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4 ANÁLISE SOCIAL DA CADEIA DE VALOR

4.3 Sustentabilidade social da cadeia de valor

4.3.5 Capital social

A organização dos produtores de café permite-lhes não apenas regular as suas relações internas, como reforça a sua capacidade de negociação com o exterior de forma a facilitar, acelerar ou melhorar a sua integração no mercado e na sociedade em geral. O papel destas organizações sociais pode ser por isso muito relevante na organização da produção, na introdução de inovações técnicas que lhes permitam não só melhorar a produtividade, mas acrescentar valor ao produto (caso dos equipamentos de descasque e torrefação) e, em última análise, o aumento do rendimento das famílias e a melhoria da segurança alimentar. É, pois, um dos motores fundamentais desta cadeia de valor. A promoção do cooperativismo de produtores de café já existia nos anos que antecederam a independência (Projecto de Promoção Social de Cafeicultor Tradicional do Uíge) exercendo-se, contudo, de forma muito selectiva, assumindo o Estado colonial uma tutela consistente com a estrutura de governação colonial que coarctava a autonomia destas organizações (Baptista et al., 2012). Desde a independência que se promoveu o associativismo como forma de manter a ligação entre a estrutura dos produtores e a administração central. De acordo com um especialista nacional, houve demasiado "associativismo" promovido para facilitar o trabalho de quem quis distribuir meios e serviços nas zonas rurais, forçando os camponeses a juntarem-se em associações/cooperativas, o que deixou marcas negativas no movimento associativo e cooperativo. 8 No período 2002-2009 voltou a incentivar-se a constituição de cooperativas no sector do café, com um sentido de tornar mais equitativa a inclusão dos produtores mais frágeis na cadeia de valor (caso do Projecto PERLCA, Amboim, Gabela- Amboim, Cuanza Sul9). No entanto, durante as duas missões de campo a esta região, foi possível observar o actual enfraquecimento destas estruturas organizativas, contrariando essa visão optimista que a leitura de fontes documentais referentes ao final da primeira década deste século (Baptista et al., 2012) tinha antecipado (ver introdução metodológica). Ainda que existam cooperativas/associações percebe-se que foram implementadas ou pelas estruturas do Estado ou na sequência de projectos específicos de duração limitada, estando genericamente inactivas. Em conversa com os actuais líderes da cooperativa CESACOPA (projecto PERLCA), foi notório até que ponto ambicionam por novos financiamentos que lhes permita voltar a pôr de pé a estrutura associativa da região.

Em todos os focus groups houve um esforço, insistente, de identificar o papel actual de associações e cooperativas e as respostas foram recorrentemente que já não existem e que dependeram de iniciativas do Estado. Também, a justificação para a sua criação foi associada à obtenção de créditos e ao acesso a equipamentos, sendo desvalorizados os aspectos relativos ao seu funcionamento democrático, assim como à sua função social, enquanto grupos de representação no diálogo 8 Houve, contudo, algumas experiências recentes interessantes, promovidas por Organizações não Governamentais (ONG), e mais recentemente por projectos do Governo com financiamento internacional e apoio técnico da FAO, onde se apoiou realmente o associativismo e cooperativismo rural, mas que não tiveram o café como prioridade.

9 No âmbito dos estudos preliminares para a elaboração do PERLCA, foram identificadas como dificuldades para a comunidade de produtores o acesso ao crédito, à saúde e ao ensino, rede de comercialização deficitária e fraca assistência técnica, tendo sido previstas acções para minimizar os seus efeitos.

político ou de entre-ajuda. Este enfraquecimento das estruturas associativas relaciona-se por um lado com a dificuldade de acesso à terra para o cultivo de café e também, de acordo com a literatura consultada, (Pacheco, 2012) com falhas na ligação entre as acções do Estado /organizações não- governamentais e as chefias tradicionais O autor chama a atenção para a instrumentalização que possa ter sido feita por essas mesmas chefias tradicionais dos projectos que incentivaram a criação de associações. Por outro lado, e ainda de acordo com o mesmo autor, o associativismo em moldes “modernos” pôde constituir-se como uma forma de emancipação dos indivíduos das mesmas autoridades tradicionais, ficando, contudo, a sua autonomia limitada pelo Estado que as promovia. Os pequenos e médios proprietários de explorações de café, com quem contactámos nas missões de campo, referem a falta de incentivos do Estado para explicar a inércia das antigas associações e cooperativas que subsistem. (focus group com homens, proprietários de café, em Quitexe, Uíge). Referem-se à importância de estarem associados para garantirem ligações com comerciantes que lhes compram o café. Falando com estes comerciantes, compreendemos, contudo, até que ponto é do seu interesse que estas associações persistam, enquanto bases de informação, dado que as utilizam para contactarem individualmente os produtores associados, valorizando os que produzem um café de melhor qualidade, a quem propõem formas diferenciadas de negociação. 4.3.5.1 Força das organizações de produtores

