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FRIDA KAHLO

No documento Frida Kahlo (páginas 110-151)

Inicialmente, é oportuno lembrar que o nosso intento ao selecionar pontos da história de Frida Kahlo e articulá-los à temas psicanalíticos que remetem ao sofrimento é fundamentalmente possibilitar a compreensão e reflexão sobre tais temas. Importa também esclarecer ao leitor que os nossos comentários, relativamente aos pontos selecionados, especialmente no tocante às obras de Frida Kahlo, se tratam de singelas associações. Esse esclarecimento é relevante, na medida em que a aplicação da psicanálise na compreensão da criação artística, como sabemos, trata-se de uma delicada e difícil tarefa.

Feitas as ponderações, indicamos que a nossa primeira elaboração parte de dados sobre a relação entre Frida Kahlo e sua mãe. Nesse sentido, alguns elementos de informação sobre as circunstâncias do nascimento da artista e a subseqüente separação da mãe são destacados. Tais observações iniciais nos possibilitam reflexionar sobre temáticas relacionadas à angústia, bem como servem para introduzir a discussão de alguns dos constructos teóricos freudianos e lacanianos em torno da feminilidade e dos possíveis sofrimentos envolvidos na situação feminina. Nesta discussão ganha relevo, também, os temas concernentes ao amor e à idealização. Por fim, aduzimos breves apontamentos sobre a construção da imagem corporal, a partir dos dados atinentes aos traumas físicos sofridos por Frida Kahlo durante a sua vida.

Destacamos, inicialmente, como ponto relevante encontrado nos dados coletados sobre a história de Frida Kahlo, a informação de que esta nutria por sua mãe sentimentos ambíguos. Relembramos que, segundo Kattenmann (2003), a artista descrevia sua mãe como “muito bondosa, activa [sic] e inteligente, mas também como calculista, cruel e fanaticamente religiosa.” (p. 9). Relembramos ainda, que os biógrafos estudados referem uma forte ligação da artista com seu pai, já no tocante a sua mãe, consta somente uma declaração em entrevista concedida à Tibol (2003), em 1953, então com quarenta e seis anos, onde Frida Kahlo declarou: “Mi madre fue para mi una amiga enorme [...]”. (p.37). Nessa época sua mãe já havia falecido.

A idéia de uma ambiguidade de sentimentos por parte da artista em relação à mãe não nos indica por si só a presença de sofrimento, mas dá lugar a uma série de questões que nos permite refletir sobre seus possíveis sofrimentos e, nesse passo, examinar pontos teóricos importantes, como veremos.

Outro dado que nos auxilia a pensar a relação de Frida Kahlo com sua mãe é a obra intitulada A Minha Ama e Eu ou Eu a Mamar, 1937, que corresponde a Figura 09, reproduzida no capítulo 4.3 deste trabalho. A pintura, considerada pela artista um dos seus trabalhos mais fortes (KATTENMANN, 2003), retrata o seu rosto de adulta em um corpo de bebê no colo de uma mulher negra ou índia, cujo rosto é coberto por uma máscara preta. Não há contato visual entre a ama e o bebê-Frida. O leite cai sobre os lábios desta, mas ela não o suga. Ao fundo, se vê uma vegetação sob um céu acinzentado e tempestuoso. Segundo Kattenmann (2003), a obra reflete uma relação fria e distante entre Frida Kahlo e a ama:

A sua aparência, que faz lembrar representações de deusas-mães indígenas e as figuras das amas da arte tumular de Jalisco, também remete para o motivo cristão colonial da Virgem e do Menino. Ao juntar estas duas tradições diferentes, a ama torna-se um símbolo da própria origem mestiça da artista. Mas enquanto as imagens ocidentais da Virgem e do Menino expressam um afecto [sic] e uma intimidade que ligam mãe e filho, a relação aqui demonstrada é fria e distante, impressão essa realçada pela falta de contato com o olhar da ama. Apesar de o bebé [sic] estar sendo amamentado, a ternura e o carinho não constam da ementa. (KATTENMANN, 2003, p. 8).

Em entrevista concedida à crítica de arte Raquel Tibol (1990), Frida Kahlo comenta a sua pintura:

[...] minha mãe não podia me dar de mamar porque a minha irmã Cristina tinha nascido apenas onze meses depois de mim. Fui amamentada por uma ama cujos seios eram lavados imediatamente antes de eu mamar. Num dos meus quadros

apareço, com cara de mulher adulta e corpo de criança, nos braços da minha ama [...]. (TIBOL, 1990, p. 8).

