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Categoria 2: Pernambuco como modelo

CAPÍTULO 4 – O CAMPO, OS PROTAGONISTAS E OS SÚDITOS

4.2 Pernambuco na telinha do Jornal Nacional

4.2.2 Categoria 2: Pernambuco como modelo

Segundo Gay Tuchman (1983), as notícias “leves” podem ser definidas como relatos de interesse humano, pois tratam da vida dos seres humanos, em oposição às notícias “duras”, que, segundo a autora, são interessantes para os seres humanos. Mas, muitas vezes, segundo Tuchman, as fronteiras entre notícia “dura” e notícia “leve” podem não ser muito bem definidas: “Durante um período de dois anos, a emissora de televisão observada apresentava como relatos destacados alguns fatos que sua maior concorrente apresentava como notícias duras, e viceversa” (1983, p. 65, tradução nossa).

Como já dissemos antes, também é característica da notícia leve a sua não factualidade; ou melhor, quando não divulgada, ela não perde a sua atualidade. A notícia leve é considerada, no jargão jornalístico, uma notícia “fria” ou de “gaveta”; ela despertará o interesse do público a qualquer momento que for exibida ou publicada. “Os membros de uma empresa de comunicação quase sempre controlam o sentido do tempo e o fluxo do trabalho para processar relatos de noticias leves” (TUCHMAN, 1983, p.65, tradução nossa).

De acordo com Bonner (2009), nem todos os dias são repletos de fatos nacionalmente relevantes, por esse motivo, há dias em que o Jornal Nacional explora os temas de atualidades não factuais, que segundo o editor-chefe e apresentador do telejornal, são fenômenos que têm ocorrido, mas que não precisam ser abordados obrigatoriamente no mesmo dia, porque pode ser abordado amanhã ou depois:

Reportagens desse tipo são muito importantes para ajudar o espectador a compreender o mundo em que vive, a conhecer problemas, a discutir soluções. Tudo sem aquele caráter urgente dos temas factuais (BONNER, 2009, p.117).

Na Categoria Pernambuco como modelo, as reportagens, de alguma forma, enaltecem as ações e iniciativas desenvolvidas no estado. Geralmente, o foco das matérias está centrado em atitudes positivas, que promovem benefícios à população mais necessitada, mais pobre, que sem recursos ou verbas públicas, de governos ou instituições, acabam criando soluções alternativas para resolver seus próprios problemas. A população acaba sendo agente de sua própria mudança, fazendo com que os acontecimentos promovidos por ela se transformem em pautas de interesse jornalístico.

FIGURA 12

Abastecimento de gás no agreste ganha solução ecológica

Fonte: Disponível em: <http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2010/12/pe-abastecimento-de-gas-no- agreste-ganha-solucao-ecologica.html> Acesso em: 21 de Outubro de 2011. Gás ecológico no Agreste de PE.

Matéria da repórter 1

Reportagem exibida no dia 06/12/2010 Tempo: 2min: 4seg.

Texto

UMA TECNOLOGIA SIMPLES, BARATA E FÁCIL DE

IMPLANTAR NAS ÁREAS RURAIS DE TODO O PAÍS PODE REPRESENTAR UMA TRÉGUA PARA A

NATUREZA E UMA ECONOMIA PARA OS AGRICULTORES. É O BIODIGESTOR, QUE GARANTE

A PRODUÇÃO DE GÁS DE COZINHA COM UMA MATÉRIA-PRIMA QUE NÃO FALTA POR LÁ: ESTERCO ANIMAL.

“A PARTIR DO MOMENTO QUE VOCÊ INSTALA UM BIODIGESTOR PARA UMA FAMÍLIA, ELA NÃO VAI MAIS TER NECESSIDADE DE CORTAR A MADEIRA, CORTAR O GRAVETO, OU SEJA, FAZER O CARVÃO”, EXPLICOU JOSEILDO FELIZÁRIO DOS SANTOS, BIÓLOGO DA ONG DIACONIA.

