TRANSFRONTEIRIÇA 190 6.1 PROCEDIMENTOS PARA O ESTABELECIMENTO DE UMA RBT, SEU
4. ANALISANDO PAISAGENS: AS POSSIBILIDADES DE ÁREAS PROTEGIDAS PARA O PAMPA
4.3 CATEGORIZANDO: EM BUSCA DA ÁREA PROTEGIDA MAIS ADEQUADA
A partir da explanação acerca das características de cada categoria de Área Protegida (presente no final do capítulo 3), dos objetivos propostos para a tese e da realidade local encontrada com as áreas prioritárias e os remanescentes de vegetação, foi realizada a análise da categorização que mais se adéqua a pesquisa. Além do entendimento acerca das especificidades de cada categoria de Área Protegida, questões políticas, culturais e sociais locais devem ser consideradas para realizar uma proposta de categorização para uma Área Protegida. Algumas dessas questões foram apresentadas ao longo da pesquisa e serão aqui reapresentadas e avaliadas visto serem importantes para um melhor enquadramento da categoria de Área Protegida à realidade do Pampa. Dessa forma, foi feita uma seleção geral das categorias, através da figura 30.
Figura 30 - Análise preliminar das categorias de Áreas Protegidas à realidade da pesquisa.
Elaboração: Franciele da Silva
Através dos resultados obtidos até aqui, subdivide-se o Pampa gaúcho em três regiões passíveis de se pensar uma Área Protegida, considerando seu estado de conservação e sua série histórica de uso e ocupação da terra: Região 1 – litoral sul; Região 2 – área de Caçapava do Sul e municípios vizinhos; e, Região 3 – fronteira oeste (figura 31).
Figura 31 - Municípios para análise da proposição de uma Área Protegida para o Pampa.
Base dos dados: IBGE (2014). Elaboração: autora.
Considerando o grande número de Unidades de Conservação, comparando com o restante do Pampa, presentes na Região 1 acredita-se que essa área abarca uma oportunidade de ser planejada pelo viés dos Mosaicos de Áreas Protegidas, considerando que as UCs presentes nessa região apresentam características semelhantes, destinadas, sobretudo, a conservação de áreas alagadas, como os banhados, tradicionais no Rio Grande do Sul. Além disso, a possibilidade de planejar a paisagem do local através de Corredores Ecológicos, ligando as UCs pode ser uma alternativa para a conservação de forma mais ampla, facilitando o fluxo gênico das espécies que habitam esse ecossistema.
Para essa Região não são considerados na pesquisa os sítios Ramsar nem as Reservas da Biosfera por já comporem a área. Todavia, é uma boa oportunidade de ser pensada sob o
viés integrador com o Uruguai, considerando uma boa alternativa de proteção integral dos ecossistemas de banhados que se espraiam pelas fronteiras do Pampa no litoral.
O Geoparque também não foi considerando haja visto que o local não possui características para essa categoria de Área Protegida.
A Região 2 apresenta características tradicionais do Pampa, onde a pecuária é desenvolvida de forma extensiva e em consonância com a dinâmica do ecossistema campestre. A área apresenta, ainda, significativa conservação, principalmente, pela característica geológica do local, que dificulta a inserção de cultivos como a soja em grande escala.
Na região pode-se destacar o avanço da silvicultura e mineração, que podem se tornar empecilhos para manutenção da base cultural, econômica e ambiental da área. Deste modo, pensar alternativas que tenham por objetivo a valorização do patrimônio local e a base do desenvolvimento territorial endógeno pode ser uma forma alternativa de desenvolver a região, sem que tenham que converter a atividade pecuária em outra atividade geradora de grandes impactos para as características locais.
Na região do Alto Camaquã poderiam ser pensadas alternativas como a proposição de uma Reserva da Biosfera, visto que seria uma política de conservação cujo objetivo, além da própria conservação da biodiversidade, valoriza a manutenção da base cultural do Pampa no local. Todavia, como já se discute a proposta de criação de um Geoparque, que avança a cada dia, optou-se por não trabalhar, nesta investigação, com uma Proposta de Área Protegida para este local, sobretudo, pelas características do Geoparque se adequarem bem a região.
Da mesma forma que a Região 2, tem-se na Região 3 características culturais, econômicas e ambientais do Pampa marcantes. Nesse sentido, podem-se pensar alternativas cujos objetivos sejam a manutenção dessa relação entre sociedade e seu meio.
Um dos benefícios da Reserva da Biosfera para sua implantação é a falta de necessidade de desapropriação de áreas para sua criação, conciliando, assim, as atividades econômicas tradicionais com a conservação da biodiversidade.
Além disso, referente ao tipo de população presente, muitas Áreas Protegidas somente aceitam populações tradicionais em seus territórios, sobretudo Unidades de Conservação. Populações tradicionais são consideradas aqueles grupos culturalmente diferenciados e que se reconhecem como tais, possuindo formas próprias de organização social, ocupando e usando territórios como condição para sua reprodução social, cultural, religiosa, econômica, entre outras, e realizam suas atividades baseadas nas tradições passadas pelas gerações ancestrais
(BRASIL, 2007). Nos municípios da fronteira oeste, os moradores e proprietários não são enquadrados como populações tradicionais.
Dentre as opções de Áreas Protegidas, acredita-se que uma Reserva da Biosfera seria a alternativa mais adequada. Apesar de o Pampa possuir em sua região litorânea, indiretamente, uma Reserva da Biosfera – representada pela Reserva da Biosfera da Mata Atlântica – acredita-se que os parâmetros que a rege não condizem com a necessidade de conservação do Pampa, sobretudo pela necessidade de se pensar a base cultural e socioeconômica associada à conservação da biodiversidade. Desse modo, dedica-se, no próximo capítulo, ao pensar e discutir uma proposição de Reserva da Biosfera efetivamente para o Pampa, nos municípios que constituem a APA do Ibirapuitã.
Optou-se, inicialmente, por englobar somente os quatro municípios, considerando a relação e organização já pré-existente entre eles por formarem a APA, bem como por não ser uma área tão extensa, se considerássemos na proposta todos os municípios da fronteira oeste que possuem quantidades significativas de Áreas Prioritárias.