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Campylobacter e Helicobacter 

No documento Microbiologia (versão impressão) (páginas 112-126)

Estes géneros consistem em bacilos gram‐negativos espiralados com baixa relação de  bases guanosina e citosina do DNA, incapacidade de fermentar ou oxidar glícidos e exigências  microaerofílicas de crescimento.  

As  espécies  de  Campylobacter  e  Helicobacter  são  os  membros  mais  frequentemente  isolados e com mais relevância clínica da grande família das Campylobacteriaceae, e por isso  apenas estes serão abordados.   

Campylobacter 

  O género Campylobacter consiste em  pequenos  bacilos  gram‐negativos  em  forma  de  vírgula  ou  de  gaivota  que  se  locomovem  por meio de um flagelo polar. A maioria das  espécies  é  microaeróbia,  necessitando  de  atmosferas  com  baixos  níveis  de  oxigénio  e  níveis  de  hidrogénio  e  dióxido  de  carbono  aumentados para o crescimento aeróbio. 

 

Estes  microrganismos  não  formam  esporos,  são  oxidase  positivos  e  móveis  devido a 1 ou 2 flagelos polares.  

 

As doenças que habitualmente causam são a gastroenterite e septicemia. Sabe‐se que  cerca  de  5%  das  gastroenterites  são  causadas  por  Campylobacter  coli  e  ainda  que  o 

Campylobacter  upsaliensis  é  possivelmente  um  agente  importante  de  gastroenterite  no 

homem.   

Por outro lado existe uma outra espécie que desenvolve infecções sistémicas, como é  o  caso  de  bacteriémia,  tromboflebite  séptica,  artrite,  aborto  séptico  e  meningite,  a 

Campylobacter fetus. 

 

Fisiologia e Estrutura 

 

Os  microrganismos  desta  espécie  possuem  uma  estrutura  de  parede  celular  gram‐ negativa  típica,  sendo  o  principal  antigénio  o  lipopolissacárido  da  membrana  externa,  no  entanto  possui  ainda  numerosos  antigénio  somáticos  O,  antigénio  flagelares  e  capsulares  termo‐lábeis. 

 

O  seu  crescimento  é  favorecido  numa  atmosfera  com  baixos  níveis  de  oxigénio  e  dióxido de carbono aumentado, sabe‐se que no caso particular de C. jejuni a sua temperatura  óptima está nos 42º e não nos habituais 37ºC.  Uma característica importante é o facto de Campylobacter não ficar retida nos filtros  de 0,45 µm, onde a maior parte das outras bactérias ficam.          Fig. 39 ‐ Campylobacter 

Patogenia e Imunidade 

 

A  espécie  mais  bem  estudada  é  Campylobacter  jejuni;  tendo  sido  já  detectada  a  presença de adesinas, enzimas citotóxicas e enterotoxinas, no entanto o seu papel ainda não  foi  suficientemente  bem  definido.  Os  microrganismos  morrem  quando  expostos  ao  ácido  gástrico, e como tal os alimentos ou condições  que diminuam a acidez gástrica promovem a  doença por esta espécie. A hipogamaglobulinemia é uma condição de risco para a infecção por 

C. jejuni, levando a uma doença grave e prolongada. 

A  doença  gastro‐intestinal  por  C.  jejuni  leva  a  lesões  histológicas  das  superfícies  mucosas do jejuno, do ílion e do cólon, apresentando‐se ulcerada, edematosa e sanguinolenta.  É comum observarem‐se abcessos em forma de cripta nas glândulas epiteliais e infiltração da  lâmina  própria  por  neutrófilos,  células  mononucleadas  e  eosinófilos.  Este  processo  inflamatório  encontra‐se  relacionado  com  a  invasão  de  microrganismos  no  tecido  intestinal.  Apesar de esta patologia estar extensamente caracterizada não se conhece ainda o papel das  toxinas citopáticas, das enterotoxinas e da actividade endotóxica da C. jejuni. Sabe‐se porém  que as estirpes desprovidas de adesinas e/ou de movimento são avirulentas. 

