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Direito à terra e à água

4 ANÁLISE SOCIAL DA CADEIA DE VALOR

4.3 Sustentabilidade social da cadeia de valor

4.3.2 Direito à terra e à água

Os pequenos e médios produtores utilizam a terra de forma precária, pois não têm a garantia, através de títulos, dos seus direitos de propriedade, ou de uso, o que os deixa numa situação muito vulnerável. (Pacheco, 2012).

O enquadramento jurídico do direito à terra é até aos dias de hoje frágil, condicionando visões mais ambiciosas e a consolidação das situações existentes. Embora, do ponto de vista legal, os direitos consuetudinários sejam respeitados nos vários diplomas legais, a prática da concessão das terras nem sempre tem em consideração as populações rurais, existindo frequentemente situações de concessão de grandes áreas que incluem, no seu interior, populações que se vêem assim prejudicadas, ou mesmo impedidas de exercerem a sua actividade agrícola e/ou pecuária. Ainda que na primeira Constituição da República Popular de Angola, Lei Constitucional de Angola de 1975, sejam declarados propriedade do Estado os recursos naturais existentes no solo e subsolo, nunca existiu uma posterior e efectiva regulamentação sobre as condições de uso e aproveitamento das terras, tão pouco foi feita a nacionalização da terra, mantendo-se a situação dos terrenos que à data da independência já eram propriedade privada. Há quem descenda de proprietário do tempo colonial, havendo um reconhecimento natural da sucessão do/da herdeiro/a. As explorações herdadas são, em geral, do descendente que as explorar. No entanto, de acordo com um especialista nacional, esta situação nem sempre é consensual e é frequentemente fonte de conflitos entre herdeiros. Várias fazendas de café do período colonial foram abandonadas e têm vindo a ser ocupadas pelas comunidades que habitam na sua proximidade. Num ambiente em que o direito de propriedade e o direito de uso se confundem, e na ausência de regulamentação, as populações foram ocupando as terras que consideravam suas (Filho, 2017). Sucessiva legislação foi sendo aprovada, nomeadamente após o período de liberalização, no início da década de 90 do século passado, permanecendo, no entanto, o quadro jurídico e o aparelho institucional para a gestão de terras agrícolas desorganizados e desactualizados, o que permitiu “a ocorrência de atropelos, incoerências e sobreposições” (ADRA, 2004). O processo de revisão legislativo culminou na Lei de Terras de 2004 (Lei nº 9/04 de 9 de Novembro), seguida do Regulamento Geral de Concessão de Terrenos de 2007 (Decreto nº 58/07, de 13 de Julho), cuja linha orientadora foi ratificada pela Constituição de Angola de 2010, a que se seguiu a Política Nacional de Concessão de Direitos Sobre Terras (Decreto Presidencial nº 216/11, de 8 de Agosto). Complementarmente, a Lei de Ordenamento do Território e do Urbanismo (Lei nº 3/04 de 25 de Junho), prevê o direito à informação, garantindo a divulgação prévia dos planos territoriais e conferindo aos particulares o acesso às peças documentais dos mesmos. O Estado pode conceder direitos sobre os terrenos a diversas entidades públicas ou privadas existindo, no entanto, um conjunto de áreas consideradas “não concedíveis”, entre as quais se encontram as Terras Rurais Comunitárias, reconhecendo assim, entre outros, o domínio útil consuetudinário e o respeito pelos direitos fundiários das comunidades rurais. O quadro legal actual veio igualmente “conferir novo poder ao soba, na medida em que o processo para a obtenção de um título de terras começa na comunidade” (Pacheco, 2012). O processo de legalização é bastante burocrático e oneroso (pagamento pelos proprietários das terras de marcos de delimitação das terras e dos títulos de propriedade), não sendo seguido na sua totalidade pela maioria dos pequenos agricultores. Com o objectivo de agilizar e facilitar este processo, foi aprovada em 2018 e encontra-se em fase inicial de implementação a nível nacional um projecto designado Minha Terra (Despacho Presidencial 14/18 de 19 de Fevereiro), que pretende, num período de dois anos, “…promover o registo dos Terrenos Rurais a favor das Comunidades Locais.”

O acesso à água não constitui, de um modo geral, um problema, embora a sua qualidade nem sempre seja a melhor. As comunidades são quase todas servidas por cursos de água ou fontes com carácter permanente e localizados a uma distância aceitável. (ADRA 2004). De acordo com os participantes dos vários focus groups e com os informantes entrevistados, não se registam conflitos quanto ao uso da água. Tal parece dever-se também ao facto de a região onde existe café ser considerada uma “região privilegiada” do ponto de vista edafo-climático, não constituindo a água um factor restritivo. Existe legislação relativa à gestão dos recursos hídricos que procura "estabelecer um quadro regulamentar de utilização geral dos recursos hídricos, consentâneo com as exigências de governança da água, nas suas dimensões social, económica, ecológica, espacial e cultural" (Decreto Presidencial nº 81-14 de 21 de Abril), com atribuição de licenças para o uso da

como um dos custos intermédios mais elevados (ver análise económica deste relatório). A espécie de café canephora não depende tanto de irrigação como a arabica.

