Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê‐la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos. Fernando Pessoa
5.1 Objectivos propostos
O desenvolvimento desta plataforma teve, como objectivo primordial, a sua aplicação ao contexto educativo da tradução. Dado o estrito escopo temporal para o seu desenvolvimento e aplicação, este objectivo não foi alcançado de forma concreta. No entanto, foi já elaborado um inquérito (ver anexo E) que será apresentado aos utilizadores que testem a plataforma antes da devida implementação, para que possam apresentar as suas opiniões e apreciações que serão, por sua vez, utilizadas para que o desenvolvimento da plataforma num futuro próximo adquira contornos mais bem definidos e necessidades mais concretas.
5.2 Implementação
Apesar de não estar ainda concretizada, a implementação da plataforma está já prevista para o próximo ano lectivo para que possa ser dada a devida aplicação e, até, para detecção de eventuais erros ou problemas. Também a prática tradutiva com recurso a uma ferramenta Web de trabalho colaborativo será alvo de análise por parte dos docentes responsáveis. Apenas após um estudo e uma análise aprofundados será possível inferir que rumo dar ao desenvolvimento da plataforma, característica própria de uma metodologia ágil de trabalho e desenvolvimento. No entanto, este rumo poderá ser invariavelmente alterado dependendo do próprio futuro tecnológico e educativo.
O desenvolvimento da plataforma, espera‐se, será constante e com o seu desenvolvimento pretende‐se a sua implementação em diferentes contextos educativos, isto é, quer a nível secundário, quer a nível superior, e em diversas instituições de ensino. Para que tal seja
110 | Capítulo V – Perspectivas de trabalho futuro possível, a própria plataforma terá que disponibilizar dados sobre a sua utilização e sobre os resultados obtidos em estudos efectuados ao longo do tempo. Para a implementação inicial da plataforma, e contando com a colaboração do seu Centro de Informática, foi já criado um espaço na rede interna do ISCAP (onde a plataforma será testada, a curto prazo, em contexto educativo) com a instalação de PHP e MySQL.
Sobre a própria utilização da plataforma há vários aspectos ainda a trabalhar que poderão contribuir para a sua optimização. Em primeiro lugar, terá que ser desenvolvida uma área na própria plataforma que inclua breves tutoriais multimédia com indicações básicas de utilização. Deverão ser efectuados, periodicamente, estudos sobre a utilização da plataforma enquanto ambiente Web de trabalho colaborativo na sala de aula ou, mais especificamente, na construção e partilha de terminologia e, conforme já foi também referido, terá que ser desenvolvida uma área que disponibilize dados resultantes destes estudos para que seja possível a sua divulgação e espicaçado o interesse na mesma. Uma área igualmente importante e que já foi também referida é aquela destinada à recepção de informação por parte dos utilizadores da plataforma em forma de um inquérito de satisfação ou de uma área em que seja possível que os utilizadores deixarem os seus comentários e relatem os problemas que encontram durante uma utilização prática da plataforma num contexto específico. Este processo permitirá manter a integridade da plataforma, o seu correcto funcionamento e desenvolvimento e adequação, bem como a promoção da melhoria das funcionalidades disponibilizadas.
5.3 Integração
No âmbito da análise do estado da arte foi estudado um projecto que, apesar de não se enquadrar directamente nas ferramentas de construção colaborativa terminológica (motivo pelo qual não está descrita no Capítulo II) se enquadra no tratamento terminológico de corpora, extracção de terminologia e na possibilidade de codificar relações semânticas e ontológicas: o Corpógrafo [87.].
Este projecto é, essencialmente, uma plataforma de pesquisa baseada em corpora especializados e surge da necessidade de integrar num ambiente único todo um conjunto de processos e procedimentos, anteriormente realizados com recurso a várias ferramentas ou sistemas e é, invariavelmente, restrito ou difícil. Também com base na Web, o Corpógrafo
oferece a possibilidade ao próprio utilizador de compilar e pesquisar nos seus corpora (a partir de documentos em formato PDF, Microsoft Word, Postscript, RTF ou HTML).
Neste âmbito, foi já estabelecido contacto com o criador original da plataforma, o Eng.º Luís Sarmento, para especular sobre uma possível integração de ambas as plataformas. Na sequência deste contacto tomou‐se conhecimento que apesar de já não estar ligado ao projecto, o Eng.º Luís Sarmento se mostrou disponível para servir de elo de ligação num primeiro contacto com os actuais responsáveis da plataforma.
5.4 Adequação
A Internet alterou radicalmente o conceito de acesso à informação e o próprio conceito do que é a Internet foi mudando ao longo dos anos. No início, esta consistia na disponibilização de informação em páginas estáticas (HTML) tendo evoluído rapidamente para a publicação dinâmica de conteúdos (com recurso a tecnologias e linguagens, tais como XHTML, SQL, MySQL e PHP), objectivo também pretendido com o desenvolvimento desta plataforma. Actualmente caminhamos para um novo nível em que se pretende que os computadores entendam o significado e as inter‐relações da própria informação. Esta terceira geração da Web caracteriza‐se por Web Semântica cujo objectivo, perspectivado por Tim Berners‐Lee (2001) [6.], é o desenvolvimento de normas e tecnologias facilitadoras concebidas para ajudar as máquinas a melhor compreenderem a informação disponível na Web. Estas ferramentas contribuirão também para promover uma mais rica descoberta, integração de dados, navegação e automatização da informação ao utilizador.
