CAPÍTULO 2. Caracterização taxonômica e fisionômica do material foliar de duas acumulações de macro-restos vegetais do curso médio superior da bacia do Rio Mog
2. Materiais e métodos 1 Coleta de amostras
3.2. Características dos macro-restos vegetais
No Bloco B, o qual foi coletado na acumulação de macro-restos vegetais que foi depositada no período de 1957–1958, foram recuperadas um total de 1312 folhas/folíolos, que pertencem a 54 espécies, das quais somente 50 foram identificadas e as quatro restantes não foram atribuídas a táxons conhecidos, e tampouco sua morfologia permitiu a relação a um hábito específico (Apêndice 1). O 73.70% das folhas/folíolos que foram recuperadas neste bloco pertencem a três espécies (Tabela 5), e o restante 26.30% a 51 espécies (Apêndice 1). A maioria de todas as espécies identificadas neste bloco encontram-se associadas as famílias Bignoniaceae, Fabaceae e Sapindaceae (Tabela 6, Apêndice 1). Também podemos observar que 68% das especies identificadas são arbóreas, 30% trepadeiras e 2% arbustivas (Tabela 7, Apêndice 1).
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Por outro lado, no Bloco A, o qual foi coletado na acumulação de macro-restos vegetais que foi depositada no período de 2002–2007, foram recuperadas um total de1220 folhas/folíolos, que pertencem a 38 espécies, das quais somente 34 foram identificadas e as quatro restantes não foram atribuídas a táxons conhecidos, e tampouco sua morfologia permitiu a relação a um hábito específico (Apêndice 1). O 83.77% das folhas/folíolos que foram recuperadas neste bloco pertencem a duas espécies (Tabela 5), e o restante 16.23% a 36 espécies (Apêndice 1). A maioria das espécies identificadas neste bloco encontra se associadas as famílias Fabaceae e Sapindaceae (Tabela 6, Apêndice 1). Também podemos observar que 71% das espécies identificadas são arbóreas e o 29% restante são trepadeiras (Tabela 7, Apêndice 1).
3.3. Reconstrução da temperatura média anual (TMA) e da precipitação média anual (PMA)
As características fisionômicas do material foliar que está presente nos blocos coletados permitiram estimar a TMA e a PMA para o momento da sedimentação das acumulações de macro-restos vegetais (Tabela 7). Ao se comparar os valores obtidos para o período de 1957– 1958 com os registados para o Município Mogi Mirim durante o período de 1941–1970 (http://www.bdclima.cnpm.embrapa.br), se observa que se subestimou o valor real da TMA e da PMA (Tabela 7). Em contrapartida, quando comparamos os valores obtidos para o período de 2002–2007 com os registados para a Estação Ecológica de Mogi Guaçu durante o período de 1971–2010, se observa que se superestimou o valor real da TMA é se subestimou o valor real da PMA (Tabela 7).
3.4. Acumulação atual da serapilheira
Ao momento de analisar os resultados obtidos ao longo da floresta ripária da Estação Ecológica de Mogi Guaçu, deve-se considerar a variabilidade espacial e temporal, já que a disponibilidade de recursos humanos é limitada, impedindo o estabelecimento de um maior número de pontos de observação, bem como seu monitoramento por um longo período de tempo para obter valores que variam pouco em relação à média. As observações da acumulação da serapilheira não começaram ao mesmo tempo nos diferentes locais selecionados, portanto, os períodos variam e só são semelhantes para a Localidade II (Ponto 2.1), e Localidade III (Pontos 3.1 e 3.2). Também cabe ressaltar que no Ponto 1.1 (Localidade I), durante o período de Dezembro-Fevereiro, no Ponto 4.1 (Localidade IV), no período de Janeiro-Março, e no Ponto 4.2 (Localidade IV), nos períodos de Novembro-Janeiro, Janeiro-
Março e Setembro-Novembro, ocorreram alterações por parte dos animais que habitam na floresta.
