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Frida Kahlo

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UNIVERSIDADE DO SUL DE SANTA CATARINA ALINE VEIGA PEREIRA RIBEIRO VELHO

FRIDA KAHLO: UM OLHAR SOBRE O SOFRIMENTO À LUZ DA PSICANÁLISE

Palhoça 2010

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ALINE VEIGA PEREIRA RIBEIRO VELHO

FRIDA KAHLO: UM OLHAR SOBRE O SOFRIMENTO À LUZ DA PSICANÁLISE

Orientador (a): Profª. Maria do Rosário Stotz, Dra.

Palhoça 2010

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Curso de graduação em Psicologia da Universidade do Sul de Santa Catarina – UNISUL como pré-requisito parcial para obtenção do título de Psicólogo.

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A todos aqueles que, de algum modo, se interessam pela problemática do sofrimento.

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AGRADECIMENTOS

Ao meu marido José Afonso, pelas inúmeras e importantes demonstrações de confiança no sentido de que o meu recomeço daria certo. Também por me proporcionar todas as condições possíveis para que eu realizasse o meu grande desejo de ser psicóloga.

Aos meus “filhos” Gustavo e Bruno (in memorian), por torcerem sempre muito por mim. Especialmente ao Bruno pela oportunidade de compartilhar, ainda que brevemente, o mesmo interesse pela psicologia e pela psicanálise.

Aos meus pais, Terencio e Sonia, por me encherem de orgulho por serem pessoas tão especiais, também por acreditarem incondicionalmente em mim e nos meus sonhos, o que por si só me deu condições para buscá-los. E ainda porque com seus “conselhos”, permitiram que eu me tornasse psicóloga no momento certo e não “antes do tempo”, como era o meu desejo. Assim, vocês não precisam mais se culpar isso!

À Professora e orientadora Maria do Rosário, pelas suas excelentes aulas; por ter me aceito no Time da Mente desde a sexta fase, o que muito contribuiu para a minha formação; pela dedicação e disponibilidade em transmitir os conhecimentos necessários para a conclusão deste trabalho; pelo interesse demonstrado no sentido de que eu realmente apreendesse o que procurava me transmitir, e pelo rigor das correções feitas no meu trabalho, as quais me propiciaram um grande aprendizado.

À Professora Tânia... , para quem é difícil encontrar palavras suficientes. Pelos ensinamentos compartilhados com tanta generosidade na clínica e fora dela; por aceitar ser parte da minha banca; por me “dizer” de muitas formas que confia em mim e no meu trabalho; pelas trocas afetuosas e, principalmente, pela inspiração que me causam a sua presença e as suas palavras.

À Professora Maria Ângela, pelas aulas maravilhosas, por meio das quais me apresentou de modo muito especial a psicanálise e por me aceitar no Projeto Ambutal, onde durante um curto período de tempo, pude compartilhar dos seus conhecimentos transmitidos de forma tão interessada e acolhedora. Também pelo apoio e incentivo nos momentos difíceis, e pelo que tem me permitido aprender mesmo não estando tão próxima.

Ao Professor Maurício, por dispender o seu tempo para avaliar e contribuir com o meu trabalho de forma tão dedicada e acolhedora.

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Às amigas e colegas de orientação Adriana, Maria Júlia e Graziele, por compartilharem os prazeres e angústias, permitindo assim uma “leveza” neste processo.

À Helena, por ter me ajudado na vida... Sempre.

À Marlene, pela amizade e pelas palavras certas nos momentos certos: “Não, não é tarde... porque você não experimenta fazer só três matérias?” E eu comecei a cursar Psicologia.

Aos demais familiares, amigos, colegas de curso, professores e todos aqueles que de alguma forma tornaram possível este trabalho, a minha afetuosa gratidão.

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Ao escrevermos, como evitar que escrevamos sobre aquilo que não sabemos ou sabemos mal? É necessariamente neste ponto que imaginamos ter algo a dizer. Só escrevemos na extremidade do nosso próprio saber, nesta ponta extrema que separa nosso saber e nossa ignorância e que transforma um no outro. É só deste modo que somos determinados a escrever. (GILLES DELEUZE)

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RESUMO

A busca de uma compreensão acerca da problemática relacionada ao sofrimento psíquico permeia a história da humanidade tendo sido objeto de interrogação por parte de estudiosos de diferentes segmentos e com diversos propósitos ao longo dos muitos contextos históricos. No entanto, foi Freud, por meio de suas pesquisas e através da sua “psicoanálise” quem estabeleceu uma ruptura epistemológica no tocante à compreensão e tratamento do sofrimento. Considerando que o objetivo desta pesquisa consiste em investigar a manifestação do sofrimento psíquico em Frida Kahlo a partir da análise de sua biografia e de algumas de suas obras iconográficas à luz da psicanálise, num primeiro momento realizamos um criterioso exame na obra freudiana buscando aproximações relativamente à temática do sofrimento que nos permitissem compreender esse fenômeno na vida e obra da artista. Tal exame permitiu a discussão de importantes constructos teóricos como é o caso das noções relacionadas a conflito, sintoma e angústia. Algumas considerações acerca da feminilidade nas concepções de Freud e Lacan também foram aduzidas nessa oportunidade. Num segundo momento foram selecionadas e analisadas duas biografias de Frida Kahlo, além do Diário Intimo da artista e de algumas das suas correspondências endereçadas a familiares, amigos e amantes. A leitura desse material auxiliou na escolha de algumas das obras iconográficas da artista que remetem ao sofrimento, consoante o nosso objetivo. A partir do estudo exaustivo desse material, estabelecemos articulações entre os pontos considerados relevantes da vida e obra de Frida Kahlo e algumas das aproximações alcançadas no primeiro momento da pesquisa relativamente às noções concernentes ao sofrimento psíquico. Este procedimento nos permitiu discutir, reflexionar e melhor compreender temas importantes para a psicanálise, especialmente no tocante à feminilidade, à angústia, à idealização e à construção da imagem corporal.

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LISTA DE FIGURAS

Figura 1 – Árvore genealógica de Frida Kahlo ... 65

Figura 2 – Fotografia com as irmãs Adriana e Cristina [a sua direita] e sua prima Carmen com o filho Velaza [a sua esquerda] ... 69

Figura 3 - Auto-Retrato Dedicado a Leon Trotsky (1937) ... 88

Figura 4 – Moisés ou O Núcleo da Criação (1945) ... 93

Figura 5 – Acidente (1926) ... 102

Figura 6 – O Hospital Henry Ford ou A Cama Voadora (1932) ... 103

Figura 7 – O Meu Nascimento ou Nascimento, (1932) ... 104

Figura 8 – Unos Cuantos Piquetitos (1935) ... 104

Figura 9 – A Minha Ama e Eu ou Eu a Mamar (1937). Óleo sobre metal, 30,5 x 34,7cm. Museu Dolores Olmedo Patino, México ... 105

Figura 10 – As Duas Fridas (1939). Óleo sobre tela, 173,5 x 173 cm. Museu de Arte Moderna, México ... 106

Figura 11– Auto-Retrato com Cabelo Cortado (1940) ... 106

Figura 12 – A Coluna Partida (1944) ... 107

Figura 13 – Diego e Eu (1949) ... 108

Figura 14 – Mural Balada da Revolução (1928) ... 123

Figura 15 – Diego no Meu Pensamento ou Pensando em Diego (1943) ... 127

Figura 16 – Diego e Frida ou Retrato Duplo, Diego e Eu (1944) ... 128

Figura 17 – Os Meus Avós, os Meus Pais e Eu (1936) ... 135

Figura 18 – Eu sou a desintegração ... 136

Figura19 – Pés para que te quero se tenho asas para voar ... 136

Figura 20 – O fenômeno imprevisto... 137

Figura 21 – Como as “pessoas” são feias ... 137

Figura 22 – Pegadas e marcas de sol ... 137

Figura 23 – A pomba enganou-se. Enganou-se. ... 137

Figura 24 – Quem é este idióta? ... 137

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LISTA DE SIGLAS

BIREME - Biblioteca Virtual em Saúde CAPS - Centro de Atenção Psicossocial CID - Classificação Internacional de Doenças

DSM - Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais ESF - Estratégia de Saúde da Família

ICAP - Indexação Compartilhada de Artigos Periódicos PSM - Programa de Saúde Mental

