ALUNOS PARTICIPANTES
3.2 CATEGORIAS ANALISADAS SEGUNDO A VISÃO DOS PROFISSIONAIS E DOS ALUNOS DA EJA
3.2.3 Categoria 3: diálogo como forma de evitar conflitos
O participante da pesquisa T1 AM explicita, em sua fala, que o diálogo auxilia a evitação de conflitos, citando como exemplo que os jovens precisam ser trabalhados para que tenham mais paciência, pois, segundo ele percebe, principalmente os adolescentes29 não estão sabendo ouvir uns aos outros, e esta impaciência acaba gerando conflitos entre eles. E assim, muitas vezes, por esse motivo, o ambiente de aprendizagem em sala de aula acaba sendo prejudicado.
“Precisa ter mais diálogo com os jovens, pedindo para que eles tenham mais paciência e consigam ouvir mais uns aos outros. É um trabalho que os professores precisam tentar continuar fazendo com os alunos. Misturar as turmas para realizar o trabalho. Misturar as turmas para que alguns jovens não se sintam marcados.” (T1 AM).
Na sequência, 1 professor, 1 membro da equipe pedagógica e 1 membro da equipe diretiva manifestaram a forma de entendimento que cada um percebe como o diálogo pode auxiliar nos momentos de conflito.
29 Na atualidade, a “fase da adolescência” vem sendo abordada como difícil de lidar, como quase que impossível de ser suportada. Assim, o adolescente, muitas vezes, é visto como imaturo, inconsequente, desorganizado, impaciente. Falas como estas vêm sendo “cristalizadas” pela sociedade, e generalizadas em relação aos adolescentes. Parece não estar havendo o entendimento e aceitação de que esta fase é um período de transição entre a infância e a vida adulta, na qual perpassam inúmeros aspectos referentes ao desenvolvimento emocional, físico, sexual, social de cada ser humano. Fase esta em que o indivíduo busca sua autoafirmação, tentando reconhecer sua identidade no meio familiar, cultural e social de que faz parte. Este esforço que o conduz ao encontrar-se consigo mesmo e com o outro que está ao seu redor, é um processo que o levará a muitos questionamentos e ao processo de construir, desconstruir e reconstruir sua trajetória de vida. Portanto, os momentos de conflitos vivenciados por ele fazem parte de uma trajetória natural do desenvolvimento humano,
Quadro 8 - Trechos retirados de falas de professores, equipe pedagógica e equipe diretiva,
referentes à categoria: “Diálogo como forma de evitar conflitos”. PARTICIPANTES DA
PESQUISA FRAGMENTOS
PG
“Eu procuro resolver com eles os nossos problemas. [...] Porque, se é só comigo, eu procuro [...] conversar, pedir a colaboração, assim que eu procuro fazer.”
EPS
“Então, o meu trabalho é fazer com que o professor se aproxime desse aluno, fora do momento de conflito. A gente sempre diz pra ele, não é no momento de conflito que tu vai fazer isso. Tem que esperar acalmar [...] No momento em que vocês dois estão calmos é o momento de sentar e conversar.”
“Onde o diálogo é mais limitado existem conflitos com o adolescente, principalmente. Porque o adolescente, ele não manda recado, ele bate de frente, ele rejeita e ele se manifesta. Então, onde acontecem os conflitos é onde o diálogo é menos presente.”
ED1 “Eu penso que na conversa, tu ganha muito mais eles do que tu batendo de frente, ou não conversando, ou ignorando.”
Fonte: Dados da autora.
A entrevistada PG fez comentários referentes ao seu jeito de lidar com os alunos que, às vezes, mesmo sem terem intenção, acabam atrapalhando o desenvolvimento das atividades em aula com conversas e desconcentração. Ela salientou que procura resolver os conflitos conversando e pedindo a colaboração deles, para que o ambiente de aula seja mais propício aos estudos. A entrevistada EPS diz que realiza um trabalho que orienta o professor a ter mais calma, mais paciência para ouvir os alunos, pois os mesmos, muitas vezes, necessitam extravasar o que pensam e serem ouvidos. Ela comenta que há maior conflito com os adolescentes, que muitas vezes não aceitam o que é conversado com eles. São carentes de atenção e, em determinados momentos, apresentam dificuldade de expressar o que sentem, buscando, muitas vezes, o desabafo como evidência da alteração de suas atitudes. A entrevistada ED1 comenta que não se ganha os alunos batendo de frente com eles ou ignorando- os, mas sim, é necessário conversar com eles.