 

A Campylobacter jejuni foi associada à síndrome de Guillain‐Barré17, um distúrbio auto‐ imune  do  sistema  nervoso  periférico  caracterizado  pelo  desenvolvimento  de  fraqueza  simétrica durante um período de vários dias, com um longo período de recuperação. Pensa‐se  que esta doença esteja relacionada com a reacção antigénica cruzada entre oligassacáridos de 

Campylobacter  e  os  glicoesfingolípidos  presentes  na  superfície  dos  tecidos  neurais.  Assim  a 

quando  da  infecção  por  Campylobacter  os  anticorpos  produzidos  podem  ser  igualmente  dirigidos contra componentes do sistema nervoso, provocando a sua destruição. 

 

A  Campylobacter  fetus  possui  uma  propensão  para  se  disseminar  do  tracto  gastro‐ intestinal  para  a  corrente  sanguínea  e  focos  distais.  Esta  disseminação  é  particularmente  comum em pacientes debilitados e imunocomprometidos, bem como os que possuam doença  hepática, diabetes mellitus, alcoolismo crónico ou neoplasias. O C. fetus é revestido por uma  proteína semelhante a uma cápsula (Proteína S) que evita a morte mediada pelo complemento  do soro, caso esta cápsula seja removida o microrganismo perde a sua virulência.   

Epidemiologia 

 

As  infecções  por  Campylobacter  são  zoonoses,  como  uma  enorme  variedade  de  animais servindo de reservatório, sendo a transmissão para o homem feita por intermédio de  consumo de alimentos, leite ou água contaminados, no caso de o microrganismo ser C. jejuni e  C. coli. Para C. upsaliensis a transmissão ocorre geralmente por contacto com cães domésticos.  No caso do C. jejuni e C. lari o maior reservatório são as aves, enquanto no caso do C.  coli o maior reservatório é o porco.   Os alimentos ou substância que reduzem a acidez gástrica reduzem de maneira eficaz  a dose infectante18. Poderá ainda existir uma transmissão fecal‐oral de pessoa para pessoa ou  pode ocorrer a transmissão por meio de pessoas em contacto com alimentos contaminados.    A incidência máxima é observada nos adultos jovens, sendo que nos países em vias de  desenvolvimento a doença sintomática ocorre em crianças de pouca idade, sendo o estado de  portado assintomático e persistente observado em adultos.          17

  Síndrome  de  Guillain‐Barré  ‐  é  caracterizada  por  uma  inflamação  aguda  com  perda  da  mielina dos nervos periféricos e às vezes de raízes nervosas proximais e de nervos cranianos. 

18  Dose  Infectante  –  quantidade  mínima  necessária  de  microrganismos  de  uma  determinada 

Síndromes Clínicas 

 

As  infecções  gastro‐intestinais  causadas  por  C.  jejuni,  C.  coli,  C.  upsaliensis  e  outros  patogénos  entéricos  são  observadas  mais  frequentemente  na  forma  de  enterite  aguda  com  diarreia,  mal‐estar,  febre  e  dor  abdominal.  Os  pacientes  afectados  podem  ter  10  ou  mais  evacuações  por  dia  durante  o  pico  da  doença,  e  as  fezes  podem  ser  macroscopicamente  sanguinolentas.  A  doença  é  geralmente  auto‐limitada,  no  entanto  pode  persistir  por  uma  semana ou mais. 

Na  apresentação  mais  comum  de  infecção  por  C.  fetus  o  paciente  inicialmente  apresenta  gastroenterite,  seguida  de  septicemia  com  disseminação  para  múltiplos  órgãos.  Sabe‐se que este microrganismo é uma causa comum de abortos espontâneos. 

 

Diagnóstico Laboratorial 

 

Microscopia 

Os  microrganismos  do  género  Campylobacter  são  delgados  e  não  podem  ser  facilmente  observados  em  amostras  coradas.  O  microrganismo,  possui  uma  característica  motilidade  denominada “em  disparada”  que  através  da  microscopia  de  campo escuro ou  de  contraste de fase em amostras de fezes frescas permite a sua detecção. 