PEPSIC - Periódicos Eletrônicos em Psicologia SCIELO - Coleção de Revistas e Artigos Científicos UBS - Unidade Básica de Saúde

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SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ... 10 1.1 TEMA ... 12 1.2 PROBLEMÁTICA E JUSTIFICATIVA ... 12 1.3 OBJETIVOS ... 23 1.3.1 Objetivo geral ... 23 1.3.2 Objetivos específicos ... 24 2 REFERENCIAL TEÓRICO ... 25

2.1 SOFRIMENTO: UMA APROXIMAÇÃO ... 25

2.2 ALGUMAS NOTAS SOBRE O SINTOMA ... 34

2.3 ALGUMAS NOTAS SOBRE A ANGÚSTIA ... 40

2.4 A PSICANÁLISE E AS MULHERES ... 50

3 MÉTODO ... 54

3.1 CARACTERIZAÇÃO DA PESQUISA ... 54

3.2 FONTES DE INFORMAÇÃO... 56

3.2.1 Critérios de seleção ... 57

3.3 PROCEDIMENTO DE COLETA DE DADOS ... 57

3.4 PROCEDIMENTO DE TRATAMENTO E ANÁLISE DE DADOS ... 58

3.4.1 Equipamento e Material ... 60

3.4.2 Situação e Ambiente ... 61

4 APRESENTAÇÃO DE DADOS... 62

4.1 O MÉXICO DE FRIDA KHALO... 62

4.2 A HISTÓRIA DE FRIDA KAHLO... 64

4.3 JAMAIS PINTEI SONHOS, PINTEI MINHA PRÓPRIA REALIDADE... 102

5 DISCUSSÃO E ANÁLISE DE DADOS... 109

5.1 FRIDA KAHLO ... 109

6 CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 140

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1 INTRODUÇÃO

Esta pesquisa é o resultado da articulação entre as disciplinas Trabalho de Conclusão de Curso I e II, Núcleo Orientado em Psicologia da Saúde I, II e III, e Estágio Específico em Psicologia da Saúde I e II. A articulação entre pesquisa e campo de estágio cumpre uma das diretrizes do Curso de Psicologia da Universidade do Sul de Santa Catarina (UNISUL), segundo a qual a escolha do fenômeno a ser estudado no Trabalho de Conclusão de Curso I e II deverá resultar da experiência prática do acadêmico no campo de estágio.

O Estágio Específico em Psicologia da Saúde é realizado no Programa de Saúde Mental (PSM) do Município de São José/SC e no Centro de Atenção Psicossocial (CAPS II) do Município de Palhoça/SC. O PSM (São José) e o CAPS II (Palhoça) mantêm parceria com o Projeto de Extensão Time da Mente, do Curso de Psicologia da UNISUL, sendo estes os campos de estágio oferecidos aos acadêmicos inseridos no Núcleo Orientado em Psicologia da Saúde. O estágio correspondente ao segundo semestre de 2009 foi realizado nas duas instituições comentadas. O estágio correspondente ao primeiro semestre de 2010 está sendo realizado no CAPS II (Palhoça).

O PSM funciona junto à Unidade Básica de Saúde (UBS) do Bairro Bela Vista III do Município de São José e está vinculado à Estratégia de Saúde da Família (ESF), tendo como objeto a atenção básica e o suporte aos profissionais relativamente ao atendimento de pacientes com transtornos mentais e seus familiares. O Programa foi implantado em 2004 e conta atualmente com uma equipe composta por duas enfermeiras e uma médica psiquiatra. (STOTZ; CAMPOS, 2006).

O CAPS II é um serviço comunitário ambulatorial que proporciona o tratamento do sofrimento psíquico, especialmente transtornos severos e persistentes, em sujeitos residentes no Município de Palhoça. O trabalho desenvolvido nos atendimentos médico e psicológico visa o acolhimento dos pacientes, o estímulo à integração social e familiar e o apoio relativamente as suas iniciativas de busca de autonomia. (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2004).

A inclusão da psicologia no PSM se deu em agosto de 2006 e no CAPS II em janeiro de 2008, por meio de parceria entre essas instituições e a Universidade do Sul de Santa Catarina (UNISUL), através do Curso de Psicologia e Projeto de Extensão Time da Mente. Este Projeto é formado por professores e alunos com a proposta de articular a teoria e a

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prática a partir das demandas identificadas nas comunidades. Portanto, o Projeto de Extensão, cujo objetivo inicial foi promover e/ou resgatar a saúde mental dos sujeitos atendidos pelo PSM do Município de São José, a partir de diagnóstico institucional realizado pelo grupo, ampliou atualmente seus objetivos por meio de parceria realizada, também, com o CAPS II de Palhoça.

As atividades desenvolvidas pelos estagiários de Psicologia no PSM se organizam por meio dos seguintes subprojetos: atendimento individual, atendimento em grupo operativo, oficina terapêutica, realização de grupo temático relacionado às questões de alimentação, atividade física e auto-estima, visitas domiciliares e grupo de orientação aos familiares de pacientes atendidos pelo PSM. Os pacientes são encaminhados às atividades correspondentes aos subprojetos de acordo com a demanda identificada no processo de triagem que é, igualmente, realizado pelos estagiários.

As atividades desenvolvidas no CAPS II são as seguintes: 1) Programa Bem-Estar, que tem como objetivos promover a melhora do padrão alimentar; estimular a prática da atividade física; sensibilizar a equipe, pacientes e seus familiares para questões relacionadas à saúde e à qualidade de vida; 2) Oficina Terapêutica de Mosaico, cujo objetivo principal é exercitar o contato do sujeito com a sua própria realidade por meio do mundo concreto estimulando a auto-percepção e a percepção do outro; 3) Grupo Roda Viva de Leitura que visa identificar as obras literárias como um repositório de significações da experiência humana. Além destas atividades, os alunos elaboraram os seguintes projetos que serão colocados em prática em 2010-2: 1) Grupo de Reinserção Social, com objetivo de desenvolver a autonomia do sujeito em processo de alta da Instituição, possibilitando, dessa forma, a sua reinserção social; 2) Grupo Operativo, que trabalhará no sentido de desenvolver a capacidade dos usuários em lidar com a realidade buscando estratégias de enfrentamento de conflitos, visando manter a estabilidade psíquica.

Para a participação nos projetos, os usuários são submetidos a processo de triagem realizado pelos estagiários.

Foi então, a partir dessa experiência de estágio, aliada à participação em projetos de extensão, onde entramos em contato com o sofrimento psíquico de uma forma particular – o sofrimento do outro, do paciente –, que se firmou o desejo de mais saber sobre o tema do sofrimento. Nessa oportunidade, percebemos sim que o sofrimento psíquico é singular, mas muitas questões se levantaram em torno do assunto, como, por exemplo, sobre a possibilidade de compreender a sua dinâmica a partir da teoria; sobre a existência ou não de um núcleo comum nos modos de sofrer e, ainda, sobre como compreendê-lo em cada sujeito. A nossa

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resposta a esse anseio se materializa neste trabalho, onde pesquisamos a respeito do que diz a psicanálise sobre o sofrimento psíquico, bem como conhecemos algumas de suas configurações por meio da investigação do fenômeno a partir da biografia e obra de um sujeito, o que nos possibilita contribuir cientificamente em relação à temática. Entendemos que esses dois saberes acerca do sofrimento psíquico, quais sejam, o do conhecimento já existente e aquele sobrevindo da investigação de algumas de suas manifestações singulares, nos permite, concomitantemente a uma escuta qualificada e um interesse genuíno, auxiliar de alguma maneira os sujeitos que nos procuram no sentido de que continuem a investir em si mesmos, na relação com os outros e no mundo externo, a despeito de todas as adversidades. Pensamos, assim, que o presente estudo possibilita-nos nesse percurso de investigação, satisfazer, em parte, esse desejo de mais saber sobre o ser humano que sofre. Conscientes, afinal, de que a forma como cada um trata o seu sofrimento depende da sua estruturação psíquica.

A seguir, desenvolvemos o tema e a pesquisa propostos, por meio dos seguintes tópicos apresentados em capítulos: Introdução, Tema, Problemática e Justificativa, Objetivo Geral e Objetivos Específicos (Capítulo 1); Referencial Teórico (Capítulo 2); Método (Capítulo 3); Apresentação de Dados (Capítulo 4); Discussão e Análise de Dados (Capítulo 5); Considerações Finais (Capítulo 6) e Referências.

