Das pessoas
DIREITO PRIVADO
Muitos auctores recusam-se a ver nas pessoas jurídicas de direito privado a qualidade de nacionaes, pare-cendo- lhes que esse attributo é próprio e exclusivo do homem
individualmente considerado (3). Desde que, porém,
reconhecemos a personalidade com effeitos
extraterritoríaes dos seres collectivos, universitates
personarum vel bonorum, cumpre que por analogia lhe
attribuámos um estatuto pessoal e si para os indivi-
(i ) DESPAGNET,« Précis », n. 227; SURVILLE et ARTHUVS,« op. cit. », n. i5o;
PILI-ET, «Príncipes», % 1Ò7; CALVO, «Manuel de droit International» | 189 : LAURHNT,« Droit civil internatioaal», III, n. 284.
(a)O Projecto do código civil brasileiro, preparado pelo Dr. COELHO
RODRIGUES,assim como o denominado «primitivo », art. 16, da lei de intro-ducçáo,
consagrava uma disposição nesse sentido. Na discussão perante a Camará dos deputados prevaleceram outras ideas.
Vcja-se no « Direito », vol. g3, um artigo de PEDRO LESSA acerca da « naturalisação e seus effeitos na orbita do direito civil ».
(3) PILLET, «Príncipes», jj i5o,; VAREILLES-SOMMIERES, «Synthese», II, ns.
7G3—770, e todos os auctores gue negam a realidade das pessoas jurídicas. Mas a natureza das cousas obriga-os a descobrira analogia que realmente existe entre a nacionalidade dos indivíduos e a das pessoas jurídicas.
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duos esse estatuto é a lei da sua nação, para as pessoas jurídicas outro não pôde ser. Funda-se uma pessoa jurídica em um paiz dado e outros paizes reconhecem a sua existência, permittem, consequentemente, que ella realise nelles operações juridicas. E' natural que se interrogue : qual a lei reguladora da capacidade dessa pessoa ?
Não se deve ter em consideração, para responder a esta pergunta, a nacionalidade das pessoas que a compõem ; primeiro, porque pôde acontecer que não haja maioria de membros ou sócios de uma nacionalidade ; segundo, porque nas sociedades de capitães seria impossível essa apreciação, andando as acções de mão em mão; terceiro, porque nas fundações, onde são os bens que se personalisam, não existem membros ou sócios que considerar.
Força é procurar-se outra razão de decidir. Os au- ctores estão em desaccôrdo sobre esta matéria. Acham alguns que as pessoas juridicas têm a nacionalidade do
paiz onde foram constituídas (l ), porque o acto de
fundação da pessoa jurídica equivale ao seu nascimento, foi sob os auspícios da lei desse logar que a sua individualidade appareceu na tela do direito. Ha quem veja até na constituição da pessoa jurídica uma emanação da soberania do Estado; portanto, com a sua existência, recebe a pessoa jurídica a nacionalidade desse mesmo Estado que presidiu á sua constituição. Contra esta doutrina, levanta-se a objecção de que o logar onde uma sociedade é organisada pôde não ser o campo de sua actividade, acontecendo ás vezes que os interessados procuram subtrahir-se ás exigências do paiz onde a sociedade realisa as suas operações indo fundal-a em outro.
Uma segunda opinião determina a nacionalidade da pessoa jurídica segundo o logar do seu principal
estabelecimento de exploração. DESPAGNET não se
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conforma com este parecer, ao menos em sua inteireza, porque daria em resultado reputar-se es trangeira uma sociedade fundada em França, com capitães francezes, como as companhias dos canaes de Suez e do Panamá. Além disso o principal centro de exploração pôde facilmente deslocar-se; e esse deslocamento determinaria mudança de nacionali
dade? í1). |
I Querem outros que a sede da administração da sociedade, o logar onde realmente funccionam os or-gams da administração, indique a nacionalidade da pessoa
jurídica (2).