Os  microrganismos  sujeitos  a  cultura  aparecem  como  pequenos  bacilos  curvos,  isolados ou dispostos aos pares unidos pela extremidade.      Cultura  No caso de C. jejuni, C. coli e C. upsaliensis o seu isolamento requer crescimento em  atmosfera microaerofílica em elevada temperatura de incubação, cerca de 42ºC, e um meio de  cultura  selectivo.  Este  meio  deve  conter  sangue  ou  carbono  para  remover  os  radicais  de  oxigénio tóxicos, e  são adicionados antibióticos para inibir o crescimento de microrganismos          19  F – Reacção Fraca    20  V – Reacção Variável  21 S ‐ Suscetível  22  R ‐ Resistente  Propriedades Fenotípicas de Espécies Seleccionadas de Campylobacter 

Características  C. jejuni  C. coli  C. upsaliensis  C. fetus 

Oxidase 

Catalase 

‐/F

19

 

Redução do Nitrato 

Urease 

‐ 

‐ 

‐ 

‐ 

Hidrólise de: 

 

 

 

 

 ‐ Hipurato 

‐ 

‐ 

‐ 

 ‐ Indoxil Acetato 

‐ 

Crescimento a: 

 

 

 

 

 ‐ 25ºC 

‐ 

‐ 

‐ 

 ‐ 37ºC 

 ‐ 42ºC 

‐ 

Crescimento  em  Glicina  a  1% 

V

20

 

Suscetibilidade a: 

 

 

 

 

 ‐ Ácido Nalidíxico 

S

21

 

contaminantes. O meio comercial mais utilizado é o Meio de Preston. Os  Campylobacter são  microrganismos de crescimento lento, exigindo uma incubação de 48 a 72h, ou mais. 

Por sua vez no caso de C. fetus não é necessária uma temperatura de 42ºC, sendo que  o  microrganismo  cresce  melhor  a  25ºC,  no  entanto  continua  a  ser  precisa  uma  atmosfera  microaerofílica. 

Identificação 

A  identificação  é  baseada  nas  condições  selectivas  de  crescimento  e  na  morfologia  microscópica típica. No entanto a identificação definitiva de todos os microrganismos isolados  deve ser feita tendo conta as análises bioquímicas.     

 

Terapêutica, Prevenção e Controlo 

  A gastroenterite causada por Campylobacter é tipicamente uma infecção auto‐limitada  cujo tratamento consiste na reposição dos líquidos e electrólitos perdidos. A antibioticoterapia  pode  ser  utilizada  em  pacientes  com  infecções  graves  ou  septicemia.  O  microrganismos  é  sensível  a  uma  grande  variedade  de  antibióticos,  incluindo  Macrólidos,  Tetraciclinas,  Aminoglicosídeos,  Cloranfenicol,  Quinolonas,  Clindamicina,  Amoxicilina  e  Ácido  Clavulânico  e  Imipenem.  A  maioria  dos  microrganismos  isolados  mostra‐se  resistente  às  penicilinas,  Cefalosporinas  e  Sulfonamidas.  A  eritromicina  constitui  o  antibiótico  de  escolha  para  a  terapêutica, sendo a tetraciclina ou as Quinolonas utilizadas como antibióticos secundários. 

Campylobacter

  Fisiologia e Estrutura  ‐ Bacilos Delgados e Curvos;  ‐ Gram‐Negativos  ‐ Não Observáveis em Microscopia de Campo Claro;  Virulência  ‐ Factores de Adesão, Motilidade e Invasão;  ‐ Proteína S inibe ligação de C3b (C. fetus);  Epidemiologia  ‐ Infecção Zoonótica;  ‐ Adquirida por Ingestão de Alimentos Contaminados;  ‐ Disseminação Pessoa‐Pessoa pouco provável;  ‐ Dose Infectante Alta, reduz drasticamente quando o pH gástrico  baixa;  ‐ Distribuição Mundial;  ‐ Infecção Entérica mais comum nos meses Quentes;  Doenças  ‐ Gastroenterite;  ‐ Septicemia;  ‐ Meningite Neo‐Natal e Aborto;  ‐ Doença Peri‐odontal;  ‐ Gastrite;  Diagnóstico  ‐ Microscopia não é sensível; 

‐  Cultura  requer  meio  especializado  com  baixo  teor  de  O2  e  CO2  aumentado e elevadas temperaturas;  ‐ Incubação de 2 ou mais dias;  ‐ Não Fermentadores;  Terapêutica,  Prevenção e Controlo  ‐ Gastrite: Reposição de Líquidos e Electrólitos; 

‐  Gastroenterite  e  Septicemia:  Eritromicina,  Tetraciclinas  e  Quinolonas; 

‐  Gastroenterite  é  evitada  pela  preparação  adequada  dos  alimentos; 

A associação de Amoxicilina e Ácido Clavulânico pode ser utilizada em substituição da  Tetraciclina, que é contra indicada em crianças de pouca idade.  

