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CARACTER JURÍDICO DA REGRA « LOCUS REGIT ACTUM »

No documento 1235073968174218181901 (páginas 181-185)

Dos actos juridicos

CARACTER JURÍDICO DA REGRA « LOCUS REGIT ACTUM »

Tracta-se de saber si a regra locus regit actum é obrigatória ou facultativa.

■ Os auctores dissentem. Como si disse no# anterior, n. II, quando as necessidades do commercio, ven cendo a resistência do feudalismo crearam a regra, deram-lhe os tractadistas o caracter obrigatório (-). As opiniões divergentes não se fizeram, no entanto,

esperar (a)e, consequentemente, desde os albores do

direito internacional privado que se estabeleceu o

dissídio. I

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'.(}) DKSPACNET,«Précis», n. 215, i.°; SURVH-LE et ARTÍIUVS,n. 2o3.

( 2 ) DUJIOUI.IN, LOY8BL, BOULLENOIS, FuRGOLE, POTHIER, MBRLIN, CtC.

( 3 ) RODENBURGO,BOUIIEIR,etc. « Vide » E. NAQUET,em CUUNKT, 1904, pag.

Ct.OVlS BEVILÁQUA' l85

Deixando de lado os antigos jurisconsultos e tendo em vista somente os modernos, é fácil notar que, apezar de uma incontestável vacillação de doutrina, a tendência geral é para considerar a regra facultativa.

BAR, referindo-se aos actos que no extrangeiro se

podem celebrar perante os agentes diplomáticos ou consulares, diz que essa determinação das leis internas é uma consequência do caracter facultativo da regra e não da pretensa extraterritorialidade dos cônsules, razão pela qual a celebração desses actos independe do assentimento do Estado onde funccionam as mencionadas auctoridades

(1).

PILLET mostra que, si afastarmos os actos proces-

suaes que somente pela lexfori podem ser regulados, a forma não representa um principio de ordem necessária. Quanto aos actos praticados no extrangeiro, seria a lei pessoal das partes que lhes devera prescrever a forma si a utilidade não tivesse creado uma regra mais suave. Esta consideração levou a doutrina a reconhecer, conclue elle, o caracter facultativo da regra locus regitactum {-).

DESPAGNET, depois de fazer algumas distincções

necessárias entre os actos authenticos e os privados, escreve: « basta notar que a regra locus regit actum somente se justifica por sua necessidade para não haver razão de impol-a todas as vezes que as partes acham meio de, no extrangeiro, observar as formalidades prescriptas por sua lei nacional para os actos privados»

(3).

Raciocinio similhante conduz SURVILLE et ARTHUYS

á mesma conclusão, fazendo, entretanto, uma res-tricção quando no acto intervêm diversas pessoas pertencentes a differentes nacionalidades, porque, neste caso, a regra assume um caracter imperativo {*).

( i ) « Lehrbuch », í 12, n. 5. ( 3 ) «Príncipes», \ 264.

(3) «Précis», n. 217.

l86 DIREITO INTERNACIONAL PRIVADO

Parecem-me dignas de transcripção as palavras que a

este assumpto consagra E. NAQUET:« Fazendo abstracção

de toda questão de justiça pura e enca-j rando o interesse francez, creio que é nosso interesse] tractar os extrangeiros na França como dezejamos serj tractados no extrangeiro. Uma legislação liberal e humana acarreta outra legislação liberal e humana,! ao passo que o rigor e o mau humor são obstáculos

a todos os progressos internacionaes ...Em definitiva, o systema restrictivo está não somente em opposição aos princípios de uma sã justiça, mas ainda é desvantajoso para os francezes. Não é uma razão decisiva para o condemnar ?

Consideramos, pois, que o extrangeiro residente na França tem a liberdade de preferir as formas de sua lei nacional ás da lei franceza. Esta liberdade lhe é reconhecida quando elle age perante os representantes officiaes de sua nação; deve egualmente ser-lhe concedida quando realisa um acto privado unilateral como um testamento ou quando celebra um contracto com um compatriota ou com outro extrangeiro cuja lei é idêntica á suá » (*).

Não obstante, LAURENT pende para a obrigatoriedade,

ASSER et RIVIER, acceitando o caracter facultativo da

regra, acham que deante dos princípios outra devera ser a

decisão (2;e FIORE, collocando-se ao lado da lei de seu

paiz, não esconde, entretanto, as suas sympathias pela

obrigatoriedade (3). São vacillações que ainda conturbam

a lucidez dos princípios. E só a conturbação explica

opiniões como a de VAREILLES-SOMMIERES,que admitte

a faculdade para os francezes

(i) Seria inútil alongar estas citações. Reconhecem também o caracter facultativo da regra «locus regit actum » : SAVIGMV,«Droit roínain », vol. VIII,

pag. 354 e segs.; KEIDEI-, em CÍ.UKET, 1889, pag. 27; WHARTOX, « priva te

international law », g 684; AUDI.NKT,«Príncipes élementaires de droit international prive», n. 363;Huc, « Commentaire du code civil», I, n. 170; GRASSO,« biritio ínternazionale privato », g 97, in fine. Ainda no mesmo sentido pronunciaram-se FCELIX,WCECHTER,ZACIIARKE,AUBRV et RAU,MASSE',BROCHER,etc.

(7) « E'lements», £ 27.

CLÓVIS BEVILÁQUA l87

que se acham no cxtrangeiro usarem ou não da lei local quanto á fórma, porém, entende que as leis francezas reguladoras <\a fórma dos actos são obrigatórias para todos os que residem na França (*). Vendo os factos na sua simplicidade natural não é possível deixar de reconhecer que a regra é facultativa para os actos que o individuo pôde realisar, segundo a sua lei pessoal, sem a intervenção deoffi-cial publico. Quanto aos actos authenticos' ainda ella é facultativa, porque a pessoa pôde recorrerão agente consular ou diplomático de seu paiz. Si o não fizer tem forçosamente de acceitar a fórma da lei local. Isto, porém, não quer dizer que a regra tenha um| caracter imperativo; quer dizer que ella foi acceita como se acceita um conselho e que a fórma impressa de accordo com a lei do logar deve ser acatada como válida e bôa onde fôr apresentada. Si as partes que celebram o acto forem de nacionalidades differentes, a lei local quanto á fórma será muito naturalmente a adoptada, porque ahi surgiu o acto pára a vida j urí dic a, mas perante a communhão de direito, na sociedade internacional, não repugna acceitar a lei de qualquer das partes. O de que a sociedade internacional precisa é de uma lei, e não ha razão para não se admittir que as partes concordem em acceitar uma das que são egualmente competentes.

§ 36

I

I LEGISLAÇÃO COMPARADA B

n Já se fez allusão á legislação brasileira sobre a matéria deste capitulo, mas convém expol-a, agora, de modo mais completo.

O principio de que a fórma dos actos se rege pela lei do logar em que elles são celebrados, desde os primeiros

tempos foi reconhecido de modo geral (8).

(i) u Symhésc », I, ns. i58, 168 e 1K3.

(1) Ora. 3, 39, g 1; Reg. 737, de 25 de Novembro de i83o, ari. 3, g 2; TEIXEIRA DB FREITAS,« Consolidação das leis civis », art. 406; CARLOS DB CARVALHO,«

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