1.1 TEMA: Sofrimento psíquico em Frida Kahlo.

1.2 PROBLEMÁTICA E JUSTIFICATIVA

Esta pesquisa versa sobre uma temática de Saúde Mental, em particular sobre o sofrimento psíquico. A investigação é realizada por meio de Estudo de Caso a partir de duas biografias e algumas obras iconográficas de Frida Kahlo, cujo procedimento de escolha será especificado no capítulo correspondente ao Método. A seguir, apresentamos algumas considerações no intuito de contextualizar a questão que levantamos adiante como problema a ser respondido neste estudo e justificar a sua relevância.

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Partindo da idéia de Ceccarelli (2005, p. 475), segundo a qual “Todo o ensino de psicologia, em suas mais variadas áreas de atuação, apóia-se, ainda que implicitamente, em uma leitura do pathos1”, podemos antever a relevância da discussão que propomos. Segundo

o autor, a psicologia enquanto ciência se constituiu a partir de um fenômeno social novo, cujas origens remontam à revolução burguesa e o estabelecimento de um novo modo de organização social. Tal fenômeno corresponde ao que o autor designou “sentimento de eu”. Foi a ideologia daquele contexto histórico que tornou possível o surgimento da psicologia e permitiu diferentes leituras sobre esse novo fenômeno [o sentimento de eu]. Tais leituras sustentam as diversas epistemologias que explicam o normal e o patológico. É nesse sentido que o autor postula ser a leitura do pathos o que ampara o ensino de psicologia e fundamenta, dessa forma, a epistemologia que explica a noção de sujeito que, por sua vez, orientará a clínica.

A experiência do sofrimento psíquico pode ocorrer em diversas fases da vida de um sujeito – infância, adolescência, vida adulta, velhice – sendo vivenciada a partir de diferentes significados por cada um deles. Contudo, o que parece ser um ponto comum entre as experiências de sofrimento é o desequilíbrio por ele proporcionado, o que Dantas e Tobler (2003) descrevem como sendo uma tensão interna que reclama uma resolução. O mesmo autor reporta-se a um “vazio” que o sofrimento deixa entrever, para o qual buscamos a solução ou a evitação. Esse desequilíbrio mencionado pode afetar as diferentes dimensões da vida do sujeito, quais sejam a física, a psicológica e a social.

Entender o sofrimento psíquico e suas variadas formas de representação não se trata de tarefa fácil. Aliás, sobre a possibilidade de uma compreensão do tema enquanto conceito, saberemos somente no percurso deste estudo. No entanto, o prenúncio de dificuldade não contém nosso movimento de aproximação a esse fenômeno tão caro aos estudiosos do comportamento humano, tendo sempre em mente, contudo, que o modo de relação do sujeito com o seu sofrimento é absolutamente singular. A propósito disto, esclarecemos que a singularidade do sofrimento, que é uma de suas características, configura uma das causas impulsionadoras da escolha do tema e do delineamento desta pesquisa que, como antes referido, trata-se de um Estudo de Caso que investigará o sofrimento psíquico em Frida Kahlo.

Assim, cabe evidenciar que o nosso propósito, antes de apresentarmos a questão-problema a ser respondida neste estudo, é indicar ao leitor que a temática relacionada ao

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sofrimento psíquico, especialmente no tocante a sua definição, é por si só uma questão na medida em que as concepções sobre o fenômeno foram tantas quanto os contextos históricos nos quais viveu a humanidade. Além disso, mesmo alicerçados na teoria psicanalítica, que teve sua origem e desenvolvimento atravessados pela investigação e compreensão de fenômenos relacionados ao sofrimento psíquico, encontramos em Freud certa dificuldade em apreendê-lo enquanto conceito. Afigura-se, portanto, que o fenômeno em pauta nesta pesquisa não reclama uma definição, aliás, talvez esta se apresente sob tantas formas quanto são os sujeitos que sofrem. Sendo assim, o decorrer deste estudo esclarecerá o que nos importa saber sobre o sofrimento para, enfim, possibilitar a sua investigação na vida e obra de Frida Kahlo.

Sabemos que a aplicação da psicanálise na compreensão da criação artística trata-se de uma delicada e difícil tarefa. Nestrata-se trata-sentido, é importante esclarecer que o nosso intento, para além da investigação do sofrimento em Frida Kahlo, é valer-nos desse procedimento para, a partir dos conteúdos alcançados, discutir e refletir sobre constructos teóricos relacionados ao sofrimento para a psicanálise. Assim, os nossos comentários, relativamente aos fatos apresentados sobre a história da artista, especialmente no tocante as suas obras, se tratam de singelas associações que nos servem para rever as noções teóricas que nos interessam. Feitas estas considerações iniciemos, a seguir, um passeio pela problemática do sofrimento que servirá para contextualizar o tema, ao tempo em que marca a introdução das nossas aproximações.

A problemática do sofrimento psíquico permeia a história da humanidade. Desde a antiguidade, filósofos, médicos e estudiosos em geral buscam dar conta da especificidade das muitas formas de expressão do sofrimento. Alguns destes produziram somente uma filosofia que podemos chamar de “consoladora”, enquanto outros se debruçaram sobre o assunto com propósitos diversos, como veremos adiante. Esse fato indica ser o sofrimento uma qualidade própria e inexorável da condição humana. Corroborando essa idéia, Ceccarelli (2005) refere que a psicopatologia esteve presente em cada contexto histórico-político, visando decompor o sofrimento psíquico em seus elementos de base, no sentido de compreendê-los, classificá-los, estudá-los e tratá-los. A partir da análise da palavra psicopatologia, o autor esclarece sobre o seu sentido e significado:

A palavra "Psico-pato-logia" é composta de três palavras gregas: "psychê", que produziu "psique", "psiquismo", "psíquico", "alma"; "pathos", que resultou em "paixão", "excesso", "passagem", "passividade", "sofrimento", "assujeitamento", "patológico" e "logos", que resultou em "lógica", "discurso", "narrativa", "conhecimento". (p. 471, grifo do autor).

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Em seguida, define a psicopatologia como sendo “[...] um discurso, um saber (logos) sobre a paixão (pathos) da mente, da alma (psiquê) [...] um discurso representativo a respeito do pathos psíquico; um discurso sobre o sofrimento e o padecer psíquico.” (p. 471, grifo do autor). Interessante a relação que o mesmo autor estabelece entre a doença e as paixões, a partir de uma referência ao Banquete de Platão: “Médico é aquele – diz Platão – que está sempre atento ao pathos, às paixões, pois as doenças apresentam-se como um excesso de paixões”. (p. 471, grifo do autor).

Outra característica instigante sobre o sofrimento está na ambigüidade de sentidos que ele encerra. No senso comum, denota algo relacionado à perda, dificuldade, fracasso, enfim, manifestações negativas que devem ser banidas das nossas vidas. Ao contrário, para alguns filósofos, dentre eles Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900), sofrer quer dizer muito mais do que isso. O sofrimento na filosofia nietzscheana, ao contrário da concepção popular, significa algo proveitoso. Aliás, remete à possibilidade de vitória ou sucesso, pelo movimento no sentido da sua superação. Essa idéia está presente ao longo de toda a sua obra e, em Humano, demasiado humano, resta clara quando o autor estabelece os dois modos por meio dos quais o homem pode superar seus infortúnios: “[...] eliminando sua causa ou modificando o efeito que produz em nossa sensibilidade; ou seja, reinterpretando o infortúnio como um bem, cuja utilidade se torne visível depois”. (NIETZSCHE, 1878 [2005], p. 79). Essa visão de Nietzsche acerca do sofrimento é definida metaforicamente quando sugere que devemos nos espelhar nos jardineiros. Estes se deparam com plantas cujas raízes são horríveis, monstruosas e, no entanto, o resultado que obtém delas é sublime. Esse é o caminho, segundo o filósofo: transformar a dor e o sofrimento [a raiz horrorosa], em algo belo [a flor], e proveitoso. (NIETZSCHE, 1878 [2005]). Como sugere a expressão antes mencionada – superação –, esta é que possibilitaria ao homem tornar-se superior.

