3.6 Capacidades das FDS para responder às ameaças internas e externas (1975-1992)
3.6.2 CAPACIDADE MATERIAL DAS FDS DE MOÇAMBIQUE PARA
Quanto à capacidade bélica, de acordo com a Air Force Magazine (1984), as Forças de Defesa e Segurança de Moçambique possuíam, no período que compreende a Guerra Civil, os seguintes equipamentos (materiais) militares: 630 veículos diversos de combate; cerca de 10590 armas diversas de combate;aproximadamente 27 aviões diversos da Força Aérea; e mais ou menos 14 embarcações alocadas à Marinha, de acordo com o quadro 3.
Esses são números oficialmente registrados, mas sem dúvida o número de armamentos oscilou para mais ou para menos – por um lado, através de armamentos de adquiridos de inimigos capturados ou mortos na guerra, e por outro, armamentos adquiridos de forma não oficial (clandestinamente).
Quadro 3 - Capacidade bélica das FDS de Moçambique para responder às ameaças internas e externas
(1975-1992) Área Militar Tipo de Material Bélico
Quantidade Descrição País de
fabricação
Exército
T-34 195 Tanque de guerra União Soviética
T-54/-55
MBT 90 Tanque de guerra União Soviética
BRDM-1/-
2 35
Veículo de combate
patrulha/reconhecimento, também conhecido como anfíbio
União Soviética
BTR-60/-
152 APC 200 Blindados de transporte de tropas União Soviética M-1942
76mm 250 Canhão ou arma de campo Rússia
M-1945 85
mm 110 Arma antiaérea União Soviética
AKM 9200 Fuzil ou espingarda de assalto de
calibre 7.62x39 mm União Soviética
M-1955
152 mm 90
Peça de artilharia carregada e rebocada manualmente, também
conhecida como D-20
União Soviética
M-1938-63
122 mm 20 Arma/obus de campo União Soviética
LM-1946/- 1954 130
mm
25 Armas/obus de campo União Soviética
M-101 105
mm 30
Obus desenvolvido pelos Estados Unidos durante a Segunda Guerra
Mundial
Fonte: Adaptado a partir de Air Force Magazine (1984).
BM-21 122 mm
MRL
15 Veículo lançador múltiplo de foguete
325 Morteiros de 60 mm, 82 mm e
120 mm União Soviética
SAGGER
ATGW 55
Comando manual para sistema de míssil antiataque guiado por fio
de linha de visão (MOCLOS)
União Soviética
SA-3 30 Sistemas de lançamento de
mísseis terra-ar União Soviética
AS-7 40 Míssil superfície-aéreo
10-SA-8
SAM 65
Veículo blindado de defesa antiaérea armado com potentes
mísseis terra-ar ZU-23 23 mm, 37 mm, 57 mm e 20 mm
300 Canhão automático antiaéreo União Soviética
ZSU-23-4 18 Veículo blindado de artilharia
antiaérea autopropulsada União Soviética
SP-AA 12
Veículo antiaérea ou arma antiaérea autopropulsada ou ainda
sistema de defesa antiaérea autopropulsada
União Soviética
B-10
82mm 42 Canhão ou rifle sem recuo
B-10
107mm 75 Canhão ou rifle sem recuo
Força Aérea
FGA sqns com 35 MIG-17
03 Avião de caça União Soviética
hel sqn with 4 MI-
8
01 Helicóptero de transporte civil, militar ou de carga TPT sqn
com 1 tu- 134
01 Avião civil e de uso militar União Soviética
an-26. 6 noratias, cessna182 08 Avionetas monomotores de quatro lugares TRG ac: l- 39 04
Caça bombardeio, avião de
treinamento União Soviética
L-39 07 Caça de ataque
Quanto à Marinha, o material disponível era de aproximadamente 14 embarcações de patrulha costeira. Estas embarcações estavam divididas em cinco bases da Marinha, encontradas na capital do país, Maputo, em Beira, em Nacala Porto, em Pemba e em Metangula (AIR FORCE MAGAZINE, 1984).
