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Características e propriedades do poder

É possível perceber as mesmas características do poder em ambiências menos complexas, como as famílias, as tribos e etc. O mesmo acontece em todas aquelas agrupações cujas dinâmicas envolvem algum dos três tipos possíveis de poder: poder condigno, o poder

compensatório, e o poder condicionado. Consequentemente, cada uma dessas formas emana

de três distintos instrumentos de poder: a força, a retribuição ou o condicionamento. Essa situação pode ser explicada da seguinte maneira:

o Poder condigno obtém a submissão de impor às preferencias do indivíduo ou do grupo uma alternância suficientemente desagradável ou dolorosa para leva-lo a abandonar essas suas preferências. Hп uma ênfase de punição no termo “condigno” que transmite a impressão adequada. [...] obtem submissão infligindo ou ameaçando consequências adequadamente adversas. O poder compensatório, em contraste, conquista a submissão oferecendo uma recompensa positiva. [...]Um traço comum aos poderes condigno e compensatório é que o indivíduo que se submete está ciente de sua submissão – num caso, compelido e no outro, por recompensa. O poder condicionado, por sua vez, é exercido mediante a mudança de uma convicção, de uma crença. A persuasão, a educação ou o compromisso social com o que parece natural, apropriado ou correto leva o indivíduo a se submeter à vontade alheia. A submissão reflete o rumo preferido; o fato da submissão não é reconhecido. O poder condicionado, mais que o poder condigno ou compensatório, é fundamental, para o funcionamento da economia e do governo nos tempos atuais[...]54.

Além disso, cada um dos instrumentos de poder possui, invariavelmente, uma ou mais fontes/origem: personalidade, propriedade ou organização. Segundo Galbraith,

Três coisas proporcionam tal acesso: a personalidade, a propriedade e organização. Como no caso dos instrumentos de imposição, estas fontes ultimas do poder aparecem quase sempre combinadas. A personalidade é muito realçada pela propriedade e vice-versa; e normalmente recebe força adicional que advém da organização.A propriedade está sempre associada à organização e, não raramente, a uma personalidade dominante. A organização, por sua vez, é robustecida e apoiada tanto pela propriedade quanto pela personalidade. Cada uma das três fontes do poder tem uma relação estreita, embora nunca exclusiva, com um instrumento específico de imposição. A organização está associada ao poder condicionado; a propriedade, desnecessário dizer, ao poder compensatório. A personalidade tem uma associação original e duraroura com o poder condigno.; antigamente se conseguia a submissão pela superioridade física, pela capacidade de inflingir castigo físico aos recalcitrantes ou não conformistas. [Mas,] No entanto, é sabido que os homens mais célebres da História pelo seu poder pessoal – Moisés, Confúcio, Aristóteles, Platão, Jesus o Profeta, Marx, Ghandhi – deveram pouco ou nada à sua força física ou seu recurso pessoal ao poder condigno. Qualidades menos evidentes lhes conferiram a capacidade de curvar à sua vontade, ao longo do tempo, milhoes ou centenas de milhões de criaturas. Logo, porém, algo mais do que a mera personalidade tornou-se necessário; surgiram para apoiá-los, legisladores, templos, escolas, apóstolos, clérigos, mesquitas, a Primeira Internacional ou o Partido do Congresso. A organização e um volume nada despresível de propriedade vieram sustentar e reforçar a personalidade original como fontes de poder. Mas ninguém pode duvidar da importancia inicial da personalidade para conquistar a crença; e foi esta crença – o poder condicionado – deu força, impeto e credibilidade em todos esses casos55.

Os instrumentos guardam intima relação – mas, não exclusiva – com as fontes do poder uma vez que os instrumentos dão acesso às fontes ou origem do poder e tornam possível o exercício do poder. Nesse cenário, uma mesma manifestação de poder pode ser oriunda das três fontes e, então, seria capaz de agir por meio de diversos instrumentos: uns mais dependentes da força, outros da compensação e, ainda, outros mais sutis que operariam através do condicionamento, promovido pela educação e pela propaganda.

