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CAPÍTULO 2. NATUREZA JURÍDICA DA NORMA QUE PROÍBE A

2.3. Os princípios jurídicos

O termo princípio comporta não apenas uma, mas várias significações, que, de acordo com PAULO DE BARROS CARVALHO, “...podem variar segundo os valores da sociedade num dado intervalo da sua história”247.

Em seu sentido comum, a palavra em questão designa a ideia de início, começo, ponto de partida etc. De acordo com HELENO TAVEIRA TÔRRES, “O conceito de princípio sempre esteve ligado à noção de origem ou fonte primeira, mas também às essencialidades típicas da ontologia e da metafísica”, destacando, o autor, com base nas lições de RODOLFO VIGO, que:

Em uma etimologia da palavra “princípio”, esta vem de principium, proveniente de princeps, que significa o primeiro que recebe algo. Aristóteles, na Metafísica, qualificou os princípios como pontos de partida de uma coisa, do que se faz ou do que se conhece. Mais tarde, São Tomás de Aquino assim o definiu: Principium est id a quo aliquid procedit quocumque modo ... Foi com esse sentido originário que os direitos humanos naturais (originários) passaram a ser qualificados como “princípios do direito”, como ponto de partida (afinal, eram valores absolutos que subordinavam toda a ordem jurídica) de onde todos os direitos decorriam. Ontologicamente, essa “origem” detinha um sentido de fonte dos direitos248.

MIGUEL REALE, ao tratar a respeito dos princípios, os considera como:

...verdades ou juízos fundamentais, que servem de alicerce ou de garantia de certeza a um conjunto de juízos, ordenados em um sistema de conceitos relativos a dada porção da realidade.

Às vezes também se denominam princípios certas proposições que, apesar de não serem evidentes ou resultantes de evidências, são assumidas como fundantes de validez de um sistema particular de conhecimentos, como seus pressupostos necessários249.

247 CARVALHO, Paulo de Barros. Direito Tributário, Linguagem e Método. São Paulo:

Noeses, 2008, p.256.

248 Direito Constitucional..., op. cit., p.519.

249 REALE, Miguel. Introdução à Filosofia. 3.ed. São Paulo: Saraiva, 1994, p.46.

Passando-se ao plano jurídico, verifica-se que o sistema do direito positivo é composto por diversas normas, dentre as quais se encontram os princípios jurídicos, que passaram a ter o indubitável caráter normativo com o advento da fase pós-positivista250.

Portanto, princípio é norma, como já sustentava ZELIO CRISAFULLI, em obra publicada em 1952:

Princípio é, com efeito, toda norma jurídica, enquanto considerada como determinante de uma ou de muitas outras subordinadas, que a pressupõem, desenvolvendo e especificando ulteriormente o preceito em direções mais particulares (menos gerais), das quais determinam, e portanto resumem, potencialmente, o conteúdo: sejam, pois, estas efetivamente postas, sejam, ao contrário, apenas dedutíveis do respectivo princípio geral que as contém251.

Contudo, qual é o verdadeiro conteúdo jurídico de um princípio? A proibição aos efeitos de confisco é, efetivamente, um princípio? A resposta a estes questionamentos demandam a análise acerca das espécies de normas previstas no sistema do direito positivo. Fala-se, aqui, dos princípios e das regras.

Antes, porém, de se tratar a respeito desta distinção, é pertinente destacar que os textos jurídicos não diferenciam os enunciados em princípios e regras. Isso porque, estas duas figuras são, como já dito, espécies do gênero norma jurídica, que, por sua vez, é resultado da interpretação dos textos do direito positivo.

250 Segundo PAULO BONAVIDES, a questão que envolve a juridicidade dos princípios passa por três fases distintas: a primeira, jusnaturalista; a segunda, positivista; e a terceira, pós-positivista. Na fase jusnaturalista, “...os princípios habitam ainda esfera por inteiro abstrata e sua normatividade, basicamente nula e duvidosa, contrasta com o reconhecimento de sua dimensão ético-valorativa de idéia que inspira os postulados de justiça”. Já na fase positivista, verifica-se a entrada dos princípios nos Códigos como uma espécie de fonte normativa subsidiária, ou secundária, serviriam primordialmente para garantir a eficácia da lei, preenchendo as lacunas que esta eventualmente apresentasse. Nesse sentido, PAULO BONAVIDES, valendo-se das lições de GORDILLO CAÑAS, assevera que, nesta fase, “...os princípios entram nos Códigos unicamente como ‘válvula de segurança’, e não como algo que se sobrepusesse à lei, ou lhe fosse anterior, senão que, extraídos da mesma, foram ali introduzidos ‘para estender sua eficácia de modo a impedir o vazio normativo’”. É na terceira fase, que corresponde ao pós-positivismo, que os princípios passaram a ser tratados com o sentido que conhecemos hoje. A partir das últimas décadas do século XX “As novas Constituições promulgadas acentuam a hegemonia axiológica dos princípios, convertidos em pedestal normativo sobre o qual assenta todo o edifício dos novos sistemas constitucionais”.

(BONAVIDES, Paulo. Curso de Direito Constitucional. 20.ed. São Paulo: Malheiros, 2007, p.259; 262; 264).

251 Apud Ibidem, p.257.

Assim, enquanto que o texto do direito positivo, contido nos artigos, incisos e parágrafos das leis (aqui considerado o termo em seu sentido amplo), é produto da atividade do legislador, a norma jurídica é produto de um processo de interpretação destes textos legais.

A diferença entre texto e norma é tratada por PAULO DE BARROS CARVALHO. Confira-se:

A norma jurídica é a significação que obtemos a partir da leitura dos textos do direito positivo. Trata-se de algo que se produz em nossa mente, como resultado da percepção do mundo exterior, captado pelos sentidos. Vejo os símbolos linguísticos marcados no papel, bem como ouço a mensagem sonora que me é dirigida pelo emissor da ordem. Esse ato de apreensão sensorial propicia outro, no qual associo ideias ou noções para formar um juízo, que se apresenta, finalmente, como proposição.

...

A proposição aparece como o enunciado de um juízo, da mesma maneira que o termo expressa uma ideia ou noção.

A norma jurídica é exatamente o juízo (ou pensamento) que a leitura do texto provoca em nosso espírito252.

Portanto, se norma jurídica, seja princípio ou regra, nada mais é do que um juízo de significação acerca da leitura dos textos do direito positivo, nada obsta que de um ou mais textos de lei sejam extraídas normas jurídicas diferentes. Tudo irá depender, em verdade, dos valores e noções levados em conta pelo intérprete quando da leitura de um ou mais textos do direito positivo253.

Isso significa dizer que a proibição aos efeitos de confisco pode ser caracterizada, por alguns, como princípio, e por outros, como regra? A resposta é positiva! Tudo irá depender, como já dito, das noções e ideias que o intérprete tiver das mensagens consignadas textualmente pelo legislador.

252 Curso..., op. cit., p.40.

253 Nesse sentido, PAULO DE BARROS CARVALHO destaca que: “...um único texto pode originar significações diferentes, consoante as diversas noções que o sujeito cognoscente tenha dos termos empregados pelo legislador. Ao enunciar os juízos, expedindo as respectivas proposições, ficarão registradas as discrepâncias de entendimento dos sujeitos, a propósito dos termos utilizados”. (Curso..., op. cit., p.40).