2 A CLÍNICA DA ATIVIDADE
2.4 Catacrese e poder de agir
Para Clot (2007), se o trabalhador não tiver poder de agir, o trabalho não preenche seus requisitos como função psicológica para esse sujeito se desenvolver, e acaba tendo seu poder de ser afetado, o que é o mesmo que dizer que o eu do sujeito é atingido. Ou seja, o sujeito se torna imobilizado, seu estilo
não será de ação e muito menos ele conseguirá realizar catacreses construtivas, que contribua de fato a atividade e sirva para anular obstáculos, ao menos aqueles que estão na sua esfera de ação direta.
O poder de agir é heterogêneo. Pode-se dizer que ele aumenta ou diminui em função da alternância funcional entre o sentido e a eficiência da ação em que se opera o dinamismo da atividade, ou seja, sua eficácia. Esta, por sua vez, não é somente o alvo dos objetivos perseguidos, mas também a descoberta de novas metas (CLOT, 2010, p. 15).
O sentido será sempre um ponto fundamental no desenvolvimento do estilo e de catacreses. Tanto o estilo quanto a catacrese fazem parte da interioridade da atividade no sujeito, que por sua vez, age sobre esta atividade. Seria o que Clot (2007) chama de mobilização subjetiva na atividade. O estilo e a catacrese são categorias que revelam as particularidades do trabalhador diante a atividade.
De acordo com Clot (2010), a catacrese, categoria desenvolvida também por ele, seria o uso não previsto de instrumento de trabalho. Nas suas palavras, “Chamamos de catacreses essa atribuição de novas funções às ferramentas, esse uso desviado de uma ferramenta” (CLOT, 2007, p. 181). Clot, após realizar mais pesquisas, passa a definir ainda melhor a catacrese como sendo “essa atribuição de novas funções às ferramentas, uso deslocado ou inventivo de um dispositivo” (CLOT, 2010, p.106), sendo uma mudança de valores ao determinado instrumento, uma atividade de reconcepção ou re-criação das técnicas e dos instrumentos de trabalho, como o próprio autor afirma, a “função dos instrumentos é afetada por uma atividade de reconcepção ou re-criação das técnicas, cujo uso é deslocado ou subvertido” (CLOT, 2010, p. 106).
A catacrese seria a mudança de funcionalidade de um objeto, uma retórica da ação ou o desenvolvimento de uma atividade que aparentemente não teria relação nenhuma com o trabalho propriamente dito, mas que desempenha uma função importante para que a atividade real aconteça de forma apropriada, visando os melhores resultados.
A catacrese é uma tentativa do trabalhador de anular os obstáculos e se desfazer de fardos que aparecem diante da atividade, tem origem nos conflitos. O sujeito interioriza significações existentes e recria numa atividade criativa, desviando ou desenvolvendo novas funções de certas ferramentas ou instrumentos de trabalho, com a intenção de não fugir do foco central da tarefa e poder realizá-la de forma mais eficaz, podendo transformar uma atividade passiva e submissa em uma atividade inventiva e criativa. Clot (2010) ressalva que não é a ferramenta em si o instrumento de ação. Ela apenas é um suporte que desperta a ação no sujeito e essas leis materiais também mostraram o estilo de trabalho desse sujeito.
A catacrese não deve ser interpretada como um simples desvio, porque, por ser elaborada pelo próprio trabalhador em situação de trabalho, tem alguma finalidade com relação às suas ocupações, apartando-o daquilo que Clot chama de “pré-ocupações” pessoais do sujeito. A catacrese pode parecer para quem esteja analisando a atividade superficialmente, como um descuido ou uma ação inadequada do trabalhador, mas é uma atividade na qual o trabalhador em uma determinada situação ou problema tenta resolvê-lo usando sua criatividade, com os recursos materiais e simbólicos disponíveis. É, portanto, uma estratégia material e/ou simbólica criativa que busca tornar mais eficiente os resultados do trabalho. Atitudes que podem parecer um desvio, muitas vezes na verdade são acontecimentos necessários, improvisos criados pelo trabalhador para dar continuidade a sua atividade. É importante destacar que muitas vezes as catacreses podem estar ligadas à precarização do seu trabalho, à escassez de recursos e outras limitações, tais como de formação, ou pressões externas para mostrar resultados imediatos.