4.3.2.1 Adesão às VGGT (Direito à Terra)

As VGGT (Voluntary Guidelines on the Responsible Governance of Tenure) não se encontram divulgadas junto das entidades institucionais e das partes interessadas ligadas à CV do café contactadas, mas a legislação vai genericamente ao encontro destes princípios. As pessoas com responsabilidades nesta CV manifestaram a preocupação, por exemplo, relativamente ao respeito pelos direitos tradicionais. As autoridades locais (sobas) continuam a ser consideradas indispensáveis nas questões de direito à terra, sendo sempre o primeiro passo, embora por vezes o único, no sentido da legalização do direito de uso. São estes líderes tradicionais que atribuem a propriedade da terra a quem chega ou validam a dos habitantes da comunidade. Com esse reconhecimento, é possível certificar a sua posse junto das administrações municipais.

Os grandes investidores, produtores ECM, adquiriram as suas propriedades em resultado de processos passados de concessão de terras, alguns contemplando mesmo a coexistência de populações no seu interior (embora a situação legal desses “direitos” não tenha sido completamente esclarecida). Outros obtiveram as suas propriedades já ao abrigo da nova legislação fundiária de 2004 – Lei de Terras. Alguns destes investimentos recentes têm tido um impacte negativo nas comunidades que se encontravam dentro do seu perímetro, forçadas a deslocar-se e vendo o acesso às suas áreas de cultivo dificultado. A compensação que receberam é considerada muito insuficiente e sentem-se inseguras quanto à permanência no território que lhes foi destinado. Normalmente, trata-se de dar continuidade a “fazendas” do passado, em áreas com possibilidade de expansão ou de aquisição de áreas desocupadas. O poder atribuído às autoridades tradicionais (sobas) como intermediários nas situações de negociação, em particular as que envolvem a propriedade da terra, nem sempre resulta em benefícios para as comunidades. Alerta-se, no entanto, para o facto de na 2ª missão, tendo havido contacto com uma comunidade deslocada, ter sido possível verificar que, mesmo havendo legislação a seu favor, o soba não actuou de modo a garantir os direitos e o respeito pela vontade da comunidade e as entidades oficiais. De acordo com membros desta comunidade, o soba demitiu-se de cumprir o seu papel fiscalizador/regulador.

4.3.2.2 Transparência, participação e consulta

O contacto com as autoridades governamentais e da administração local e regional foi em geral fácil durante as duas missões. A informação solicitada foi disponibilizada de forma factual e crítica. Alguns documentos internos foram postos à disposição da equipa por dirigentes regionais do INCA que a acompanharam na região que coordenam. Detectou-se, contudo, falta de transparência na relação do INCA com os produtores quanto aos preços praticados e acesso aos circuitos de comercialização (como é referido na análise económica).

Os dirigentes do INCA e as administrações locais e regionais parecem ter um bom conhecimento da situação das populações que vivem sob a sua jurisdição e dos problemas que enfrentam (vertidas em relatórios a que a equipa teve acesso), mas já não tanto da dimensão das propriedades e quantidades produzidas.

As questões colocadas actualmente prendem-se com a regularização da situação legal de uso das terras, para as quais as comunidades rurais estão alertadas, reconhecendo, no entanto, a dificuldade em seguir todos os procedimentos, do que resulta ficarem muitas vezes com um título que não lhes confere plenos direitos. As autoridades tradicionais são sempre envolvidas quando os processos emanam das comunidades sob a sua autoridade. No entanto, essas mesmas autoridades são ultrapassadas no caso dos processos de concessão de grandes áreas, dependentes do poder central (Conselho de Ministros), situações em que por vezes chega a haver sobreposição de áreas para diferentes concessões. Estes processos, que não tomam em consideração as comunidades, geram situações de conflito cuja resolução passa por processos em tribunal, nem sempre favoráveis às comunidades locais.

4.3.2.3 Equidade, compensação e justiça

Segundo o direito consuetudinário, a cultura de plantas perenes, como é o caso do café, confere algum tipo de direito sobre a terra. Assim, as explorações que venham a alargar as suas áreas podem gerar problemas de acesso à terra dada a informalidade do sistema e a falta de regulação. Também a pressão para a produção de produtos alimentares é referida, esporadicamente, sobretudo nas regiões de maior densidade demográfica (caso de Gabela em Cuanza Sul) como podendo competir com a terra disponível para produção de café, levando por exemplo à desmatação para a preparação de novas lavras (conversa com Administrador de Gabela-Amboim, Cuanza Sul) com negativos impactes ambientais.