Como referido acima, há um sector do território português con- finante com o espanhol cujos limites não foram ainda diplomática e formalmente estabelecidos por causa do conflito em torno da posse de Olivença e o seu termo. Ora, o trabalho de investigação aqui apresentado foi levado a cabo precisamente nesta área geo- gráfico-social.
Montes Juntos situa-se no extremo sul do concelho do Alandroal, na margem direita do Guadiana, a cerca de cinco quilómetros do curso de água. Tem limites territoriais comuns com Cheles/Espanha, mas também com várias povoações portuguesas: a norte, confina com a outra aldeia da freguesia de Capelins, Ferreira de Capelins; a oeste, com a aldeia de Cabeça de Carneiro e a freguesia de Santiago Maior; a sul, com a aldeia de Outeiro de Monsaraz, a freguesia de Monsaraz e o concelho de Reguengos de Monsaraz.11
11A freguesia de Capelins compreende parte da aldeia de Cabeça de Carneiro,
pertencendo a restante à freguesia de Santiago Maior, também no concelho do Alandroal. Capelins partilha os seus limites ainda com as freguesias de São Pedro de Terena e de São Brás dos Matos.
Apesar de não dispormos de dados que permitam identificar a génese do povoamento deste território, parece datar de tempos re- motos. Os achados arqueológicos de Manuel Calado (1993, 140- -141) na freguesia de Capelins, entre os quais o Castelo da Pena de Alfange – situado um pouco a montante da ilha da Cinza –, classificado como pertencente à Pré-História e à Idade do Ferro, apontam nesse sentido. De acordo com a Enciclopédia Luso-Brasi-
leira de Cultura (1966, 894-895), «repovoada após a reconquista (sé-
culo XIII)», a freguesia de Capelins permaneceu integrada no
«termo de Terena» até ao século XVIIIe terá sido instituída como
paróquia em 1834.12Segundo Américo Costa (1934, 634), «a pri-
meira vez que encontramos mencionada esta freguesia é em 1853 (comarca de Estremoz, concelho de Alandroal)».
A referência mais antiga que encontrámos sobre Montes Juntos remonta a finais do século XIX(1888), altura em que foram efetua-
das obras de reparação no posto da Guarda Fiscal (documentação sobre prédio n.º 199, presente no Agrupamento Fiscal de Évora), extinto, como muitos outros, pela Portaria n.º 525/93, de 17 de maio de 1993. Já o primeiro livro de atas existente na Junta de Fre- guesia de Capelins refere que a Junta de Paróquia foi instalada a 12 de março de 1910, passando a funcionar na sacristia da Igreja de Capelins.
Sete anos volvidos, segundo a mesma fonte, «sendo a sala das sessões incompatível com o fim a que se destina, não só pela sua pequena capacidade e por estar junta ao cemitério, mas também por ficar a uma distância considerável das aldeias desta fregue - sia, por cujo motivo muitos indivíduos se retraem a fazer parte da Junta», foi apresentada e aprovada por unanimidade uma proposta de «aquisição de uma porção de terreno municipal em Montes
12O concelho de Terena foi extinto pela Reforma administrativa do país em
1836, tendo surgido como freguesia do concelho do Alandroal em 1842 (Lima 1940, 150).
Juntos, para quando esta ou outra possa edificar um prédio que satisfaça as necessárias condições para o bom funcionamento desta Junta» (Acta de 18-2-1917). Em 1921, foi definitivamente extinto «o funcionamento da Junta de freguesia de Capelins na sua Igreja paroquial, instalando-a numa casa em lugar de Montes Juntos» (Acta de 22-3-1921), onde ainda hoje se encontra.
Do ponto de vista habitacional, a freguesia de Capelins apre- senta uma evolução francamente positiva. A centena de fogos que possuía em 1757 (Pinho Leal 1874) tinham sido quase duplicados em 1890 (Censo, citado por Costa 1934, de acordo com o qual existiam 195 residências), multiplicados por cinco em 1960 (Enci-
clopédia... 1966, segundo a qual havia 510 fogos) e aproximada-
mente por seis em 1991 (Instituto Nacional de Estatística, onde se contabilizam 639 habitações).
