• Nenhum resultado encontrado

CAPÍTULO XLII Do poder eclesiástico

CAPÍTULO XXVI Das leis civis

CAPÍTULO XLII Do poder eclesiástico

Para compreender o que é o poder eclesiástico, e a quem pertence, é preciso fazer uma separação no tempo desde a Ascensão de nosso Salvador, dividindo-o em duas partes: uma antes da conversão dos reis e homens possuidores do poder civil, e a outra depois de sua conversão. Pois demorou muito, depois da Ascensão, antes que qualquer rei ou soberano civil abraçasse e publicamente autorizasse o ensino da religião cristã.

Quanto a esse tempo intermediário, é manifesto que o poder eclesiástico pertencia aos apóstolos, e depois destes àqueles que haviam sido por eles ordenados para pregar o Evangelho e converter os homens ao cristianismo, assim como para guiar os convertidos no caminho da salvação. Depois destes, o poder foi por sua vez entregue aos que eles ordenaram, o que era feito mediante a imposição das mãos sobre os que eram ordenados, pelo que se significava a transmissão do Espírito Santo, ou Espírito de Deus, àqueles a quem ordenavam ministros de Deus, para ampliar seu reinado.

Assim, a imposição das mãos não era outra coisa senão o selo de sua missão de pregar a Cristo e ensinar sua doutrina, e a transmissão do Espírito Santo através dessa cerimônia da imposição das mãos era uma imitação do que havia feito Moisés. Porque Moisés usou a mesma cerimônia com seu ministro Josué, conforme lemos no Deuteronômio, 34,9: E Josué, filho de Nun, estava cheio do espírito da sabedoria, porque Moisés havia posto suas mãos sobre ele. Portanto, nosso Salvador, entre a Ressurreição e a Ascensão, deu seu Espírito aos apóstolos, primeiro soprando sobre eles e dizendo (Jo 20,22) recebei o Espirito Santo; e depois da Ascensão (At 2,2s) enviando sobre eles um poderoso vento, e afiadas línguas de fogo; e não pela imposição das mãos, tal como Deus não pôs suas mãos sobre Moisés; e seus apóstolos transmitiram depois o mesmo Espírito pela imposição das mãos, como Moisés fez com Josué. Fica por aqui manifesto com quem permaneceu continuamente o poder eclesiástico, naqueles primeiros tempos em que não havia qualquer Estado cristão: com os que receberam esse poder dos apóstolos, pela sucessiva imposição das mãos.

Temos portanto aqui a pessoa de Deus nascendo pela terceira vez. Pois tal como Moisés e os Sumos Sacerdotes eram os representantes de Deus no Antigo Testamento, e também nosso Salvador, na qualidade de homem, durante sua morada na terra, assim também o Espírito Santo, quer dizer, os apóstolos e seus sucessores, no encargo de pregar e de ensinar que receberam do Espírito Santo, tem desde então sido seu representante. Mas uma pessoa (conforme já mostrei, no capítulo 13) é aquele que é representado tantas vezes quantas for representado. Portanto Deus, que foi representado (isto é, personificado) três vezes, pode propriamente ser considerado como sendo três pessoas, embora nem a palavra pessoa nem a palavra trindade lhe sejam atribuídas na Bíblia. Sem dúvida São João diz (1 Jo 5,7): Existem três que dão testemunho no céu, o Pai, a Palavra e ,q Espírito Santo; e estes três são um só. Mas isto não entra em contradição, e concorda perfeitamente com a idéia de três pessoas na significação própria de pessoas, ou seja, os que são representados por outros. Pois Deus Pai, enquanto representado por Moisés, é uma pessoa, enquanto representado por seu Filho é outra pessoa, e enquanto representado pelos apóstolos, e pelos doutores que ensinavam pela autoridade deles recebida, é uma terceira pessoa; mas aqui cada uma destas pessoas é a pessoa de um e um só Deus. No entanto, poderia aqui perguntar-se do que é que esses três prestam testemunho. E São João diz-nos (versículo 11) que eles prestam testemunho de que Deus nos deu a vida eterna em seu Filho. Por outro lado, se perguntarem onde se manifesta esse testemunho, a resposta é fácil, pois ele é provado pelos milagres que Deus realizou, primeiro através de Moisés, depois através de seu próprio Filho, e por último através dos apóstolos, que haviam recebido o Espírito Santo; todos estes, em seu tempo, representaram a pessoa de Deus, e ou profetizaram ou pregaram a Jesus Cristo. Quanto aos apóstolos, era do caráter do apostolado, no caso dos doze primeiros e grandes apóstolos, prestar testemunho de sua ressurreição. 0 que aparece expresso no fato de São Pedro, quando ia ser escolhido um novo apóstolo para o lugar de Judas Iscariote, usar estas palavras (At 1,21 s): Destes homens que nos acompanharam todo o tempo que Jesus nosso Senhor esteve entre nós, desde o batismo de João, até ao próprio dia em que foi arrebatado de entre nós, deve ser ordenado um para conosco ser testemunha de sua ressurreição. Palavras que devem ser interpretadas como a prestação de testemunho de que fala São João. Na mesma passagem, vem referida uma outra trindade das testemunhas na terra. Pois ele diz (vers. 8) que há três que prestam testemunho na terra, o espírito, a água e o sangue, e estes três coincidem

