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AS NUVENSPASSEAVAM pelo céu, ocultando a lua e as estrelas.

O ar da noite era frio e tocava o rosto de Bela como se fosse um suave veludo durante o percurso de carruagem que a levaria de volta à casa da condessa, nos arredores de Paris.

Quando toda aquela animação da noite parisiense se acabou, os olhos de Bela ficaram pesados e, quando chegaram ao castelo, ela já estava escondendo os bocejos com a mão.

Mouchard saiu do assento de condutor e foi até a porta, antes mesmo que a carruagem tivesse parado.

– Adeus, condessa – disse Bela quando saíram da carruagem. – E obrigada mais uma vez, por tudo.

Havia uma nota de melancolia na voz de Bela. A condessa percebeu.

– Qual é o problema, querida? – ela perguntou.

– Nada – Bela disse com saudade. – Pelo menos, nada que não me faça parecer uma completa ingrata. Eu só… Eu queria não ter que partir. Sempre.

Queria que Nunca Mais fosse real.

A condessa alisou uma mecha de cabelo caída sobre a testa de Bela. Seu toque era tão frio quanto o mármore.

– E que importa que não seja real? – ela perguntou. – A vida pode ser tão difícil, e as histórias sempre nos ajudam a escapar dessas dificuldades. Está tudo certo em se perder em uma história, querida. Não é isso que você sempre fez? E esta aqui é sua própria história, por favor! Que mal pode haver nisso?

Bela assentiu. A condessa estava certa.

– Você está muito cansada, meu bem, já chega por hoje – a condessa prosseguiu. – Vá dormir e volte para cá assim que puder.

Beijou a testa de Bela com seus lábios gelados e, então, partiu em uma nuvem preta, subindo os degraus de pedra e entrando no castelo, cujas portas se abriram diante de sua presença.

Mouchard limpou a garganta.

– Por aqui, mademoiselle, por gentileza – ele disse com uma voz tão pesarosa quanto um sino de funeral.

Bela o seguiu através da grande área de pedras em frente ao castelo, usada para manobrar as carruagens, até chegar ao início da estreita estrada. Para seu espanto, durante as poucas horas que ela e a condessa haviam estado no Palais-Royal, as árvores verdes e frondosas haviam se tornado ainda mais majestosas, e as roseiras, mais cheias de espinhos.

– O caminho de volta… Ele ainda está lá? – ela perguntou.

– Está exatamente onde sempre esteve, mademoiselle – respondeu

A sensação ruim que Bela sentira mais cedo voltou quando ela começou a caminhar. As roseiras a tocavam como se fossem dedos longos e gananciosos.

Os espinhos se agarravam à sua saia, mas ela se soltava e seguia caminhando.

Ao passar por baixo da cobertura feita pela copa de altos carvalhos, a escuridão se tornou ainda mais intensa. O sussurro das criaturas da noite era cada vez mais alto. Uma coruja piava e seu som queixoso causou-lhe arrepios.

As raízes das árvores serpenteavam sobre o chão, ameaçando derrubá-la.

Um sapo marrom e gordo, do tamanho de um gato, pulou bem na sua frente e a assustou. Os olhos amarelos do animal a observavam.

Quanto mais ela se afastava do castelo seguindo a estrada de pedras, mais o caminho se estreitava e mais sinuoso ele ficava. Bela sentiu um medo que lhe deu calafrios.

– E se eu não conseguir encontrar meu caminho de volta até o livro? – sussurrou.

No mesmo instante, uma figura apareceu diante dela: tinha o tamanho de um alto homem e usava roupas de homem, mas tinha um longo focinho, orelhas pontudas e dentes afiados, como um lobo.

O coração de Bela começou a martelar no peito.

– Quem… Quem é você? – ela balbuciou. – O que você quer?

A criatura não respondeu.

A lua saiu de trás das nuvens por um instante e a moça pôde ver que não era

uma criatura real, apenas um corte de seixos que, à sombra, se parecia com uma figura humana.

Bela continuou seu caminho. Ela fez mais uma curva. E depois outra. Até que encontrou, bem à sua frente, o livro gigante com páginas cintilantes. Mas a prata cintilante agora parecia mais densa e, ao atravessar sua mão, sentiu como se colocasse a mão em uma tigela de mingau. Foi necessário um certo esforço para conseguir atravessar as páginas e se encontrar, novamente, na biblioteca da Fera.

Ela estava de novo vestindo seu pijama; a vela ainda em sua mão. E seu coração já estava voltando ao normal, embora ainda sentisse medo.

Por que foi tão difícil voltar ao castelo da Fera dessa vez?, ela se perguntou.

A vegetação densa, as raízes e os ramos que pareciam apertá-la… Ela sentiu como se Nunca Mais quisesse mantê-la do outro lado.

Lucanos havia lhe dito que ela estava se alimentando de mentiras. Ele estaria certo? Será que ela deveria ter cuidado com Nunca Mais?

Bela balançou a cabeça, convencida de que estava simplesmente sendo vencida pelo cansaço.

Certamente a condessa teria me dito se houvesse algo a temer na história, pensou. Aliás, por que eu deveria dar ouvidos a um besouro? Ele provavelmente está tão louco quanto a sua dona.

A condessa estava certa. A vida podia ser difícil. E solitária também.

Confusa, às vezes. Frustrante. E, muitas vezes, a vida podia ser triste.

Mas Nunca Mais não era nenhuma dessas coisas. Lá tudo era lindo e fascinante. Inspirador. Surpreendente. Glamoroso e divertido.

A voz da condessa ecoou em sua memória… “Volte para cá assim que puder.”

– Eu vou voltar, condessa – Bela sussurrou para a escuridão. – Assim que eu puder…