Nesse sentido, quando se entende o conceito de poder como sinônimo de força, se está reduzindo o exercíodo do poder a apenas um de seus instrumentos; o mesmo acontece com outras reduções como, por exemplo, aquelas que reduzem o poder à propriedade.

55 Passim.

O fato é que quase toda manifestação de poder induzirá, em algum ponto de seu exercício, a uma manifestação oposta de poder, embora esse segunda manifestação não seja necessariamente igual à primeira ou tenha as mesmas origens ou faça uso dos mesmos instrumentos de poder.

Na sociedade moderna, o exercício do poder de reação está marcado pela estrutura dos Estados-nacionais e, por tanto, pode ser direta (quando se maneja a personalidade, a propriedade e a organização), indireta (através de recurso ao poder do Estado) ou pode ser dependente de outras estruturas que influenciem o comportamento do Estado, tais como: a ONU, a OMC, Cortes de Direitos Humanos, Sistemas de Soluções de Controvérsias de um Pacto de Livre Comércio (como tribunais arbitrais ou ad hoc).56 Mas, é importante que se perceba que mesmo as instituições superiores, como os Estados ou agências internacionais, não estão imunes à manifestaçoes de poder, inclusive de um poder oculto.

A natureza oculta do poder é explorada por Elias Canetti, para quem a manifestação fenomenológica do poder se igualaria à

Pressão constante sob o qual se encontra a presa transformada em alimento durante sua longa peregrinação pelo corpo, sua dissolução e a íntima relação com quem está digerindo, o desaparecimento total e definitivo, primeiro de todas as funções, depois de todas as formas que um dia constituíram sua própria existência, a igualação ou assimilação ao que já existe em quem a digere como corpo, tudo isso pode ser considerado como o que há de mais central, ainda que também de mais oculto, no processo do poder.57

Tércio Sampaio Ferraz Júnior, ao comentar essa passagem de Canetti, completa a ideia dizendo que

o poder que não é percebido é, de todos, o mais perfeito: aquele que o processo chegou a um fim; alter e ego, dominante e dominado, são um só, embora continuem como se fossem distintos. A unidade que é identidade que perverte a diversidade, não porque suprime, mas porque a mantém como se ela não se alterasse. E quem a vê diversa a crê diversa. Aí está o mistério e a revelação. Diversos em um só. Ao mesmo tempo, diversos e únicos58.

56 GALBRAITH, J. K. Anatomia do poder. São Paulo: Rioneira, 1999, p. 79. 57 CANETTI, Elias. Massa e poder. Brasília: 1983, p.232

3.2.1 Para compreender o poder

O poder, por vezes, se mostra evidente, como é o caso do uso da força militar. A esse respeito não parece haver dúvidas plausíveis sobre a possibilidade de utilizar a forca para influenciar ou determinar a modificação de posições um elemento em relação aos propósitos de outro.

Entretanto, se faz necessário repensar as alternativas de realização do poder mediante o uso da forca quando seu emprego pode redundar em uma destruição de magnitude inimaginável para a Humanidade.

Neste ponto da historia, já se sabe que a força militar não é capaz de entregar, per

se, a paz. Afimar o contrário só seria correto para aquelas situações-limite em que a

sobrevivência humana está ameaçada e as tecnologias bélicas disponiveis são diminutas. Sem embargo, sabemos – por experiência – que com o desenvolvimento tecnológico moderno as situações beligerantes podem chegar rapidamente a níveis racionalmente insustentáveis. Essa percepção poder ser reduzida a uma expressão muito comum nos tempos da Guerra Fria, período em que se as “super-potências” entrassem em conflito: destruição certa assegurada.

Por isso, encontrar uma alternativa à força é imprescindível.

Entretanto, nem sempre foi assim. Durante um largo período da trajetória humana, ou mesmo durante toda a primeira metade do século XX, quadra da história em que os Estados-nacionais foram nas relações internacionais os principais protagonistas, estes não tinham propriamente como escopo a paz.

