As criações artísticas de Frida Kahlo representam formas privilegiadas de expressão da sua realidade e, por conseguinte, do seu sofrimento. Permitem-nos refletir sobre as suas emoções ao mesmo tempo em que nos intrigam e inspiram. Para transmitir ao leitor a importância deste momento na presente pesquisa, não encontramos melhor expressão do que as próprias palavras da artista ao explicar sua pintura:
[...] nada me pareceu mais natural do que pintar o que não foi preenchido […] Minhas pinturas são a mais franca expressão de mim mesma, sem levar em consideração julgamentos ou preconceitos de quem quer que seja […]. Muitas vidas não seriam suficientes para pintar da forma como eu desejaria e tudo que eu gostaria. (HERRERA, 1984 apud BASTOS; RIBEIRO, 2007, p. 59).
A escolha das obras a seguir foi realizada a partir das biografias selecionadas, conforme especificado no capítulo referente ao Método. O modo de apresentação segue a ordem cronológica.
Figura 5 – Acidente (1926). Fonte: Kattenmann (2003, p. 18).
Frida Kahlo produziu esse esboço, intitulado Acidente, em setembro de 1926. Trata-se da representação do trágico evento ocorrido em 1925. Na metade superior, desenha a
colisão entre os dois veículos e os feridos caídos pelo chão. Esses elementos parecem flutuar no desenho. Em destaque está ela, enfaixada sobre uma maca. Ao fundo, aparece a casa de seus pais em Coyocán, para onde se dirigia por ocasião do acidente. Importante salientar que esse desenho permaneceu um esboço; aliás, o tema do acidente foi retomado como produção artística somente na década de quarenta, quando Frida Kahlo transformou o quadro de um artista popular anônimo na representação do acidente, colocando apenas alguns indicativos como a direção dos veículos e as sobrancelhas espessas, como as suas. (KATTENMANN, 2003).
Figura 6 – O Hospital Henry Ford ou A Cama Voadora (1932). Fonte: Kattenmann (2003, p. 37).
O quadro mostra a pintora deitada no leito identificado como sendo do Hospital Henry Ford. Ao fundo se entrevê uma cidade industrial, e, flutuando sobre o leito, a imagem de um feto do sexo masculino, um caramujo e uns modelos anatômicos de abdome e de pelve. No chão, abaixo do leito, são vistos uma pelve óssea, uma flor e um autoclave. Todas as seis figuras estão presas à mão esquerda de Frida Kahlo por meio de artérias, de modo a lembrar os vasos de um cordão umbilical. O lençol sob o corpo, especialmente sob a região pélvica, está bastante ensangüentado. Do olho esquerdo de Frida Kahlo goteja uma enorme lágrima.
Figura 7 – O Meu Nascimento ou Nascimento, (1932). Fonte: Kattenmann (2003, p. 38).
Nesta tela, a artista retrata uma mulher deitada com a parte superior do corpo, inclusive o rosto, coberto com um lençol branco, como se costuma proceder com os mortos. As pernas da mulher estão afastadas, dando à luz a uma criança com os olhos fechados cuja cabeça aparece sobre o lençol manchado de sangue. A cama figura no meio de um quarto vazio, a não ser por um retrato pendurado na cabeceira, cuja figura é de uma mulher com dois punhais ladeando seu pescoço.
Figura 8 – Unos Cuantos Piquetitos (1935). Fonte: Kattenmann (2003, p. 39).
A pintura retrata um homem olhando para uma mulher nua na cama, com o corpo marcado por golpes de faca e manchas de sangue que se observam também na moldura da tela. Segundo consta, Frida Kahlo pintou o quadro a partir de uma notícia de jornal, que contava a história de um homem que assassinou sua mulher com uma faca de cozinha, proferindo uma infinidade de golpes. Frente ao juiz, o homem afirmou que tinha dado apenas “unos cuantos piquetitos”, o que pode ser traduzido como “apenas uns quantos golpes”. (KATENNMANN, 2003).
Figura 9 – A Minha Ama e Eu ou Eu a Mamar (1937). Óleo sobre metal, 30,5 x 34,7cm. Museu Dolores Olmedo Patino, México.