No tocante aos diferentes contextos históricos em que o fenômeno foi estudado, Ceccarelli (2005) esclarece que, como resultado disso, produziu-se uma diversidade de metapsicologias2, tendo cada uma delas as suas referências e suas perspectivas teórico-clínicas. Como exemplo, o autor cita Sigmund Freud (1856-1939), que provocou uma verdadeira ruptura epistemológica ao se valer da “psicoanálise” para estudar o sofrimento. O sentido do termo – psicoanálise – é dado pela química e trata-se de uma análise do psiquismo

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O elemento comum entre as abordagens metapsicológicas é a pressuposição de um mundo interno e de um aparelho psíquico, cujo funcionamento é marcado pela dinâmica e por processos mentais inconscientes (GARCIA ROSA, 1995).

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que visa decompor e analisar os elementos que constituem os sintomas e as manifestações patológicas do paciente. (CECCARELLI, 2005).

Ceccarelli (2005) explica que essa ruptura epistemológica é resultado da psicologia profunda empreendida por Freud, para quem o sujeito fala sempre a partir do seu

pathos que se confunde com os demais elementos da trama discursiva. O mesmo autor,

influenciado pelo pensamento lacaniano, adverte que “É esta trama, inicialmente encarnada pelo Outro, que possibilita que o pathos, como passividade, alienação, transforme-se, na situação terapêutica, em percepção, em experiência [...]” (p. 473), permitindo o tratamento do sofrimento.

Embora a obra freudiana esteja na sua totalidade entremeada por questões relacionadas à problemática do sofrimento, interessante atentarmos inicialmente para aquela em que o autor aborda o fenômeno como algo inerente ao ser humano. Trata-se do ensaio intitulado O Mal-Estar na Civilização (1929 [1996])3, onde Freud aponta, logo na introdução, o quanto a vida humana é árdua e implica em sofrimento. Nesse sentido, citando Theodor Fontane, sustenta que somente por meio de “construções auxiliares” (FREUD, 1929 [1996], p. 83), que seriam “medidas paliativas” (FREUD, 1929 [1996], p. 83), conseguimos suportar o sofrimento inerente à vida. Freud cita três dessas medidas: "[...] derivativos poderosos, que nos fazem extrair luz de nossa desgraça; satisfações substitutivas, que a diminuem; e substâncias tóxicas, que nos tornam insensíveis a ela”. E enfatiza: “Algo desse tipo é indispensável”. (FREUD, 1929 [1996], p.83).

Mais adiante, nesse mesmo ensaio – O Mal-Estar na Civilização –, o autor faz referência à angústia derivada da relação do homem frente ao clamor das pulsões4 e explica que o sofrimento ameaça o homem a partir de três direções: decadência e dissolução do próprio corpo, mundo externo que pode voltar-se contra ele e relacionamento com os outros, sendo esta última apontada como a fonte geradora de maior sofrimento. Frente a essas ameaças de possibilidades de sofrimento, o homem passa a “[...] moderar suas reivindicações de felicidade [...]” (FREUD, 1929 [1996], p. 85), abrindo mão do princípio de prazer, transformando-o em princípio de realidade. Passa a tentar controlar suas pulsões e acredita ter, dessa forma, sobrevivido ao sofrimento e se livrado da infelicidade. Assim, a primeira meta do ser humano seria o não sofrer, enquanto o prazer seria secundário. A partir daí o autor

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Nas referências às obras Freudianas, optou-se por destacar o ano de construção do texto, por se entender que a cronologia da obra é fundamental para a compreensão do pensamento do autor e, em seguida, a data da publicação da Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud.

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Em A pulsão e suas vicissitudes (1915 [1996], p.127), Freud define a pulsão como “um conceito situado na fronteira entre o mental e o somático, como o representante psíquico dos estímulos que se originam dentro do organismo e alcançam a mente”.

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aponta os possíveis caminhos a serem seguidos na tentativa de evitar o sofrimento. Muito embora Freud não defina nesse trabalho o que é o sofrimento, faz referência a uma “[...] angústia derivada da relação do homem frente ao clamor das pulsões [...]” (FREUD, 1929 [1996], p. 85), ao explicar como o sofrimento ameaça os homens. Não aprofundaremos, neste momento, o tema da angústia e sua possível relação com o sofrimento, mas sublinhamos essa passagem por entendermos que pode auxiliar o nosso estudo.

No tocante à impossibilidade do sucesso completo das formas de evitar o sofrimento, que nos parece ser uma das tônicas desse trabalho, interessante o comentário de Gay (1989) que, aludindo à referida obra – O Mal-Estar na Civilização –, menciona não se admirar que Freud tenha concluído um de seus capítulos com a seguinte nota pessoal: “[...] para a humanidade como um todo, assim como para o indivíduo, a vida é difícil de suportar”. (p. 481). A observação serve para corroborar a idéia, em Freud, da permanência do sofrimento humano.

Como antes mencionado, encontramos na obra freudiana inúmeras referências ao sofrimento. O autor refere sobre as suas formas, fontes, sua natureza, ao desprazer que ele encerra e em muitos momentos vincula o sofrimento ao sintoma, o que nos remete ao tema da angústia. Será no capítulo correspondente ao Referencial Teórico que apresentaremos as importantes contribuições encontradas sobre a temática do sofrimento psíquico em Freud, o que acreditamos nos possibilitará chegar a alguns pontos importantes sobre esse fenômeno para a realização desta pesquisa.

Ainda que o tema relativo ao sofrimento psíquico tenha sido abordado de forma breve até o momento, parece-nos esclarecida a afirmativa que inaugurou esta problemática, segundo a qual o sofrimento psíquico é uma temática de Saúde Mental. Cabe, contudo, mais algumas considerações referentes a essa assertiva, o que nos permitirá, também, estabelecer a justificativa da realização desta pesquisa.

É no âmbito da Saúde Mental, campo no qual estamos inseridos, que muitos sujeitos buscam alívio para o seu sofrimento. É esse sofrimento singularizado, apresentado pelo paciente, que poderá transformar-se em demanda de tratamento. Expliquemos. Os mais diversos motivos levam sujeitos que sofrem a buscar ajuda no campo da Saúde Mental. Nesse âmbito, em geral, são disponibilizadas duas formas de tratamento: o psiquiátrico, que comumente preconiza a ação medicamentosa para abrandar o sofrimento do paciente, e o psicológico, que nos remete a um vasto conjunto de intervenções terapêuticas, fundamentadas nas diversas abordagens psicológicas vigentes. Nos serviços públicos de Saúde Mental, o encaminhamento para uma das possibilidades de intervenção é feito mediante a realização de

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um processo por meio do qual são avaliadas as funções psíquicas e os mecanismos de defesa do paciente, visando à construção de uma hipótese diagnóstica, o que permitirá o seu encaminhamento para uma das formas de intervenção disponíveis na instituição. A psicoterapia individual é uma dessas modalidades de intervenção, que ocorre também na esfera privada. Nas instituições públicas, costuma-se denominar triagem essa coleta de informações que visa delimitar o foco do tratamento por meio da investigação da queixa no sentido de verificar a possibilidade da sua transformação em demanda para tratamento psicológico. (BELICANTA, 2007).

Numa perspectiva psicanalítica, esse período de investigação da queixa, que antecede o tratamento propriamente dito, foi recomendado por Freud no seu texto Sobre o

Início do Tratamento (1913 [1996]) onde faz referência ao seu hábito de, durante o período

inicial, empreender uma “[...] sondagem a fim de conhecer o caso [...]” (p. 139). Adverte que esse período é considerado já o início do tratamento, contudo, aponta uma distinção deste para o momento de sua continuação: “[...] nele, se deixa o paciente falar quase todo o tempo e não se explica nada mais do que o absolutamente necessário para fazê-lo prosseguir no que está dizendo”. (p.140). Segundo Quinet (2007), esse tratamento de ensaio em Freud, corresponde às entrevistas preliminares em Lacan, para quem só uma demanda é verdadeira para se dar início a uma análise: a de livrar-se de um sintoma. Nesse sentido, há uma particularização da demanda de tratamento num sujeito quando este se apresenta ao analista representado por seu sintoma5.