Ao tomarmos contato com esses elementos de informação, recordamos algumas concepções aduzidas por Freud no seu ensaio sobre a Feminilidade (1932 [1996]). Algumas das idéias trabalhadas nesse texto foram comentadas no sub-capítulo 2.4 deste trabalho (A

Psicanálise e as Mulheres), outras serão apresentadas nesta oportunidade visto serem

relevantes para as nossas elaborações.

Freud, no mencionado ensaio, explica a complexidade da “transformação” de uma “menininha em mulher normal” (p. 117), e comenta as tarefas inerentes a essa “transformação”, as quais não encontram equivalentes no desenvolvimento masculino. Refere que a primeira tarefa consiste na transferência da sensibilidade do clitóris que era até então a sua principal zona erógena, para a vagina, e a segunda refere-se a uma mudança de posição havida relativamente ao seu primeiro objeto de amor: a mãe. Ensina-nos, a partir disso, que uma transformação de sentimentos ocorre em relação à mãe: o amor intenso e apaixonado, antes havido, transforma-se em repulsa. Freud apresenta uma série de acusações e queixas direcionadas pela criança à mãe para justificar os seus sentimentos hostis em relação a esta. (FREUD, 1932 [1996]). Dentre essas acusações, aquela que remonta à época mais remota é a de que a mãe deu à criança pouco leite. Para Freud (1932 [1996]), este reclamo refere-se a uma demanda de amor. Sobre a figura da nutriz, que amamenta a criança no caso de insuficiência de leite da mãe, o autor esclarece que a figura daquela funde-se, para a criança, com a figura desta e comenta outra crítica que é comumente direcionada à mãe: “a de que a nutriz, que amamentou a criança com tanta vontade, foi mandada embora pela mãe muito precocemente”. (FREUD, 1932 [1996], p. 122). Seja qual for a censura da criança em relação à mãe, o fato a ser destacado é a sua insaciável demanda pelo primeiro alimento e o sofrimento insuperável de perder o seio materno.

Tais noções nos incitam a pensar nos dados antes mencionados, os quais nos fornecem pistas sobre a idéia de Frida Kahlo relativamente ao seu processo de aleitamento. Os elementos presentes na obra A Minha Ama e Eu ou Eu a Mamar (1937), parecem mostrar aspectos relativos a esse processo. Não podemos alegar que se trata de uma crítica dirigida à mãe pela falta ou insuficiência do seu amor, mas fica evidente que a questão do aleitamento é algo presentificado pela artista em palavras e obras.

Freud, nesse mesmo ensaio (1932), refere uma terceira acusação comumente havida da criança contra a mãe onde a conexão com a frustração oral é mantida: “a mãe não

podia, ou não iria, dar mais leite à criança porque necessitava do alimento para o recém chegado” (p. 123). Adverte ainda que,

Nos casos em que duas crianças têm uma diferença de idade tão pequena, que a lactação é prejudicada pela segunda gravidez, essa censura adquire uma base real, sendo surpreendente que uma criança, até com uma diferença de idade de apenas 11 meses, já tenha suficiente capacidade para perceber o que está acontecendo. (1932 [1996], p. 123).

Ainda sobre o sentimento da criança em relação ao recém chegado, Freud (1932 [(1996]) esclarece que se trata de uma revolta com o pequeno intruso, o que ocorre não somente devido à falta da amamentação, mas também por conta dos demais sinais de cuidados maternos para com este. Considerando que “as exigências de amor de uma criança são ilimitadas; exigem exclusividade e não toleram partilha” (p. 123), pouco importará se de fato houve ou não uma modificação importante nos cuidados com a primeira criança.

Nesse caso, é interessante lembrar as palavras de Frida Kahlo, antes citadas, sobre a impossibilidade de ser amamentada pela mãe em função do nascimento da irmã quando acabara de completar onze meses. Parece-nos, novamente, num exercício de associação, que os reclamos da artista apontam para uma solicitação de amor. É importante esclarecer que mesmo não sendo possível compreender de fato os sentimentos envolvidos nessa experiência de Frida Kahlo, podemos, para fins de reflexão e discussão teórica, pensar que as circunstâncias do nascimento e a subseqüente separação da mãe podem ter sido vivenciadas com sofrimento pela artista.

