• Nenhum resultado encontrado

CAPÍTULO 3. O PRINCÍPIO DO “NÃO-CONFISCO” E SUA RELAÇÃO

3.3. Capacidade Contributiva

3.3.3. Capacidade contributiva, econômica e financeira

Portanto, respeitar a capacidade contributiva é levar em consideração aquilo que, nas palavras de ALIOMAR BALEEIRO, se trata do “...conjunto de condições objetivas e subjetivas que indiciam alguém como apto a suportar

472 Justiça Fiscal..., op. cit., p.31.

473 DERZI, Misabel Abreu Machado (coord). Construindo o Direito Tributário na Constituição: uma análise da obra do Ministro Carlos Mário Velloso. Belo Horizonte: Del Rey, 2004, p.113.

474 Em suas notas de atualização à obra de ALIOMAR BALEEIRO, a mesma autora se manifestou no sentido de que “Universalmente a igualdade é aceita como regra de tratamento igual de direitos e deveres dos cidadãos. Ora, o tributo é um dever cuja característica é ser econômica, patrimonial. O levar dinheiro aos cofres públicos. O que se posta é puramente que esse dever seja idêntico para todos e importe em sacrifício igual a todos os cidadãos... Ora, o critério básico, fundamental e mais importante (embora não seja o único), a partir do qual, no Direito Tributário, as pessoas podem compor uma mesma categoria essencial e merecer o mesmo tratamento, é o critério da capacidade contributiva. Ele operacionaliza efetivamente o princípio da igualdade no Direito Tributário. Sem ele, não há como aplicar o mais importante e nuclear direito fundamental, ao Direito Tributário: a igualdade”. (Limitações..., op. cit., p.536;

697).

uma parte na distribuição do custo dos serviços públicos”475. Ainda, nas palavras de JOSÉ EDUARDO SOARES DE MELO, em respeito ao princípio da capacidade contributiva o imposto “...tem que ser quantificado na medida exata em que possam ser suportados economicamente pelo contribuinte”476.

É importante destacar que, quando se trata de capacidade contributiva, os textos normativos (a exemplo do já mencionado art. 145, §1o, da CF/88), bem como a doutrina, comumente denominam este mesmo princípio de capacidade econômica. É o momento, portanto, de se tratar a respeito de três figuras que, a princípio, não se confundem, quais sejam: capacidade contributiva, capacidade econômica e capacidade financeira.

A capacidade contributiva, como já visto nos parágrafos anteriores, consiste numa determinação ao legislador para que se leve em conta as manifestações de riqueza e condições que a pessoa tem para contribuir com as despesas públicas, sem que isso implique na impossibilidade de o sujeito passivo desenvolver “...sua existência digna (art. 1º), sua livre iniciativa (art.

170, caput), o livre exercício de atividade econômica (art. 170, parágrafo único) e sua propriedade privada (arts. 5º, caput, e 170, II). O Poder Legislativo deve adotar decisões valorativas respeitando os bens e os direitos dos contribuintes”.477 É, vale repetir, “...la potencia económica del contribuyente”478, para, em cumprimento ao dever de solidariedade, contribuir com os gastos públicos.

Já capacidade econômica diz respeito à simples manifestação de riqueza por parte do indivíduo, seja pelo fato de possuir um bem (móvel ou imóvel), auferir renda (independentemente do seu valor) etc. Nas palavras de HUMBERTO EUSTÁQUIO CÉSAR MOTA FILHO, “...capacidade econômica é a aptidão, de ordem genérica, para produzir ou dispor de riqueza. Revela, ao menos, indícios de força econômica”479.

475 Ibidem, p.349.

476 Capacidade..., In: MARTINS, Ives Gandra da Silva (Coord.), Capacidade..., op. cit., p. 147.

477 ÁVILA, Humberto. Sistema Constitucional Tributário. 4. ed. São Paulo: Saraiva, 2010, p.370.

478 MOSCHETTI, Francesco. El principio..., op. cit., p.272.

479 MOTA FILHO, Humberto Eustáquio César. Introdução ao Princípio da Capacidade Contributiva. Rio de Janeiro: Forense, 2006, p.80.

Por fim, capacidade financeira nada mais é do que a condição que a pessoa tem de saldar suas dívidas, ou, nas palavras de MICAELA DOMINGUEZ DUTRA, a “xdisponibilidade para a liquidação de suas obrigações no tempo e forma contratados”480.

Da análise dos conceitos antes mencionados, verifica-se que uma pessoa pode ser detentora de capacidade econômica, o que não significa dizer que possuirá capacidade contributiva481. Nesse sentido, auferir um salário mínimo, ao mês, trata-se de um fato revelador de capacidade econômica, mas não de capacidade contributiva, já que, certamente, a totalidade desta riqueza será destinada para o financiamento das despesas necessárias para a existência digna do indivíduo e de sua família (é o chamado “mínimo existencial”, que será objeto de análise neste estudo).

Por outro lado, quem possuir capacidade contributiva deverá, necessariamente, manifestar capacidade econômica, pois a capacidade contributiva pressupõe a tributação de fatos que envolvam conteúdo econômico, ou que correspondam àquilo que ALFREDO AUGUSTO BECKER denominou de “Fatos-signos presuntivos de renda ou capital”482/483.