Assim, é durante as entrevistas preliminares que a demanda deverá ser transformada em sintoma analítico, ou seja, o sintoma inicial passa do estatuto de resposta para o estatuto de questão. Essa função das entrevistas preliminares é denomina por Quinet (2007, p. 15) de função sintomal [sinto-mal]. Outra função importante apontada pelo mesmo autor é a função diagnóstica dessas entrevistas, que se refere ao estabelecimento da direção do tratamento e ao respaldo para a sua condução. Feitos esses sucintos apontamentos acerca da demanda de tratamento em Saúde Mental, bem como das “recomendações” (FREUD, 1913 [1996], p. 139) psicanalíticas sobre o início do tratamento, retomemos a justificativa da escolha temática e de delineamento desta pesquisa.

As considerações acima expostas nos remetem à idéia de um endereçamento do sofrimento psíquico por parte do paciente ao psicanalista. Embora essa expressão – endereçamento do sofrimento – possa soar estranha ao leitor, pensamos que propicia a nossa

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reflexão sobre a importância dos psicanalistas e psicólogos aprofundarem o seu saber sobre a temática do sofrimento, afinal, de alguma forma, são estes os destinatários desse sofrimento, cujas formas de apresentação são tantas quanto os sujeitos que as experimentam.

Assim, investigar a vida de um sujeito por meio de sua biografia e obra e buscar aí suas manifestações de sofrimento, tornou-se o nosso principal objetivo na medida em que nos permitirá, além de discutir, refletir e compreender constructos teóricos relacionados ao sofrimento para a psicanálise, realizar um dos exercícios imprescindíveis à prática clínica que corresponde à investigação precisa e global sobre os pacientes. É o conhecimento daí advindo que nos possibilitará entender a sua dinâmica psíquica e os seus sintomas, que, de alguma forma, vinculam-se aos seus sofrimentos. A compreensão sobre a história do paciente é um dos importantes instrumentos de trabalho do psicólogo, especialmente na prática clínica.

Ademais, tendo em vista que até o momento o conhecimento científico parece não nos esclarecer satisfatoriamente acerca da existência de um núcleo comum nos modos de sofrer, entendemos que o estudo sobre a singularidade de um sujeito que sofre poderá contribuir para ampliar o corpo teórico da Saúde Mental, possibilitando articular as possíveis descobertas à novas propostas de intervenções terapêuticas na esfera da Saúde Mental, seja no âmbito público ou privado.

A forma escolhida para viabilizar esta pesquisa foi um Estudo de Caso a partir de material biográfico e iconográfico. A opção justifica-se na medida em que investigar o sofrimento psíquico de um sujeito por meio de entrevista ou questionário poderia infringir a exigência ética e científica que garante o respeito ao indivíduo, uma vez que, o próprio sofrimento desse suposto sujeito poderia ser despertado nesse processo. Além disso, segundo Schneider (2008), os historiadores contemporâneos da psicologia, empenhados em buscar novos métodos para a sua investigação, apontam aspectos relevantes da abordagem biográfica, cuja principal fonte de dados para a reconstrução dos acontecimentos é a vida e a obra de um sujeito. Segundo Campos (1998 apud SCHNEIDER, 2008, p. 291) essa perspectiva é especialmente interessante por permitir a descrição da evolução do pensamento do autor, o que chama de ponto de vista internalista; e por possibilitar a abordagem das relações entre o autor e a comunidade ou a época, permitindo a interação entre atividade científica e contexto social e cultural.

Numa perspectiva psicanalítica, a investigação da história de sujeitos por meio da interpretação de obras e textos artísticos e literários sempre teve lugar de destaque, contribuindo para compreensão e desenvolvimento da teoria. Freud já desenvolvia a atividade de análise desses materiais. Inclusive, em Escritores Criativos e Devaneio, pequeno ensaio de

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1908, aponta uma continuidade genética entre o brincar da criança e a criação artística: “Uma poderosa experiência no presente desperta no escritor criativo uma experiência anterior [geralmente de sua infância], da qual se origina então um desejo que encontra realização na obra criativa.” (p. 141). Mais adiante, comenta que esse ponto de vista sobre as obras criativas pode produzir seus frutos e alerta para o fato de que “[...] a ênfase colocada nas lembranças infantis da vida do escritor [...] deriva-se da suposição de que a obra literária, como o devaneio, é uma continuação, ou um substituto, do que foi o brincar infantil”. (p. 141).

Segundo Sá (2007) Freud não buscava compreender intelectualmente uma obra artística, mas dirigia sua análise para a expressão do artista. Esta expressão concretizada na obra poderia ser compreendida e comunicada em palavras, como todos os outros fenômenos da vida mental. Segundo a autora, para Freud, seria impossível compreender uma obra de arte, sem aplicar-lhe a psicanálise, isto é, interpretá-la, descobrir-lhe o significado e o conteúdo. Assim, a perspectiva de Freud acerca da arte, aliada ao conhecimento abrangente e profundo sobre a cultura clássica, resultou na presença de muitas obras artísticas e autores em seu trabalho, como por exemplo, Gradiva de Jensen, Da Vinci, Dostoievski, Goethe, Shakespeare, entre outros, sendo Delírios e Sonhos na “Gradiva” de Jensen o primeiro estudo de Freud completamente dedicado a uma obra literária. Sem contradizer a idéia da autora por último mencionada, acrescentamos que Freud, em muitas das grandes obras de arte estudadas, busca um suporte para apresentar, desenvolver e confirmar um determinado conceito que lhe interessa naquele momento da construção do corpo teórico-clínico da psicanálise. No tocante à Gradiva, a investigação voltava-se para o conceito de fantasia inconsciente e sua relação com as questões da clínica.

Para Cottrell (2008), a relação entre a psicanálise e a literatura, e poderíamos acrescentar as artes em geral, não morreu com seu criador, mas ajuntou-se a outras visões críticas como a marxista, a feminista, a desconstrutivista, a estruturalista, etc. O autor ressalta que a leitura psicanalítica de obras clássicas foi inclusive introduzida nas grades curriculares de alguns cursos como, por exemplo, o bacharelado em Literatura na Universidade de Londres, onde a disciplina se denomina “Crítica Freudiana”.

Ante o exposto, apresentamos o nosso problema de pesquisa, por meio do qual estudaremos a temática proposta: A partir da análise da biografia e de algumas obras

iconográficas, como se manifesta o sofrimento psíquico em Frida Kahlo à luz da psicanálise?

Oportunos dois breves esclarecimentos que no decorrer desta pesquisa serão aprofundados. O primeiro, sobre o sujeito escolhido como objeto deste estudo: Quem é Frida Kahlo? O segundo, sobre a motivação da escolha: Por que Frida Kahlo?

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Quem é Frida Kahlo?

“Uma mulher apaixonada, inquieta desde a infância, ambiciosa, e que muito cedo assumiu uma atitude de desafio perante a vida.” (PERES, 2007, p. 9).

Uma ligeira passagem pela história de Magdalena Carmen Frida Kahlo Calderón, nos dá notícias de que nasceu em 6 de julho de 1907 em Coyoacán, nos arredores da Cidade do México. Filha de Wilhelm Kahlo, posteriormente Guillermo Kahlo, nascido em Baden-Baden, Alemanha, e de Matilde Calderón y González, originária de Oaxaca. O pai era descendente de judeus alemães da Hungria, e a mãe, filha de mãe espanhola e de pai com origens indígenas. (PERES, 2007).

Guillermo [pai de Frida Kahlo] emigrou para o México aos dezenove anos de idade. Era amante das letras e da filosofia, tendo entre seus autores prediletos, principalmente, Arthur Shopenhauer. Era um fotógrafo de destaque e muitos dos seus retratos eram retocados com a ajuda de Frida Kahlo, o que pode tê-la influenciado em relação à arte. Guillermo sofreu muito em razão de uma epilepsia que parece ser decorrente de uma queda. Tratava-se de um homem sensível e frágil. (PERES, 2007).

Sobre a mãe, Peres (2007) aponta que foi uma mexicana bastante religiosa, com rígidos princípios de educação e com características autoritárias. A mesma autora destaca que Frida Kahlo, ao que parece, era admirada e detentora de grandes afetos por parte de seu pai. A artista teve três irmãs: Matilde, Adriana, Cristina e duas meias-irmãs, fruto do primeiro casamento de seu pai. (BASTOS; RIBEIRO, 2007).

