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CAPÍTULO 2. NATUREZA JURÍDICA DA NORMA QUE PROÍBE A

2.5. Princípio como valor e como limite objetivo

Conforme os ensinamentos de PAULO DE BARROS CARVALHO, o termo “princípio” designa tanto a ideia de valor como de limite objetivo.

O valor trata-se de um dado axiológico presente em toda e qualquer espécie de norma pertencente a determinado sistema jurídico. De fato, “Sendo objeto do mundo da cultura, o direito e, mais particularmente, as normas jurídicas estão sempre impregnadas de valor”318.

Tendo em vista que norma nada mais é do que resultado de um processo de interpretação dos textos legais, e que “Os valores estão no homem e são condicionados por suas experiências”319, todas as normas vêm carregadas de algum valor. E mais, além de carregadas de valor, as normas também existem para concretizar certos valores, razão pela qual correta é a

316 Teoria..., op. cit., p.144.

317 Idem.

318 Curso..., op. cit., p.191.

319 CARVALHO, Aurora Tomazini de. Curso..., op. cit., p.268.

observação de FABIO BRUN GOLDSCHMIDT, quando afirma ser

“...verdadeiramente impossível pretendermos cogitar de uma disposição legal que não tenha por fim proteger alguma espécie de valor consagrado no seio da respectiva sociedade”320.

A ideia que se pretende demonstrar foi bem sintetizada por AURORA TOMAZINI DE CARVALHO:

O legislador produz os enunciados prescritivos atribuindo valores a certos símbolos e faz isto visando a implementação de outros valores. O intérprete se depara com todo aquele conjunto de enunciados prescritivos, desprovidos de qualquer valor, mas indicativos da existência de uma valoração por parte do legislador, passa a interpretá-los, adjudicando valores aos símbolos positivados e, com isso, vai construindo seu sentido para concretizar certos valores, que segundo sua construção, o legislador quis implementar. Há valoração para todos os lados, para produzir o direito, para compreendê-lo e para aplicá-lo321.

Há que se destacar, todavia, que, no momento de criação da norma, existirão enunciados que terão, em si, uma elevada carga de valores, direcionados a determinados fins e interesses caros à sociedade (como, por exemplo, os fins valiosos relacionados à ideia de Justiça). Quando estes valores, aqui considerados como um conjunto de diretrizes e recomendações expressados em normas de caráter vinculante, estiverem “...posicionados em diplomas hierarquicamente privilegiados e dotados de elevado grau de abstração, que denote função retórica, mas, ao mesmo tempo, normogenética...”322, estar-se-á, conforme PAULO DE BARROS CARVALHO, diante de princípios como valor, ou “...‘normas jurídicas’ carregadas de forte conotação axiológica. É o nome que se dá a regras do direito positivo que introduzem valores relevantes para o sistema, influindo vigorosamente sobre a orientação de setores da ordem jurídica”323.

Já se demonstrou neste estudo que, para alguns autores (por exemplo, CANARIS), um dos critérios de distinção entre princípios e regras diz respeito

320 O princípio..., op. cit., p.79.

321 Curso..., op. cit., p.269.

322 GOLDSCHMIDT, Fabio Brun. O princípio..., op. cit., p.82.

323 Direito Tributário..., op. cit., p.252.

justamente ao valor, razão pela qual pode-se dizer, também, que a norma mencionada no parágrafo anterior diz respeito a princípio, e não regra.

Os valores podem ser identificados pela presença das seguintes características, assim relacionadas por MIGUEL REALE: (i) bipolaridade: todo o valor se contrapõe a um desvalor (por exemplo, o valor justo se contrapõe ao desvalor injusto); (ii) implicação: todo o valor implica realização de outros valores (como o valor bom implica realização do valor justo); (iii) referibilidade:

qualquer valor implica necessidade de que a respeito dele o homem se posicione; (iv) preferibilidade: todo o valor aponta para uma direção determinada, que pode ser considerada como o resultado da preferência do homem sobre alguns valores, atribuídos a um objeto, com relação a outros; (v) incomensurabilidade: os valores não podem ser mensurados, ou seja, não há que se falar em exata medida para os valores; (vi) graduação hierárquica: a preferência que o homem manifesta sobre os valores concretizam uma tendência de formação de uma ordem hierárquica, com o alojamento dos valores mais caros num patamar superior àqueles reputados de menor importância; (vii) objetividade: é sobre os objetos, reais ou ideais, que o homem agrega os valores, não sendo possível a revelação de um valor sem a presença destes “suportes”; (viii) historicidade: a construção dos valores está intimamente relacionada com a trajetória da vida humana, não sendo possível, portanto, compreender-se um valor desagregado da experiência histórica; e (ix) inexaurabilidade: os valores transcendem ao objeto a que se referem, de modo que um valor sempre se manifestará sobre não apenas um, mas diversos bens dos mais diversos setores de uma sociedade324.