Finalmente, há que se destacar que o fato de o indivíduo possuir capacidade contributiva não significa dizer que possuirá capacidade financeira, pois, por exemplo, esta pessoa poderá auferir elevada renda mensal e, ao mesmo tempo, contrair dívidas mais elevadas ainda, de modo a não possuir condições financeiras para saldar os compromissos firmados com terceiros.

480 DUTRA, Micaela Dominguez. Capacidade Contributiva: análise dos direitos humanos e fundamentais. São Paulo: Saraiva, 2010, p.29.

481 HUMBERTO EUSTÁQUIO CÉSAR MOTA FILHO destaca que, conforme as lições de MISABEL DERZI, “...a capacidade econômica de contribuir às despesas do Estado ‘é aquela que se define após a dedução dos gastos necessários à aquisição, produção e manutenção da renda e do patrimônio, assim como do mínimo indispensável a uma existência digna para o contribuinte e sua família’”. (Introdução..., op. cit., p.80)

482 BECKER, Alfredo Augusto. Teoria Geral do Direito Tributário. 4.ed. São Paulo: Noeses, 2007, p.527.

483 FRANCESCO MOSCHETTI enfrentou a distinção existente entre capacidade contributiva e capacidade econômica. Confira-se as lições do autor: “...la capacidad contributiva, aun presuponiendo la capacidad económica, no coincide totalmente con ella. Si bien es cierto que no puede haber capacidad contributiva en ausencia de capacidad económica, también es cierto que pueden existir capacidades económicas no demostrativas de aptitud para la contribución.

... Un primer caso de no coincidencia entre los conceptos de capacidad económica y de capacidad contributiva se deduce de la exención del mínimo vital... . ... Capacidad contributiva no es, por tanto, toda manifestación de riqueza, sino sólo aquella potencia económica que debe juzgarse idónea para concurrir a los gastos públicos, a la luz de las fundamentales exigencias económicas y sociales acogidas en nuestra Constitución”. (El principio..., op. cit., p.276-277).

Pois bem. Infere-se da leitura do já mencionado §1o, do art. 145, da Constituição, que o constituinte originário utilizou a expressão “capacidade econômica”, ao invés de capacidade contributiva, do que se poderia extrair, a partir de uma leitura apressada, que a Carta Magna teria autorizado a tributação de fatos meramente econômicos, situação que possibilitaria, em tese, a tributação do mínimo existencial, ou seja, daquela parcela de riqueza não reveladora de capacidade contributiva.

Tal raciocínio, contudo, não procede.

No Brasil, as expressões “capacidade contributiva” e “capacidade econômica”, para fins de interpretação do art. 145, §1o, da Constituição, são equivalentes, pois a Carta Magna, ao fazer referência à capacidade econômica, determinou ao legislador o dever de levar em consideração as condições econômicas do sujeito passivo de suportar o ônus tributário484.

Nesse sentido, FERNANDO AURELIO ZILVETI destaca que

“...capacidade econômica do contribuinte é o mesmo que capacidade contributiva, envolvendo tanto as condições pessoais do contribuinte quanto a riqueza que possui, a fim de opor a obrigação de respeito a esse princípio”485, não sendo diverso o posicionamento de outros autores486, dentre os quais merece destaque ROQUE ANTÔNIO CARRAZZA, para quem:

...no Brasil, capacidade contributiva é o mesmo que capacidade econômica. Conquista do Estado Moderno, ajuda a realizar a justiça fiscal, porque tem por escopo fazer com que cada pessoa colabore com as despesas públicas na medida de suas possibilidades487.

484 Tanto é assim que a Constituição faculta confere à administração tributária, resguardados os direitos individuais e nos exatos contornos da lei, a faculdade para identificar “...o patrimônio, os rendimentos e as atividades econômicas do contribuinte” (§1o, art. 145, da CF/88).

485 ZILVETI, Fernando Aurelio. Princípios de Direito Tributário e a Capacidade Contributiva.

São Paulo: Quartier Latin, 2004, p.251.

486 Nesse sentido, MICAELA DOMINGUES DUTRA, valendo-se das lições de FERNANDO AURELIO ZILVETI e CARLOS ARAÚJO LEONETTI, assevera que “xnão cabe, dentro do direito brasileiro, distinguir tais expressões, devendo ser elas reputadas idênticas, já que é nítida, no espírito da Carta de 1988, a preocupação que o constituinte teve com a situação do contribuinte, a possibilidade de ele arcar ou não com o ônus tributário que lhe é imposto pelo Estado”. (Capacidade..., op. cit., p.29).

487 Curso..., op. cit., p.113.

Portanto, no Brasil, capacidade econômica, tal qual prevista no §1o, do art. 145, da Constituição, é sinônimo de capacidade contributiva, que, como bem observa REGINA HELENA COSTA, possui conceito capaz de “...ser compreendido em dois sentidos distintos”, quais sejam, “...capacidade contributiva absoluta ou objetiva...” e “...capacidade contributiva relativa ou subjetiva”488.