A FORÇA DO AMOR
Mário e André conversam. Inesperadamente, Mário arma uma encenação, comprometendo André. Senhor de si, Mário e seus amigos tramam roubar a família de Celina. O amor, apesar de ameaçado, prevalece e Mário é desmascarado.
Quando André chegou, Celina fumava nervosamente na grande sala de visitas de sua casa. Seu pai havia saído para levar Zezé ao colégio, para o desfile. Sua mãe não se encontrava na sala, por isso ela se sentiu aliviada com a presença dele. Até então, estivera trocando palavras com Mário, sem dar um rumo definido à conversa. Estava embaraçada e nervosa com a presença dele. André cumprimentou a garota, ao mesmo tempo em que olhava desconfiado e com olhar ameaçador para Mário.
— Este é Mário — disse-lhe Celina.
— Já o conhecia — respondeu o rapaz secamente.
41
— Não tive o prazer ainda — falou Mário, levantando-se.
— Eu já o vi ontem no hospital. Você estava dormindo. Gostaria de falar a sós com você.
— Não vejo motivos para isso. Afinal, quem é você?
— Sou namorado... Noivo de Celina.
— Noivo, é? — retrucou Mário cinicamente.
— Podemos falar?
— Se você quiser...
— Podemos usar a biblioteca, Celina? — pediu André.
A garota os conduziu até lá, deixando-os sozinhos.
André acendeu um cigarro e encarou o outro rapaz.
— É uma bela casa, não é? — comentou Mário.
— Quais são suas intenções? — indagou André, sem, responder ao comentário, num tom seco.
— Que intenções? Não entendo você.
— Por que você veio aqui?
— Celina me convidou, ora.
— Não era essa a intenção dela.
— Não foi isso o que ela me disse ontem no hospital.
— Você não é desejado nesta casa. Depois de tudo que fez ainda tem coragem de aparecer aqui?
— Calma; lá rapaz. Você está engrossando.
— Sim, e vou piorar se você não se explicar.
— Não há o que explicar. Fui convidado.
— Você não presta — disse André, irritado com o cinismo dele.
Mário não respondeu. Olhou André, enquanto apanhava um grande cinzeiro sobre uma escrivaninha.
— O melhor que tem a fazer é dar o fora — intimou-o André.
— Está bem, então segure isso! — disse Mário, atirando o cinzeiro para André, ao mesmo tempo em que retirava um dos curativos do rosto e se jogava sobre uma cadeira, caindo com ela.
— Você está louco? — indagou André, agarrando o cinzeiro.
Em resposta a isso, Mário pôs-se a gritar por socorro. Celina, sua mãe e seu pai, que acabara de chegar, irromperam porta á dentro, deparando com André, estupefato, segurando o cinzeiro, enquanto que Mário se contorcia no chão, como se estivesse ferido.
— O que está havendo aqui? — indagou Ernesto.
— Esse louco, ele quer me matar — berrou Mário.
— É mentira — defendeu-se André.
— Ele me atingiu com o cinzeiro — disse Mário, mostrando o rosto onde havia arrancado o curativo.
— Ele é louco — disse André, ainda chocado com a farsa desempenhada por Mário.
— Ajudem-me aqui — pediu Mário.
André olhou para Celina.
42
— Tem que me acreditar. Não fiz nada, ele se jogou no chão.
— Não esperava isso de você, André. Que falta de respeito. Ele é nosso hospede — disse Ernesto, amparando Mário.
— Mas seu Ernesto, eu não fiz nada — defendeu-se o rapaz.
— E esse cinzeiro aí, para que era? — indagou Mário.
— Miserável! — exclamou André, avançando para o outro, no que foi contido pelo dono da casa.
— E melhor você se acalmar, André. Você está muito nervoso.
— André, por você fez isso? — recriminou Celina.
— Eu não fiz nada, Celina. Esse sujeito é um farsante — disse, com a voz trêmula, apontando Mário, instalado numa poltrona.