Fonte: Macedo (2008, p. 24).
A pintura retrata o rosto de Frida Kahlo em um corpo de bebê no colo de uma mulher negra ou índia cujo rosto é coberto por uma máscara preta. Não há contato visual entre a ama e a artista. É possível identificar as glândulas mamárias e seus ductos. O leite cai sobre os lábios do bebê, mas este não o suga. Da mama direita, com o mamilo enrijecido, também goteja leite. Ao fundo, uma vegetação sob um céu acinzentado e tempestuoso. Segundo Kattenmann (2003), a artista considerava esse quadro um dos seus trabalhos mais importantes.
Figura 10 – As Duas Fridas (1939). Óleo sobre tela, 173,5 x 173 cm. Museu de Arte Moderna, México.
Fonte: Macedo (2008, p. 44).
Este auto-retrato foi pintado quando Frida Kahlo e Diego Rivera iniciaram o processo de divórcio. A artista retrata duas representações de si de mãos dadas. Os corações de ambas são expostos e ligados por uma artéria. Uma das suas representações, com vestes tehuanas, à direita, tem um coração intacto, cheio, e que parece bombar sangue. A artéria que liga os dois corações também circunda o braço esquerdo desta. A Frida com vestes européias, à esquerda, parece procurar deter a hemorragia do seu coração.
Figura 11– Auto-Retrato com Cabelo Cortado (1940). Fonte: Kattenmann (2003, p. 55).
Neste auto-retrato, Frida Kahlo, sentada em uma cadeira no meio de um quarto vazio, veste um largo e sóbrio terno masculino de tonalidade escura. Parece ter acabado de cortar os cabelos que se encontram espalhados por todo o chão. Na parte superior do quadro está escrito: Olha, se te amei foi pelo teu cabelo, agora que estás careca, já não te amo.
Figura 12 – A Coluna Partida (1944). Fonte: Kattenmann (2003, p. 69).
Este auto-retrato foi pintado em 1944, fase em que a saúde de Frida Kahlo piorara necessitando usar de coletes de aço. É o desenho de um corpo fendido, suportado por uma coluna jônica23 partida em vários pontos, tomando o lugar da sua coluna fraturada. A artista está com a cabeça erguida. Dos olhos caem grossas gotas de lágrimas que se derramam sobre o rosto. O corpo aparece coberto de espinhos. O colete de aço aperta-lhe a coluna e o peito prolongando-se numa saia vaporosa apenas cravejada em alguns pontos. Ao fundo, uma paisagem desértica onde também se identificam fendas, agora no solo.
23
Coluna jônica é um modelo arquitetônico de coluna do período neoclássico que utiliza elementos da arquitetura greco-romana da antiguidade clássica.
Figura 13 – Diego e Eu (1949). Fonte: Kattenmann (2003, p. 79).
Este auto-retrato foi pintado por Frida Kahlo no período em que Diego Rivera manteve um caso amoroso com Maria Félix, uma atriz de cinema. Segundo Kattenmann (2003) tal romance teve grande repercussão, provocando um escândalo público.
As obras acima selecionadas, juntamente com os conteúdos apresentados nos sub- capítulos anteriores – O México de Frida Kahlo e A História de Frida Kahlo – constituem o nosso aporte de informações acerca da história da artista. O próximo capítulo deste estudo articula esses subsídios com alguns dos temas apresentados no Referencial Teórico proposto no primeiro momento desta pesquisa.
5 DISCUSSÃO E ANÁLISE DOS DADOS
Consoante ao especificado no capítulo correspondente ao Método, após a apresentação dos dados, o procedimento a ser seguido neste estudo é a seleção de pontos considerados relevantes na história de Frida Kahlo para, a partir da articulação com a teoria, responder à pergunta de pesquisa: Como se manifesta o sofrimento psíquico em Frida Kahlo à
luz da psicanálise? Lembramos que num primeiro momento da pesquisa, foi realizada uma
investigação acerca da problemática do sofrimento para a psicanálise, o que permitiu importantes aproximações sobre o tema. A discussão e análise, a seguir, articulam algumas dessas aproximações com os pontos considerados relevantes na história de Frida Kahlo.