Aparecem formas do que podemos denominar de “disciplinamento do diálogo” em dois momentos no quadro 8: na fala da entrevistada EPS, quando ela refere-se ao fato de que o professor deva conversar com o aluno somente quando ele estiver calmo, ou seja, em outro momento que não seja o do conflito. Esta situação pode se referir a um momento específico de conflito entre professor e aluno, em que ambos estão nervosos, então, a recomendação de o professor primeiro se acalmar para depois conversar, o que é, de fato, conveniente; mas também pode derivar daí a recomendação de se "evitar conflitos”, o que se direcionaria a uma educação
que não suporta divergências. E na fala da participante ED1, quando ela coloca o diálogo no sentido de “ganhar o aluno”, “conquistá-lo”, na crítica que Freire faz à ação de coisificar as pessoas, “ganhá-las” e não tratá-las como sujeitos pensantes e respeitar suas especificidades. Estes sentidos, aqui denominados como “disciplinamento”, são, portanto, divergentes do diálogo freiriano. Para Freire, a disciplina deve ser exercida no sentido de liberdade democrática, mediada por um diálogo, o qual se volte para um movimento mobilizado pela contradição entre a força necessária da autoridade, e o ato de buscar uma liberdade condutora do indivíduo a assumir-se como sujeito responsável pela construção do espaço onde está inserido. “Resultando da harmonia e do equilíbrio entre autoridade e liberdade, a disciplina implica necessariamente o respeito de uma pela outra, expresso na assunção que ambas fazem de limites que não podem ser transgredidos.” (FREIRE, 1996, p. 54).
Sabemos que quando estamos em um grupo, nele há a presença de diversificadas características que perpassam as trocas de experiências. São pessoas que, nas suas singularidades, trazem culturas, gostos, pensamentos, ações diferenciadas. Os conflitos e tensões normalmente acontecerão pelo fato de o ser humano ser inacabado e ter possibilidades de pensar diferente. Neste sentido, precisamos refletir sobre o cuidado necessário para não haver a disseminação da “cultura do silêncio”. Osowski (2017) contribui em relação à cultura do silêncio reforçando que:
Para Paulo Freire a cultura do silêncio é produzida pela impossibilidade de homens e mulheres dizerem sua palavra, de manifestarem-se como sujeitos de práxis e cidadãos políticos, sem condições de interferirem na realidade que os cerca, geralmente opressora e/ou desvinculada da sua própria cultura. Ela é o resultado de ações político- culturais das classes dominantes, produzindo sujeitos que se encontram silenciados, impedidos de expressar seus pensamentos e afirmar suas verdades, enfim, negados em seu direito de agir e de serem autênticos. (OSOWSKI, 2017, p. 101).
Assim, fica evidente que, por intermédio da cultura do silêncio, as pessoas permanecem sendo oprimidas, que os opressores continuam criando inúmeros obstáculos para que os indivíduos não tenham acesso ao conhecimento da forma que deveriam e mereceriam ter, já que professores e alunos, ambos, também são vítimas do desemprego, dos baixos salários, dos descasos que os governantes manifestam em suas atitudes em relação ao povo. Professores e alunos são seres humanos que lutam constantemente para tentar sobreviver neste emaranhado de problemas econômicos e sociais que circundam as nossas famílias, nossas comunidades, nossa sociedade. É desta forma, sem vez e sem voz, que indivíduos ou grupos de pessoas opressoras pensam que devemos permanecer. Para eles, a humanização não é vista como prioridade em seus discursos e muito menos em suas práticas. “Para o opressor, a consciência,
a humanização dos outros, não aparece como a procura da plenitude humana, mas como uma subversão”. (FREIRE,1979, p.32).