em um só. Quer dizer, as graças do Espírito de Deus e os dois sacramentos, o batismo e a ceia do Senhor, todos os quais coincidem no testemunho, para garantir a vida eterna às consciências dos crentes, testemunho do qual ele disse (versículo 10): Aquele que crê no Filho do homem tem em si mesmo sua própria testemunha. Nesta trindade na terra, a unidade não é a da coisa, porque o espírito, a água e o sangue não são a mesma substância, embora dêem o mesmo testemunho. Mas na trindade do céu as pessoas são as pessoas de um só e mesmo Deus, embora representado em três momentos e ocasiões diferentes. Concluindo, e na medida em que tal pode ser diretamente tirado das Escrituras, a doutrina da trindade é em substância a seguinte: Deus, que é sempre um e o mesmo, foi a pessoa representada por Moisés, a pessoa representada por seu Filho encarnado, e a pessoa representada pelos apóstolos. Enquanto representado pelos apóstolos, o Espírito Santo pelo qual eles falavam é Deus; enquanto representado por seu Filho (que era Deus e homem), o Filho é esse Deus; enquanto representado por Moisés e pelos Sumos Sacerdotes, o Pai, quer dizer, o pai de nosso Senhor Jesus Cristo, é esse Deus. De onde podemos inferir a razão por que os nomes Pai, Filho e Espírito Santo, significando a divindade, nunca são usados no Antigo Testamento: porque são pessoas, isto é, recebem seus nomes do fato de representarem, o que só era possível depois de diversos homens terem representado a pessoa de Deus no governo ou direção de outros homens, sob sua autoridade.

Vemos assim como o poder eclesiástico foi transmitido aos apóstolos por nosso Salvador, e como eles foram (a fim de melhor poderem exercer esse poder) imbuídos do Espírito Santo, que portanto é às vezes chamado no Novo Testamento paracletus, que significa assistente, alguém chamado em ajuda, embora seja geralmente traduzido como consolador. Passemos agora a examinar o próprio poder, o que era e sobre quem era exercido.

0 Cardeal Belarmino, em sua terceira controvérsia geral, tratou um grande número de questões relativas ao poder eclesiástico do Papa de Roma, e começa com a seguinte: se ele deveria ser monárquico, aristocrático ou democrático. Sendo todas estas espécies de poder soberanas e coercitivas. Mas toda a disputa seria em vão, se se verificasse que não lhes foi deixado por nosso Salvador qualquer espécie de poder coercitivo, mas apenas o poder de proclamar o Reino de Cristo e de persuadir os homens a submeterem-se- lhe, e através de preceitos e bons conselhos ensinar aos que se submeteram o que devem fazer para serem recebidos no Reino de Deus quando ele chegar, e que os apóstolos e outros ministros do Evangelho são apenas nossos professores e não nossos comandantes, e que seus preceitos não são leis, mas apenas salutares conselhos.

Já mostrei (no capítulo anterior) que o Reino de Cristo não é deste mundo, portanto seus ministros não podem (a não ser que sejam reis) exigir obediência em seu nome. Pois se o rei supremo não tiver seu poder real neste mundo, por que autoridade pode ser exigida obediência a seus funcionários? Tal como meu Pai me enviou (assim disse nosso Salvador), assim também eu vos envio. Mas nosso Salvador foi enviado para persuadir os judeus a voltarem para o Reino de seu Pai. e os gentios a aceitarem-no, e não para reinar em majestade, nem tampouco como lugar-tenente de seu Pai, até ao dia do Juízo.