— Venha, vamos conversar lá fora — pediu ela.
André deixou-se levar por Celina, que o conduziu de volta à sala, onde ele narrou o que realmente acontecera na biblioteca.
— O problema agora — disse ela — é que papai vai se sentir muito magoado com isso. Se ao menos tivesse evitado essa briga.
— Foi tudo muito rápido. Ele me apanhou de surpresa, simulou tudo perfeitamente.
— O que faremos agora?
— Depois disso acho que seu pai vai se sentir obrigado a proteger o rapaz, não é?
Esse sujeito é mais inteligente do que eu pensava. Que cinismo, que frieza ele tem. Acho até que ele deve ser um pouco louco para fazer o que fez.
— Papai vem vindo aí. Vejamos o que ele tem a dizer.
Ernesto entrou na sala, seguido pela esposa e por Mário. Seus rostos eram sombrios.
— Sinto muito, André, mas sou obrigado a pedir-lhe que deixe esta casa — disse o homem, procurando ser cortês.
— O quê? Mas...
— Sinto muito, André. Sempre o recebemos bem e o tratamos com muito carinho.
Não merecíamos isso — acusou-o o homem.
— Mas esse incidente...
— Não se trata disso — interrompeu-o Ernesto, severamente.
— De que se trata então? — indagou o rapaz.
— Foram as palavras que você disse a este rapaz — disse ele, apontando Mário. — Você sabe o que disse — interrompeu-se o homem como se o que tivesse a dizer fosse muito grave.
— Mas seu Ernesto...
— Por favor, André. Retire-se!
— Celina, você vai permitir isso? — indagou o rapaz, olhando suplicante para a namorada.
— Pai, o que ele disse?
— Prefiro não repetir, filha.
— Mas o senhor vai acreditar nele, seu Ernesto?
— Você está fora de si, André. Perdeu a cabeça e acabou dizendo o que não devia.
Foi imperdoável o que fez.
43 Sem outra solução, André se viu obrigado a deixar a casa, furioso com a trama elaborada por Mário, sem poder se defender.
Enquanto isso, em outra parte da cidade, num quarto de pensão, Tino e Carlos conversavam.
— E se o Mário resolver nos dedurar? — indagou Tino.
— Não se preocupe com isso. Conheço bem aquele tipo. Apesar de ter tudo na vida, gosta mesmo é de malandragem.
— Sei lá. Você vai ligar para ele agora?
— Sim, vamos até o corredor. Tenho o número do telefone para dar a ele.
Pouco depois falava com Mário e passava-lhe o número da pensão. Pelo tom de voz, Mário demonstrava tranquilidade.
— Como é que está o ambiente aí? — quis saber Tino.
— Sobre controle total — disse Mário, que estava sozinho na biblioteca, atendendo ao telefone.
— Houve alguma bronca?
— O namorado da garota apareceu aqui, mas liquidei com ele. Foi um negócio incrível, rapaz. Nunca estive tão inspirado.
— E o que você notou de interessante para nós por aqui?
— Por aqui? Deixe-me ver — disse Mário, examinando o aposento em que se encontrava — Tem uma porção de coisa valiosa e fácil de carregar. Aparelhos eletrônicos, estatuetas de metal e até uma coleção de armas, num armário com porta de vidro. Estou vendo um diskman da hora. Vou pegá-lo para vocês.
— Embrulhe e deixe na lata de lixo. Pegaremos mais tarde.
— A família toda vai sair agora para ver o desfile. Podem vir tranquilos. Deixarei na lata do lixo, embrulhado em minhas roupas.
— Ótimo, assim dá gosto trabalhar — afirmou Tino.
— Mas vai ser só isto por enquanto. Não quero me comprometer demais. Já conquistei o velho na conversa. Ele afirmou categoricamente que conhece meu pai, lá em Assis.
— Então você está bem arrumado.