PAULO DE BARROS CARVALHO acrescenta mais três aspectos que, na sua visão, teriam o condão de auxiliar na identificação dos valores, e que serão mencionados em sequência com relação aos itens anteriores: (x) atributividade: está relacionada com a situação de preferibilidade dos valores e a ausência do caráter de indiferença do homem em relação ao objeto, de modo a caracterizar-se por “...uma relação entre o agente do conhecimento e o objeto, tal que o sujeito, movido por uma necessidade, não se comporta com indiferença, atribuindo-lhe qualidades positivas ou negativas” 325 ; (xi)

324 REALE, Miguel. Filosofia do Direito. 2.ed. São Paulo: Saraiva, 1969, p.171.

325 Curso..., op. cit., p.194.

indefinibilidade: os valores são indefiníveis, “...na medida em que não têm gênero próximo, ou seja, nenhuma ideia os antecede”326; e (xii) vocação para expressar-se em termos normativos: os valores possuem uma tendência de se exteriorizarem na forma de norma; “E não poderia ser diferente, pois logo que falamos em justiça, em segurança jurídica, em igualdade vem à mente do exegeta aquela ideia de que todos devem cumprir com a justiça, a segurança jurídica, a igualdade etc”327.

Na construção de um princípio, portanto, deve o intérprete levar em conta os aspectos acima relacionados, pois há íntima relação entre esta espécie normativa e os valores.

Sobre este vínculo existente entre princípio e valor, merecem destaque as lições de ALEXY:

Duas considerações fazem com que seja facilmente perceptível que princípios e valores estão intimamente relacionados: de um lado, é possível falar tanto de uma colisão e de um sopesamento entre princípios quanto de uma colisão e de um sopesamento entre valores; de outro lado, a realização gradual dos princípios corresponde à realização gradual dos valores328.

Contudo, disso não se pode concluir que princípio e valor digam respeito à mesma coisa. Há que se levar em conta um relevante aspecto que, por si só, é suficiente para distinguir estas duas figuras: os conceitos axiológicos, que dizem respeito aos valores, são caracterizados não pelo conceito básico de “dever”, ou de “dever-ser”, mas sim pelo conceito de bom;

por outro lado, os princípios, como mandamentos que são, fazem parte do âmbito deontológico.

Por este motivo é que ALEXY destaca que:

A diferença entre princípios e valores é reduzida, assim, a um ponto. Aquilo que, no modelo de valores, é prima facie o melhor é, no modelo dos princípios, prima facie devido; e aquilo que é, no modelo de valores, definitivamente melhor é, no modelo de princípios, definitivamente devido. Princípios e valores diferenciam-se, portanto, somente em virtude de seu

326 Ibidem, p.194.

327 Ibidem, p.195.

328 Teoria..., op. cit., p.144.

caráter deontológico, no primeiro caso, e axiológico, no segundo329.

Portanto, princípios e valores são figuras afins; contudo, não se confundem.

Já no que diz respeito aos “limites objetivos”, a construção dos enunciados se torna tarefa muito mais simples, não havendo que se levar em conta todos os aspectos relacionados à identificação dos valores que estão relacionados a um princípio como valor. Isso implica dizer que os limites objetivos, que se equiparam às regras para os autores que trabalham na distinção desta figura com os princípios, (por exemplo, DWORKIN, ALEXY, CANOTILHO etc.), são passíveis de reconhecimento imediato.

Nesse sentido, PAULO DE BARROS CARVALHO destaca que os primados da anterioridade e da legalidade seriam verdadeiros limites objetivos.

Confira-se as lições do autor:

A diretriz da anterioridade, com toda a força de sua presença na sistemática impositiva brasileira, é um “limite objetivo”. Sua comprovação em linguagem competente (a linguagem das provas admitidas em direito) é de uma simplicidade franciscana: basta exibir o documento oficial relativo ao veículo que introduziu normas jurídicas no sistema do direito positivo, com a comprovação do momento em que se tornou de conhecimento público, e poderemos saber, imediatamente, se houve ou não respeito à anterioridade. E, por igual, a legalidade. Se o tributo foi introduzido por ato infralegal, o que se prova com facilidade, ficaremos seguros de que o princípio foi violado330.

Contudo, é importante relembrar que toda e qualquer norma está carregada de uma certa dose de valores. Não há como negar que inclusive as regras, ou, na concepção de PAULO DE BARROS CARVALHO, os limites objetivos, também estão relacionados com os valores.

A questão primordial, aqui, é considerar que, no caso dos limites objetivos, os valores correspondem justamente aos fins por eles pretendidos.

Os valores, neste caso, não estão relacionados diretamente com as regras (ou

329 Ibidem, p.153.

330 Curso..., op. cit., p.196.

limites), mas, sim, com as finalidades relacionadas à referida norma, que estará, sempre, em busca da satisfação de certos interesses331.

Portanto, os limites existem para atingir metas, finalidades, sendo que estas, sim, apresentam-se como valores. Assim, pode-se dizer que o limite objetivo da anterioridade, muito embora não se trate de um valor em si mesmo, tem a finalidade de atingir valores relevantes à sociedade, como, por exemplo, a segurança jurídica. Neste ponto, oportunas são as lições de PAULO DE BARROS CARVALHO: “...os ‘limites objetivos’ são postos para atingir certas metas, certos fins. Estes, sim, assumem o porte de valores. Aqueles limites não são valores, se os considerarmos em si mesmos, mas voltam-se para realizar valores, de forma indireta, mediata”332.

2.6. Sobre a natureza da norma que proíbe a utilização de tributo com