ALUNOS PARTICIPANTES
3.2 CATEGORIAS ANALISADAS SEGUNDO A VISÃO DOS PROFISSIONAIS E DOS ALUNOS DA EJA
3.2.6 Categoria 6: diálogo como forma de afetividade
Quadro 10 - Fragmentos retirados de entrevistas com professores, equipe pedagógica e equipe
diretiva referentes à categoria 6: “Diálogo como forma de afetividade.”
PARTICIPANTES
DA PESQUISA FRAGMENTOS
EPS
“A gente trabalha muito com os professores, a todo momento, a todo tempo, a gente sempre reforça a questão da afetividade. Não tem como trabalhar na Educação de Jovens e Adultos se tu não estabelece uma relação de afetividade com teu aluno.”
EPS
“E, os nossos professores, a gente tem um grupo, de um modo geral, muito afetivo. É um grupo muito humano. Um grupo muito preocupado com o “ser”. Então, é um grupo que facilita o nosso trabalho nesse sentido.”
EPS
“Se essa parte das relações humanas não for bem trabalhada, não acontece porque a gente não trabalha com máquinas, a gente trabalha com pessoas. Então, quando eu, profissional da área da educação, tenho alguma limitação, alguma dificuldade nessa questão mais de relação, do próprio diálogo, da afetividade, da aproximação, eu não consigo colocar em prática o que gostaria.”
EPS
“[...] ninguém dá aquilo que não tem. E, às vezes, os alunos são muito ríspidos, eles são agressivos, eles criam barreiras porque é o que eles conhecem da vida também. Eles não desenvolveram esta afetividade também, e às vezes, é aqui com a gente que eles começam a ter.” PRH
“Quando nós [...] conhecemos e temos [...] um olhar sócio histórico para realidade daquele sujeito, a relação de afetividade, ela propicia um maior diálogo.”
ED1
“A carência afetiva é assim... tu começa a conversar com eles. Já cansei de ver assim, alunos que chegam na supervisão e tu diz: “- Ah, fulano, tá bonito hoje, né?” [...] Aí ele já senta, e começa a contar outras coisas. Então, tu vê que é bem a questão afetiva, a carência.”
PAE
“Muitas vezes há resistência de ambas as partes, professor e aluno. Em certos momentos do diálogo o aluno vem com atitudes agressivas por causa do seu histórico de vida, onde acontece o embate entre professor- aluno e aluno-aluno. As facilidades que eu percebo é quando eles conseguem estabelecer uma afetividade com professores e colegas, sua conduta melhora. Pois assim, os mesmos se sentem aceitos e amados.” PI
“Acredito que só quando tu cativas e quando tu exerces uma amorosidade com os alunos e o professor é que se estabelece essa dialogicidade.”
Fonte: Dados da autora.
As falas dos participantes da pesquisa sobre afetividade, que constam no quadro 10, estão expressas pela entrevistada (EPS), como necessidade de que seja trabalhado o tema afetividade com os professores, no intuito de que eles tenham um olhar mais afetivo ao
desenvolver os trabalhos com o aluno em aula, e desta forma, buscar entendimento acerca da realidade do aluno, para que consigam estabelecer uma relação de diálogo que contribua com a troca de conhecimentos, e ambos, sintam-se com liberdade de expressar suas experiências, buscando alternativas voltadas para uma educação mais humana. “Seria, realmente, uma violência, como de fato é, que os homens, seres históricos e necessariamente inseridos num movimento de busca, com outros homens, não fossem o sujeito do seu próprio movimento.” (FREIRE, 1987, p.43). Também foi colocado na fala da participante, que os alunos da EJA, muitas vezes, possuem uma realidade na qual não há vivência de momentos afetivos, e eles iniciam experiências afetivas no ambiente escolar da EJA.
O entrevistado PRH, em sua fala, coloca a importância de o professor conhecer a realidade em que o aluno vive, para que a afetividade esteja presente em aula, entre professores e alunos. A entrevistada ED1 relata como fator importante os alunos serem instigados pelos profissionais que trabalham com eles a criarem estes laços de afetividade, por intermédio de momentos dialógicos que elevem a autoestima destes sujeitos. “A fé no homem é uma exigência primordial para o diálogo; “o homem do diálogo” crê nos outros homens, mesmo antes de encontrar-se frente a frente com eles. (FREIRE, 1979, p. 43).