Q tempo que vai desde a Ascensão até à ressurreição geral não é chamado um reinado, e sim uma regeneração, isto é, uma preparação dos homens para a segunda e gloriosa vinda de Cristo, no dia do juízo. Como se vê pelas palavras de nosso Salvador (Mt 19,28): Pós que me seguistes na regeneração, quando o Filho do homem se sentar no trono de sua glória, também vós vos sentareis em doze tronos. E nas de São Paulo (Ef 6,15): Tendo vossos pés calçados com a preparação do Evangelho da paz.

O que é comparado por nosso Salvador com a pesca, isto é, com ganhar os homens para a obediência, não pela coerção e pela punição, mas pela persuasão; por isso ele não disse aos apóstolos que faria deles outros tantos Nemrods, ou caçadores de homens, e sim pescadores de homens. Também é comparado com a levedura, com a sementeira e com a multiplicação de uma semente de mostarda, comparação que exclui qualquer compulsão; não é portanto possível que nesse tempo haja um verdadeiro reinado. A obra dos ministros cristãos é a evangelização, isto é, a proclamação de Cristo e a preparação de sua segunda vinda; tal como a evangelização de São João Batista era uma preparação para a primeira vinda.

Por outro lado, a missão dos ministros de Cristo neste mundo é levar os homens a crer e ter fé em Cristo. Mas a % não tem qualquer relação ou dependência com a coerção e a autoridade, mas apenas com a certeza ou probabilidade de argumentos tirados da razão ou de alguma coisa em que já se acredita. Portanto, os ministros de Cristo neste mundo não recebem desse título qualquer poder para punir alguém por não acreditar ou por contradizer o que dizem, isto é, o título de ministros cristãos não lhes dá o poder de punir a esses. Mas se tiverem poder civil soberano, por instituição política, nesse caso podem sem dúvida legitimamente punir qualquer contradição de suas leis. E São Paulo disse expressamente, sobre si mesmo e os outros pregadores do Evangelho: Nós não temos domínio sobre vossa fé, somos os ajudantes de vossa alegria.

Uma outra prova de que os ministros de Cristo neste mundo não têm o direito de comandar pode ser inferida da autoridade legítima que Cristo conferiu a todos os príncipes, tanto os cristãos como os infiéis. Diz São Paulo (Cot 3,20): Os filhos obedecerão aos pais em todas as coisas, pois isso muito agrada ao Senhor. E no versículo 22: Os servos obedecerão a seus senhores de acordo com a carne, não trabalhando apenas debaixo de olho, para agradar-lhes, mas com simplicidade de coração, por temor a Deus. Isto se diz daqueles cujos senhores são infiéis, sendo mesmo assim obrigados a obedecer-lhes em todas as coisas. Por outro lado, a respeito da obediência aos príncipes (Rom 13, primeiros 6 versículos), São Paulo exorta a sujeitar-se aos altos poderes, dizendo que todo poder é ordenado por Deus, e que devemos sujeitar-nos a eles, não apenas por medo de incorrer em sua ira, mas também por imperativo da consciência. E São Pedro diz (1 Pdr 2,13ss): Submetei-vos a todas as ordens do homem, em nome do Senhor, quer seja para com o rei, como supremo, ou para com governadores, como aqueles que por ele foram enviados para castigar os malfeitores, e para louvar os que praticam o bem: porque é essa a vontade de Deus. E de novo São Paulo (Ti 3,1): Lembrai aos homens que se sujeitem aos príncipes e poderes, e obedeçam aos magistrados. Esses príncipes e poderes de que São Pedro e São Paulo falam aqui eram todos infiéis, logo, muito mais devemos nós obedecer aos que são cristãos, a quem Deus conferiu um poder soberano sobre nós. Nesse caso, como podemos ser obrigados a obedecer a qualquer ministro de Cristo, se ele nos ordenar que façamos alguma coisa contrária às ordens do rei, ou outro representante soberano do Estado de que somos membros, e pelo qual esperamos ser protegidos? Portanto, é manifesto que Cristo não deu qualquer autoridade para comandar os outros homens a seus ministros neste mundo, a não ser que eles estejam também investidos de autoridade civil.