Aos seis anos de idade Frida Kahlo teve poliomielite, doença que, como seqüela, deixou-a com uma perna fina e um pé atrofiado. Isso lhe rendeu o apelido de “Frida perna-de-pau”. Ela já demonstrava aí a sua forte personalidade quando retrucava bravamente as chacotas das outras crianças a esse respeito (MACEDO, 2008). Aliás, segundo Peres (2005, apud HERRERA, 2001, p. 6), a menina reagiu com muito ímpeto e energia a essa contingência, empenhando-se em diversas programações e atividades esportivas, tornando-se, inclusive, campeã de natação.

A adolescência de Frida Kahlo foi marcada por movimentos estudantis e principalmente pela Revolução Mexicana (1910-1920), com a qual se identificava fortemente, referindo, inclusive, ter nascido em 1910, juntamente com o Movimento. Para Bastos e Ribeiro (2007, p. 51), “Assim como ela [Frida Kahlo], o México estava num momento de reconstrução de sua identidade.” Aos dezoito anos um acontecimento assinalou de modo trágico a sua vida. Em suas palavras:

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Eu subi no ônibus com Alejandro. Sentei-me junto ao corrimão e Alejandro ao meu lado. Alguns instantes mais tarde o ônibus chocou-se com um bonde da linha Xochimilco. O bonde esmagou o ônibus contra a esquina da rua. Foi um choque estranho, não foi violento mas surdo, lento, ferindo todo mundo. A mim sobretudo [...]. O choque nos lançou para frente e o corrimão me atravessou como uma espada atravessa um touro. Um homem vendo a terrível hemorragia, me carregou e me deitou sobre uma mesa de bilhar até a chegada da Cruz Vermelha. Eu perdi a minha virgindade, meu rim ficou amassado, eu não podia mais urinar, e do que eu mais me queixava era da coluna vertebral. (PERES apud BURRUS,1998, p. 30).

Com essa citação encerramos momentaneamente as nossas anotações a respeito de Frida Kahlo para retomarmos adiante, quando analisaremos de forma mais específica o sofrimento psíquico desse sujeito, relacionando esta e outras passagens de sua vida. Cabe, antes disso, mencionar o comentário de Peres (2007), segundo o qual se tivesse que sintetizar a trajetória da artista, escolheria as palavras dor e arte. A autora refere-se aos sofrimentos marcantes da vida de Kahlo, especialmente o seu dilaceramento corporal, e relaciona a criação artística com a sua dor.

Por que escolhemos Frida Kahlo?

Sobre o estudo de obras literárias e iconográficas, já referimos acerca do destaque que têm na psicanálise. Assim como se interpreta a história do paciente no setting psicanalítico, no caso do autor ou artista, podemos tomar as suas obras como objeto de estudo, nesse caso, não para uma interpretação, mas para, a partir das possíveis articulações, melhor compreender aspectos teóricos que se acham entremeados na sua história.

Dentre uma diversidade de autores e artistas cujas biografias e obras nos tomaram a atenção e o interesse, Frida Kahlo nos causou mais que isso. A incursão na sua história nos despertou a sensação de que muito podemos aprender tendo como foco o seu sofrimento psíquico. Frida Kahlo sofreu, além de perdas amorosas, perdas corporais durante toda a sua história. A análise desses registros de sofrimento no seu corpo e em sua alma, afigura-se como uma fecunda fonte de aprendizado, especialmente porque retratados e comentados pela própria artista em correspondências endereçadas à familiares, amigos, inimigos e amantes, assim como no seu diário íntimo ao qual tivemos acesso visto ser objeto de cuidadoso trabalho – O Diário de Frida Kahlo – reunindo além de suas anotações pessoais, comentários de estudiosos e pesquisadores de sua vida e de seu trabalho.

Muitos estudos e discussões acerca da história de vida bem como das criações artísticas de Frida Kahlo já foram produzidos, portanto, esta pesquisa não intenciona apresentar descobertas sobre acontecimentos novos da vida da artista, mas pretende investigar e apresentar uma outra leitura, agora, especificamente, sobre a sua experiência de sofrimento psíquico.

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Esclarecemos que, a partir de levantamento realizado nas principais bases de dados científicos disponíveis, especificamente Scielo e Bireme, que incluem bibliotecas virtuais como Medline, Lilacs, Biblioteca Cochrane, e também o portal científico do CAPES, entre outros, durante o mês de setembro de 2009, não foram encontrados estudos específicos sobre o sofrimento psíquico em Frida Kahlo. No entanto, temos conhecimento sobre estudo realizado pelo Colégio de Psicanálise da Bahia acerca da relação entre as produções artísticas de Frida Kahlo e as suas dores físicas e psíquicas. Tal estudo resultou na obra denominada

Frida Kahlo: dor e arte, de autoria de Urania Tourinho Peres. Dentre outros estudos sobre a

artista, encontramos no portal científico do CAPES uma pesquisa – dissertação de mestrado, de autoria de Danielle Pereira Matos, realizada em 2006 – cujo objeto de estudo relaciona Frida Kahlo e pacientes com câncer de cabeça e pescoço, visando à contribuição científica para a clínica analítica de pacientes que sofrem mutilações na face. Importante salientar que tais estudos não respondem a questão problema desta pesquisa – Como se manifesta o

sofrimento psíquico em Frida Kahlo à luz da psicanálise?

Dessa forma, diferentemente dos trabalhos produzidos, não anteciparemos relações entre os sofrimentos da artista e as suas ações e criações. Essa relação pode sobrevir no decurso da pesquisa, mas não é o nosso foco principal que, como antes esclarecido, é o sofrimento psíquico do sujeito Frida Kahlo. Portanto, este novo estudo enriquecerá o conhecimento sobre a temática proposta, o que poderá contribuir para o desenvolvimento de ações e tratamentos de sujeitos em sofrimento, enriquecendo a clínica psicanalítica. Por fim, acrescentamos que, possivelmente, outras razões que nos capturaram e determinaram a escolha de Frida Kahlo, tornem-se evidentes no avançar do trabalho.

1.3 OBJETIVOS

1.3.1 Objetivo geral

Investigar como se manifesta o sofrimento psíquico em Frida Kahlo a partir da análise de sua biografia e de algumas de suas obras iconográficas à luz da psicanálise.

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1.3.2 Objetivos específicos

a) Investigar a noção de sofrimento para a psicanálise;

b) Identificar, dentre as biografias existentes sobre Frida Kahlo, duas que correspondam aos objetivos desta pesquisa;

c) Identificar e selecionar, a partir das biografias analisadas, algumas das obras iconográficas de Frida Kahlo que remetem ao sofrimento.

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2 REFERENCIAL TEÓRICO

2.1 SOFRIMENTO: UMA APROXIMAÇÃO

O conceito de sofrimento psíquico foi se modificando ao longo da história da humanidade. Na Grécia antiga era concebido como castigo dos deuses que se irritavam com o descomedimento dos homens. Com Hipócrates, considerado o “pai da medicina”, o sofrimento passa a ser entendido como a perda da razão e do controle das emoções, agora sob a designação de loucura, concepção esta que influenciou sobremaneira a medicina nos séculos XVIII e XIX. (CECARELLI, 2005).

Ainda entre os gregos, encontramos em Platão a idéia de loucura como uma desordem no equilíbrio da psychê em razão da perda do controle na porção racional, correspondente a logos. Essa concepção, juntamente com a anterior, é aperfeiçoada e apresentada por Cláudio Galeno, para quem o desarranjo humoral era a causa da doença mental. Com Galeno estamos já na era cristã. (CECARELLI, 2005).

Na era medieval, o sofrimento psíquico, ainda tomado como loucura, aparece praticamente identificado à idéia de possessão demoníaca, perspectiva que é reforçada pela supremacia do cristianismo vigente à época. Essa influência religiosa na concepção da loucura tende a arrefecer nos Séculos XV e XVI, quando o estudo da medicina, influenciado pelo retorno das idéias de Galeno, permite que uma nova noção se manifeste: a noção de alienação. (CECARELLI, 2005).