I Uma quarta opinião, referindo-se ás sociedades por acções quer que a nacionalidade se determine pelo logar onde se constituiu o capital ou foram emittidas as acções. 9 DESPAGNET pensa que ha certa porção de verdade em
todas essas opiniões e que, portanto, na ausência de texto positivo, se deve apreciar a nacionalidade como uma questão de facto, tomando em consideração todos os
elementos a que essas opiniões se apegam (3).
O Congresso de Montevideo adoptou o principio de que el contrato social se rige ... por la ley dei pais en que esta (a sociedade) tienesu domicilio comercial. Qual é, porém, o domicilio da pessoa jurídica? Será 0 logar onde a sua administração fixou a sua sede ou aquelle em que está o centro principal de sua explo ração ? Resurgem as duvidas.
1 Entre nós vigem os seguintes princípios:
i,° A nacionalidade das pessoas jurídicas depende do logar onde foi celebrado o acto de sua constituição,
( i) « Précis », n. Si,
(2 JParece ser esta a opinião mais geralmente seguida, porque dá maior clareza ás relações. ( 3 ) « Précis ». n. 5i.
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conservando-a temquanto não mudar de sede ou
domicilio (l). É a opinião de FIORE,acima citada.
2.° Quanto ás sociedades, consideram-se nacionaes:
a) as de pessoas constituídas no território da Republica;
b) também as de pessoas constituídas exclusivamente por
brasileiros, fora do território da Republica, si tiver seu contracto archivado no Brasil, a nrma inscripta e a gerência confiada a brasileiro; c) ainda as de pessoas estipuladas em paiz extrangeiro com estabelecimento no Brasil; d) as sociedades de capitães (anonymas e em commandita por acções) legitimamente constituídas no território da Republica; e) as anonymas e em commandita por acções constituídas em paiz extrangeiro que, obtida a auctò-risação para funccionar no Brasil, transferirem para o território brasileiro a sua sede, tendo por directores
cidadãos brasileiros (9).
Seria conveniente unificar essas diversas disposições num dispositivo harmónico do qual resultasse um systemã perfeito, mas é certo que os princípios adoptados na lei brasileira não se distanciam do que prescreve a sciencia. Particularmente o enunciado em primeiro logar, corresponde á melhor opinião, combinando a lei brasileira a idéa da constituição da pessoa jurídica e a de sua sede, o logar onde se acha a sua administração ou direcçãQ. Em referencia as companhias de seguro fala- nos alei somente da respectiva sede (*)', mas no presupposto de que esta se acha precisamente no logar em que foi constituída a sociedade.
A pessoa jurídica mudando de nacionalidade, trans- portando-se de um paiz para outro, em bôa doutrina, deve considerar-se extincta. « Foi sob o império da
(i) CARLOS DE CARVALHO,o Direito civil», art. 160.
(2) CARLOS DE CARVALHO, «Direito civil», art 161: BENTO DE 1-AI
«Código commercial brasileiro», pag. S60; Lei n. ia3, de 11 de Novem de 1892, art. 3; Dec. n. 2804, de a de Julho de 1896, art. 5, I, 1 2; 1 digo
commercial, art. 3oi, 2.' ai.
(3) Dec. n. S072, de 12 de Dezembro de 1903, art. 23. 21
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primeira lei nacional, explica DESPAGNET (X), que os
interesses se empenharam; é preciso uma adhesão nova de todos os associados a um novo contracto que vae ser submettido a regras differentes. A sociedade antiga subsistirá somente para o que disser respeito aos direitos adquiridos concernentes a ella própria, aos associados ou a terceiros».
Ainda que a nacionalidade das pessoas jurídicas independendo absolutamente da naturalidade das pessoas que a compõem, o direito pátrio, á similhança do que prescrevem outros regimens jurídicos, exige, para a acquisição de embarcações brasileiras que seja nacional a
sociedade de pessoas e nacional a maioria dos sócios (2),
§ 31
INTERDICÇÃO, EMANCIPAÇÃO E RESTITUIÇÃO « IN INTEGRUM »
I. A interdicção pronunciada pelo juiz, determinando uma incapacidade, ou uma restricção da capacidade, deve ser apreciada segundo a lei pessoal daquelle que se pretende interdizer ou que já foi declarado interdicto.
