Local 52 /Limite Área Protegida
5.3 OS QUILOMBOS DENTRO DO TERRITÓRIO DA RESERVA DA BIOSFERA
Apesar de conceitualmente não se enquadrarem como zonas núcleo ou de amortecimento, pelas características descritas pela UNESCO, os quilombos presentes na proposta de Reserva da Biosfera são Áreas Protegidas, e merecem a devida distinção de outras propriedades. Deste modo, destina-se a descrever os quilombos encontrados na área dos quatro municípios (figura 39), destacando suas características e consonâncias com o ambiente do Pampa.
Figura 39 – Mapa dos Territórios Quilombolas presentes na Reserva da Biosfera do Pampa.
Fonte: trabalhos de campo e Fundação Palmares. Elaboração: autora.
Como pode ser observado na comparação deste mapa com o mapa das Áreas Protegidas do Pampa (figura 21), as bases de dados oficiais não contemplam em sua totalidade os Territórios Quilombolas. A espacialização dessas áreas ainda é precária, assim como seu reconhecimento pelo Governo Estadual e Federal, ocorrendo inúmeras divergências na sua delimitação e, por consequência, na divulgação dos dados. É importante utilizar-se desse espaço para ressaltar que no período final de conclusão desta pesquisa (primeiro semestre de 2019) os dados sobre espacialização e demarcações de terras dos Quilombos em nível nacional já não se encontrava mais disponível, propositalmente uma ação do governo,
que atualmente, pressiona e tenta desmantelar, mais ainda, estas áreas já fragilizadas e consolidadas através de anos de muita luta.
Historicamente, a presença do negro no Pampa gaúcho decorre da utilização de mão de obra escrava nas charqueadas e nas lidas campeiras nas estâncias, visto que a principal atividade econômica era a pecuária extensiva desenvolvida sobre o campo nativo.
Os negros passam a integrar o processo coevolutivo do Pampa quando, a partir do século XVII, são trazidos como escravos para o Sul, onde as relações escravistas se diferenciaram do resto do país quanto ao processo clássico de escravidão das áreas de
Plantations (plantações de café e cana-de-açúcar). De acordo com Cardoso (1977), a presença
de vasta zona de fronteira com o Uruguai e a Argentina e seu dinâmico processo de definição territorial pelas constantes guerras geravam um grande risco de fuga, o que impossibilitou o Rio Grande do Sul de desenvolver um "estilo senhoril" no trato com os escravos, diferenciando a sociedade escravocrata gaúcha das sociedades caracterizadas pelos
plantations, que possuíam um forte aparelho repreensivo realizado pelos feitores e seus
açoites.
Os negros passam a ocupar-se como peões campeiros nas estâncias com grandes extensões de terra, onde desempenhavam atividades da lida com o gado, marcação, rodeio e abate e extração do couro dos animais. Porém, eram poucos os escravos empregados no trabalho campeiro, visto que de seu local de origem, na África, eles desconheciam o trabalho com o gado extensivo, que entre outras habilidades, exigia saber “montar” nos cavalos. Por isso, eram os cativos que realizavam essa tarefa, que conforme Maestri (1984) era o negro campeiro, aquele de maior confiança e que tinha uma relação até mesmo de compadrio com seu dono e, assim como os demais, não vivia sob "um regime de terror maciço e permanente", pois o peão campeiro possuía cavalo e as armas da lida campeira à sua disposição, e muitas vezes as estâncias próximas da fronteira lhe ofereciam um cenário com as condições propícias para a fuga.
Como cita Losekann (2018) analisando o quilombo existente dentro dos limites da APA do Ibirapuitã – Quilombo da Chirca - os quilombos do pampa surgem da resistência ao escravismo e exploração nas charqueadas, compondo também o processo de formação dos rincões71. Outra forma de surgimento dessas comunidades foi a partir do interesse dos
71
Os sistemas de distribuição de terras, como a das sesmarias e das datas, juntamente com a Lei de Terra, e a tecnificação no manejo do gado, geraram uma enorme desigualdade e exclusão ao acesso a terra, originando um grande rol de posseiros, agregados dos latifúndios, ex-peões que se instalaram em pequenos sítios baldios, além de ex-escravos e indígenas que ocuparam áreas de difícil acesso, seja por estas serem as que “sobraram”, ou seja, por optar pelo isolamento. Os moradores expulsos das estâncias e os antigos “gaúchos” se instalaram em
latifundiários com o objetivo de utilizar a mão de obra dos ex-escravos, quando necessária, nas atividades pastoris e das charqueadas. Assim, após a Lei Áurea, muitos proprietários concederam aos seus escravos uma pequena área onde pudessem viver agrupados e desenvolvendo atividades de autoconsumo, mas com o objetivo real de usar sua mão de obra.
Muitas dessas áreas foram concedidas como forma de pagamento de dívida por trabalhos prestados, pois mesmo após a abolição da escravidão as relações de trabalho com os negros continuaram reproduzindo algumas condições escravistas, como não receber pagamento ou o pagamente ser feito por comida, animais e por terra (LEITE, 1999). Foi esse processo que deu origem ao Quilombo da Chirca, primeiro território a ser descrito nesta pesquisa.
