1 MATERIALIDADES DO DISCURSIVO: A LÍNGUA NA HISTÓRIA
1.3 Categorias do interdiscurso: pré-construído e intradiscurso
A noção de interdiscurso relaciona-se à constituição não-homogênea e fechada das FD’s, as quais dissimulam pela transparência de sentido sua filiação a um “todo complexo com dominante”, cuja origem está no interdiscurso. Em relação a isso é importante refletir sobre o funcionamento dessa categoria, a partir de sua constituição como um lugar contraditório, que abriga o sentido e o não-sentido. Segundo Silveira (2004, p. 42), o interdiscurso é um ‘lugar’ porque “todos os sentidos estão lá, mas só vão significar quando convocados por uma determinada Formação Discursiva”. Nesse sentido, pode-se dizer que dois lugares o constituem: o pré-construído e o intradiscurso.
A noção de pré-construído foi desenvolvida por Henry (1992) para designar uma construção anterior e exterior ao sujeito da enunciação e que não se liga a um sujeito enunciador. Trata-se, nas palavras de Courtine (1999), “de uma voz sem nome”, que aparentemente não se liga a um sujeito enunciador e nem o que está além dele. Nesse funcionamento, materializam-se, no fio do discurso, as formações ideológicas, como aquilo que “fala antes” e legitima o discurso, constituindo o aparente “consenso” em relação ao dizer e ao saber. Dois processos materializam o pré-construído no discurso: o encadeamento sintático e a articulação. O primeiro, pode ser definido como o processo de nominalização por encaixamento de “algo que fala antes” e irrompe no intradiscurso sob a forma de explicativas, incisas e outros processos sintáticos. O segundo processo de articulação ou de sustentação ocorre sob duas formas: como discurso transverso ou como articulação.
O funcionamento do interdiscurso, tomado como discurso transverso é descrito ao modo de um procedimento que
atravessa e põe em conexão entre si os elementos discursivos constituídos pelo interdiscurso enquanto pré-construído, que fornece, por assim dizer, a matéria prima na qual o sujeito se constitui como “sujeito falante, com a formação discursiva que o assujeita (PÊCHEUX, 1997a, p. 167)
É no lugar do discurso transverso, que se produz, de acordo com Courtine (1981), o enunciável e a coerência discursiva dos enunciados. Entre esses procedimentos destaca-se a da co-referencialidade, que concorre para a textualização do discurso sem que haja referência explícita. Trata-se do trabalho da memória, do conhecimento já-lá convocado por uma FD, que sustenta e legitima o dizer.
Nesse trabalho vemos o discurso transverso como o efeito de memória pelo qual ressoam no eixo da formulação saberes desde o interdiscurso e que permanecem deslinearizados e dependentes da inscrição de sujeitos a dizeres e a saberes próprios dos lugares que sustentam a FD dominante, a qual interpela esses sujeitos. Por esse funcionamento os discursos se atravessam de acordo com a filiação dos sujeitos do discurso, não há, portanto, como sustentar a transparência do sentido. O segundo funcionamento do interdiscurso como pré-construído consiste na articulação. Esse procedimento refere à estrutura horizontal do discurso e à linearização dos saberes no intradiscurso em forma de nominalizações, orações adjetivas, incisas, principalmente. No processo de articulação as filiações são explicitadas.
Como intradiscurso, o interdiscurso é um efeito sobre si mesmo, segundo Pêcheux (1997a, p. 167) ““uma interioridade” inteiramente determinada como tal “do exterior””. Nesse funcionamento, a memória e a atualidade simulam o sujeito como centro do dizer pela identificação dele com a FD que o domina e representa no fio do discurso as formações ideológicas próprias dela. A interpelação supõe o desdobramento do sujeito em dois termos. Um que representa o sujeito locutor, responsável pelo conteúdo do dizer (sujeito da enunciação), que assume uma posição na FD e outro termo que representa o sujeito universal (sujeito da ciência). Esse desdobramento
[...] corresponde ao pré-construído (o sempre-já aí da interpelação ideológica que fornece-impõe a “realidade” e “seu sentido” sob a universalidade – “o mundo das coisas” e articulação ou efeito transverso (que como dissemos, constitui o sujeito em sua relação com o sentido, isto é, representa no interdiscurso aquilo que determina a dominação da forma-sujeito (PÊCHEUX, 1997a, p. 214)
Henry (1992, p.176) relaciona os desdobramentos do sujeito ao imaginário e ao simbólico pelas noções de eu-ideal e ideal de eu. “O eu-ideal representa a face visível do imaginário, aquela em que o sujeito é identificado aos seus objetos e com ele mesmo como objeto”. O sujeito se vê, então, como a causa de si, como autor em um funcionamento em que o sujeito do inconsciente (o Outro60) apaga-se e o outro emerge no fio do discurso. Esse outro é o interlocutor com quem o sujeito entra em relação discursiva. No entanto, segundo Henry (Ibid.), o Outro, mesmo estando invisível permanece latente. O ideal de eu, nessa perspectiva, representa o sujeito universal, o Outro, é a face inconsciente do imaginário e comanda a relação com o outro, enquanto relação simbólica, intersubjetiva.
Trazemos para o fio do discurso, a referência a Henry (Ibid., p. 176) porque trabalhamos com o sujeito desejante61, como resultado daquilo que o autor chama
do efeito de “estendimento” do inconsciente no imaginário do sujeito. Nesse sentido, a discordância na relação entre o eu-ideal (sujeito da enunciação) e o ideal de eu (instância do interdiscurso e do inconsciente) provoca o desejo, que pode chegar à obsessão – desejo sem controle. No discurso de rememoração/comemoração da cidade de Cruz Alta, Érico Verissimo se constitui, ao mesmo tempo, como o objeto a (a falta, a necessidade) e o objeto do desejo (aquilo que falta), nos termos de Lacan62 e desencadeia a demanda da cidade, que em determinado período, sofreu
perdas significativas e o colocou no lugar do que perdeu, constituindo-o como o sujeito idealizado, capaz de representá-la para dentro e fora dos seus limites.
Esse discurso, apesar de se constituir como um discurso sobre, constitui-se pelo inconsciente, que atravessa o sujeito e ocorre no fio do discurso pela falha e pela ruptura com o estabelecido, como um efeito da divisão constitutiva do sujeito,
60 Cf. Lacan (1996, p. 22), “o inconsciente é o discurso do Outro”. 61
O sujeito desejante tem seu funcionamento relacionado à rememoração como memória, conforme esquema analítico com o qual encerramos a primeira parte deste trabalho. Aprofundamos a reflexão em torno do sujeito desejante nessa segunda parte, no capítulo 2, quando o relacionamos ao funcionamento do Real e do Imaginário no discurso urbano.
62
pelo desejo de completude, segundo Lacan (1995)63. O sujeito responsável pelo
dizer no discurso sobre é o porta-voz, que investido da autoridade que lhe é conferida pelo lugar que ocupa na FD, define Érico Verissimo a partir da rememoração (discurso de), o que se repete e constitui a memória discursiva, fazendo irromper no fio do discurso saberes de um tempo mais longo, cuja existência é anterior ao discurso formulado.