As nossas observações acerca da percepção de Frida Kahlo sobre tal situação [nascimento e separação da mãe], não se restringem aos dados apresentados até o momento. Notamos que além da obra acima mencionada – A Minha Ama e Eu (1937) – outras pinturas da artista retratam o tema do nascimento permeado de alguma forma por afeto e sofrimento, o que nos possibilita continuar o exame e as discussões teóricas que nos interessam.

Para elucidar as nossas aproximações, sugerimos ao leitor observar a obra intitulada Meu Nascimento ou Nascimento (1932), que corresponde à Figura 07, reproduzida no sub-capítulo 4.3 desta pesquisa. Nessa pintura alguns elementos parecem significativos. A artista retrata a cabeça da mãe coberta por um lençol branco, que, segundo Kattenmmann (2003) pode ser uma alusão à morte da mesma ocorrida pouco antes desse trabalho. O feto, em processo de nascimento, figura sobre o lençol manchado de sangue com expressão de dor e sofrimento. A cama aparece no meio de um quarto onde há apenas um retrato acima da

cabeceira cuja figura, como vimos, é de uma mulher com dois punhais a volta de seu pescoço. Notamos que não há uma expressão vívida por parte da mãe.

A obra nominada Moisés ou o Núcleo da Criação (1945), que corresponde à Figura 04, retratada no sub-capítulo 4.2 desta pesquisa, também traz como figura central uma criança abandonada. Nesse caso, trata-se de Moisés, porém, com feições correspondentes às de Diego Rivera. Como já esclarecido, para produzir essa obra, Frida Kahlo inspirou-se no livro de Sigmund Freud Moisés, o Homem e a Religião Monoteísta (1939 [1934-38]), que lhe fora emprestado por um amigo. Segundo Kattenmann (2003), a artista ficou fascinada com o texto. Lembremos algumas de suas palavras ao apresentar a pintura para um grupo de amigos:

É claro que o tema central é Moisés, ou o nascimento do Herói, mas generalizei a meu modo (um modo muito confuso) os fatos e imagens que me causaram as impressões mais fortes quando li o livro. [...]. O que eu queria expressar com a

máxima intensidade e clareza era que a razão por que as pessoas precisam inventar ou imaginar heróis e deuses é puro medo... medo da vida e medo da morte. (ZAMORA, 2006, p. 121, grifo nosso).

Interessante observarmos a associação estabelecida pela artista entre o nascimento [do herói] e o medo [da vida e da morte], o que pode nos sugerir a idéia de perigo, perda ou desamparo. Podemos pensar, para fins de revisão teórica, na possibilidade de uma experiência de angústia vivenciada pela artista relacionada à sensação de desamparo frente à separação da mãe. Separação esta que pode estar representada na primeira obra pela circunstância do nascimento [solitário] e nesta pela criança abandonada.

Um dos trabalhos onde Freud desenvolve o tema da angústia é Inibições,

Sintomas e Angústia (1925 [1996], p. 27), como vimos no capítulo 2.3 desta pesquisa. Como

as noções que ora nos interessam foram apresentadas naquela oportunidade, serão aqui brevemente retomadas. Nesse ensaio, Freud distingue de forma bastante elucidativa as situações traumáticas das situações de perigo, relativamente às quais há dois tipos de angústia. Respectivamente: angústia automática e angústia ante um perigo real, ou seja, como um sinal de aproximação do trauma. Assim, o que determina uma angústia automática é a ocorrência de uma situação traumática; e a essência da situação traumática é uma experiência de desamparo mental diante de um acúmulo de excitação. A partir disso, a associação que nos permitimos acerca de uma experiência de desamparo vivenciada como angústia por Frida Kahlo, não se refere à circunstância ou ao momento do seu nascimento, uma vez que Freud nos deixa clara a impossibilidade de uma vivência representada como traumática, daí decorrente, em função da imaturidade biológica e psíquica do recém-nascido. Pensamos que

tal experiência de desamparo pode ter sido integrada por Frida Kahlo, no período subseqüente ao seu nascimento, em decorrência das circunstâncias envolvidas nesse processo, como o nascimento da irmã quando a artista estava com apenas onze meses de idade.

Alertamos, contudo, que não há dados suficientes para afirmar sobre ter havido, de fato, uma modificação importante nos cuidados com a pequena Frida após o nascimento da irmã. Isto importa-nos pouco, já que a observação psicanalítica volta-se para a realidade particular de cada sujeito, o que significa dizer que o interesse da psicanálise aponta para a realidade psíquica e não para a factual. Frida Kahlo, portanto, pode, a despeito da realidade dos fatos [sobre a qual não sabemos ao certo], ter vivenciado, nas circunstâncias acima aludidas, uma experiência de desamparo e angústia com o respectivo sofrimento. A noção de realidade psíquica, comentada no Referencial Teórico desta pesquisa, reforça a idéia da singularidade do sofrimento e nos permite conjecturar esta possibilidade.

