Caracterizamos este estudo como uma pesquisa qualitativa de cunho psicanalítico na forma de Estudo de Caso, sendo, no tocante aos seus objetivos, exploratória e descritiva. A seguir, as particularidades desta classificação.
A pesquisa qualitativa trabalha a partir das experiências cotidianas das pessoas, buscando entender suas estruturas e instituições, bem como elementos que não podem ser quantificados. (MINAYO, 1994). Nas palavras da autora, “em uma pesquisa qualitativa os autores não se preocupam em quantificar, e sim em compreender e explicar a dinâmica das relações sociais.” (MINAYO, 1994, p. 24).
O Estudo de Caso, segundo Gil (2008), se dá a partir de um ou de poucos objetos, os quais são estudados de modo profundo e exaustivo, características que permitem o seu amplo e detalhado conhecimento. O mesmo autor apresenta a seguinte definição deste delineamento:
[...] um conjunto de dados que descrevem uma fase ou a totalidade do processo social de uma unidade, em suas várias relações internas e nas suas fixações culturais, quer seja essa unidade uma pessoa, uma família, um profissional, uma instituição social, uma comunidade ou uma nação. (YOUNG, 1960 apud GIL, 2008, p. 59).
Salientamos que no Estudo de Caso os dados podem ser obtidos “[...] mediante a análise de documentos, entrevistas, depoimentos pessoais, observação participante e análise de artefatos físicos.” (GIL, 2008, p. 141). Para o mesmo autor, este delineamento é, dentre todos, o mais completo já que pode valer-se “[...] tanto de dados de gente como de dados de
papel [...]” (GIL, 2008, p. 141, grifo do autor), separada ou concomitantemente. Os dados
biografias, além do Diário de Frida Kahlo, bem como de algumas obras iconográficas da artista que remetem ao seu sofrimento. Tais obras foram selecionadas a partir do material coletado nas biografias estudadas.
Considerando os objetivos desta pesquisa, classifica-se como exploratória e
descritiva. Exploratória, já que tem como objeto “[...] proporcionar uma maior familiaridade
com o problema, com vistas a torná-lo mais explícito ou a construir hipóteses.” (GIL, 2008, p. 41). O aspecto descritivo que, segundo Gil (2008), visa à descrição de um fenômeno ou população, é característico deste estudo na medida em que o atendimento aos objetivos propostos implicam, por si só, numa descrição dos fenômenos estudados, quais sejam o sofrimento psíquico e a presença deste na vida e obra de Frida Kahlo, a partir dos materiais antes mencionados.
Salientamos, por oportuno, que a pesquisa em psicanálise apresenta algumas particularidades. Segundo Mezan (1993, p.49):
[...] a expressão ‘pesquisa em psicanálise’ suscita de imediato uma certa perplexidade. Trata-se de uma disciplina que, em seus quase cem anos de existência, acumulou uma quantidade considerável de conhecimentos sobre seu objeto, o inconsciente: obviamente, esses conhecimentos foram obtidos através de algum tipo de pesquisa. Por outro lado, a idéia de um ‘pesquisador em psicanálise’ que se munisse de um elenco de problemas e procurasse resolvê-los por meio do que é geralmente admitido como pesquisa científica – observações, controles, previsões, etc. – soa algo ridículo, e com boas razões provocaria hilaridade nos que possuem alguma noção do que é psicanálise.
O método de pesquisa em psicanálise compreende três vertentes distintas, a saber: a pesquisa a partir da experiência clínica; a pesquisa histórica ou conceitual e a psicanálise aplicada. (MEZAN, 1993). Cabe destacar as particularidades desta última vertente, já que melhor caracteriza este estudo.
Segundo Freitas (2001), designou-se psicanálise aplicada a “[...] tentativa de ressaltar os vínculos entre a vida [do autor] e obra, e tratando o texto, fundamentalmente, como 'exemplo' analítico.” (PASSOS, 1995 apud FREITAS, 2001, p. 26). Para o mesmo autor, com os seus enigmas e mistérios a arte se abre ao decifrador psicanalista tomando sempre como referência “[...] o determinismo inconsciente, esse Outro indesvendável diretamente, oculto retórico [...]” (PESSANHA, 1992 apud FREITAS, 2001, p. 27). Freitas (2001) aponta ainda que é a psicanálise com sua “crítica subversiva” que pode contribuir para o exame dos valores da cultura por meio da “utilização da linguagem como uma das formas de se apreender o sempre ilimitado, e inapreensível na sua totalidade, desejo inconsciente.”
(FREITAS, 2001, p. 27). Ainda no sentido de demonstrar a legitimidade da pesquisa aplicada, o mesmo autor aponta que “[...] tanto a psicanálise como a literatura podem se associar à teoria da argumentação [...]” (p. 28), já que se situam no território do dialógico, da imprecisão. Nesse sentido, seus efeitos não se realizam no campo da razão apregoada pela idade clássica, que buscava a evidência das provas apodíticas, mas num sentido contrário, tais efeitos se dão no campo da argumentação e da retórica. (FREITAS, 2001).
Dessa forma, a interlocução com o campo da arte, aspecto presente nesta pesquisa, é um dos modos de construção do conhecimento e transmissão da psicanálise. A título de exemplo, lembramos que Édipo Rei, de Sófocles, Hamlet, de Shakespeare e os Irmãos Karamassovi, de Dostoievski, ofereceram valiosos conteúdos para a teorização de Freud sobre o Complexo de Édipo e o desejo de morte do pai. Desse modo, permitir-se interrogar pela arte é uma outra via de acesso ao sujeito utilizada na abordagem psicanalítica.
Retomando a idéia de Freitas (2001), quando fala da linguagem como forma de apreender o desejo inconsciente, destacamos que na investigação do sofrimento em Frida Kahlo, embora tenhamos utilizado, também, a sua expressão artística enquanto uma forma de linguagem desse sujeito, não houve a pretensão de uma análise, o que, neste caso, seria impossível pela ausência de elementos essenciais a um tratamento psicanalítico. O intuito desta investigação, no tocante a utilização do fazer artístico de Frida Kahlo, foi utilizar essa via como forma de auxiliar a nossa compreensão, reflexão e, quiçá, na proposição de interrogações sobre constructos teóricos trabalhados pela psicanálise que remetem ao sofrimento psíquico. Pensamos ser este um dos caminhos para novas descobertas relativas ao tema do sofrimento.