Mas poderia objetar-se: e se um rei, ou um senado, ou qualquer outra pessoa soberana nos proibisse acreditar em Cristo? Ao que respondo que essa proibição não teria efeito algum, porque a crença e a descrença nunca seguem as ordens dos homens. A fé é uma dádiva de Deus, que o homem é incapaz de dar ou tirar por promessas de recompensa ou ameaças de tortura. Mas se além disso se perguntar: E se nos for ordenado por nosso príncipe legítimo que digamos com nossa boca que não acreditamos, devemos obedecer a essa ordem? A afirmação com a boca é apenas uma coisa externa, não mais do que qualquer outro gesto mediante o qual manifestamos nossa obediência; o que qualquer cristão, mantendo-se em seu coração firmemente fiel à fé de Cristo, tem a mesma liberdade de fazer que o profeta Eliseu concedeu a Naaman, o sírio. Naaman estava em seu coração convertido ao Deus de Israel, pois declarou (2 Rs 5,17): De ora em diante teu servo não fará oferendas ou sacrifícios a outros deuses senão ao Senhor. E nesta coisa o Senhor perdoa a seu servo, que quando meu amo vai à casa de Rimmon para o culto, e se apoia em minha mão, eu me inclino na casa de Rimmon; quando eu me inclino na casa de Rimmon, o Senhor perdoa a seu servo nesta coisa. 0 que o profeta aprovou, e lhe disse: dai em paz. Em seu coração, Naaman era crente; mas ao inclinar- se perante o ídolo Rimmon negava efetivamente o verdadeiro Deus tanto como se o houvesse feito com seus lábios. Mas nesse caso o que devemos responder ao que disse nosso Salvador, A quem me negar diante dos homens eu negarei diante de meu Pai que está no céu? Podemos dizer que tudo aquilo que um súdito, como era o caso de Naaman, é obrigada a fazer em obediência a seu soberano, desde que o não faça segundo seu próprio espírito, mas segundo as leis de seu país, não é uma ação propriamente sua, e sim de seu soberano; e neste caso não é ele quem nega Cristo perante os homens, mas seu governante e as leis de seu país. E se alguém acusar esta doutrina de incompatibilidade com o verdadeiro e autêntico cristianismo, perguntar-lhe-ei, se acaso houver em qualquer Estado cristão um súdito que intimamente em seu coração seja da religião maometana, a quem seu soberano ordene que esteja presente no serviço divino da Igreja cristã, e isso sob pena de morte, se nesse caso ele pensa que esse maometano é em sã consciência obrigado a sofrer a morte por essa causa, em vez de obedecer às ordens de seu príncipe legítimo. Se ele disser que é melhor sofrer a morte, estará autorizando todos os particulares a desobedecerem a seus príncipes em defesa de sua religião, seja esta verdadeira ou falsa; se disser que deve obedecer, estará permitindo a si mesmo aquilo que nega ao outro, contrariamente às palavras de nosso Salvador, Tudo o que quiseres que os outros te façam deves fazê-lo a eles; e contrariamente à lei de natureza (que é a indubitável e eterna lei de Deus) Não faças aos outros o que não queres que te façam a ti.

Mas então o que devemos dizer sobre aqueles mártires acerca dos quais lemos na história da Igreja? Que eles desperdiçaram inutilmente suas vidas? Para responder a isto é preciso estabelecer uma distinção quanto às pessoas que perderam a vida por esse motiva, das quais algumas receberam a vocação de pregar e professar abertamente o Reino de Cristo, enquanto outras não receberam essa vocação, nem lhes foi exigido nada mais além de sua própria fé. As da primeira espécie, caso lhes tenha sido dada a morte por prestarem testemunho sobre o fato de Jesus se ter erguida de entre os mortos, foram verdadeiros mártires. Porque um mártir, conforme a verdadeira definição da palavra, é uma testemunha da ressurreição de Jesus o Messias, papel que só pode ser desempenhado pelos que com ele conviveram na terra e o viram depois de assim se ter