Cada vez mais a Internet se assume como uma ferramenta predominante na educação, contribuindo amplamente não só para a implementação de sistemas de gestão de aprendizagem, como também para a partilha de conteúdo e colaboração na construção de conhecimento e de saberes. Todo este processo decorre com recurso a metadados, isto é, informação sobre dados ou dados‐sobre‐dados. No entanto, os metadados apenas permitem uma descrição do conteúdo do recurso e não estabelecer relações entre os vários recursos existentes. Estas relações são necessárias para que, de acordo com um perfil de utilizador específico, ou de acordo com um pedido em particular seja devolvido o conteúdo procurado. Uma das soluções passa pela estruturação desses mesmos metadados e aplicação de ontologias ao conteúdo desenvolvido.
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A Web Semântica perspectiva uma melhor qualidade na disponibilização de informação do que a actual Web 2.0 e, neste contexto, o papel das ontologias é indispensável para a partilha de conhecimento. É certo que a Web Semântica está ainda a dar os primeiros passos e as problematizações inerentes ao seu desenvolvimento estão apenas agora a ganhar resposta. Questiona‐se ainda a qualidade e validade das ontologias públicas e reforça‐se, por outro lado, a promoção da reutilização das mesmas (Tartir, 2005) [120.].
Para a comunidade, docente e não‐docente, que apenas agora começa a acordar para uma nova realidade tecnológica, parte integrante do futuro não só do ensino como de várias outras áreas, e que se lança voluntariamente na produção ontológica de recursos educativos, a primeira impressão poderá ser a de um mundo gigantesco e confuso que poderá levar ao baixar de braços e à desmotivação. Interfaces de editores de ontologias confusos e pouco intuitivos e a (ainda) inserção manual de informação consomem demasiado tempo.
No entanto, tais entraves não poderão permitir, pelo menos, a conceptualização de adaptação de novas ferramentas à Web Semântica, pois esta é inevitável e para o seu desenvolvimento é indispensável a normalização de linguagens e a validação da integridade de ontologias, os próximos passos no desenvolvimento semântico da Web.
Num futuro relativamente próximo, a automatização da informação será um passo lógico. Da mesma forma que existem já ferramentas para extracção terminológica através da análise de corpora (como é o caso do Corpógrafo, atrás mencionado, e outras aplicações locais como o MultiTerm Extract), a mesma tecnologia poderá e deverá ser aplicada a um nível bem mais auspicioso: a extracção de relações ontológicas através da análise de corpora. Adequar a plataforma desenvolvida a este conceito parece apropriado e propositado. Um objectivo possível é a criação de mapas conceptuais através da informação introduzida na plataforma e na criação de relações entre os vários termos que dela (da base de dados) fazem parte. Para tal é fundamental a integração de ferramentas tecnologicamente desenvolvidas para disponibilizarem eficientemente a informação solicitada.
5.5 Conclusões
São vários os desígnios possíveis para o futuro desenvolvimento da plataforma. Essencialmente, pretende começar‐se por alterar hábitos de trabalho e aprendizagem, bem como melhorar os resultados do trabalho e conteúdo produzidos de forma colaborativa na
Web. O trabalho colaborativo, dentro e fora da plataforma, será crucial para o seu desenvolvimento. A opção por tecnologias de código aberto, normalizadas e gratuitas em muito poderá contribuir para que haja pro‐actividade no que à evolução conceptual e tecnológica diz respeito.
A sociedade de informação está em constante evolução, adaptação e metamorfose.
A adopção de tecnologias da informação e comunicação por parte de instituições de ensino terá que acompanhar as constantes transformações, no entanto ambas não poderão dissociar‐ se no futuro.
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Capítulo VI – Considerações finais
This is not the end. It is not even the beginning of the end. But it is, perhaps, the end of the beginning. Winston Churchill
No final deste projecto detém‐se uma sensação antagónica que espelha, por um lado, a consciência de que o trabalho realizado em muito foi condicionado pela divergência nas apetências adquiridas ao longo de uma vida académica ligada às Línguas e à Tradução face às necessárias para o desenvolvimento deste projecto, mas por outro, a realização pessoal e académica de alguém que se propôs a trabalhar fora do seu âmbito e das suas competências e adquiriu novas apetências tecnológicas, características de uma especialização tão desejada.
Os objectivos propostos e os objectivos alcançados não são díspares e os resultados alcançados não ficaram aquém das expectativas desenvolvidas no início deste projecto.
Os objectivos propostos para uma fase inicial de desenvolvimento da plataforma foram alcançados na sua totalidade, tendo já sido dado início ao trabalho proposto para uma fase posterior com a disponibilização de glossários criados a utilizadores visitantes (não registados) apenas para consulta. Outros objectivos, apesar de estarem ainda em fase de planeamento, estão já previstos na própria estruturação da plataforma, como a criação de vários níveis hierárquicos na estrutura da árvore da base de dados terminológica (através da criação dinâmica do formulário de inserção do termo) bem como o registo de alterações efectuadas por utilizadores (com uma tabela de registo do histórico das acções realizadas na plataforma “beta.history”).
O objectivo primordial deste projecto consistia na disponibilização de uma ferramenta colaborativa de trabalho que permita a aprendizagem e a construção de um saber‐saber na área da gestão terminológica aliada ao contexto da tradução na actual sociedade de informação. Este objectivo, apesar de não estar implementado por força de se atravessar uma época não lectiva, está já estruturada com a elaboração de um inquérito a apresentar aos utilizadores após a experimentação da plataforma. A sua avaliação global sobre a plataforma contribuirá como incentivo para o seu desenvolvimento futuro.