir o projeto sozinho, ou em conjunto com outro padrão similar, ou se o processo é seguido em ambas as abordagens.
Depois de considerar a natureza das questões e o nível de interesse entre os constituintes, o IASB pode estabelecer um Grupo Consultivo nesta fase. A equipe é selecionada para o projeto com os dois membros mais antigos da equipe técnica: O Diretor de Atividades Técnicas e o Diretor de Pesquisa.
O gerente de projeto elabora um plano de projeto sob a supervisão dessa Administração. A equipe também pode incluir outros membros se for considerado adequado pelo IASB.
• Desenvolvimento e publicação - Apesar de um Documento de Discussão não ser obrigatório, o IASB normalmente o publica como sua primeira publicação em veículo de comunicação de grande circulação para divulgar as questões que estão sendo tratadas e solicitar comentários do público interessado. Se o IASB decidir omitir esta etapa, precisará explicar o motivo. Normalmente, um documento de discussão inclui:
− Uma visão abrangente da questão;
− Possíveis abordagens no tratamento da questão;
− Os pontos de vista preliminares de seus autores ou do IASB; e
− Um convite para comentários.
É importante ressaltar que se o documento de discussão incluir os pontos de vista diferentes do que foi apresentado inicialmente, o IASB revê o projeto de documento de discussão para garantir que a sua análise tenha uma base adequada para convidar comentários públicos. Portanto, o IASB desenvolve suas normas a partir de pesquisa pessoal e de recomendações, bem como sugestões feitas pelo Conselho Consultivo do IFRS, grupos consultivos e normatizadores e apresentações de partes convidadas. Todas as discussões de questões técnicas relacionadas com o projeto de papel ocorrem em sessões públicas.
• Desenvolvimento e publicação do exposure draft – A publicação de um Exposure Draft (documento de discussão) é passo obrigatório no desenvolvimento do processo. Independentemente de o IASB publicar um projeto para discussão,
público. Ao contrário de um documento de discussão, um Exposure Draft apresenta uma proposta concreta sob a forma de uma proposta padrão (ou emenda a um padrão existente). O desenvolvimento de um projeto de exposição começa com o IASB, considerando:
− Questões com base em pesquisas e recomendações de pessoal;
− Comentários recebidos em qualquer documento de discussão; e
− Sugestões feitas pelo Conselho Consultivo do IFRS, grupos consultivos e de contabilidade normatizadores e decorrentes de sessões de educação pública.
Depois de resolver os problemas nas suas reuniões, o IASB instrui a equipe para elaborar o Projeto de Exposição. Quando o projeto for concluído, o IASB publica para conhecimento público.
• Desenvolvimento e publicação do IFRS - O desenvolvimento de um padrão IFRS é realizado durante as reuniões do IASB, quando o IASB considera os comentários recebidos sobre o projeto de exposição. Depois de resolver problemas decorrentes da Exposure Draft, o IASB considera se deve expor suas propostas revisadas para público, por exemplo, através da publicação de uma segunda exposição Draft.
Ao considerar a necessidade de reexposição, o IASB:
− Identifica as questões substanciais que surgiram durante o período de comentários sobre o projeto de exposição que não tenha sido considerado anteriormente;
− Avalia a evidência de que ela considerou;
− Avalia se tornou suficientemente compreendidos os problemas e procurou respeitar os pontos de vista dos constituintes; e
− Considera se os vários pontos de vista foram publicados na minuta de exposição e adequadamente discutidos e revistos na base de conclusões.
• Elaboração do Padrão: As decisões do IASB sobre a possibilidade de publicar as suas propostas revistas são enviadas para outra rodada de comentários. Quando o IASB crê que chegou a uma conclusão sobre as
A publicação de um Exposure Draft
(documento de discussão) é passo
obrigatório no desenvolvimento do
processo.
questões decorrentes da Exposure Draft, instrui a equipe para elaborar o padrão internacional das normas IFRS.
• Projeto de Pré-Votação: Um projeto geralmente está sujeito à revisão externa até que seja publicado. O IASB deixa um projeto por pelo menos 120 dias para que todos tomem conhecimento das propostas de normas e possam emitir suas opiniões, e pelo menos um ano até que o IFRS se torne obrigatória.