Clot recorre a Vygotsky para desenvolver o conceito de catacrese quanto de pré-ocupações, mostrando como se efetiva a mudança de um instrumento técnico em um instrumento psicológico, que acabará sendo um instrumento de gestão do trabalhador sobre si mesmo.
Clot define (2010) catacrese como uma atividade de busca, na qual o trabalhador em uma determinada situação ou problema tenta resolvê-lo usando sua criatividade, é uma subversão de formas. O trabalhador encontra na sua rotina elementos que possam vir a desgastar a realização do trabalho com
qualidade. Esse trabalhador, tendo poder de agir, buscará formas de eliminar ou resolver os problemas que apareçam. A catacrese seria, portanto, a realização da autonomia e da confiança do trabalhador no exercício do seu trabalho e está intimamente relacionada ao seu estilo pessoal. É uma demonstração de que o trabalhador pode estar ou não, exercendo, de alguma forma seu poder de agir.
Clot (2010) explica que não só instrumentos ou tecnologias de trabalho podem ser conceituados como catacrese. “(...) Não são apenas os objetos materiais que se oferecem às catacreses: as retóricas da ação, ao tirarem o sujeito dos dilemas do seu curso de atividade, ‘caçam furtivamente’ também no próprio sujeito” (CLOT, 2010, p. 107). De acordo com o autor, experiências pessoais e profissionais também podem ser reinventados e se transformarem em modo de ação.
Essa catacrese subjetiva se torna inteligível se compreendermos que o sujeito só reproduz sua história com o objetivo de responder a uma situação atual, como uma repetição sem repetição. Ele se toma como objeto, mesmo sem o saber, para conseguir livrar-se dos conflitos de sua atividade presente. Certamente, ele corre o risco de promover mecanismos que, paradoxalmente, ameaçam, de maneira permanente, restabelecer tais conflitos. Melhor ainda, essa circularidade pode confinar-se em si mesma, se a atividade do sujeito com outros sujeitos não lhe fornecer a oportunidade de deslocar seus investimentos (CLOT, 2010, p. 108).
Deve haver no campo da catacrese domínio da subjetividade, para que ela não se torne imobilizada, para não haver transgressões, mas mobilizações objetivas e subjetivas, conversões de invariantes do mundo exterior e interior, “conversões na forma de criações instrumentais, de criações simbólicas ou de sistemas defensivos” (CLOT, 2007, p. 183).
Como afirma Clot (2007), não se deve deixar de reconhecer a importância da subjetividade no trabalho, pois a atividade de trabalho só alcança sua função psicológica para os sujeitos “se lhe permite entrar num mundo social cujas regras sejam tais que ele possa ater-se a elas” (CLOT, 2007, p. 18). Mas a subjetividade também pode se tornar invasiva quando não mobiliza para ação, uma experiência profissional ou pessoal pode trazer para a atividade mais um empecilho, principalmente quando são experiências envolvendo o emocional.
Seria necessário haver, portanto, o que o autor chama de des-subjetivação por meio da ação, que seria desapropriar-se de si mesmo e sendo necessário uma re-apropriação subjetiva tendo que retrabalhar seus pressupostos subjetivos. Por isso Clot (2007), defende a transmissão e a renovação das experiências dos profissionais por estilo da ação, as experiências deve mobilizar o sujeito para a ação.
Na ação, o que vem antes – a subjetividade constituída e as ‘pré- ocupações’ – é naturalmente o ponto de partida, mas não a fonte do que vem depois. Claro que o passado (o do gênero e o do sujeito) promove o presente e o torna possível. Mas, na história do desenvolvimento, é o presente que se aparta do passado, confere-lhe um sentido e promove seu retorno e seu recomeço. A subjetivação na ação é constituinte. São os fracassos que deixam a subjetividade sedimentada em si mesma, e ela, ‘imobilizada’, torna-se então ineficiente e necrosante. E na atrofia atual da ação que a subjetividade pode perder seus poderes passados. A libertação da ação, ao contrário, os conserva. Mas trata-se de um processo aberto aos inesperados do curso da atividade (CLOT, 2007, p. 183).