Principalmente, à medida que se pode observar que os Estados-nacionais operam – como uma das reminiscências de práticas como as da Guerra Fria – por meio da lógica do “equilíbrio de poder”. Em larga medida, essa a expressão coincide com o poder condigno, manifestado pelo uso da força ou medo. Por tanto, isso equivale a dizer que nossas sociedades ainda se deixam guiar por uma noção de poder pautada pelo uso da força. Isso significa que ainda estamos longe de chegar a um paradigma que nos conduza à paz.

Aliás, exatamente porque até a II Guerra Mundial, a guerra era tida como algo natural é que muito provavelmente os Estados nacionais sequer considerassem a guerra como algo que podesse ser eliminado do cenário político.

O sistema de equilíbrio de poder não pretendia evitar crises ou mesmo guerras. Quando funcionava convenientemente, procurava limitar tanto a capacidade dos Estados de

dominarem os outros como a amplitude dos conflitos. A sua finalidade não era tanto a paz como a estabilidade e moderação. Por definição, uma situação de equilíbrio de poder não satisfaz completamente todos os membros do sistema internacional; funciona melhor quanto mantém a insatisfação abaixo do nível em que a facção prejudicada procurará subverter a ordem internacional59.

3.2.2 Estados Nacionais e o sistema de equilíbrio de poder vs. Impérios

Henry Kissinger mostra que os teóricos do equilíbrio de poder, a partir de uma perspectiva realista, dão muitas vezes a entender que o equilíbrio é a forma “natural” das relações internacionais. Essa postura é denominada de “realista”, porque reflete as convicções, dos maiores pensadores políticos do iluminismo, de que o universo (incluindo a esfera política) funciona de acordo com princípios racionais que se equilibram mutuamente60. Mas, Kissinger contrargumenta que na verdade os sistemas de equilíbrio de poder só raramente existiram na história da humanidade. “Para a maior parte da humanidade, nos períodos mais longos da história, o império foi a forma típica de governo.”61

O problema do império, como já se destacou, é a sua dependência de um fluxo constante de bons líderes. Com isso, não se quer dizer que seja a melhor, apenas, a mais frequente forma de governo. Nos Impérios, o poder é simplesmente exercido e fica condicionado apenas quando outra manifestação de poder se opõe a ele.

Estes dados revelam a “pouca idade” do Estado-nacional e sugerem que estas estruturas políticas não são condições necessárias ou mesmo suficientes para a mantença sobrevivência do ser humano, logo, nada impediria o desaparecimento de tais modelos posto que os seres humanos poderiam se organizar politicamente de maneira mais fragmatária ou mais unificada, como em blocos regionais. Estes dados revelam a pouca idade do próprio conceito de “equilíbrio de poder” entre Estados-nacionais, o que não impede que se noticie de forma devidamente fundamentada a instabilidade deste, dado que também não o previne de um eventual desaparecimento, ao contrário, reforça essa possibilidade.

Em outras palavras: é possível tanto o desaparecimento das estruturas Estados- nacionais quanto o desaparecimento do sistema de “equilíbrio de poder” nas relações internacionais.

59 KISSINGER, H. Diplomacia. Lisboa: Gradiva, 2007, p. 14. 60 KISSINGER, H. Diplomacia. Lisboa: Gradiva, 2007, p. 14. 61 KISSINGER, H. Diplomacia. Lisboa: Gradiva, 2007, p. 14.

Ainda que essa seja uma possibilidade, não há dados que sugiram, pelo menos em um curto espaço de tempo, o desaparecimento das organizações políticas do tipo “Estados- nacionais”. Mas, pode-se prognosticas que estas unidades de conservação estarão sujeitas a muitas mudanças e escolhas nos próximos anos que dificilmente corresponderão escrupulosamente aquilo que atualmente se concebe como tal. Esse resultado será particularmente problemático para o Sistema ONU, exatamente, porque sua unidade celular são basicamente os Estados-nacionais (mesmo se considerando que a União Européia tem representação nessa organização).