5.3.1 Quilombo da Chirca
O território de remanescentes de escravos era conhecido como Rincão da Chirca e passa a ser denominado de Quilombo da Chirca apenas em 2013. Ele está localizado no distrito de Caverá, acerca de 100 km de distância do centro urbano de Rosário do Sul, sendo um local de difícil acesso, conforme já mencionado na realidade dos Quilombos do Pampa gaúcho.
O processo de surgimento desta comunidade ocorre no período pós-abolição da escravatura, quando, segundo relatos dos moradores do Rincão, o Sr. Crescêncio Nogueira Prates e sua esposa Sra. Júlia Machado de Oliveira passam a morar no local. O Sr. Crescêncio era filho de escravo, e foi criado como filho adotivo do casal dono da estância, o Sr. Sebastião Nogueira Prates e Francina Prates, os quais lhe deram o seu sobrenome. Hoje, no rincão residem netos, bisnetos e tataranetos de Crescêncio (LOSEKANN, 2018).
O Quilombo ocupa atualmente uma área de 17,5 hectares, na qual vivem seis famílias que totalizam 30 pessoas, cuja faixa etária predominante é de adultos entre 19 e 50 anos. Sua base econômica está ligada no trabalho como “peão” permanente ou temporário nas propriedades vizinhas, desempenhados pelos homens, sendo esta a principal fonte de renda, seguida pelas aposentadorias e pecuária familiar. Do total de 17,5 hectares, 17 ha são utilizados de forma conjunta para a criação de ovinos (maioria dos animais) e bovinos de
pequenos lugares baldios entre as estâncias, construindo pequenas casas (CHONCHOL, 1996). Assim, surgem os rincões, onde se estabelecem grande contingente de trabalhadores com habilidades pastoris que passam a desenvolver atividades de subsistência e trabalhos temporários nas estâncias vizinhas.
forma extensiva sobre campo nativo, além de pequenas áreas de agricultura para autoconsumo.
Como estratégia de geração de renda, também são realizadas a transformação de frutas em doces para serem vendidos em eventos esporádicos como feiras municipais e festas locais ou por encomenda de conhecidos. As frutas como marmelo, figo e goiaba se transformam em doces como a marmelada, a figada e a goiabada, além do pêssego desidratado (o pêssego é descascado, picado e seco ao sol), atividades estas que são realizados pelas mulheres que são as detentoras e reprodutoras destes saberes.
5.3.2 Quilombo Rincão dos Negros
O Quilombo Rincão dos Negros, reconhecido oficialmente em 2013, é local de moradia de 11 famílias. Oriundo de seus antepassados – 2 famílias, que receberam as terras de um antigo “dono”, foi formada a área.
Hoje, as famílias que lá residem vivem em consonância com o ambiente do Pampa. Tento como atividade principal a criação de ovinos, para autoconsumo e venda, utilizam-se tanto da carne quanto da lã de ovelha. As mulheres produzem algumas vestes com a matéria- prima da lã para comercializar na cidade, assim como ocorre com a carne.
A exemplo do que acontece na Chirca, também produzem doces em forma de compota para comercializar nas cidades vizinhas, bem como os excedentes de hórtifrutis.
5.3.3 Quilombo Ibicuí da Armada
Fundada em 25 de julho de 2000, localizada em Santana do Livramento, atualmente residem 9 famílias no Quilombo. No município não existe nenhuma política pública voltada para esta área, todavia a comunidade seguidamente se mobiliza para arrecadação de roupas e alimentos, considerando que a situação econômica das famílias é instável.
Ambas são assistidas pelo programa nacional do Bolsa Família, que destina uma renda mensal com base nos rendimentos de cada grupo familiar72. Juntamente com o Bolsa Família, os habitantes do local produzem hortifrútis para comercializar na cidade.
Para o autoconsumo, existe a produção de ovinos e bovinos de leite.
5.3.4 Quilombo do Angico
A origem das terras do Quilombo do Angico foram herdadas da dona Inácia Rodrigues, a qual trabalhava como escrava doméstica, e as recebeu de sua “dona” como forma de agradecimento por todos os serviços prestados à família durante sua vida.
Com cerca de 20 hectares, o local é conhecido na comunidade como “Fundinho”., onde moram 08 famílias. Essas famílias são herdeiros de dona Inácia ou famílias que se agregaram ao grupo oriundas da região de Itaqui, durante o processo de desmantelamento do regime escravocrata.
O Quilombo do Angico tem passado nos últimos anos por uma considerável subtração territorial, sobretudo pela expansão de lavouras de soja nos seus limites. Originalmente dona Inácia possuía 261 hectares de terra, resultado da pressão dos latifundiários vizinhos que, se prevalecendo da situação de dificuldades históricas de sobrevivência em que os afrodescendentes se encontram, oportunizam-se desta situação adquirindo parcelas de terras.
A relação simbólica que as famílias possuem com seu território é perceptível, onde se identificam e se relacionam de forma harmônica com o ambiente. Por exemplo, o Arroio Angico, que dá nome ao Quilombo, é tratado com muita importância pelos moradores, com as matas ciliares preservadas. O local guarda a história dessas famílias, que lembram que era fonte das brincadeiras de infância e reserva para pesca, caça e lenha que ajudava na reprodução social do grupo.
Sua economia hoje é pautada no autoconsumo, com cultivos como hórtifrutis e ovinos.