Retomando o início desta discussão, lembramos que o elemento de informação do qual partimos foi a idéia de uma ambivalência de sentimentos por parte de Frida Kahlo em relação à mãe. Referimos naquela ocasião que tal dado, por si só, não possibilitava entrever a presença de sofrimento, permitindo, entretanto, uma série de questões a serem discutidas. Nesse sentido, embora até o momento os dados e as articulações teóricas correspondentes remetam às circunstâncias do nascimento e a subseqüente separação entre Frida Kahlo e sua mãe, a idéia de uma ambivalência de sentimentos direcionada a esta, enseja outras discussões teóricas. Como sabemos, o complexo processo, antes comentado, que transforma a “menininha em mulher normal” (FREUD, 1932 [1996], p. 117), faz-se comumente acompanhar de sentimentos ambivalentes decorrentes de outros aspectos experimentados pela criança. Assim, para além do tema da angústia, que retornará mais adiante nas nossas discussões, surge a possibilidade de novas reflexões, associações e compreensão da teoria.

No texto Feminilidade (1932 [1996]), antes comentado, Freud, após citar as tarefas concernentes à “transformação” da menina em mulher e comentar os reclamos da criança dirigidos à mãe [antes aduzidos], examina mais detidamente o processo ocorrido em torno de uma dessas tarefas, que é a mudança de posição da menina frente ao seu primeiro objeto de amor: a mãe. Esse delicado processo que transforma um amor intenso e apaixonado em repulsa. É então que, depois de buscar diferentes explicações para o término dessa vinculação apaixonada, conclui que somente um fator específico pode explicar tal fato: o Complexo de Castração. Sobre este tema, são apresentados breves apontamentos no sub- capítulo 2.4 (A Psicanálise e as Mulheres) deste trabalho, porém, tendo em vista que os dados coletados sobre Frida Kahlo nos possibilitam refletir sobre uma gama de questões

relacionadas à desvinculação da mãe e, por conseguinte, a aspectos da sua sexualidade, o que envolve o Complexo de Castração, algumas idéias complementares serão aduzidas nesta oportunidade.

A descoberta da castração, para Freud, é determinante na menina, seja em direção à neurose, a um complexo de masculinidade ou à “sexualidade normal”. Determinará também o seu afastamento da mãe, já que o seu amor era dirigido a uma mãe fálica e não a uma mãe castrada. Essa descoberta leva a menina à renúncia da masturbação clitoridiana e à atividade fálica. A menina liga-se então ao pai, primeiro desejando um pênis, já que ele o possui, depois passando a desejar um filho, substituto do pênis. Estabelece-se, assim, a situação edipiana. Depois, a inveja do pênis, tema comentado no sub-capítulo 2.4 deste trabalho, é reparada, de alguma forma, pelo nascimento de uma criança, sobretudo se for do sexo masculino.

A partir desse resumido constructo, um importante elemento de informação se sobressai na história de Frida Kahlo: o desejo de ter um filho. Desejo este que pode ser inferido das três tentativas de manter a gravidez até o final [ainda que com riscos para a sua saúde], assim como da sua manifestação verbal feita aos quinze anos de idade: “Ainda terei um filho com Diego Rivera”. (HERRERA, 1984 apud BASTOS; RIBEIRO, 2007, p. 51). O desejo de ter um bebê não foi satisfeito, o que nos permite considerar a possibilidade de que, não tendo o bebê assumido o lugar do pênis faltoso, a situação feminina de Frida Kahlo possa ter resultado em frustração com o respectivo sofrimento. Contudo, sem desconsiderar tal associação, outras reflexões são válidas para pensarmos aspectos teóricos.

Freud (1932 [1996]) também nos ensina que, a despeito da “renúncia” do pênis, o desejo de possuir algo semelhante permanece no inconsciente e “conserva uma considerável catexia de energia”. (p. 125). Em seguida, sugere que uma modificação sublimada do desejo reprimido de ter o pênis pode ocorrer. Pensamos, a partir disso, na possibilidade de a obra de Frida Kahlo ser tomada como uma atividade sublimatória; nesse caso, não somente em função da perda e do desejo reprimido de ter o pênis, mas em decorrência das demais perdas sofridas ao longo da sua vida.24

Alguns apontamentos, a partir da discussão estabelecida por Lacan em torno da feminilidade, são oportunos para a nossa reflexão. Tais apontamentos reafirmam e complementam as noções apresentadas no sub-capítulo 2.4 (A Psicanálise e as Mulheres) deste estudo.