Em termos demográficos (ver o quadro 1.1), a freguesia apre- senta uma evolução bastante comum às zonas raianas de Portugal, conforme patente nas publicações do Instituto Nacional de Esta- tística. Após um ligeiro decréscimo em finais do século XIX, Cape-
lins teve um período de crescimento populacional efetivo que atin- giu o máximo de 1981 habitantes em 1950, tendo depois entrado num processo contínuo de perda demográfica, registando em 1991 menos de 1000 habitantes, o mais baixo número registado em todo o século XX. Esta sangria demográfica reflete os fluxos migra-
tórios em direção às áreas mais industrializadas de Portugal, da Eu- ropa e da América do Norte que assolaram o Alentejo (Candeias 1996) e as zonas raianas do país a partir dos anos 1960 (por exem- plo, Brito 1988, 330; Daveau 1976, 164).
É precisamente a conjugação deste e de outros fatores essenciais da caracterização demográfica – a mortalidade e a natalidade – que nos permite perceber a atual estrutura populacional de Montes Juntos. No levantamento efetuado na aldeia e nos montes circun- dantes não pertencentes a Ferreira de Capelins e a Cabeça de Car- neiro, contabilizámos 420 habitantes – 198 homens e 222 mulhe-
res –, distribuídos pelas classes etárias presentes no quadro 1.2. Re- produz-se, aqui, a tendência para o envelhecimento da população residente no Alentejo (Candeias 1996) e nos contextos de fronteira em Portugal (Cavaco 1995), sendo este um caso de duplo enve- lhecimento, pois há uma sub-representação das classes mais jovens e adultas e uma sobrerrepresentação das classes mais idosas – mais de metade das pessoas têm idade igual ou superior a 51 anos. Tal decorre de diversos fatores convergentes, como sejam a redução do número de filhos que cada mulher tem, o incremento da espe- rança de vida à nascença e as referidas migrações.
O topo da pirâmide etária vê-se também empolado por causa do retorno de alguns emigrantes, especialmente os que atingiram a idade de reforma. Montes Juntos apresenta, aliás, uma curiosa, pese embora desequilibrada, miscelânea de tendências centrípetas e centrífugas. Há um número considerável (mais de uma centena) de locais a viver no exterior que preservam e constroem habitação no povoado para passar férias e fins de semana ocasionais. Alguns deles aproveitam também para colher azeitona. O regime pendular de outros, com destaque para os reformados, traduz-se numa per-
Quadro 1.1 – Evolução demográfica da freguesia de Capelins
Fonte: Instituto Nacional de Estatística. 2500 2000 1500 1000 500 0 Habitantes 1862 960 1890 876 1900 932 1911 1212 1920 1344 1930 1399 1940 1764 1950 1981 1960 1828 1977 1200 1983 1185 1991 938
manência na aldeia que chega a atingir e, inclusivamente, a ultra- passar metade do ano.
Paralelamente, há pessoas de fora e oriundas de locais como Lis- boa e Porto que adquiriram casa na povoação – quatro indivíduos associaram-se e fizeram-no com o móbil da caça, enquanto dois casais procuram usufruir do repouso proporcionado pelo campo e pelo contacto com a natureza. Há ainda outros forasteiros que – por casamento e/ou por causas laborais e/ou apenas por uma questão de oferta habitacional – fixaram aí a sua residência – uns agindo de motu proprio (76), outros levados por seus pais (28). Neste e noutros aspetos analisados mais à frente, Montes Juntos revela uma grande abertura ao exterior. Para além do elevado número de pessoas da terra que já viveram fora (151), há, nesta povoação, gente natural dos mais variados pontos de Portugal – Alandroal, Barreiro, Beja, Carregado, Elvas, Évora, Lisboa, Mafra, Terena, Vi- mioso, entre outros – e do estrangeiro – Angola, Inglaterra, Espa- nha: Cheles, Olivença e Badajoz.