— Tranquilamente. Se tudo der certo, ficarei muito bem aqui.
Mário desligou o telefone e ficou pensando. Talvez não devesse se precipitar. Breve teria que retornar a sua cidade. Não poderia ficar ali indefinidamente. Agora que tinha tudo nas mãos, o simples fato de já haver conseguido comprometer a situação do namorado de Celina já era uma vitória importante. O doce sabor da vingança já começava a ser saboreado. Precisava conquistar Celina e submetê-la a seus caprichos. Já sabia que André retornaria naquela noite para São Paulo. Assim, não precisava ter pressa. O importante era ficar bem com a família. Além disso, seu rosto não era ainda aquela arma fulminante de que podia dispor. Teria que esperar até que ele se curasse, mas isso não o preocupava. Com André afastado, tudo poderia ser feito com calma, sem a pressa que graves consequências lhe trouxeram naquela noite, na barraca.
Apanhou o diskman e foi para o quarto que lhe fora destinado na casa. Pegou a camisa que usava na noite do acidente e enrolou-a no
44 aparelho. Calmamente saiu até o portão e atirou o pacote na lata de lixo. Quando retornava, encontrou-se com Ernesto, que o observava à porta.
— O que houve? — indagou o homem.
— Minhas roupas estavam muito sujas e manchadas. Joguei-as fora. Estavam irrecuperáveis — disse ele, calmamente.
— Já está pronto para irmos ao desfile?
— Sim, já estou — disse o rapaz, abaixando a cabeça, simulando estar muito constrangido.
— Você parece preocupado, o que há?
— É algo que preciso explicar-lhe. Creio que o senhor tem direito a isso. No caso do acidente, sua filha se comportou decentemente, seu Ernesto. Houve apenas um mal entendido. Nós, jovens, temos cada um sua maneira própria de expressar agradecimentos.
Eu sou expansivo. Celina não me entendeu, mas não a reprovo. Demonstra bom caráter, fazendo valer a educação que recebeu.
— Vamos esquecer o caso — pediu o homem, totalmente convencido dos bons propósitos de Mário.
André conversava com seu pai, a quem expusera todo o acontecimento, quando o telefone soou.
— É para você — avisou-o sua mãe, passando-lhe o aparelho.
— André, sou eu, Celina — disse ela, assim que ele atendeu.
— O que houve amor? Algum problema? — indagou o rapaz.
— Não, não houve nada. Estou aqui em casa. Papai, mamãe e Mário foram ao desfile.
Eu não quis ir porque não suportaria a companhia daquele miserável.
— Quer que eu vá apanhá-la?
— Sim, poderíamos ir juntos.
— Eu vou para aí imediatamente. Já está pronta para sair?
— Vou mudar de roupa. Estarei pronta quando você chegar.
— Não demoro. Um beijo.
André desligou o telefone satisfeito. Apesar de tudo, Celina ainda estava ao seu lado.
Mas ele tinha, no entanto, medo do que Mário pudesse fazer. Já mostrara ser um tipo muito esperto que não hesitaria ante qualquer obstáculo. Precisava agir com cautela contra ele. Mário era capaz de tudo. Era um louco, com certeza.
— E então, pai? O que me sugere? — indagou André ao pai.
— E inacreditável isso tudo que você acaba de me contar.
— Aquele tipo é traiçoeiro e premeditado.
— Creio que o melhor que você tem a fazer é tentar recuperar a confiança do Ernesto.
Se ele o mandou embora de sua casa, deve ter sido levado por alguma invenção muito convincente do rapaz.
— Sim, ele deve ter me caluniado. Felizmente Celina ainda crê em mim e me ama.
Vou agora apanhá-la para vermos o desfile.
André tomou seu carro e rumou para a casa da jovem. Quando se aproximava de lá, no entanto, notou os amigos de Mário nas proximidades da casa de Celina. Diminuiu a marcha e ele ficou observando os dois rapazes.