DEZENAS DE BIODIGESTORES ESTÃO SENDO

INSTALADOS DE GRAÇA POR VOLUNTÁRIOS. SEU SEBASTIÃO NÃO PRECISA MAIS COMPRAR O

BUTIJÃO DE GÁS. UMA ECONOMIA DE CERCA DE R$ 40 POR MÊS.

É NO FOGÃO QUE A DONA DE CASA PERCEBE ALGUMAS DIFERENÇAS. O BIOGÁS NÃO TEM CHEIRO, AO CONTRÁRIO DO GÁS DO BUTIJÃO, E O FOGO É MAIS INTENSO, PRODUZ MAIS CALOR. POR ISSO, A COZINHEIRA TEM QUE FICAR DE OLHO

NAS PANELAS PARA NÃO DEIXAR A COMIDA QUEIMAR.

A VIDA DA COZINHEIRA MELHOROU MUITO.

Na matéria, a ideia é mostrar que, além de melhorar o abastecimento de gás, “a medida pode representar uma trégua para a natureza”. As ancoragens e expressões utilizadas pela repórter constroem um discurso alertando da necessidade de se preservar o meio ambiente. Através de uma “tecnologia simples, barata e fácil de implantar, as iniciativas podem melhorar a vida dos agricultores”. A análise evidencia como uma representação social do combate ao desmatamento e da preservação da natureza vai sendo construída com cuidado, buscando muitas dimensões de sentidos, desde a proteção do meio ambiente até a mudança de hábitos da dona de casa: “ao contrário do gás de botijão, o fogo é mais intenso... Por isso, a cozinheira tem que ficar de olho nas panelas para não deixar a comida queimar”.

A repórter vai construindo a imagem do agricultor pobre, que vive na área rural, tentando encontrar uma saída simples para a resolução de seus problemas, organizando as suas atividades, e permitindo aos cidadãos tornar a realidade social deles mais fácil e suportável. Tecnologia simples e barata é responsável pela mudança do dia a dia na vida da população: A vida da cozinheira melhorou muito.

FIGURA 13

Cidade devastada por enchentes constrói casas dia e noite

Fonte 13: Disponível em: <http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2011/05/cidade-devastada-por-enchentes- constroi-casas-dia-e-noite.html>. Acesso em: 22 de Outubro de 2011. Canteiro de obras na Mata Sul de PE.

Matéria da repórter 1

Reportagem exibida dia 26/05/2011 Tempo: 2min: 19seg.

Texto

NO ALTO DO MORRO, EM BARREIROS, NA ZONA DA

MATA DE PERNAMBUCO, DOIS GALPÕES

INFLÁVEIS DE SEIS MIL METROS QUADRADOS DE ÁREA CHAMAM A ATENÇÃO. A NOVIDADE SE TRANSFORMOU EM UMA ALIADA IMPORTANTE DENTRO DO CANTEIRO DE OBRAS NA ÉPOCA DA CHUVA.

É ESTA ALTERNATIVA À PROVA D’ÁGUA QUE ESTÁ GARANTINDO A CONTINUIDADE DAS OBRAS DE RECONSTRUÇÃO DO MUNICÍPIO QUE, EM

MENOS DE UM ANO, ENFRENTOU DUAS ENCHENTES. “ESTA É À PROVA DE CHUVA. NÓS ESTAMOS, INCLUSIVE, CONTRATANDO MAIS UM GALPÃO, PARA PODERMOS FAZER RUAS DENTRO DO EMPREENDIMENTO”, DIZ VALDEMIR JOSÉ HENZ, COORDENADOR DAS OBRAS.

CADA GALPÃO TEM 18 METROS DE ALTURA, 100 DE COMPRIMENTO, 30 DE LARGURA E A PREFERÊNCIA

DOS TRABALHADORES.

“FOI UMA COISA BOA QUE INVENTARAM, UMA COISA MUITO ÓTIMA PARA A GENTE TRABALHAR”, CONTA UM TRABALHADOR.