Nos séculos seguintes, as teorias e classificações acerca da loucura apresentavam-se difusas visto a dificuldade de um embasamento consistente acerca da fisiologia nervosa. (CECARELLI, 2005). Sem uma sistematização do pensamento médico-científico sobre a doença mental, a forma encontrada para “administrar” a situação relativa a esses sujeitos considerados fora da norma era internando-os em asilos, juntamente com outros indivíduos que representavam algum tipo de problema social, como mendigos, delinqüentes, prostitutas. (PACHECO, 2003).

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Somente em 1801 (séc. XIX), com a revolucionária obra de Pinel6 denominada

Tratado Médico Filosófico sobre a Alienação Mental, é que uma nova idéia de loucura se

estabelece e com ela um novo ramo posteriormente denominado psiquiatria se introduz na medicina. (CECARELLI, 2005). Com Pinel e depois com Esquirol, seu importante sucessor, tem início uma nova metodologia, cuja base era a observação sistemática para a demarcação de categorias psicopatológicas. Tal observação não deveria ter a interferência da subjetividade, assim, recaia sobre os distúrbios orgânicos que apareciam por meio de sintomas e não sobre o comportamento do sujeito. A ciência médica, nesse momento da história, começava a pautar a construção de seu conhecimento na utilização de critérios objetivos para sustentar seus princípios tendo em vista a pretensão de diferenciar-se das demais formas de conhecimento vigentes à época cujos objetos iam além da matéria, como a filosofia, a psicologia e a religião. (PACHECO, 2003).

Assim, com Philippe Pinel, um novo pressuposto passa a orientar a psiquiatria no final do séc. XVIII e início do séc. XIX, segundo o qual a loucura era “conseqüência das paixões exacerbadas, e o louco, vítima de uma desorganização das funções mentais superiores do sistema nervoso central, ou seja, das funções intelectuais”. (PACHECO, 2003, p. 153). Pinel, além da preocupação com a classificação nosográfica das doenças, propôs a observação empírica sistemática bem como o tratamento moral da alienação. A importância do trabalho desenvolvido por esse grande alienista francês reside no fato de que a partir de suas pesquisas e descobertas estabeleceu-se a noção de alienação como doença mental e de que o alienado é vítima de disfunções psíquicas. Os loucos, assim, foram diferenciados dos bandidos e criminosos, adquirindo uma condição de dignidade e o direito de serem tratados de forma humana. (PACHECO, 2003).

Inobstante as considerações acima expostas, há que se ponderar o fato de não haver nessa época, ainda, um saber sobre o sofrimento psíquico. Para Ceccareli (2005, p. 473), a preocupação dos psicopatólogos da época consistia em “classificar e etiquetar as organizações psíquicas que escapavam às referências de normalidade”. Embora a expressão psicopatologia já designasse essa atividade realizada pelos médicos, ela surge enquanto disciplina organizada – e estritamente fenomenológica –, somente com a publicação da obra de Karl Jaspers, psiquiatra e filósofo, intitulada Psicopatologia Geral, já no séc. XX, mais especificamente em 1913.

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Segundo Pereira (1999), a concepção jasperiana fundamentou-se nas concepções médicas tradicionais de patologia e estabeleceu as bases para o conhecimento psiquiátrico deste século. Já no início do seu grande tratado, afirmava Jaspers:

O objeto da psicopatologia é o fenômeno psíquico realmente consciente. Queremos saber o que os homens vivenciam e como o fazem. Pretendemos conhecer a envergadura das realidades psíquicas. E não queremos investigar apenas as vivências humanas em si mas também as condições e causas de que dependem os nexos em que se estruturam, as relações em que se encontram, e os modos em que, de alguma maneira, se exteriorizam objetivamente. Mas nem todos os fenômenos psíquicos constituem nosso objeto. Apenas os 'psicopatológicos'. (JASPERS, 1913, p. 13, grifo nosso)

Esclarecemos que, atualmente, o termo psicopatologia7 aparece relacionado a várias disciplinas que estudam o sofrimento psíquico, porém sem uma unidade discursiva, o que dificulta o diálogo científico entre as diferentes abordagens teóricas. (CECCARELLI, 2005). Nessa mesma linha, Pereira (1999), ao comentar a psicopatologia na contemporaneidade afirma que esta se constitui em uma grande encruzilhada onde disciplinas procedentes de diferentes concepções metodológicas e epistemológicas buscam explicar as condições de sofrimento psíquico. O mesmo autor adverte que, no intuito de delimitar o seu objeto psicopatológico, essas disciplinas estabelecem cada uma delas o seu recorte sobre esse campo.

Importante salientar, contudo, que tanto o Manual Diagnóstico Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-IV), como a Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID-10) representam o “expoente máximo” (CECCARELI, 2005, p. 473) dentre as experiências até então realizadas no intuito de superar essa dificuldade decorrente das muitas leituras existentes sobre o pathos psíquico (CECCARELI, 2005). Corroborando essa idéia, Pereira (1999) assegura que o DSM-IV é o representante maior da tendência atualmente hegemônica entre as abordagens racionais do sofrimento psíquico.

Pereira (1999), estabelecendo uma análise crítica do DSM-IV, adverte que o próprio termo psicopatologia já implica em ambigüidade. Remete originariamente à descrição sistemática das formas clínicas e dos mecanismos patogênicos das chamadas doenças mentais, o que pressupõe uma análise dos fenômenos patológicos tomados como realidades repetidas consistentes em si mesmas.

Ceccarelli (2005) adverte que a observação direta dos fenômenos, sem a consideração de quaisquer a priori teórico, pressupõe uma convergência na nosografia, sem

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considerar os aspectos etiológicos de tais fenômenos. Assim, para o autor, desconsidera-se “[...] a subjetividade tanto daquele que está sendo ‘classificado’ quanto daquele que classifica: o olhar de quem olha não é imune a sua própria organização subjetiva.” (p. 473, grifo do autor). Além disso, fatores que reforçam a idéia de uma origem biológica dos transtornos psíquicos são o desenvolvimento das neurociências e o crescimento dos psicofármacos. Nesse sentido, Ceccarelli (2003) considera a possibilidade de que num futuro próximo, as múltiplas vertentes da psicopatologia sejam relegadas a segundo plano e os transtornos psíquicos sejam tratados sem o necessário conhecimento sobre os aspectos subjetivos, os conflitos interiores e as experiências psíquicas do sujeito, sendo necessário somente a apropriação acerca do uso de moléculas químicas.

Feitas essas ligeiras considerações sobre a problemática contemporânea da psicopatologia, retomemos a contextualização histórica do sofrimento para uma maior compreensão acerca das transformações sobrevindas ao longo do tempo em torno de suas concepções, lembrando que o nosso intuito é estabelecermos uma aproximação do fenômeno que nos permita a sua investigação na vida e obra de Frida Kahlo.

Como referido no capítulo anterior, foi Freud quem estabeleceu a grande ruptura epistemológica no tocante ao sofrimento psíquico, portanto, após algumas considerações a respeito das modificações empreendidas pelo autor em torno do tema, relacionamos algumas das principais referências sobre o sofrimento encontradas ao longo da sua obra. Pretendemos, nesse percurso, chegar a alguns pontos fundamentais acerca da concepção de sofrimento a ser utilizada nesta pesquisa, que, como antes referido, pautará a análise desse fenômeno na vida e obra de Frida Kahlo.

Pois bem, se de um lado havia, até o início do século XIX, uma grande preocupação com a nosografia das doenças, fundamentada nos aspectos biológicos do indivíduo, herança da concepção psicofísica dualista de Descartes, havia, de outro, o desenvolvimento de estudos que apontavam num diferente sentido: resgatar a noção grega de

pathos, situando-a como elemento essencial do ser humano. (CECCARELLI, 2003). Falamos

da Psicanálise de Freud. Numa alusão a um dos seus importantes ensaios, podemos dizer que com Freud passa a ser concebível uma psicopatologia do homem normal, ou seja, uma psicopatologia da vida quotidiana. Segundo Vieira (2001, p. 11) “[...] a doutrina freudiana torna caduca a oposição entre o afetivo e o intelectual, oposição que reproduz o dualismo filosófico entre corpo e alma, que a psicanálise subverte.”