45 Quando os viu abrirem a lata de lixo e retirarem um pacote de roupas, ficou intrigado. Ao vê-los desvencilharem-se da roupa, porém, e manusearem o diskman enquanto se afastavam tudo se aclarou. Acelerou o carro e alcançou-os. Tino, ao vê-lo, correu imediatamente. Carlos, embevecido em examinar o aparelho, só deu pela presença de André quando este o agarrou fortemente pelo braço, imobilizando-o.
— Muito bem, rapaz. Agora você vai nos explicar essa história toda — intimou André, sentando-se ao lado de Celina, na sala da casa da jovem.
Carlos, à frente deles, torcia as mãos nervosamente.
— O que vai fazer comigo? Vou ser preso? — choramingou.
— Se você explicar tudo isso direitinho, eu o deixarei ir — propôs André. — Caso contrário, chamo a polícia agora mesmo.
— O culpado é o Mário — confessou Carlos, prontamente.
— Imagino que sim, mas qual o interesse dele em tudo isso? Ele não é rico? — indagou Celina, chocada com o acontecimento.
— É ele é rico, mas vive aprontando.
— Como assim? — indagou André.
— Vive cercado de processos, é um maníaco — falou Carlos.
— Um maníaco? Está brincando! — exclamou Celina.
— Não estou brincando, não. Por que você acha que ele foi parar na sua barraca naquela noite?
— Estava perdido, creio eu...
— Você é ingênua mesmo. Era tudo premeditado. Nós estávamos acampados juntos, numa mesma barraca. Na hora da chuva, ele viu você correr para lá e sabia que estaria sozinha. Esperou um pouco e depois saiu andando calmamente na chuva, para se molhar bastante e impressioná-la. Ele é um sujeito muito esperto, isso é que ele é.
— Não posso acreditar! — exclamou a jovem.
— Ele já aprontou tantas lá onde moramos que nenhum pai o deixa se aproximar de suas filhas.
— E o diskmam! — indagou André.
— Já que ele vinha para cá aproveitar a chance de se aproximar da moça, nós achamos que também poderíamos tirar proveito da situação. Eu e Tino o acompanhamos há algum tempo, sabemos do que ele é capaz. Ele retira os objetos, esconde e nós apanhamos.
— Ótimo! Vai nos ajudar a desmascará-lo — disse André.
— Você não vai me deixar ficar junto com ele, vai? Quando ele souber o que eu fiz, vai querer-me matar — protestou Carlos.
— Não vai, não. Nós daremos um jeito nele. Vamos preparar tudo para isso. Meu plano é o seguinte, Celina...
Um pouco mais tarde, após o desfile, a família retornou. Mário estava tranquilo e confiante, pois conversara bastante com os pais de Celina, além de já ter feito amizade com Zezé, que os acompanhou na volta. Era, realmente, dotado de uma facilidade incrível para cativar as pessoas. Quando chegaram, ao entrar, deram com Celina e André, conversando
na sala.
46
— O que você está fazendo aqui? — indagou Ernesto.
— Eu já estava de saída, seu Ernesto. Vim apenas me despedir de Celina. Vou voltar para São Paulo esta noite mesmo.
— Espero que seja breve, então.
— O que o André fez papai? — indagou Zezé.
— Depois explicaremos. Agora ele tem que ir — intimou o homem.
— Eu já estou saindo. Vim apenas deixar este CD para Celina ouvir — disse ele, entregando à garota uma caixinha.
— Quer ouvi-lo? — indagou André. — Se não gostar, trocarei.
— Sim, vou buscar meu diskman. Eu o deixo na biblioteca — disse Celina, levantando-se e dirigindo-se para aquele aposento.