As  infecções  sistémicas  são  tratadas  com  Aminoglicosídeos,  Cloranfenicol  ou  Imipenem. Esta terapêutica apenas é eficaz no início da doença. 

 

A  prevenção  da  gastroenterite  por  Campylobacter  inclui  a  preparação  adequada  do  alimento, a não utilização de lacticínios não pasteurizados e a implementação de medidas para  prevenir  a  contaminação  de  suprimentos  de  água.  É  pouco  provável  que  seja  eliminado  o  estado de portador de Campylobacter em reservatório animais como frangos e perus, assim o  risco de infecção a partir destes focos continua. 

 

Helicobacter 

 

Os  microrganismos  deste  género  são  bacilos  gram‐negativos  espiralados. A bactérias mais relevante  é  a  Helicobacter  pylori  que  está  associada  a  gastrite,  úlcera  péptica  e  adenocarninoma  gástrico,  e  linfomas  de  células  B  do  tecido  linfoide  associado a mucosa gástrica.  

O tracto intestinal é colonizado  por  várias  espécies  de  Helicobacter,  incluindo  Helicobacter  cinaedi 

Helicobacter  fennelliae  que  foram 

igualmente  isolados  em  homossexuais  com proctite, proctocolite ou enterite. 

 

Estes  microrganismos  caracterizam‐se  por  serem  bacilos  gram‐negativos  não 

esporulados,  oxidase  e  catalase  positivos,  possuindo  mobilidade  devido  a  1  a  6  flagelos 

terminais.   

Fisiologia e Estrutura 

 

As espécies de Helicobacter são caracterizadas pela análise da sequências dos genes de  rRNA  16S,  pelos  ácidos  gordos  celulares  e  pela  presença  de  flagelos  polares.  As  espécies  de 

Helicobacter  em  culturas  recentes  adquirem  uma  forma  espiralada,  no  entanto  em  culturas 

mais antigas podem apresentar formas cocóides. 

A  Helicobacter  pylori  é  móvel,  possuindo  uma  motilidade  característica  em  zigue‐ zague,  e  produz  abundantes  quantidades  de  urease,  esta  característica  é  indicadora  da  patogenicidade do microrganismo. Sabe‐se que este género não fermenta nem oxida glícidos,  mas  pode  metabolizar  aminoácidos  por  vias  fermentativas.  O  crescimento  destes  microrganismos  necessita  de  um  meio  suplementado  com  sangue,  soro,  carbono,  amido  ou  gema de ovo, em condições microaerofílicas e com temperaturas entre os 30º e os 37ºC. 

 

Patogenia e Imunidade 

 

São  vários  os  factores  que  contribuem  para  a  inflamação  gástrica,  salientando‐se  a  alteração  na  produção  de  ácido  gástrico  e  a  destruição  tecidual,  estes  factores  são  característicos de uma infecção por H. pylori.  

Sabe‐se que a colonização inicial é facilitada pelo bloqueio de produção de ácido pela 

proteína inibidora de ácido da bactéria e pela neutralização dos ácidos gástricos pela amónia 

produzida  em  decorrência  da  actividade  da  urease  bacteriana.  A  actividade  da  urease  é  aumentada pela proteína do choque térmico que é co‐expressada com a urease na superfície  bacteriana.  Os  microrganismos  que  são  activamente  móveis  podem  atravessar  o  muco  gástrico,  alojando‐se  neste  e  estando  graças  a  ele  protegidos  da  acidez  gástrica,  e  aderir  às  células epiteliais.  

A lesão tecidual é mediada por subprodutos da urease, mucinase e fosfolipase, e ainda  pela actividade da citotoxina vacuolizante que induz lesão das células epiteliais. Sabe‐se que a  urease juntamente com o LPS estimula a respostas inflamatória. 