As relações internas das comunidades rurais de pequenos e médios produtores de café, sobretudo nas regiões de maior produção, permitem garantir a continuidade das condições de produção e de reprodução das famílias, mesmos em períodos mais difíceis. No entanto, o acesso à posse da terra tem vindo a mover-se do tradicional sentido comunitário para uma visão mais individualista. À medida que o denominado direito específico de uso se foi consolidando, o conceito de terra comunitária foi-se diluindo e as chefias perderam, deste modo, progressivamente o controlo sobre os recursos naturais em geral. No caso da terra para a produção de café, a posse comunitária foi sendo progressivamente abandonada enquanto a restante terra acabou por ser privatizada de facto, embora não de jure, constituindo-se em direitos fundiários vitalícios. (Pacheco, 2012). Durante a missão de campo houve referências a baldios não como terras comunitárias, mas como terras abandonadas. Se nas relações internas das comunidades, as formas tradicionais de organização do espaço rural, pelas autoridades tradicionais, conseguiram manter até hoje algumas formas de entre-ajuda, já nas relações com o exterior, com o mercado e com a sociedade em geral, a sua experiência tem sido menor. A falta de cooperação, e mesmo de comunicação horizontal, observada junto dos proprietários das EFT, mas igualmente das ECT, encontra-se também noutros actores da cadeia de valor, tanto ao nível da comercialização como da transformação, apesar de identificarem dificuldades e estrangulamentos comuns ao desenvolvimento da sua actividade que beneficiariam se estivessem organizados em associações ou cooperativas. Mesmo os grandes produtores ECM dizem não comunicarem entre si. Haverá ainda situações de fragilidade e falta de confiança no que respeita a outros actores da CV como é o caso da interacção entre os investidores nacionais (exportadores/ importadores) e os grandes investidores estrangeiros com desigual acesso ao mercado internacional

4.3.5.2 Informação e confiança

Durante as duas missões, foi assim possível observar até que ponto as relações com o exterior são desiguais, apresentando-se as comunidades de pequenos e médios produtores familiares tradicionais (EFT), numa posição de fraqueza face ao maior poder, e melhor acesso à informação, dos produtores de maior dimensão que dominam não só as novas tecnologias de produção, como os circuitos comerciais chave. Os pequenos industriais, mais próximos dos produtores, são vistos por estes como agentes confiáveis (contudo estes mantêm com aquelas relações de clientelismo que não só acentuam a sua vulnerabilidade, como também limitam a sua autonomia e capacidade organizativa). Já a relação com entidades governamentais, como o INCA, nem sempre é encarada de forma positiva. Os EFT têm acesso a serviços disponibilizados pelo INCA, mas quanto a preços

4.3.5.3 Envolvimento social

As formas de entre-ajuda social que prevalecem, parecem sustentar-se sobretudo em relações familiares. Há mesmo quem refira que prefere associar-se à família para evitar conflitos (Quitexe – Uíge). Se ainda há vestígios de alguma entre-ajuda esta refere-se a processos produtivos. Os produtores juntam-se para realização de trabalhos específicos, mas não para a comercialização (caso da Cooperativa Vianense em Calulo).

4.3.5.4 Grupos, grupos solidários, associações e cooperativas de produtores

Os grupos de contacto têm sido, em geral, promovidos pelo Estado, ou por ONG, com a finalidade de facilitar a execução das suas acções e projectos de assistência humanitária, de extensão e de desenvolvimento (Baptista et al., 2012). Há ainda grupos solidários que têm como principal objectivo o acesso a crédito bancário. O crédito é individual, mas a responsabilidade é colectiva, facilitando assim as garantias necessárias para a sua concessão.