Para Ceccarelli (2003), Freud estabelece uma psicopatologia fundamentada em um novo discurso sobre o pathos. Nessa nova concepção, a idéia de normalidade só adquiria

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sentido se considerada sob o ponto de vista estatístico, uma vez que, apenas pela morte do organismo se atingiria um tal estado sem tensão8 [normalidade]. Numa perspectiva freudiana, é a “psicopatologia individual”, como resposta ao pathos que permite ao homem o advento da subjetividade. O mesmo autor lembra que a entrada do ser humano na cultura se dá pelo sacrifício do narcisismo primário que permite o advento do narcisismo secundário, assim, aquele que se recusa a este imperativo exclui-se da cultura.

No texto designado Neuroses de transferência: uma síntese (1928), Freud apresenta a noção segundo a qual o aparelho psíquico é psicopatológico em sua origem. Essa psicopatologia original, segundo o referido texto, seria decorrente da resposta humana empreendida no sentido de se defender da violência decorrente das mudanças da era glacial9. Esse acontecimento, referido por Ceccarelli (2003) como “catástrofe ecológica” ou “perda do Éden”, teria conduzido o ser humano no sentido de uma reorganização que lhe permitisse enfrentar as violências externas e internas, ou seja, as transformações do meio-ambiente e as demandas pulsionais [o pathos], cujas satisfações se encontravam ameaçadas.

Para Freud, a história da humanidade [filogênese] se repete em cada ser humano [ontogênese], assim, a referência segundo a qual “as neuroses têm que prestar seu testemunho sobre a história do desenvolvimento da alma humana” (FREUD, 1928, p. 72), para Ceccarelli (2003, p. 5), alude a idéia de um sofrimento psíquico “[...] geneticamente herdado, causado pelo excesso [...].” É nesse sentido que referimos anteriormente sobre o resgate, com Freud, da noção grega de pathos situando-a como elemento essencial do ser humano.

Sobre as demais caracterizações do sofrimento psíquico em Freud, esclarecemos que a pesquisa se deu a partir do exame criterioso em cada um dos vinte e três volumes da

Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, em CD Room. O intuito foi, inicialmente, encontrar toda e qualquer referência à palavra “sofrimento”.

Num segundo momento, realizou-se uma leitura seletiva do conteúdo encontrado a fim de distinguir as informações que, de fato, nos auxiliavam à aproximação de pontos relevantes para a investigação do sofrimento em Frida Kahlo. Por oportuno, destacamos, a seguir, a noção freudiana que mais se aproximou de uma definição de sofrimento, para em seguida,

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Sobre a concepção que relaciona o aspecto quantitativo da tensão com o desprazer experimentado pelo sujeito, abordaremos adiante.

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Sabe-se, atualmente, que não existe relação entre a Era Glacial e a origem do Homo Sapiens. Para Ceccarelli (2003, p. 5), “O que está em jogo na concepção freudiana é da ordem do mito, tal como o apresentado em Totem e Tabu. Trata-se de um episódio que mudou radicalmente a vida sobre o planeta. Neste sentido, é lícito dizer que houve uma ‘catástrofe’”.

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continuarmos o relato sobre o material encontrado. Em Rascunho G: melancolia (1895) a explicação de Freud sobre os efeitos da melancolia nos dá pistas interessantes para pensar o sofrimento a partir da metapsicologia: “E agora, como se explicam os efeitos da melancolia? A melhor descrição dos mesmos: inibição psíquica, com empobrecimento pulsional e o

respectivo sofrimento”. (p. 252). Esclarece, como de costume, a sua resposta:

Podemos imaginar que, quando o ps. G. [grupo sexual psíquico] se defronta com uma grande perda da quantidade de sua excitação, pode acontecer uma retração

para dentro (por assim dizer) na esfera psíquica, que produz um efeito de sucção

sobre as quantidades de excitação contíguas. Os neurônios associados são obrigados a desfazer-se de sua excitação, o que produz sofrimento. [Fig. 2.] Desfazer associações é sempre doloroso. Com isso, instala-se um empobrecimento da excitação (no seu depósito livre) - uma hemorragia interna, por assim dizer - que se manifesta nas outras pulsões e funções. (p. 252, grifo do autor).

Em seguida, o autor sublinha que essa “retração para dentro” que ocorre na esfera psíquica atua como uma ferida, ocasionando um estado semelhante ao da dor ou sofrimento.

As demais referências encontradas na obra freudiana não estabelecem uma definição do termo sofrimento, mas indicam aspectos do fenômeno ou estabelecem conceitos e noções relacionadas a este, o que foi de grande valia para o nosso propósito de aproximação do tema. Nesse sentido, selecionamos e apresentamos a seguir algumas dessas referências, agora sem mais o intuito de uma definição precisa e conclusiva sobre o fenômeno.

Destacamos que foi nesse percurso pela obra de Freud que nos deparamos com a relação entre sofrimento, sintoma e angústia, noções que serão destacadas mais adiante. Esclarecemos que embora a pesquisa tenha sido realizada consoante a seqüência cronológica das obras, os nossos comentários não observarão tal seqüência visto que algumas das alusões de Freud ao sofrimento referem-se a fenômenos que serão abordados nos sub-capítulos deste Referencial.

Encontramos no texto sobre a Conversão Histérica (1893) uma das primeiras referências de Freud ao tema em questão. Nesse trabalho, o autor estabelece que o sofrimento está relacionado com a sensação de desprazer que ocorre quando algum interesse volitivo do sujeito está em jogo. Assim, o sofrimento surge mediante um conflito entre as representações morais decorrentes da educação do indivíduo e as lembranças das ações ou dos pensamentos irreconciliáveis com essas representações morais. Como conseqüência desse conflito, podem ocorrer “dores da consciência”, o que podemos tomar como sofrimento psíquico.

Em Mais Além do Princípio do Prazer (1920), embora Freud não faça menção ao termo sofrimento, faz uma correlação entre o aspecto quantitativo da tensão e o desprazer, o

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que pode nos indicar em algumas situações a presença de sofrimento psíquico, uma vez que, em diversas passagens na sua obra relaciona esses dois fenômenos [sofrimento/desprazer]. Nesse ensaio, que corresponde a mais uma de suas tentativas de compreender e explicar a condição humana, aponta para a impossibilidade de um estado de normalidade, o que corresponderia a uma total ausência de tensão ou sofrimento nos seres humanos. Nesse sentido, apresenta uma interessante análise do princípio do prazer correlacionando-o ao princípio de constância, cuja função é de manutenção da quantidade de energia [tensão] a mais baixa possível. O prazer corresponderia a uma diminuição na quantidade de excitação e o desprazer a um aumento desta. Esclarece que os eventos mentais estão automaticamente regulados pelo princípio do prazer, ou seja, são movimentados por uma tensão desagradável que se reduz como conseqüência do trabalho no sentido da evitação do desprazer ou da produção de prazer (FREUD, 1920 [1996]). Foi a partir dessa idéia que introduziu o ponto de vista econômico na psicanálise, lembrando que até então a descrição dos processos mentais era fundamentada nos fatores topográfico e dinâmico. A distinção “metapsicologia” é conseqüência dessa nova descrição, que representa também uma nova etapa na evolução da teoria sobre as pulsões.

Esclarecemos que a opção por abordar, a seguir, o tema da pulsão em Freud, ainda que de forma breve, deve-se a nossa percepção de que as suas idéias fundamentais apontam para o fato de que todo o desfecho psíquico, considerando uma “normalidade” ou uma psicopatologia, ocorre a partir de relações pulsionais, ou seja, a vida psíquica de um sujeito é determinada pelas suas pulsões, que se estabelecem [marcam o sujeito] durante o seu processo de estruturação psíquica.

Embora uma ligeira caracterização sobre a pulsão já tenha sido destacada em Nota de Rodapé, apresentamos a definição encontrada em Pulsão e Suas Vicissitudes (1915 [1996]), onde Freud aborda a natureza essencial das pulsões a partir do exame de suas principais características. É a partir daí que aponta a existência de algo mais além dessas características. Diferentemente dos estímulos externos, as pulsões “[...] constituem as verdadeiras forças motrizes por detrás dos progressos que conduziram o sistema nervoso, com sua capacidade ilimitada, a seu alto nível de desenvolvimento atual.” (p. 126). Mais adiante, estabelece a sua definição:

[...] uma ‘pulsão’ nos aparecerá como sendo um conceito situado na fronteira entre o mental e o somático, como o representante psíquico dos estímulos que se originam dentro do organismo e alcançam a mente, como uma medida da exigência feita à

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