A entrevistada PAE se posiciona, manifestando a percepção de que o diálogo entre professores e alunos, algumas vezes, em sala de aula, não se estabelece com facilidade, que há resistência de ambas as partes. Porém, quando há a presença de indícios de afetividade e os alunos se sentem aceitos pelo grupo, o diálogo se estabelece e o relacionamento entre os membros do grupo flui de forma mais sociável, com expectativas para o desenvolvimento de um bom trabalho pedagógico.
A participante PI, em manifestação, nos fala da compreensão que tem de que a dialogicidade acontece somente quando o aluno é cativado, e é criado um ambiente de amorosidade entre alunos e professores. Para ela, o fato de exercer a amorosidade, a afetividade fará parte dos momentos de trocas de experiências entre alunos e professores. Em Freire (1979), podemos encontrar a contribuição de que não há diálogo sem a existência de um verdadeiro amor que permeie entre os homens e o mundo. “O amor é ao mesmo tempo o fundamento do diálogo e o próprio diálogo.” (FREIRE, 1979, p. 43).
Os fragmentos de falas correspondentes ao quadro 10, voltados para a categoria 6: “Diálogo como forma de afetividade”, apontam aproximações com o conceito freiriano, sendo que Freire, em suas obras, pronuncia o desenvolvimento de um trabalho que perpassava o afeto por intermédio da existência do amor entre as pessoas, citado por ele como “amorosidade”. Sentimento, este, visto como necessário para que a capacidade humana seja desenvolvida com
base na condição ética e na luta pela obtenção da valorização cultural e dos direitos de todos à igualdade social, havendo assim, a possibilidade da construção de uma sociedade mais justa e igualitária. No texto de Fernandes (2017), podemos encontrar a colaboração de que:
Freire trabalha com a concretude da produção do sentido e do sentir amorosidade/amor como uma potencialidade e uma capacidade humana que remete a uma condição de finalidade existencial ético-cultural no mundo e com o mundo. Uma amorosidade partilhada que proporcione dignidade coletiva e utópicas esperanças em que a vida é referência para viver com justiça neste mundo. (FERNANDES, 2017, p. 37).
As categorias que estão sendo analisadas nesta pesquisa nos levam à reflexão de que, no ambiente escolar da EJA na escola pesquisada, há uma diversidade de entendimentos para o significado do termo “diálogo” por parte de alunos, professores, equipe pedagógica/diretiva. E, que dentre eles, ressalta-se o “sentido dialógico” voltado para: o respeito, a didática que envolve o processo ensino-aprendizagem, a forma de evitar conflitos, a conversa como entendimento entre as pessoas, aspecto facilitador da vivência e de boas relações e, por fim, o diálogo como forma de afetividade. Sendo encontradas em diversa falas, subsídios que se direcionam para um ponto de vista referente ao diálogo em Freire. Como também algumas falas, em especial as que se referiram à “Categoria 3: Diálogo como forma de evitar conflitos”, foram apontadas para um diálogo disciplinador; não havendo, neste sentido de diálogo, aproximação com os conceitos defendidos por Freire.
Na sequência, serão analisados dados referentes a dois documentos pertencentes à Modalidade de Ensino EJA, da escola pesquisada. Tais documentos são o Regimento Escolar e o Projeto Workshop EJA.
3.3 ESTUDOS DE DOCUMENTOS SOBRE O PROCESSO DE ENSINO-APRENDIZAGEM NA EJA DA ESCOLA PESQUISADA
Em relação à análise do Regimento da escola na qual foi realizada a pesquisa sobre o ensino da modalidade EJA, serão discutidos os seguintes aspectos referentes ao curso: filosofia do curso, objetivos, organização curricular, metodologia de ensino, conselho de classe participativo e processo avaliativo. Relembrando que na análise dos dados relacionados aos documentos citados, tais textos foram usados como suporte para os dados levantados nas entrevistas, não se configurando em uma análise documental.