A TECNOLOGIA DAS CASAS PRÉ-MOLDADAS É RÁPIDA. AO TODO, 108 FORMAS SÃO ENCAIXADAS COMO UM QUEBRA-CABEÇA. EM CINCO HORAS, A BASE ESTÁ PRONTA PARA RECEBER O CONCRETO.

DEZ HORAS DEPOIS TODAS AS PAREDES JÁ ESTÃO LEVANTADAS.

COM SOL OU COM CHUVA, DE DIA E DE NOITE, O TRABALHO DENTRO DOS GALPÕES NÃO PARA. OS OPERÁRIOS TÊM UMA TAREFA GIGANTESCA PELA FRENTE: CONSTRUIR 12.063 CASAS PARA AS FAMÍLIAS VÍTIMAS DAS ENCHENTES DO ANO PASSADO. E SÓ DEBAIXO DA LONA REFORÇADA,

BOA PARTE DAS OBRAS ESTARÁ PROTEGIDA DOS EFEITOS DAS CHUVAS QUE, ESTE ANO, CHEGARAM UM MÊS MAIS CEDO.

DENTRO DOS GALPÕES SÃO CONSTRUÍDAS 120 CASAS POR MÊS EM RITMO ACELERADO. “NÓS TEMOS CONSTRUÇÃO DE CASAS AQUI 24 HORAS POR DIA, SETE DIAS POR SEMANA. ISSO, COM A PREOCUPAÇÃO DE ANTECIPAR A ENTREGA DESSAS CASAS NA REGIÃO DE BARREIROS”, EXPLICA O PRESIDENTE DA COMPANHIA DE HABILITAÇÃO, NILTON MOTA.

DOS TRABALHADORES, 80% SÃO DA REGIÃO. TIAGO TEVE A CASA DESTRUÍDA PELA ENCHENTE. NO

CANTEIRO DE OBRAS, ELE RECONSTRÓI A VIDA: ARRUMOU O PRIMEIRO EMPREGO E AJUDA A ERGUER AS CASAS DE OUTROS DESABRIGADOS. EM UMA DELAS, VAI MORAR COM OS PAIS, A MULHER E O FILHO. UM CONFORTO QUE NUNCA TEVE. SÃO 41 METROS QUADRADOS, DOIS QUARTOS, SALA, COZINHA E BANHEIRO.

“ME SINTO MUITO ALEGRE DE PODER PARTICIPAR DESSA CONSTRUÇÃO”, FALA.

Na matéria sobre a construção de casas dia e noite, as ancoragens e expressões reforçam o cenário de esperança de uma nova vida: “No canteiro de obras, ele constrói a

vida”. Através das ancoragens, a repórter vai buscando relacionar a fabricação das casas pré-

moldadas, com a chance de salvar milhares de famílias que ficaram desabrigadas pelas enchentes. Algumas expressões de familiarização também são utilizadas, como: “Dez horas

depois todas as paredes já estão levantadas”. Os galpões infláveis, que chamam a atenção

dos moradores do município de Barreiros, na Zona da Mata de Pernambuco, são ancorados, em todo o texto, como um “aliado importante, na época de chuva”.

Numa situação de grande insegurança por que passam os desabrigados das enchentes, é significativa a estratégia de conseguir uma casa: “um conforto que nunca teve; arrumou o

primeiro emprego”, mas, como retribuição da conquista individual: “ajudar a erguer as casas de outros desabrigados”. Desse modo, de acordo com Guareschi (2010), as

representações servem às pessoas tanto como paradigmas na comunicação como, meio de orientação prática. Diz Guareschi:

As bases para um discurso sobre a natureza do conhecimento humano, dentro dessa perspectiva, mudam, pois o conhecimento passa a ser um processo de luta e persuasão no curso da história humana, não um processo de aprendizagem realizado pela pessoa singular, que se supõe adquirir conhecimento tradicional que, ou despreza, ou constroem um mundo à parte do conhecimento e da comunicação comum (2010, p. 89).

FIGURA 14

Aposentado pernambucano vira notícia por sua honestidade

Fonte: Disponível em: <http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2010/11/aposentado-pernambucano-vira- noticia-por-sua-honestidade.html>. Acesso em: 23 de Outubro de 2011.