Ao analisar a Fig. 3, e tendo em conta o anteriormente exposto, pode-se observar uma clara variação na acumulação das folhas da serapilheira ao longo de todo o ano. Pode-se observar claramente que a maior acumulação na Localidade I (Pontos 1.1 e 1.2) ocorre no período de Junho-Agosto, na Localidade II (Ponto 2.1) e Localidade III (Pontos 3.1 e 3.2) no período de Março-Maio, e na Localidade IV (Pontos 4.1 e 4.2) no período de Setembro-Novembro (Fig. 3). Observa-se também que ocorre uma maior acumulação sob o dossel da floresta que nas proximidades do rio, e só na Localidade IV (Pontos 4.1 e 4.2) tem-se o caso contrário durante os períodos de Maio- Julho e Julho-Setembro (Fig. 3).
4. Discussão
4.1. Características dos macro-restos vegetais
As acumulações de macro-restos vegetais da planície fluvial do curso meio superior da bacia do Rio Mogi Guaçu estão compostas por material foliar de origem parautóctone, se considerarmos a distância percorrida desde o ramo até o solo (Greenwood, 1991; Behrensmeyer et al., 2000; Martín-Closas e Gomez, 2004). Este material foliar encontra-se associado a vegetação atual da floresta riparia, apesar de ter-se depositado faz 10-15 e 59-60 anos, o que nos indica que estas acumulações de macro-restos vegetais se limitaram a sua área de origem. Estas características parecem ser próprias das acumulações de macro-restos vegetais que se encontram nos rios meandrantes do estado de São Paulo, já que também foram observadas nas acumulações de macro-restos vegetais que se localizam no litoral Sul do estado, especificamente na bacia do Rio Itanhaém (Ricardi-Branco et al., 2009).
O número de espécies que se encontram nas acumulações de macro-restos vegetais depende da diversidade da floresta que acompanha o rio, do transporte que sofrem as folhas/folíolos antes de sua sedimentação (Greenwood, 1992; Ricardi-Branco et al., 2009; Ellis e Johnson, 2013), e do período de tempo requerido em sua formação, o qual oscila em função de sua localização (Ricardi-Branco et al., 2009). A estes fatores se deve a diferença entre o número de espécies presentes nas acumulações de macro-restos vegetais estudadas (Apêndice 1).
Nas acumulações de macro-restos vegetais, da mesma forma que na serapilheira acumulada na floresta (Capitulo 1), temos que uma grande proporção do material foliar pertence a um pequeno grupo de espécies (Tabela 5). Estas espécies se caracterizam por dominar algumas
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faixas ao longo da floresta (Mantovani et al., 1989; Passos, 1998), por sua alta densidade na área, por ser emergentes e as mais importantes do dossel (Gibbs e Leitão-Filho, 1978; Gibbs et al., 1980; Mantovani et al., 1989; Passos, 1998). Geralmente estas espécies apresentam folhas/folíolos pequenos (Greenwood, 1992; Martín-Closas e Gomez, 2004; Steart et al., 2005), e aportam a maior quantidade do material foliar da floresta (Delitti, 1984; Burnham, 1989; Greenwood, 1991, 1992), devido a que se encontram diretamente expostas a ação do vento (Martín-Closas e Gomez, 2004). Portanto, nas acumulações de macro-restos vegetais, da mesma forma que na serapilheira, se pode observar as espécies mais importantes do dossel (Greenwood, 1991, 1992; Capitulo 1).
Também temos nas acumulações de macro-restos vegetais, da mesma forma que na serapilheira acumulada na floresta (Capitulo 1), que uma pequena proporção do material foliar pertence a um grande conjunto de espécies (Apêndice 1). Estas espécies podem ser consideradas raras, já que se encontram mascaradas pela grande proporção de folhas/folíolos procedentes das espécies mais importantes do dossel (Steart et al., 2005), mas realmente estas espécies se caracterizam por produzir pouco material foliar na floresta, já que ocorrem com uma baixa densidade na área (Gibbs e Leitão-Filho, 1978; Mantovani et al., 1989; Passos, 1998; Neto et al., 2012).