Também foram analisados trechos das falas das participantes ED1 e PI, as quais foram entrevistadas individualmente uma segunda vez, especificamente para maior
entendimento sobre o projeto Worshop. Como já dito, com a participante ED1 a entrevista foi gravada e transcrita. A participante PI, pelo fato de não estar com tempo disponível, optou por responder as questões do roteiro da entrevista por escrito e entregar em um outro dia. Então, tais entrevistas foram realizadas com o intuito de coletar informações referentes aos projetos desenvolvidos no curso EJA, especialmente sobre o Projeto Worshop, que vem tendo desdobramento em vários subprojetos. Neste, haverá uma atenção especial, com maiores detalhamentos, em relação ao subprojeto denominado “OUTLET30 (Brechó)”, sendo ele considerado de tal importância para a modalidade de ensino EJA, que foi ampliado para toda a escola, e continua sendo desenvolvido até a presente data, com a participação de todos que fazem parte da escola.
Para a realização desta parte da análise, também foram utilizadas as entrevistas de alguns professores e membros da equipe diretiva e pedagógica (as mesmas entrevistas já analisadas no item anterior), as quais foram cruzadas com os dados coletados nos documentos. E especialmente, ao analisar os dados do “Projeto Workshop”, contou-se com a participação das entrevistadas ED1 e PI.
3.3.1 Dados estudados à luz do “Regimento Escolar” da EJA
Quanto a análise de dados referentes ao Regimento Escolar, precisamos inicialmente compreender o porquê da existência deste documento, a importância que ele tem para que as atividades escolares venham a ser ministradas pelos educadores, educandos e pais, de forma organizada, clara e coerente dentro da comunidade escolar. Como contribuição, para que haja maior clareza em relação ao referido documento, na sequência serão citadas informações referentes ao Conselho Estadual de Educação de Santa Catarina (CEE/SC) e ao Conselho Estadual de Educação do Rio Grande do Sul (CEE/RS).
O CEE/SC, com base na RESOLUÇÃO Nº 182, de 19 de novembro de 2013, na Seção V, descreve o Regimento Escolar da seguinte forma:
Art. 19 O Regimento Escolar, instrumento ordenador do funcionamento do
estabelecimento de ensino, discutido e aprovado pela comunidade escolar e conhecido por todos, constitui-se em um dos instrumentos de execução do Projeto Político Pedagógico, e deverá contemplar as seguintes diretrizes:
I. natureza, objetivos, regras e finalidade do estabelecimento de ensino; II. atribuições de seus órgãos e sujeitos;
30 O dicionário Michaelis (2018) descreve o termo OUTLET como: “[...] mercado para determinado produto, estabelecimento, loja, ponto de revenda.”
III. normas pedagógicas, tendo como norteamento a Lei de Diretrizes e Bases da Educação e a Lei do Sistema Estadual de Educação;
IV. regras gerais capazes de orientar a ação educacional no sentido de cumprir sua verdadeira função;
V. direitos, deveres e normas disciplinares, no que couber, dos seus sujeitos: estudantes, professores e profissionais atuantes em diferentes funções, gestores, famílias, representação estudantil;
Parágrafo único. O Regimento Escolar poderá integrar, como Anexo, o Projeto
Político Pedagógico do estabelecimento de ensino. (CEE/SC, 2013, p. 7).
As intenções, os objetivos que cada escola empenha-se em desenvolver devem ser claros, para que todos os sujeitos que dela fazem parte tenham conhecimento sobre os princípios, as concepções, as determinações institucionais. A construção do Regimento escolar deve acontecer de acordo com a realidade de cada escola, ter flexibilidade e envolver toda a comunidade escolar. Como também, sua elaboração deve seguir orientações com suporte na legislação de ensino que estiver em vigor. A Resolução nº 236, de 21 de janeiro de 1998, do CEE/RS, em seu Art. 1º, define Regimento Escolar como: “O Regimento Escolar é o documento que define a organização e o funcionamento do estabelecimento de ensino, quanto aos aspectos pedagógicos com base na legislação do ensino em vigor.” (CEE/RG, 1998, p. 142).
Todos que fazem parte da comunidade escolar: professores, pais, alunos, colaboradores administrativos, equipe diretiva, equipe pedagógica, dentre outros, devem ter conhecimento do que consta no Regimento Escolar, sendo este documento elaborado pela escola da qual fazem parte. É, inclusive, de grande importância que tal documento seja apresentado aos pais, no início de cada ano letivo, uma vez que ele é essencial para o bom desenvolvimento das atividades pedagógicas, pelo fato de ser norteador dos passos educativos do espaço pedagógico onde a comunidade encontra-se inserida.
Na elaboração de um Regimento Escolar há a flexibilidade no sentido de o referido documento ser construído de acordo com a realidade de cada instituição escolar.