1.9 A RUA COMO ESPAÇO DO CARNAVAL POPULAR
1.9.1 O carnaval carioca
O começo do século XX na cidade do Rio de Janeiro é marcado por uma reforma urbanística realizada na gestão de Pereira Passos, que ficou conhecida como “bota abaixo”, quando os cortiços da região central foram demolidos, para dar lugar a largas avenidas, ou desapropriados, para a área ganhar um uso de interesse “público”. Revalorizar a região central da capital federal, dando ares de cidade moderna, seguindo o modelo parisiense, era a proposta. Para a realização da empreitada, os “indesejáveis” foram expulsos do centro, e tiveram que residir em regiões mais periféricas. No entanto, aqueles que não quiseram ir para regiões mais distantes acabaram se acomodando nos morros mais próximos, tendo em vista que apenas as áreas planas eram de interesse dos especuladores imobiliários, assim começando a proliferação das favelas cariocas.
O carnaval neste cenário ocorria com uma disputa das Grandes Sociedades e Clubes Carnavalescos nas ruas mais centrais da cidade, como a Rua do Ouvidor, e a recém-criada Avenida Central, atual Rio Branco. Enquanto isso, em perímetro um pouco mais afastado, as camadas populares apropriaram-se de localidades como a Pedra do Sal e a Praça Onze, para suas festanças.
A expulsão dos mestiços e negros empobrecidos do centro do Rio, em consequência das reformas de Pereira Passos, deslocou para o entorno da Praça Onze as festividades do carnaval carioca, sobretudo os encontros dos luxuosos ranchos e das incipientes escolas de samba. Trabalhadores formais e informais, biscateiros, desocupados, malandros, prostitutas, pequenos comerciantes e transeuntes recém instalados na Cidade Nova faziam da praça seu espaço de aglomeração e lazer, com o maxixe e o samba rolando soltos. (DINIZ, 2008, p.42)
A região da Cidade Nova é registrada na história cultural da cidade como “Pequena África”, devido à concentração de imigrantes negros vindos da Bahia, como as “Tias Baianas”, mães-de-santo e quituteiras que residiam no entorno da Praça Onze, e lá organizavam festas em suas residências/terreiros. Foi neste espaço que surgiram os primeiros sambas, assim como os primeiros desfiles das Agremiações Escolas de Samba. O samba que em um primeiro momento foi considerado música marginal e de malandro, sob a égide das escolas de samba, e para atender a determinados interesses políticos, acabou tornando-se um símbolo da identidade nacional. Desfile de Escolas de Samba é um modelo de carnaval que acabou sendo difundido por todo o país, e, por mais simples que sejam, as encontramos em todas as regiões brasileiras, e até mesmo em outros países.
A primeira Escola de Samba de que se tem notícia é a “Deixa Falar”, criada por sambistas do bairro Estácio de Sá em 1928, que são considerados verdadeiros revolucionários do samba. Liderados por Ismael Silva, os sambistas da “Deixa Falar” desenvolveram um samba mais acelerado, tocado com a incursão do surdo e da cuíca, instrumentos inventados respectivamente por Bide e João Mina. Na avenida, os foliões
[...] copiavam as características dos ranchos carnavalescos, mas não possuíam financiamento para serem tão organizados. Logo, não havia canto coral e seus integrantes não dançavam em coreografia marcada. Com isso, as apresentações seguiam as estruturas dos ranchos, mas eram bem mais espontâneas. Desse jeito a deixa falar foi criando modelo que fez escola. Outros grupos que não se enquadravam bem como blocos,
mas também não chegavam a rancho, começaram a usar igualmente a designação para si. (DINIZ, 2008, p.62)
De 1929 a 1931, a “Deixa Falar” desfilou na Praça Onze, inventando a noção de Escola de Samba, no entanto, em 1932, ano em que aconteceu o primeiro desfile competitivo das Escolas de Samba, a “Deixa Falar” conseguiu um pouco mais de dinheiro para se organizar, e foi promovida à categoria de Rancho Carnavalesco, mas diante do insucesso na competição dos ranchos, o grupo desanimou e findou suas atividades.
O importante é que os sambistas do Estácio deixaram um modelo de se brincar o carnaval, de maneira mais simples e espontânea, sem a necessidade dos grandes investimentos preconizados pelos Ranchos. Assim as Escolas de Samba surgiram como opções para a população que passou a residir nas periferias e nos morros, inclusive os próprios nomes das agremiações fazem referência a seus territórios, exemplo: Estação Primeira de “Mangueira”, Acadêmicos do “Salgueiro”, Unidos de “Vila Isabel26”, e elas podem funcionar como um meio de fortalecimento dos laços comunitários.
Com o passar dos anos, os desfiles das Escolas de Samba foram ganhando cada vez mais destaque e reconhecimento no carnaval carioca, tornando-se mais imponentes que os Ranchos, que em meados do século XX foram se extinguindo, enquanto as Escolas de Samba se profissionalizavam de uma maneira que foi prejudicando o senso de comunidade. Segundo Leopoldi (2010, p.17-18),
[...] a modernidade enrijeceu consideravelmente os elementos constitutivos das Escolas de Samba. Elas não são mais aquelas coletividades que, organizada e dedicadamente, faziam uma apresentação que, se era vista como carnavalesca, era também sentida como tal pelos seus integrantes, no sentido de que também se divertiam sem os rigores de uma disciplina radicalmente imposta pelos organizadores de suas Escolas.
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Para conhecer um pouco mais sobre a história das Escolas de Samba, ver: CABRAL, Sérgio. As Escolas de Samba do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Editora Lumiar, 1996.
Apesar de toda a espetacularização para o turismo que ocorre na Marquês de Sapucaí, não poderemos inferir que as Escolas de Samba tenham deixado de ser uma festa de caráter popular. Interesses das classes dominantes e das classes subalternas, conforme pressupõe Ginzburg (2006), dialogam em um mesmo espaço e com uma série de contradições, ou, como prefere Latour (2000), controvérsias. Quem busca maior simplicidade e espontaneidade nas escolas de samba, aconselho uma visita ao carnaval que ocorre na Estrada Intendente Magalhães, onde desfilam as escolas dos grupos B ao E, e blocos de enredo. Apesar de existir competitividade, muitas escolas parecem desfilar mais no sentido de honrar uma tradição.