 

O  H.  pylori  é  protegido  da  fagocitose  e  da  morte  intracelular  pela  produção  de 

superóxido  dismutase  e  catalase.  Este  microrganismo  produz  factores  que  estimulam  a 

secreção  de  IL‐8,  factor  de  activação  plaquetar,  a  hipersecreção  de  ácido  gástrico  e  a morte  programada das células epiteliais gástricas. 

 

Epidemiologia 

 

A  colonização  por  H.  pylori  em  pessoas  saudáveis  é  relativamente  baixa  durante  a  infância, mas aumenta até os 45% na população adultos com mais idade. Sabe‐se que 70% a  100%  dos pacientes  com gastrite, úlcera gástrica ou úlcera duodenal estão infectados por  H. 

pylori.   

Os  seres  são o reservatório mais importante deste microrganismos, e  transmissão se  faz  mais  provavelmente  por  via  fecal‐oral,  e  por  isso  sabe‐se  que  com  o  aumento  das  condições de higiene existe uma tendência para diminuir o risco de colonização. 

 

Entretanto  estudos  indicam  que  a  colonização  por  H.  pylori  pode  ser  um  factor  protector  no  caso  da  doença  de  refluxo  gastro‐esofágico  e  adenocarcinomas  do  esófago  inferior e da cárdia gástrica. 

 

Síndromes Clínicas 

 

Actualmente  existem  evidências  clínicas  definitivas  de  que  o  H.  pylori  é  o  agente  etiológico em praticamente todos os casos de gastrite tipo B. Existe ainda um consenso geral  relativamente ao facto de este microrganismos ser a causa da maioria das úlceras gástricas e  duodenais,  o  que  se  comprova  pela  cicatrização  das  úlceras  face  ao  tratamento  contra  o  microrganismo. 

A colonização por H. pylori está ainda associada ao linfoma das células B associadas ao  tecido linfoide da mucosa gástrica. Assim sendo uma terapia activa contra esta bactéria está  associada a uma regressão da neoplasia. 

 

Helicobacter  cinaedi  e  H.  fennelliae  podem  causar  gastroenterite  e  protocolite  com 

septicemia em homens homossexuais. H. cinaedi pode ainda ser agente de celulite recorrente  com febre e bacteriémia em pacientes imunocomprometidos.   

Diagnóstico Laboratorial 

  Microscopia  O H. pylori pode ser detectado por exame histológico de biópsias gástricas. Apesar de  poder usar‐se H&E ou coloração de Gram, a coloração com prata de Warthin‐Starry é a mais 

sensível, sendo que a análise  histológica possui uma especificidade  e sensibilidade  perto dos  100%. 

 

Teste da Urease 

Constitui  o  método  mais  rápido  de  detecção  de  H.  pylori.  A  grande  quantidade  de  urease produzida pelos microrganismos permite a detecção do subproduto alcalino em menos  de  2  horas.  A  sensibilidade  do  teste  directo,  com  amostras  de  biópsias,  varia  de  75  a  95%,  estando a especificidade perto dos 100%. 

 

Cultura 

Este microrganismo cresce em meio enriquecido, suplementado com sangue, hemina  ou carbono, em atmosfera microaerofílica. A suplementação do meio protege a bactéria dos  radicais  livres  de  óxigénio,  peróxido  de  hidrogénio  e  ácidos  gordos.  No  entanto  a  cultura  é  pouco sensível, a não ser que seja obtida de múltiplas amostras de biópsia gástrica. 

 

Identificação 

A  identificação  preliminar  dos  microrganismos  baseia‐se  nas  suas  características  de  crescimento em condições selectivas, morfologia microscópica típica e detecção da actividade  da oxidase, catalase e urease. A identificação definitiva das bactérias deve ser orientada pelas  seguintes reacções: 

 

Propriedades Fenotípicas de Espécies Seleccionadas de Helicobacter 

Características  H. pylori  H. cinaedi  H. fennelliae 

Oxidase 

Catalase 

Redução do Nitrato 

‐ 

‐ 

Urease 

‐ 

‐ 

Hidrólise de: 

 

 

 

 ‐ Hipurato 

‐ 

‐ 

‐ 

 ‐ Indoxil Acetato 

‐ 

‐ 

Crescimento a: 

 

 

 