24

Sobre o papel da sublimação ante as perdas sofridas por Frida Kahlo durante toda a sua vida, sugerimos a leitura de “Frida Kahlo: Dor e Arte”, de Urania Tourinho Peres, 2007.

Para Lacan, a inveja do pênis, assim tratada por Freud, alude a um apelo feminino por um significante que represente o sujeito como mulher, não se tratando propriamente da inveja do órgão genital masculino. Refere-se, portanto, a uma “dissimetria no significante”, ou seja, a uma ausência imaginária naquele ponto onde, no sexo oposto, há um símbolo de grande valor. (LACAN, 1955-56 [1981]). O Complexo de Castração, antes aludido, se “ancora” nessa dissimetria resultante do valor simbólico do falo. Segundo o mesmo autor, a passagem pelo Édipo e o acesso à ordem sexuada só é possível a partir da inscrição do significante Nome do Pai. Assim:

É na medida em que a função do homem e da mulher é simbolizada, é na medida em que ela é literalmente arrancada ao domínio do imaginário para ser situada no domínio do simbólico, que se realiza toda posição sexual normal, consumada. É pela simbolização a que é submetida, como uma exigência essencial, a realização genital – que o homem se viriliza, que a mulher aceita verdadeiramente sua função feminina. (LACAN, 1955-56 [1981], p. 203).

O acesso ao simbólico, que traz consigo a questão da Castração, antes comentada, acentua o tema da feminilidade e nos incita a pensar na presença, em algumas mulheres e, neste caso, em Frida Kahlo, de uma angústia que remete à castração decorrente do fato de não conseguirem simbolizar o seu sexo. Para o autor, (1955-56 [1981]), a identificação imaginária ao falo na mulher não encobre a importância da falta simbólica decorrente do Complexo de Castração. No Seminário antes comentado (1955-56 [1981], Lacan remete-se ao Caso Dora25, sugerindo que esta procura aproximar-se da definição sobre o que é uma mulher, por meio de uma identificação com um homem, sendo o pênis, nesse caso, um instrumento imaginário para apreender o que ela não consegue simbolizar. Assim, indica que não há propriamente uma simbolização do sexo na mulher. Daí a pergunta fundamental da histérica a qual se sustenta num significante obscuro: Sou mulher ou sou homem?

Tendo em vista a alusão ao termo identificação imaginária, tomado por Lacan nessa oportunidade para falar sobre a falta de simbolização do sexo na mulher, e antevendo a relevância deste conceito para as nossas elaborações seguintes, apresentaremos algumas considerações sobre o assunto, as quais não constam do arcabouço teórico desenvolvido no segundo capítulo deste trabalho.

O termo identificação, tomado por Lacan já no início de suas reflexões teóricas, foi amplamente trabalhado por Freud e remete-nos à constituição do sujeito. No trabalho

25

O “Caso Dora” é um dos emblemáticos estudos de Freud sobre a histeria. Foi escrito em 1901 e publicado somente em 1905 com o titulo Fragmento da Analise de um Caso de Histeria. Encontra-se no vol. VII da Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud.

Psicologia de Grupo e Análise do Ego, mais especificamente no seu capítulo VII

[Identificação], Freud assinala que a identificação “[...] é conhecida pela psicanálise como a mais remota expressão de um laço emocional com outra pessoa.” (FREUD, 1921 [1996], p. 133). Stotz (1997) em seu trabalho intitulado O Nome Próprio é um 1, esclarece:

É juntamente com a constituição do sujeito, em suas diversas abordagens, que aparece o tema da identificação. A questão da identificação mostra-se, também para Lacan como tema relevante e este passa a investigá-la, dedicando-lhe um Seminário,

“La Identificacion”. (p. 8)

Partindo dos ensinamentos de Freud, a identificação se estabelece de três formas: identificação primária [narcísica], identificação regressiva a um traço e identificação ao desejo do outro. Para Stotz (1997), a identificação primária remete à identificação totêmica, no mito da horda primeva, que se refere a uma crença canibalesca de que pelo ato de comer

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