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TÓPICO 3 – A IMAGEM E SEMELHANÇA DE DEUS NO HOMEM

3.4 CAPACIDADE PARA A IMORTALIDADE DO HOMEM

Somente o ser humano é capaz de distinguir entre o certo e o errado, o bem e o mal. Um animal pode ser ensinado a diferenciar algumas coisas, como não comer bolinhos de carne atirados por estranhos, por exemplo, mas faz isso não porque saiba que aquilo é mau, mas porque é a vontade de seu domesticador. Porém, o homem possui um elemento que identifica a qualidade de seus pensamentos, palavras ou ações. E essa capacidade é chamada consciência, ou seja, o reconhecimento da comparação de sua conduta com a lei interior implantada por Deus.

Da mesma forma, a capacidade de racionalizar, comparar os fatos, para deles extrair novas lições ou conceitos, é algo que só pode ter origem numa mente superior. E como todo homem é fruto da mesma espécie, só se pode concluir sua origem em Deus.

Deus criou o homem para não morrer, visto ser a morte o “salário do pecado”. A existência da árvore da vida no Éden já é, por si só, uma prova de que isso seria uma realidade para a raça humana. Porém, a entrada do pecado no mundo subverteu a ordem das coisas, introduzindo algo na história do homem que não fazia parte do plano original do Criador. E esse elemento estranho é o que conhecemos por pecado, a maior catástrofe ocorrida com o homem.

UNIDADE 2 | DOUTRINA BÍBLICA DO HOMEM (ANTROPOLOGIA)

LEITURA COMPLEMENTAR

O LUGAR DA HUMANIDADE NA CRIAÇÃO

Alister McGrath A tradição cristã, partindo sobretudo dos relatos da criação registrados no livro de Gênesis, enfatiza que a humanidade representa o apogeu da criação de Deus, ocupando, assim, uma posição de superioridade em relação aos animais. De um modo geral, a justificativa teológica para essa premissa se baseia, em grande parte, na doutrina de que o ser humano foi criado à imagem de Deus, que passamos a analisar agora.

Um texto de importância fundamental para uma compreensão cristã a respeito da natureza humana está em Gênesis (1:27), que apresenta o ser humano como alguém criado à imagem e semelhança de Deus – uma ideia que muitas vezes se expressa por meio da expressão latina imago Dei. Qual o significado dessa locução? Especialmente no início do período patrística, fazia-se uma distinção entre as duas expressões: “à imagem de Deus” e “à semelhança de Deus”. Para Tertuliano, a humanidade continuou a refletir a imagem de Deus após a Queda; no entanto, só poderia ser, novamente, semelhante a Deus por meio da atividade restaurada do Espírito Santo.

Orígenes adotou uma abordagem parecida, argumentando que o termo “à imagem de Deus” refere-se à humanidade após a Queda, enquanto o termo “à semelhança de Deus” refere-se à natureza humana após seu aperfeiçoamento na consumação final.

Uma segunda abordagem, encontrada no período da patrística, interpreta “à imagem de Deus” como algo relacionado à razão humana. A “imagem de Deus” é entendida como a capacidade racional humana, que nesse ponto reflete a sabedoria de Deus. Agostinho defende que é esta capacidade que diferencia os seres humanos dos animais [...]. A tese de Agostinho apresenta-se no sentido de que o elemento característico central da natureza humana é sua capacidade, concedida por Deus, para ele se relacionar. Embora a natureza humana tenha sido corrompida pela queda, pode ser transformada pela graça.

A doutrina da criação à imagem de Deus também foi vista como algo diretamente relacionado à doutrina da redenção. A redenção implica trazer a imagem de Deus à sua plena realização, por meio de um perfeito relacionamento com Deus, culminando na imortalidade. [...] escritores gregos do período patriótico deram ênfase ao estado de plena felicidade em que Adão e Eva viviam no Jardim do Éden. Atanásio ensinou que Deus criou os seres humanos “à sua imagem” e, dessa forma, dotou a humanidade de uma capacidade que não foi concedida a nenhuma outra criatura – a capacidade de se relacionar e participar da perfeição no jardim do Éden, quando Adão desfrutou de um perfeito relacionamento com

TÓPICO 3 | A IMAGEM E SEMELHANÇA DE DEUS NO HOMEM Deveríamos, entretanto, observar que os escritores gregos do período patrística não expressaram esse aspecto por meio da doutrina do pecado original, como faria Agostinho mais tarde. Muitos desses escritores gregos insistiam no fato de que o pecado se originou do abuso do livre-arbítrio pelo ser humano. Gregório de Nazianzo e Gregório de Nissa pregaram que as crianças nasciam sem pecado, uma ideia que se opõe à doutrina do pecado universal de uma humanidade caída, formulada por Agostinho. Crisóstomo, referindo-se à declaração de Paulo, de que muitos foram feitos pecadores por intermédio da desobediência de Adão (Romanos, 5:10, interpreta que essa passagem significa que todos se tornaram sujeitos à punição e à morte. A ideia de uma culpa herdada, característica central da futura doutrina do pecado original de Agostinho não aparece, de forma alguma, na tradição grega do período patrística.

Entretanto, pode-se notar certos aspectos da noção do pecado original, posteriormente criada por Agostinho, nas obras desse período. O estudioso do período patrística da Universidade de Oxford, J. N. Kelly, identifica três áreas nas quais é possível verificar a presença da noção do “pecado original” na tradição grega do período patrística:

Entende-se que toda humanidade esteja envolvida, de alguma maneira, na desobediência de Adão. Um forte sentido da união mística de toda humanidade com Adão pode ser observado nas obras desse período. Toda humanidade é, de alguma forma, afetada pela desobediência de Adão.

Entende que a queda de Adão afeta o caráter moral do ser humano. Todas as deficiências morais do ser humano, inclusive a luxúria e a ignorância, podem ser atribuídas ao pecado de Adão.

Normalmente, apresenta-se o pecado de Adão como algo que é transmitido, de alguma maneira indefinida, à sua posteridade. Gregório de Nissa fala da existência de uma predisposição ao pecado que é inerente à natureza humana e que pode ser atribuída, pelo menos em parte, ao pecado de Adão.

FONTE: McGRATH, Alister. Teologia – Sistemática, histórica e filosófica. São Paulo: Shedd Publi- cações, 2005. p. 502-506.

DICAS

SUGESTÕES DE LEITURA

1. GAMA, Tácito. O Homem em Três Tempos. Rio de Janeiro: CPAD, 2000.

RESUMO DO TÓPICO 3

Neste tópico você estudou que:

 A passagem bíblica de Gênesis (1:26-27) deixa absolutamente claro que o homem foi criado por Deus, com uma biforme natureza: material e espiritual. O homem não veio à existência por si só, mas por Deus e com um fim especial na Terra.

 A Bíblia diz que o homem foi criado segundo à imagem e semelhança de Deus. Entendemos também que “imagem” e “semelhança” são termos sinônimos. Além dessa imagem ter vínculo afetivo, inclui também o domínio do homem sobre toda a criação. É ela que faz os seres humanos serem distintos dos animais.

 Com a queda e a entrada do pecado no mundo, esta imagem “perdeu” um pouco do seu brilho.

1 No entendimento de João Calvino, em que consiste a imagem de Deus no homem?

2 Como entender a capacidade de criação do homem, mesmo após ser corrompido pelo pecado?

UNIDADE 3

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