 ‐ 25ºC 

‐ 

‐ 

‐ 

 ‐ 37ºC 

 ‐ 42ºC 

‐ 

‐ 

‐ 

Crescimento  em  Glicina  a 

1% 

‐ 

Suscetibilidade a: 

 

 

 

 ‐ Ácido Nalidíxico 

 ‐ Cefalotina 

I

23

 

  Serologia 

A  infecção  por  H.  pylori  estimula  a  resposta  humoral  que  persiste  em  resposta  à  contínua exposição à bactéria. Pelo facto de os títulos de anticorpos persistirem por um longo  período  de  tempo,  chegando  a  anos,  o  teste  não  pode  ser  utilizado  para  distinguir  uma  infecção  recente  de  uma  mais  antiga.  Por  outro  lado  este  tipo  de  testes  não  se  demonstra 

       

23

muito relevante pois a quantidade de anticorpos não tem qualquer relação com a gravidade da  doença. 

 

Terapêutica, Prevenção e Controlo 

 

Os  resultados  mais  satisfatórios  na  cura  da  gastrite  ou  úlcera  péptica  foram  conseguidos  com  a  combinação  de  um  inibidor  da  bomba  de  protões  e  um  ou  mais  antibióticos. Pode ainda adicionar‐se bismuto24, ou a terapia de combinação de Tetraciclinas,  Metronidazol, bismuto e Omeprazol por 2 semanas, apresentando uma taxa de erradicação de  mais de 90%. 

 

As  infecções  por  H.  cinaedi  e  H.  fennelliae  podem  ser  tratadas  com  Amoxicilina  ou  Claritromicina. 

Têm sido realizados esforços no sentido de  desenvolver uma vacina contra  H. pylori,  tentando usar‐se a urease e a proteína do choque térmico como alvo, pois estas apenas são  expressas na superfície deste microrganismos.          24 Bismuto ‐ é um elemento químico de símbolo Bi. temperatura ambiente, o bismuto encontra‐ se no estado sólido. 

Helicobacter pylori

  Fisiologia e Estrutura  ‐ Bacilos Gram‐Negativos Curvos;  ‐ Produção de Urease em elevados Níveis;  Virulência  ‐ Urease;  ‐ Proteína do Choque Térmico;  ‐ Proteína Inibitória de Ácido;  ‐ Flagelos;  ‐ Adesinas;  ‐ Mucinase;  ‐ Fosfolipases;  ‐ Superóxido Dismutase;  ‐ Catalase;  ‐ Citotoxina da Vacuolização;  Epidemiologia  ‐ Infecções mais comuns em pessoas de classes sócio‐económicas  baixa ou em países em desenvolvimento;  ‐ Seres Humanos são o principal reservatório;  ‐ Disseminação Pessoa‐Pessoa (Fecal‐Oral);  ‐ Não existe reservatório animal;  ‐ Ubíquos de Distribuição Mundial;  ‐ Sem incidência Sazonal;  Doenças  ‐ Gastrite, Úlcera péptica e Adenocarcinoma Gástrico (H. pylori);  ‐ Gastrite, Septicemia, Protocolite e Celulite (H. cinaedi);  ‐ Gastrite, Septicemia e Protocolite (H. fennelliae);  ‐ Gastrite (H. canis, H. pullosrum, H. rappini e H. cannadensis);  Diagnóstico  ‐ Microscopia: análise se biópsia é sensível e específico;  ‐ Cultura em condições microaerofílicas;  ‐ Crescimento Lento;  ‐ Serologia útil na demonstração de exposição a H. pylori;  Terapêutica,  Prevenção e Controlo  ‐ Tetraciclina, Metronidazol, Bismuto e Omeprazol por 2 semanas;  ‐ Vacinas para Humanos ainda não disponíveis; 

Pseudomonas 

As  Pseudomonas  são  microrganismos  oportunistas  de  vegetais,  animais  e  seres  humanos.  Sabe‐se  que  de  todos  os  microrganismos  isolados  o  mais  importante  deste género é a Pseudomonas aeruginosa. 

A sua distribuição é ubíqua no solo, em  matéria  orgânica  em  decomposição,  em  vegetais e na água. São ainda encontradas em  reservatórios  hospitalares  húmidos,  como  alimentos,  flores  cortas,  sanitários,  esfregões  de  limpeza,  etc.  A  persistência  do  estado  de  portador  apenas  é  comum  em  doentes  imunodeprimidos ou hospitalizados. 