Matéria da repórter 1

Reportagem exibida no dia 02/11/2010 Tempo: 1min: 27seg.

Texto

LUIZA MATOS É VIÚVA E TRABALHA 12 HORAS POR DIA NA MÁQUINA DE COSTURA PARA SUSTENTAR A FAMÍLIA. FOI UM DESESPERO QUANDO ELA DESCOBRIU QUE UM DOS FILHOS PERDEU O DINHEIRO QUE SERIA USADO PRA PAGAR AS CONTAS DA CASA.

ROGÉRIO MATOS SAIU DE BICICLETA E NÃO PERCEBEU QUANDO O DINHEIRO E AS CONTAS CAÍRAM DO BOLSO. A APENAS 300 METROS DE DISTÂNCIA, DUAS RUAS DEPOIS DA CASA DA DONA LUIZA, UM NOVO PERSONAGEM ENTROU NESTA

HISTÓRIA PARA ALÍVIO DA FAMÍLIA DA

COSTUREIRA.

ADEMÁRIO BARROS VARRIA A RUA, EM FRENTE À CASA DELE, QUANDO ENCONTROU O DINHEIRO, BEM NO CHÃO, DOBRADO ENTRE AS CONTAS DE ÁGUA E LUZ. LÁ ESTAVAM R$ 160 DE UM DESCONHECIDO. O SARGENTO REFORMADO DA POLÍCIA MILITAR NÃO PENSOU DUAS VEZES.

ELE PAGOU AS CONTAS E FOI ATRÁS DO ENDEREÇO. PERCORREU A RUA DE DONA LUIZA CINCO VEZES, MAS A CASA DELA NÃO TINHA NÚMERO. ADEMÁRIO NÃO DESISTIU. DEPOIS DE MUITO PROCURAR, O ENCONTRO EMOCIONADO. “MUITO OBRIGADA, DEUS TE ABENÇOE”, DESEJOU DONA LUIZA. “QUANDO CHEGA ALGUÉM, EU CONTO A HISTÓRIA TODINHA E MOSTRO A CONTA”.

COMEÇOU UMA GRANDE AMIZADE,

FORTALECIDA PELA HONESTIDADE E PELA GRATIDÃO. “MAIS VALE UM AMIGO NA PRAÇA DO QUE DINHEIRO NA CAIXA”, ACREDITA SEU ADEMÁRIO.

“COM CERTEZA É O MEU HERÓI”, AFIRMOU DONA LUIZA.

SEU ADEMÁRIO SÓ ENCONTROU A COSTUREIRA LUIZA DEPOIS DE DOIS DIAS DE PROCURA. ELE DISSE QUE LEVARIA O TEMPO QUE FOSSE NECESSÁRIO PARA CONSEGUIR DEVOLVER AS CONTAS PAGAS.

As três matérias selecionadas destacam de alguma forma, atitudes “nobres” de grupos ou cidadãos comuns. As realidades em que a repórter procura ancorar essas atitudes são: solidariedade, honestidade, sentido de fazer uma “boa ação” ou de promover o “bem comum”.

A reportagem sobre o aposentado honesto vai sendo ancorada por um cenário de imagens familiares ao dia a dia da população, como o da “viúva que trabalha 12 horas por dia na máquina de costura para sustentar a família, como o do desespero ao perceber que o filho perdeu o dinheiro para pagar as contas...”. Todas carregadas de conotação extremamente emotivas. Depois, a história apresenta um novo personagem, o herói do desfecho da trama. O exemplo é objetivado ainda no texto da cabeça da matéria: “Uma riqueza nacional. A beleza do povo que o nosso país tem”.

Na reportagem, as representações sociais do aposentado pernambucano, servem de exemplo para todo o povo brasileiro; é ancorada por conceitos e expressões que enfatizam o caráter, a honestidade, a gratidão e a perseverança de uma nação: “Levaria o tempo que fosse necessário para devolver as contas pagas”, disse o aposentado.