erguido. Pois é preciso que uma testemunha tenha visto o que vai atestar, caso contrário seu testemunho não serve. E que só esses podem propriamente ser chamados mártires de Cristo fica manifesto nas palavras de São Pedro, Atos, 1,21s: Qualquer desses homens que nos tiver acompanhado todo o tempo em que Jesus nosso Senhor andou entre nós, desde o batismo de João até ao próprio dia em que nos foi arrebatado, deve ser ordenado como mártir (isto é, como testemunha) de sua ressurreição juntamente conosco. E aqui deve salientar-se que para ser testemunha da verdade da ressurreição de Cristo, quer dizer, da verdade deste artigo fundamental da religião cristã, que Jesus era o Cristo, é preciso ser-se um discípulo que tenha convivido com ele, e o tenha visto antes e depois de sua ressurreição. Portanto, é preciso ser-se um de seus discípulos originais, e os que tal não foram podem testemunhar apenas que seus antecessores o disseram, logo, não passam de testemunhas dos testemunhos de outrem, e são apenas mártires segundos, ou mártires das testemunhas de Cristo.

Aquele que, para sustentar qualquer doutrina que ele próprio tenha tirado da história da vida de nosso Salvador, e dos Atos ou Epístolas dos apóstolos, ou na qual acredite por aceitar a autoridade de um particular, se opuser às leis e à autoridade do Estado civil, está muito longe de ser um mártir de Cristo, ou um mártir de seus mártires. Há apenas um artigo que, se alguém morrer por ele, merece nome tão honroso; e esse artigo é que Jesus é o Cristo, quer dizer, que ele nos redimiu e que voltará para nos dar a salvação e a vida eterna em seu glorioso reino. Não se exige morrer por qualquer dogma que sirva a ambição ou as vantagens do clero, e não é a morte da testemunha, e sim o próprio testemunho que faz o mártir; porque a palavra significa simplesmente o homem que presta testemunho, quer seja ou não condenado à morte por causa desse testemunho.

E também aquele que não foi enviado para pregar este artigo fundamental, mas assume tal tarefa por sua própria autoridade pessoal, embora seja uma testemunha, e consequentemente um mártir, quer primariamente de Cristo, quer secundariamente de seus apóstolos, discípulos ou seus sucessores, não é obrigado a sofrer a morte por essa causa, pois não foi chamado a tal, e portanto tal não lhe é exigido; e também não deverá queixar-se, se perder a recompensa que espera de quem nunca lhe confiou tal missão. Portanto, não pode ser mártir, nem do primeiro nem do segundo grau, quem não tiver recebido autorização para pregar a Cristo regressado na carne, quer dizer, ninguém a não ser os que são enviados a converter os infiéis. Porque ninguém é testemunha para quem já acredita, e portanto não precisa de testemunhas, mas apenas para quem nega, ou duvida, ou de tal jamais ouviu falar. Cristo enviou seus apóstolos, assim como seus setenta discípulos, com autorização para pregar, não enviou todos os crentes. E enviouos aos incréus: Envio-vos (disse ele) como ovelhas entre os lobos; não como ovelhas entre outras ovelhas.

Por último, nenhum dos pontos de sua missão, conforme se encontram expressamente estabelecidos pelo Evangelho, implica qualquer espécie de autoridade sobre a congregação.

Temos em primeiro lugar (Mt 10) que os doze apóstolos foram enviados às ovelhas desgarradas da casa de Israel, e ordenou-se-lhes pregarem que o Reino de Deus estava próximo. Ora, em sentido original pregar é aquele ato que um pregoeiro ou um arauto, ou outro funcionário, costuma praticar publicamente ao proclamar um rei. E um pregoeiro não tem direito de comandar ninguém. Além disso, os setenta discípulos foram enviados (Lc 10,2) como lavradores, não como senhores da colheita; e eram obrigados (versículo 9) a dizer 0 Reino de Deus chegou até vós. Entende-se aqui por Reino, não o Reino da Graça, mas o Reino da Glória, pois eles eram obrigados a anunciar (vers. 11) àquelas cidades que recusavam recebê-los, como ameaça, que tal dia seria mais tolerável para Sodoma do que para uma tal cidade. Além disso, nosso Salvador disse a seus discípulos que procuravam prioridade de lugar (Mt 20,28) que sua missão era ajudar a vinda do