Como podemos ver, quase 100% das armas e do material bélico moçambicano nesse período eram de fabricação soviética. Essas armas eram fornecidas diretamente pela URSS ou pela China, países do bloco socialista, ou através da OUA. Os dados reforçam a tese de que, durante a luta armada de libertação de Moçambique,assim como na Guerra Civil,o país teve forte apoio dos países do bloco socialista, assim como apoio direto da URSS.
Através dos dados, percebe-se que as FDS de Moçambique estavam minimamente armadas graças a esse apoio externo dos países socialistas, o que fazia com que a sua política de defesa e segurança se desencadeasse sem tréguas. Apesar da Guerra Civil entre o governo da FRELIMO e as forças insurgentes da RENAMO não ter sido resolvida por vias armadas, a capacidade bélica do exército governamental até certo ponto constituía uma ameaça aos seus inimigos, sejam internos assim como externos (ENTREVISTADO B). Com o fim da Guerra Fria em 1989 e o subsequente desaparecimento da União Soviética, foram definitivamente retiradas as condições globais que encorajaram a oferta maciça de armamentos para a África. Desta forma, a importação de armas para a África caiu instantaneamente, e os Estados africanos não possuíam recursos financeiros para comprar armas no novo modelo de comércio que se seguiu. Moçambique também sofreu no quesito armamento com a queda da União Soviética; apenas alguns Estados, notadamente o Sudão, conseguiram continuar importando armas para as quais não havia dinheiro, voltando-se a patronos do Oriente Médio e substituindo a ideologia política do marxismo-leninismo ou anticomunismo pela do Islã (CLAPHAM, 1996). Como se pode ver ao longo do texto, as Políticas de Defesa e Segurança de Moçambique estavam estritamente voltadas às ameaças internas, concretamente ao combate às forças insurgentes da RENAMO e à garantia de paz e estabilidade interna no país. Por outro lado, também havia um certo enfoque ao combate ao regime de minoria branca sul- africano, considerado como o braço apoiador da RENAMO na desestabilização de Moçambique. Para a efetivação dessas políticas de defesa e segurança, o governo da FRELIMO contou com o apoio de países vizinhos alinhados ao regime marxista-leninista (Linha de Frente) e com a ajuda de países do bloco leste (URSS, Cuba, Argélia e China). No nível tático-militar, o governo da FRELIMO privilegiou a colaboração estreita do povo na denúncia de ‟inimigos da pátria” e na proteção das aldeias comunais através de milicianos, que eram membros da povoação escolhidos pelo Partido para a proteger a si mesmos.
4 O ABANDONO DO SOCIALISMO E A ADESÃO AO CAPITALISMO: A CONCEPÇÃO DA POLÍTICA DE DEFESA E SEGURANÇA PÓS-GUERRA CIVIL E A CAPACIDADE DAS FDS DE MOÇAMBIQUE PARA ENFRENTAR AMEAÇAS INTERNAS E EXTERNAS (1992-2004)
Este capítulo centra-se no período do fim das hostilidades militares (Acordo Geral de Paz de 1992), passando pela nova formação das Forças de Defesa e Segurança de Moçambique (força que surgiu da combinação das Forças Populares de Libertação de Moçambique e das forças rebeldes da RENAMO) até a promulgação da Constituição da República de 2004. O capítulo trata também da nova concepção das políticas de defesa e segurança de Moçambiqueno pós-Guerra Civil, incluindo a Lei nº18/97 da Defesa Nacional e das Forças Armadas, a Lei nº17/97 de Política Nacional de Defesa e Segurança e a Constituição de 1990. Como variáveis de análise, o capítulo detalha as ameaças internas e externas no período compreendido entre 1992 e 2004 e a capacidade das FDS de responder a estas ameaças (efetivo de pessoal, material bélico e gastos em defesa e segurança).
4.1 O abandono da orientação marxista-leninista, o Acordo Geral de Paz e a