Esta  distribuição  ubíqua  no  meio‐

ambiente  é  conseguida  pela  ausência  de  necessidades  fastidiosas  para  o  crescimento  desta  bactéria. 

As  espécies  de  Pseudomonas  também  possuem  numerosos  factores  estruturais,  enzimas, toxinas que levam a uma elevada virulência, tornando‐as resistentes a grande parte  dos antibióticos. 

 

Estes bacilos gram‐negativos são aeróbios, embora algumas espécies possam crescer  em  ambiente  anaeróbio,  não  fermentam  os  glícidos,  obtendo  energia  por  oxidação  dos  mesmos. Todos os membros deste género são móveis, com excepção da P. malli. 

 

Esta  bactéria  não  pertence  à  nossa  flora  comensal,  sendo  muitas  vezes  associada  a  ambientes hospitalares, como tal adquire elevada importância nas infecções nosocomiais.  

 

Fisiologia e Estrutura 

 

As  Pseudomonas  são  bacilos  gram‐negativos  rectos  ou  ligeiramente  curvos,  com  flagelos  polares  que  lhes  conferem  movimento.  Não  são  fermentadoras,  utilizando  mecanismos oxidativos tendo como aceitador final o oxigénio.  

 

Apesar  de  as  pseudomonas  serão  definidos  como  aeróbios  obrigatórios,  elas  podem 

crescer  anaeróbiamente,  passando  a  utilizar  nitrato  ou  arginina  como  aceitador  final  dos 

electrões. A presença de citocromo oxidase em espécies de Pseudomonas é utilizado para as  diferenciar das Enterobacteriaceae.  

Na  microscopia  algumas espécies  parecem  mucoides  devido  à  grande  quantidade  de  cápsula polissacárida disposta em torno de si mesma.    Actualmente este género é composto por cerca de 10 espécies e a mais comum e com  mais relevo clínico é a Pseudomonas aeruginosa.   

Patogenia e Imunidade 

 

A  Pseudomonas  aeruginosa  possui  diversos  factores  de  virulência,  incluindo  componentes  estruturais,  enzimas  e  toxinas.  Apesar  de  existirem  diversos  factores  é 

complicado perceber qual possui um papel mais importante na infecção, e desse modo pensa‐ se que a infecção resulte de uma virulência multi‐factorial. 

‐  Adesinas,  através  de  adesinas  presentes  nos  pilli  e  outras  não  associadas  a  pilli  a 

bactéria consegue permanecer unida às células do hospedeiro. Os pilli são importantes para a  ligação  do  microrganismo  às  células  epiteliais  e  são  idênticos  aos  encontrados  na  Neisseria 

gonorrhoeae. A P. aeruginosa produz neuraminidase, que remove os resíduos de ácido siálico 

dos receptores dos pillis, aumentando desta forma a aderência das bactérias às células; 

‐ Cápsula Polissacárida, a P. aeruginosa produz uma cápsula polissacárida que possui  múltiplas  funções,  uma  delas  é  fixar  a  bactéria  às  células  epiteliais  ou  à  mucina  traqueo‐ brônquica. A cápsula protege ainda o microrganismo da fagocitose e da actividade de alguns  antibióticos,  como  é  o  caso  dos  aminoglicosídeos.  Sabe‐se  que  a  produção  deste  mucóide  polissacárido é altamente regulada; 

‐ Endotoxina, a endotoxina polissacárida é o principal antigénio da parede celular da P. 

aeruginosa, sendo o lípido A o responsável por muitos dos efeitos biológicos da síndrome da 

sépsis; 

‐ Piocianina, sabe‐se que a P. aeruginosa produz um pigmento azul, a piocianina, que  catalisa  a  produção  de  superóxido  e  peróxido  de  hidrogénio.  Na  presença  deste  pigmento  ocorre a produção do radical hidroxil mais tóxico, o que conduz a uma lesão tecidual. Por outro  lado este pigmento vai estimular a resposta inflamatória; 

‐  Exotoxina  A,  pensa‐se  que  seja  um  dos  factores  de  virulência  mais  importante 

No documento Microbiologia (versão impressão) (páginas 112-126)