Certos esclarecimentos, porém, se fazem necessários. Alguns auctores pensam que somente o tribunal da pátria de cada um tem competência para pro-nunciar-lhe a
interdicção; mas, como bem pondera FIORE (3), pode
haver circumstancias graves que exijam uma intervenção prompta, como no caso de loucura, e então, mais razoável é opinar com aquelles
(i) «Precis», n. 5 r, in fine. Contraria esta doutrina, mas somente em parte, o que determina o Dec. n. 2304, de 2 de Julho de 1896, art. 5, § 2, quanto ás sociedades de capitães que, constituídas em paiz extrangeiro, se transportarem para o Brasil, tendo por directores cidadãos brasileiros. O intuito do legislador foi facilitar essas transferencias, mas, no rigor dos principios,a verdadeira doutrina é a expendida no texto.
(2) Lei 11. 559, de 3i de Dezembro de 1898, art. 14; CARLOS DB CARVALHO,
« Direito civil», art. 161, g único. Vejam-se as citações da nota 2, da pagina anterior.
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auctores que reconhecem a competência do juiz local para decretar a interdicção do extrangeiro, applican-do-
lhe o seu estatuto pessoal (l). Esse juiz deve ser o do
domicilio, o que não quer dizer que o da residência esteja inhibioo de tomar as providencias conservatórias que o caso exigir (*).
Quanto a saber que pessoas podem provocar a decretação da interdicção, decide a lei nacional do incapaz. Todavia, si a lei do logar auctorisar a inter- venção do ministério publico, deve-se reputar esta lei de interesse social ou de ordem publica e, consequen- temente, prevalecendo sobre o estatuto pessoal (s).
Decretada a interdicção pelo juiz competente, seja nacional ou extrangeiro, deve ella produzir effeito como si a incapacidade decretada resultasse immediatamente da lei pessoal do interdicto. Quanto, porém, á interdicção por prodigalidade, aquelles paizes, que não a reconhecem e antes a repellem, como uma abusiva limitação da liberdade, é natural que não a decretem por seus juizes de accôrdo com o estatuto pessoal do extrangeiro, nem a patrocinem dentro de seu território, quando pronunciada no extrangeiro (*).
II. A emancipação regula-se pelo estatuto pessoal do menor, pouco importando que elle se ache sob o poder paterno ou tutelar de alguém que tenha outra nacionalidade. Por essa mesma lei pessoal se decide a questão de saber si o casamento produz a emanci
pação dos cônjuges (5).
III. Apezar do que allegamSAViGNY e STOBBE,que
se inclinam para a applicação da lex fori, entende
BAR que a restituição, como favor concedido aos me-
(i )LAURENT,« Droit civil international», IV ;AssEnetRiviEn, «E'lements», 170;
Lei allemã de introducção ao código civil, art. 8.
(2 ) F10BB, <( op. cit. », n. 475, in fine. ■ (3) FIORE,« op. cit», n. 476. . ,, o «
(4) BAR,« Lehrbuch », g 16 : WHARTON,« Pnvate international law», 11», ( 5)
FIORE,« Droit international prive », I, 11.455 ; DESPAGNET,« Précis », n. 393 j PIMENTA BUENO,« Direito internacional privado », pag. 53 ; * Direito », vol. 85, pags. 53q-543; Huc, «Commeutaire*, III, ns. 477—479-
nores, deve regular-se pelo estatuto pessoal, quanto ao direito de reclamal-a, decidindo quanto ao mais o direito territorial, ao qual está submettidaa relação de direito que se pretende annullar pelo recurso ex- cepcional da restituição.
I Por exemplo, regerá a lex rei sita' no caso em que alguém pretenda rehavcr um direito real sobre
um immovel (>). I
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