Mário ficou na defensiva. Não esperava que a falta do aparelho fosse notada assim tão cedo. Mesmo assim, não se desesperou. Ninguém poderia acusá-lo de alguma coisa, já que estava na casa havia pouco tempo. Se fosse necessária uma revista em sua bagagem, nada seria encontrado, já que àquela hora Tino e Carlos deveriam tê-lo apanhado na lata de lixo. Foi com espanto, porém, que viu Celina voltar com o aparelho, colocá-lo sobre a mesa de centro e ligá-lo. Mais espanto ainda foi quando viu Carlos surgir na sala.
— O que é isso? — protestou.
— Querem ouvir uma história interessante? — ironizou André.
— De que se trata, afinal? — perguntou o dono da casa, olhando surpreso; os presentes sem entender o que acontecia.
— Ouça o que esse rapaz tem a dizer, seu Ernesto. Ele vai explicar muita coisa — disse André, fazendo um sinal para Carlos, que começou a falar, contando toda a trama armada por Mário.
— Isso é uma calúnia — protestou Mário. — Não sei de nada do que estão ouvindo.
E alguma trapaça para me incriminar. Ele que se vingar de mim, só isso. Inventou essas mentiras.
— Isso é o que veremos. — falou André, tranquilamente.
— Cale a boca, Carlos — ordenou Mário, nervoso.
— Não, vamos ouvir até o fim — intimou André.
— Seu Ernesto, o senhor não vai acreditar nisso aí. Eles inventaram isso — falou Mário, tentando convencer o dono da casa.
— Confesso que estou estarrecido — respondeu-lhe o homem.
— Mais estarrecido ainda vai ficar, quando ouvir o resto, seu Ernesto — falou André.
— Não vão ouvir mais nada — disse Mário, avançando ameaçadoramente na direção de Carlos. — Você não pode provar nada.
— Não posso? Tem certeza? — indagou-lhe André, sorrindo enigmaticamente.
— Você pode provar isso, André? — indagou o dono da casa.
— Sim, tenho outra testemunha para provar tudo.
— Onde está aquele miserável? — indagou Mário.
— Bem atrás de você, Mário — disse Tino, que até então estivera oculto na biblioteca.
Mário o havia apanhado na pensão, antes que pudesse fugir.
— Miseráveis vocês me entregaram.
47
— O que você queria que nós fizéssemos? Se nós formos presos, ninguém vai aparecer para nos soltar. Para você, tudo é mais fácil. Seu pai tem dinheiro, é influente, você não ficaria muito tempo na cadeia. Não vou me condenar por culpa sua — explicou Tino.
— Foram vocês que me obrigaram a fazer isso.
— Você já fez isso antes. E por puro prazer — afirmou Carlos.
— É mentira! — protestou Mário, quase fora de si.
— A ideia de tudo partiu de você. Se não pretendesse vingar-se da garota, nada disso teria acontecido. Vamos, agora não adianta fingir mais. A casa caiu. Estamos todos no mesmo barco.
— Quero meu pai, chamem meu pai — gritou Mário, atirando-se numa poltrona e enterrando a cabeça entre as mãos.
Ernesto, D. Jacira, Zezé e a própria Celina estavam emudecidos após toda a cena.
— Eu gostaria de tê-los poupado tudo isso — disse André, dirigindo-se ao futuro sogro.
— Incrível! Como podemos nos enganar assim com as pessoas! — exclamou o homem. — Nós lhe devemos desculpas pela injustiça que cometemos.
— Não há o que desculpar seu Ernesto. Esse indivíduo é muito esperto, pena que não seja correto. Poderia ter aproveitado de outra maneira seu potencial dramático.
— O que faremos com eles?
— Se quiser, posso levá-los para a Delegacia — propôs André.
— Deixe-me ir embora e nunca mais voltarei aqui.
— Acha que podemos acreditar nele, André?
— Talvez. Não sabemos até que ponto ele pode ser sincero.
— Eu juro, não voltarei a incomodá-los novamente. Não quero que meu pai fique sabendo, ele me expulsaria de casa.
— Pois sim! — exclamou Carlos.
— Cale a boca você, seu traidor — berrou Mário.