Para Nóvoa (2001), é a reflexão sobre a experiência que pode construir a produção do saber e não a experiência em si. E mais uma vez, retomamos a questão dos sentidos, pois são eles que darão norte às reflexões de cada profissional.
A forma como um trabalhador atua e resolve os problemas de sua atividade revela também seu estilo profissional, isso vai depender do que ele pensa, qual conceito segue ou até mesmo da falta de uma reflexão frutífera, que o mobilize à ação. Um estilo de ação necessita de atividades de busca, de criação, de ação. A passividade leva o profissional a um estilo reprodutivista e a iniciativa traz um estilo próprio na qual o sujeito fará da relação gênero e estilo uma saudável contribuição à profissão. Assim, a relação estilo e catacrese possibilita uma direção à atividade e um estilo de ação é sinônimo de que o profissional possui o poder de agir.
Conforme Clot (2010), a impotência em solucionar problemas pode gerar frustração crônica.
Na esteira de Foucault, poderíamos escrever que, ali, onde uma pessoa que se sente com saúde faz a experiência da contradição, o paciente faz uma experiência contraditória; ‘a experiência de um se abre para a contradição, enquanto a do outro se confina nela’ (1995, p. 48). Deve-se, portanto, proceder cuidadosamente à distinção entre saúde e defesas. A primeira pode, inclusive, acabar por ser arruinada pelas segundas. O que define a saúde é, de determinado ponto de vista, a possibilidade de viver sem defesas, ao superá-las no momento em que elas se tornam normas de vida restritivas. Viver, ‘além de vegetar e conservar-se, é enfrentar riscos e vencê-los’ (1985, p. 167). Ser normal, não é ser adaptado, mas ser mais que normal, criativo. A resposta – ou, ainda, a réplica criativa – faz crescer o sujeito que a defesa apenas protege. Eis o motivo pelo qual, na saúde, há mais que um ideal ou uma ficção, para retomar o vocabulário de Dejours (1995, p.7). Existe um poder de agir que a doença corrói e que o sujeito defende, sem se confundir com as defesas; há um poder de indeterminação, uma atividade de resistência que a doença põe à prova e contraria (CLOT, 2010, p. 111).
Fischer e Paraguay (1989), afirmam que a ergonomia tem assumido a concepção de saúde da Organização Mundial de Saúde que é “um estado de completo bem-estar físico, mental e social” (p. 40) e que os temas mais atuais em discussão são a informatização, carga mental, trabalhos em turnos, epidemiologia e direitos dos trabalhadores.
Para Clot (2010), um sujeito com saúde é um instigador de novas normas. Um trabalhador com saúde é aquele que ainda consegue responder aos desafios que a profissão lhe impõe. As frustrações docentes potencializam as possibilidades de adoecimento, gerados pelo e no próprio trabalho. A amputação da atividade possível (CLOT, 2007) que o autor depois veio a chamar de amputação do poder de agir do trabalhador (CLOT, 2010) ocorre quando este é retraído e começa a sofrer tensões psíquicas. Clot chama a atenção para a questão social dessa problemática, uma vez que “essa amputação é particularmente clara nos ofícios de serviço orientados para acolher públicos em dificuldades sociais” (2007, p. 17) e em nosso país esse fator está se tornando cada vez mais grave no caso de docentes que trabalham nas periferias e regiões pobres.
O desgaste e o estresse podem ser produzidos tanto por aquilo que os trabalhadores fazem quanto pelo o que não fazem ou não podem fazer. O sujeito
retraído também não terá confiança e autonomia para recorrer à catacrese que de fato ajudaria seu trabalho a se desenvolver.