Percebe-se que os professores tentam dialogar com os alunos, para acalmá-los perante as situações de sofrimento que vivenciam no dia a dia. Porém, este diálogo necessita de momentos de debates mais amplos, de discussões, de reflexões, que direcionem os sujeitos a entenderem que fazem parte do contexto social em que vivem. Desta forma, fomentando momentos em que sintam a necessidade de buscar libertação para atuar com autonomia e comprometimento, para que venham a acontecer possibilidades que conduzam à transformação e reconstrução social. No entanto, é essencial que aqueles que quiserem fazer parte desta reconstrução, tenham o entendimento de que passarão por momentos necessários de manifestações conflituosas, porém, organizadas. De acordo com informações obtidas na produção escrita de Góes (2017), há a confirmação de que:
O conflito, nas obras de Freire é fundamental para o exercício do diálogo, para a construção do conhecimento decorrente da criação, recriação dos homens e mulheres, para a reflexão sobre temas geradores e conteúdos programáticos no contexto da educação libertadora, para conscientização do processo dialético das ações políticas e pedagógicas. (GÓES, 2017, p. 85).
Ações revolucionárias precisam acontecer com o intuito de proporcionar mudanças coletivas, que sejam capazes de mudar ações direcionadas, para que os direitos e deveres sejam não somente reconhecidos, como, principalmente, colocados em prática ao alcance de todos, e não somente com oportunidade de acesso sendo privilegiada por poucos. “Os oprimidos não obterão a liberdade por acaso, senão procurando-a em sua práxis e reconhecendo nela que é necessário lutar para consegui-la.” (FREIRE,1979, p.31).
Paulo Freire reconhece que há outro tipo de silêncio, que também precisa ser levado em conta e cultivado, para que exista a comunicação entre as pessoas. O silêncio que direciona para o saber ouvir o que o outro tem a falar, respeitando-o em suas colocações verbais. E para que essas experiências possam ser partilhadas entre os membros de um pequeno grupo ou de um grande grupo, se faz necessário tranquilidade, paciência, colaboração, e acima de tudo, respeito e compreensão de que todos têm o que pronunciar. Mas, o verdadeiro diálogo, baseado no saber ouvir o outro com respeito, atenção, paciência e calma, exige das pessoas tempo. Infelizmente, percebemos que atualmente está bastante escasso as pessoas tirarem este tempo em suas vidas para que o diálogo venha a acontecer de forma reflexiva e transformadora. No entanto, precisamos repensar como fazer para que este tempo seja proporcionado no espaço escolar, facilitando o diálogo entre os sujeitos. Freire (1996), contribui ressaltando que:
A importância do silêncio no espaço da comunicação é fundamental. De um lado, me proporciona que, ao escutar, como sujeito e não como objeto, a fala comunicante de alguém, procure entrar no movimento interno do seu pensamento, virando linguagem; de outro, torna possível a quem fala, realmente comprometido com comunicar e não com fazer puros comunicados, escutar a indignação, a dúvida, a criação de quem escutou. Fora disso, fenece a comunicação. (FREIRE, 1996, p. 117).
Paulo Freire também nos fala de um disciplinamento que deve se fazer presente no dia a dia das pessoas, aquele que dá suporte para que sejam realizados objetivos, propósitos, sonhos que despertem para a esperança de que a busca de novos conhecimentos conduzirá para a construção de um mundo mais ético e melhor para todos. “A disciplina no ato de ler, de escrever, de escrever e de ler, no de ensinar e aprender, no processo prazeroso, mas difícil de conhecer, a disciplina no respeito e no trato da coisa pública; no respeito mútuo.” (FREIRE, 1997, p.78).
A contribuição de cada um é fundamental para que a oportunidade da existência de momentos críticos e reflexivos possam dar suporte para prosseguir na construção da caminhada que levará o indivíduo a deixar de ser objeto, para ser sujeito pensante e consciente da capacidade que tem, de construir novos caminhos que lhe darão autonomia e libertação da condição de “ser menos” para “ser mais”.
Na sequência, será realizada a análise de fragmentos referentes a quarta categoria, cujo título apresenta-se como: “O diálogo como conversa/ entendimento entre as pessoas”. Nesta categoria serão apresentados trechos de falas de 1 participante que faz parte da equipe pedagógica e de 5 alunos.