— Eu conheço você, Mário.
— Se eu aparecer aqui de novo pode contar para meu pai — propôs o rapaz, agindo como se fosse uma criança desprotegida.
André sorriu amargamente e disse ao dono da casa.
— Acho que podemos acreditar nele. Vamos deixá-los ir. Não há motivos para nos envolvermos com á policia. Poderia ser muito embaraçoso, não acha?
— Creio que você tem razão. E depois, graças a Deus nada aconteceu. Mas sinto realmente não poder dar uma lição nesse moleque. Ele deve andar precisando de um pulso firme para colocá-lo no bom caminho.
— Eu vou me emendar — disse Mário, suplicante.
— Bem, podem ir. Jacira apanhe a bagagem dele no quarto — ordenou Ernesto.
Pouco depois, cabisbaixo, totalmente derrotado, Mário, Tino e Carlos deixaram a casa. Quando já haviam se afastado o suficiente, Mário olhou para Carlos, a princípio cheio de rancor. Depois, seu rosto se abriu num sorriso velhaco, até que ele explodiu numa
48 gargalhada, ao mesmo tempo em que abraçava o amigo.
— Você não presta mesmo, Mário — disse o outro.
— Nada como um dia depois do outro, amigo velho — comentou o líder do grupo.
— Vamos partir para outra?
— Tranquilamente. Vamos voltar para ver como estão as menininhas de nossa cidade, vamos? — propôs Tino.
— Só se for agora — disse Carlos.
— Neste minuto — falou Mário, apressando o passo.
Naquela noite, antes de partir de volta para São Paulo, André levou seus pais à casa de Celina e, numa cerimônia simples, ficaram noivos. Todos os problemas ficavam para trás agora.
— Fico muito satisfeito e feliz por tê-lo como meu futuro genro — disse Ernesto. — Além disso, quero me desculpar mais uma vez pelo mau juízo que fiz de você. Deixei-me levar pelas palavras daquele rapaz, sendo enganado como um tolo.
— Já lhe disse uma vez e volto a repetir. Aquele indivíduo enganou a todos, não foi?
Ele era um sujeito muito esperto mesmo.
— Não foi não. Ele não enganou você, André — disse Zezé, segurando a mão do rapaz.
— Mas confesso que em alguns momentos, cheguei a duvidar de mim mesmo, tal a comédia desempenhada por ele.
— E o circo, quando você vai me levar?
— Prometo-lhe que, no fim do ano, quando eu voltar definitivamente, vou levá-la sempre ao circo.
— Pretende se estabelecer aqui mesmo em Marília? — indagou Ernesto.
— Sim, papai já me encaminhou a um amigo que pretende montar uma firma especializada em construções e precisa de um engenheiro como sócio. Assim, ficaremos todos juntos, não é mesmo, querida? — indagou à noiva, abraçando-a.
— Sim, querido — concordou ela, radiante.
— Vamos dar uma volta? — convidou ele.
— A que horas você pretende partir? — perguntou-lhe a mãe.
— De madrugada — respondeu ele.
— Então, não podemos demorar muito — advertiu Celina.
— Não demoraremos. Até logo, pessoal.
Despediram-se e saíram alegremente. A cidade movimentada e colorida os envolveu logo em seguida.
— Todos os acontecimentos nos fizeram perder um tempo precioso. Quase não tivemos tempo para conversar direito. Estou com os nervos à flor da pele. Ainda nem a beijei como eu gosto querida — disse ele. — Alem disso, depois de ontem à noite fiquei viciado em você. Quero fazer amor com você uma porção de vezes, antes de partir para
— Todos os acontecimentos nos fizeram perder um tempo precioso. Quase não tivemos tempo para conversar direito. Estou com os nervos à flor da pele. Ainda nem a beijei como eu gosto querida — disse ele. — Alem disso, depois de ontem à noite fiquei viciado em você. Quero fazer amor com você uma porção de vezes, antes de partir para