A maioria das espécies identificadas nas acumulações de macro-restos vegetais se encontram associadas a um pequeno grupo de famílias (Tabela 6). Entre estas famílias se destaca Fabaceae, que é a que concentra a maior riqueza de espécies arbóreas da floresta (Mantovani et al., 1989; Passos, 1998), por agrupar aproximadamente 20–30% do total de espécies identificadas (Tabela 6). Isto se deve a que estas espécies aportam uma grande quantidade de material foliar na floresta, aumentando sua probabilidade de representação nas acumulações de macro-restos vegetais (Burnham, 1989). Outras famílias que se destacam nas acumulações de macro-restos vegetais, da mesma forma que na serapilheira acumulada na floresta (Capitulo 1), são Bignoniaceae e Sapindaceae, que são as que concentram a maior riqueza de espécies de trepadeiras da área (Neto et al., 2012).
Na área temos uma alta diversidade de espécies de trepadeiras, as quais crescem geralmente nos estratos mais altos do dossel (Neto et al., 2012), já que o ambiente é propício, porque a penetração da luz é maior devido ao leito do rio (Mantovani et al., 1989). Por este motivo aproximadamente 30% do total de especies identificadas nas acumulações de macro-restos vegetais são trepadeiras (Tabela 7), da mesma forma que na serapilheira acumulada na
floresta (Capitulo 1), e em outras florestas tropicais, o qual permite-nos observar um componente significativo da vegetação (Burnham, 1994, 1997).
A proporção de espécies arbóreas e de trepadeiras presentes nas acumulações de macro-restos vegetais (Tabela 7), e muito similar à que se pode observar na serapilheira acumulada na floresta, a qual representa em 25–35% a riqueza total de especies arbóreas e 23–32% a riqueza total de especies de trepadeiras da área (Capitulo 1), da mesma forma que em outras florestas tropicais (Burnham, 1993). Portanto, a partir das acumulações de macro-restos vegetais, assim como da serapilheira, não é possível determinar a riqueza total de espécies da floresta para o momento de sua acumulação (Burnham, 1993).
4.2. Reconstrução da temperatura média anual (TMA) e da precipitação média anual (PMA)
As características fisionômicas do material foliar que está presente nas acumulações de macro-restos vegetais se encontram bem preservadas (Burnham, 1989; Greenwood, 1992), devido à rápida taxa de sedimentação e/ou baixa taxa de decomposição (Burnham et al., 2001). Geralmente, as características da margem da folha permitem estimar a TMA, sendo a margem de erro de aproximadamente ±3 °C (Burnham et al., 2005). Isto dependerá da composição florística (Greenwood, 1992), o hábitat e o habito de procedência das folhas/folíolos (Burnham et al., 2001; Greenwood, 2005), e por sua distribução lateral (Greenwood, 1991, 1992).
Devido a estes fatores, os valores da TMA obtidos subestimam o valor real em 0.8 °C e o superestimam em 2.2 °C (Tabela 4). As estimativas da TMA nas regiões tropicais podem chegar a ser muito precisas (Burnham et al., 2001, 2005; Ellis e Johnson; 2013; Ricardi- Branco et al., 2015), sobretudo se o número de espécies identificadas e superior ao mínimo recomendado de 25–30 (Wilf, 1997; Burnham et al., 2005), e geralmente, tendem a subestimar a TMA, devido à maior proporção de espécies com margem com dentes que está presente nas proximidades dos corpos de água (Burnham et al., 2001; Greenwood, 2005).
As características fisionômicas do material foliar que está presente nas acumulações de macro-restos vegetais também permitem estimar a PMA, sendo a margem de erro das estimativas superior aos ±400 mm (Burnham et al., 2005). Isto depende da representatividade das folhas com maior área foliar das árvores do dossel (Greenwood, 1991, 1992; Burnham, 1994), as quais geralmente, são degradadas (Burnham, 1994), já que o tempo de contato com
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o ar e a água e maior (Martín-Closas e Gomez, 2004), ao serem transportadas grandes distancias (Ellis e Johnson; 2013).
Devido a que as espécies com maior área foliar não estão bem representadas nas acumulações de macro-restos vegetais estudadas (Apêndice 2), as estimativas subestimaram o valor real da PMA entre 332 e 355 mm (Tabela 4). Nas regiões tropicais geralmente se subestima o valor real da PMA (Burnham, 1994; Burnham et al., 2005; Ellis e Johnson; 2013; Ricardi-Branco et al., 2015), apesar do número de espécies identificadas ser superior ao mínimo recomendado de 25–30 (Wilf et al., 1998; Jacobs e Herendeen, 2004).