Somente após, e todas as questões pendentes serem resolvidas, os membros do IASB votam em favor da publicação e o IFRS é emitido. Caso a norma seja rejeitada, ela não é publicada, porém nada impede que essa mesma norma volte ao processo de revisão para ajustes.
• Procedimentos após uma IFRS ser publicada - Depois que uma IFRS for emitida, a equipe e os membros do IASB realizam reuniões regulares com as partes interessadas, incluindo outros órgãos normalizadores, para que todos compreendam as questões relacionadas com a aplicação da norma e potencial de impacto das suas propostas.
A Fundação IFRS também promove atividades educativas para assegurar a consistência na aplicação das normas IFRS. Depois de um tempo adequado, o IASB pode rever os estudos, considerando:
• Sua revisão da aplicação do Padrão;
• Mudanças no ambiente de relatórios financeiros e requisitos regulamentares; e
• Comentários do Conselho Consultivo do IFRS, o Comitê IFRS Interpretações, normatizadores e constituintes sobre a qualidade da norma.
Esses estudos podem resultar em itens adicionados ao plano de trabalho do IASB.
Caro (a) acadêmico (a), atualmente, são 143 países ao redor do mundo que estão em processo de convergência, ou já adotaram os padrões IFRS, incluindo todos os países que fazem parte do G20.
Fonte: Adaptado de: <http://www.ifrs.org/Use-around-the-world/Pages/Analysis-of-the-IFRS-jurisdictional-profiles.aspx>. Acesso em: 29 maio 2016.
O FASB está trazendo mudanças sem precedentes para a contabilidade no âmbito internacional e nacional para os diversos países que já reconheceram e adotaram os padrões IFRS. Os impactos que essas mudanças trazem para a contabilidade é enorme, pois afetam não apenas os órgãos reguladores e governo, mas toda a sociedade de um país. Não obstante, falamos no início deste capitulo que a contabilidade é uma ciência social.
Para que a implantação dos padrões internacionais seja uma realidade, é preciso o envolvimento de toda a comunidade acadêmica, contadores, auditores, bem como os profissionais de tecnologia da informação, enfim, é uma legião de pessoas envolvidas que devem estar aberta a aprender uma nova maneira de fazer contabilidade.
Imagine o que isso significa para os países que tenham uma cultura conservadora em que tudo é baseado na Lei, como é o caso do Brasil. É preciso que não se façam mudanças apenas na própria Lei, mas uma mudança cultural. É preciso reaprender contabilidade.
No próximo capítulo, veremos como tem sido o processo de Convergência das normas internacionais de Contabilidade no Brasil, quais os impactos causados na legislação brasileira.
Atividades de Estudos:
1) Uma IFRS passa por basicamente seis estágios normativos até que seja considerada uma norma e esteja pronta para ser usada pelos países que tenham interesse em sua adoção.
Continente Número de Países Participação Total
Europa 43 30%
Em relação a esses processos, relacione as colunas abaixo de acordo com a sequência correta em que acontecem os estágios de preparação de uma IFRS.
a) ( ) Desenvolvimento e publicação;
b) ( ) Planejamento do projeto;
c) ( ) Desenvolvimento e publicação do exposure draft d) ( ) Desenvolvimento e publicação do IFRS;
e) ( ) Definição de uma agenda;
f) ( ) Procedimentos após uma IFRS ser publicada.
Relacione:
( ) – 1ª Fase;
( ) – 2ª Fase;
( ) – 3ª Fase;
( ) – 4ª Fase;
( ) – 5ª Fase;
( ) – 6ª Fase;
2) De acordo como o que foi abordado, podemos dizer que após uma norma IFRS estar publicada, ela ainda pode sofrer alterações em seu conteúdo, já que o IASB promove atividades educativas, a fim de assegurar a consistência de suas normas. Dentre as possibilidades relacionadas abaixo, assinale a alternativa que o IASB levaria em consideração ao rever a IFRS.
a) ( ) Mudanças no ambiente de relatórios financeiros e requisitos regulamentares;
b) ( ) A pedido de um dos países membros;
c) ( ) Para conquistar novos parceiros;
d) ( ) Mudança na moeda norte-americana.