Quando ao tipo de povoamento, a aldeia possui um núcleo central de casario alinhado de ambos os lados dos arruamentos
Quadro 1.2 – Escalões etários da população de Montes Juntos
Fonte: Trabalho de campo. 30,0 25,0 20,0 15,0 10,0 5,0 0,0 Percentagem 0-15 12,1 16-25 11,7 26-35 10,7 36-50 11,4 51-65 25,5 66 ou mais 28,6
formados em volta do antigo posto da Guarda Fiscal. Para além deste, pontificam aqui e ali, sobretudo na direção do Guadiana, alguns montes de lavoura e habitação que se vão rarefazendo à medida que nos aproximamos da linha de água.13Entre estes mon-
tes, poucos são os que se encontram habitados, o que retrata o de- clínio da agricultura e a tendência geral prevalecente no Alentejo para o abandono dos lugares isolados e para a concentração das pessoas em lugares de maior dimensão (Candeias 1996).
Como indica a própria designação da aldeia – Montes Juntos –, é evidente que este núcleo concentrado de povoamento não nas- ceu de raiz, mas da ligação de montes inicialmente separados. Ainda hoje a população distingue alguns deles, como o Monte dos Salvadores, o Monte das Flores e o Monte da Galvoeira. É na povoação que estão os edifícios públicos: a sede da Junta de Fre- guesia, o Centro Cultural e Recreativo, o posto médico, o antigo posto da Guarda Fiscal, as escolas primária e pré-primária, a can- tina escolar e a igreja. Há uma taberna, três cafés, dois dos quais servem refeições, quatro lojas de comércio de géneros alimentares e uma farmácia. O campo de futebol, abandonado, complementa o equipamento coletivo da povoação. Nos arredores da aldeia, há ainda três reservas de caça turística e uma reserva de caça associa- tiva – que atraem algumas dezenas de caçadores vindos doutras zonas do país e de Espanha –, ao que se junta um retiro ornitoló- gico aprovado pelo Conselho de Ministros em 1991.
A população ativa da aldeia constitui apenas um terço da popu- lação efetiva, 141 e 420 pessoas, respetivamente. O quadro 1.3 re- sume os seus meios de vida, evidenciando a existência de uma base económica muito dependente de transferências de rendimentos provenientes de pensões de invalidez e velhice, subsídios de de- semprego e juros de poupanças. Tal como o baixo índice de esco-
13É de salientar que 119 dos 323 fogos existentes na atualidade estão desabi-
laridade dos habitantes, um terço dos quais são analfabetos (ver o quadro 1.4), a distribuição da população ativa por sectores de pro- dução acusa outras caraterísticas comuns às zonas raianas do país
Quadro 1.3 – Meios de vida da população de Montes Juntos
Meios de vida Frequência Percentagem
Trabalho 141 33,6 A cargo da família 116 27,6 Subsídio de desemprego 6 1,4 Outros subsídios ou pensões 157 37,4
Fonte: Trabalho de campo.
Quadro 1.4 – Escolaridade da população de Montes Juntos
Fonte: Trabalho de campo. Curso superior Curso médio 12.º ano Ensino secundário complementar Ensino secundário unificado Ensino básico preparatório Ensino básico primário Sabe ler e escrever Analfabeto
Percentagem
0 5 10 15 20 25 30 35
Analfabeto
Sabe ler e escrever
Ensino básico
primário
Ensino básico preparatório
Ensino secundário unificado Ensino secundário complementar 12.º ano C urso médio C urso superior 32,7 17,7 30,7 11,5 2,5 0,6 2,5 1,1 0,6
(Cavaco 1995), a saber, o predomínio do sector primário, um débil sector secundário e um desenvolvimento relativamente significa- tivo das atividades terciárias, sobretudo o comércio retalhista.14