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3. DE “ADVOGADO DE BANDIDO” A ADVOGADO COMBATIVO: A CONSTRUÇÃO DO SELF PELOS ADVOGADOS CRIMINALISTAS.

3.4. CAUSAS PREDOMINANTES E PERFIL DE CLIENTES

Como visto anteriormente, à medida que o advogado atinge certa estabilidade e maturidade profissional, o perfil da clientela se modifica. Assim, torna-se importante, para traçar um perfil dos sujeitos, estudar a perfil de clientes que os mesmos defendem. As causas predominantes apontadas pelos entrevistados foram crimes de tráfico e homicídio, principalmente o primeiro porque, segundo alguns dos entrevistados ressaltam, o tráfico é a raiz de outros crimes, como roubos e homicídios. Porém, a entrevistada Nani faz uma ressalva em relação ao peso da palavra tráfico e as funções desenvolvidas pelos clientes que defende.

Tráfico de drogas, muito. Porque do tráfico ele vem o roubo, vem o homicídio. Não é tráfico bem… porque realmente, durante esse período todo, eu nunca fui advogada de um traficante, pra se provar, certo? É só aqueles que são utilizados, como aviõezinhos, se submetem a ganhar algum dinheiro porque não tem condições pra sustentar a família. Que chega fácil, né? Então eles adentram pra essa linha do crime. Assim, eu me comovo muito, dou toda a assistência, mas eu também faço o meu lado social (entrevista concedida em 12/07/2019).

A entrevistada entende, com base em sua vivência profissional, que os clientes que defende não são propriamente traficantes, pelo fato de suas funções serem menores na hierarquia do crime de tráfico, como aviõezinhos, bem como pelo fato de os acusados entrarem no crime como forma de subsistência.

Sigmund, que é especialista em defender casos de homicídios, faz uma diferenciação entre o homicídio decorrente de tráfico e os casos de homicídio que defende.

O perfil é o perfil do cidadão comum, do cidadão comum, da classe média. Porque existe o homicídio decorrente do tráfico, da traficância, decorrente da organização criminosa. Normalmente essas pessoas são defendidas por aqueles advogados que defendem mais os crimes de tráfico, aquelas pessoas já têm advogados. Então no nosso escritório aqui vem muito o cidadão comum, que perdeu o controle num momento de vida ou que até precisou se defender ou às vezes é acusado indevidamente. Mas é o cidadão comum. É uma clientela mais fácil de lidar, porque é uma pessoa que tem o mesmo critério de valores da gente, que, via de regra, quando cometeu o crime, já fica arrependido ou arrependida (entrevista concedida em 10/07/2019).

Nos dois casos, observa-se que, embora de maneiras distintas, os advogados procuram humanizar o perfil dos clientes que defendem, distanciando esse perfil da figura do criminoso e retratando-os como pessoas comuns, que enfrentaram dificuldades financeiras ou perderam o controle.

Sobre o perfil de seus clientes, em termos de gênero, raça e situação econômica, os entrevistados apontaram que a criminalidade é predominantemente masculina, reflexo da sociedade, que muitos deles classificam como machista. Porém, ressaltam, principalmente os que defendem casos de tráfico de drogas, que tem aumentado o número de mulheres acusadas desses crimes, algumas indevidamente.

Mais homens. Agora, isso há uns dois anos atrás. Agora, de 2018 cresceu muito o da mulher, depois dessa aprovação que houve da mulher ser concedida a liberdade domiciliar em razão de filhos, então cresceu bastante porque eles estão recuando, os homens, e estão colocando as mulheres no crime porque sabem que vai ser concedida a liberação. Então, o perfil que eu vejo, nesse contexto, é de uma exploração do sistema (entrevista concedida por Nani em 12/07/2019).

A entrevistada atribui o aumento de processos de tráfico de entorpecentes com acusadas do sexo feminino à recente decisão do Supremo Tribunal Federal (STF)14, que reconheceu o direito à prisão domiciliar para mães de crianças ou pessoas com deficiência. Segundo entende, como o benefício é concedido apenas às mulheres, estas terminam por assumir o crime e responder processo criminal no lugar de seus companheiros.

Outra advogada entrevistada, a qual chamamos de Lara, diz que tanto há os casos de mulheres que são acusadas indevidamente, como também aquelas que passam a exercer um papel ativo no tráfico.

14 A 2ª Turma do STF, no julgamento do Habeas Corpus coletivo Nº 143641, em fevereiro de 2018, determinou a substituição da prisão preventiva pela domiciliar para todas as mulheres presas, gestantes, puérperas ou mães de crianças e de pessoas com deficiência, bem assim às adolescentes sujeitas a medidas socioeducativas em idêntica situação no território nacional, excetuados os casos de crimes praticados por elas mediante violência ou grave ameaça, contra seus descendentes.

Tráfico, antes eu poderia dizer a você sem sombra de dúvidas que era predominantemente homens, mas hoje a mulher ela faz também, infelizmente ela tem um papel ativo dentro do tráfico de drogas e, geralmente ela entra mais nesse caminho por causa do companheiro. O companheiro faz o tráfico, pratica o tráfico, às vezes leva pra dentro de casa e aí quando acontece a prisão, a abordagem da polícia, muitas vezes esse companheiro não está em casa, e aí a mulher vai ou, nas outras vezes, ela ajuda efetivamente mesmo (entrevista concedida em 12/07/2019). Em termos de situação econômica e raça, os advogados de acusados de tráfico veem um perfil de cliente pobre que, como já exposto, muitas vezes pratica o crime para sobreviver, e que vive em áreas de grande vulnerabilidade, áreas estas visadas pela polícia. No tocante à raça, os advogados não apontam um perfil específico, abrangendo brancos, pardos e negros. Sobre este ponto, a entrevistada Miriam disse: “Muitas pessoas de aparências boas, muitos jovens que tem boas aparências, de famílias até boas.” Já os clientes acusados de homicídio teriam um perfil mais variado, tanto em termos de renda como de raça. O tempo de advocacia também faz mudar o perfil dos clientes, como ressalta o entrevistado Afonso:

No começo, posso dizer que eram pessoas pobres, predominantemente pardas e da classe baixa, financeiramente falando. Hoje, depois desse tempo advogando, eu já pego um pouco a classe média, boa parte da elite. Mas não deixo também de atender a pessoas que tem poucas condições de pagar, até porque eu diminuo os honorários, às vezes até eventualmente não cobro, mas é bem variado. E eu diria que, hoje, dando essa entrevista, seria classe média, pessoas pardas ou brancas, mas é muito diversificado (entrevista concedida em 23/07/2019).

Os advogados criminalistas entrevistados, embora apresentem perfis bastante variados em termos de gênero, faixa etária, tempo de advocacia e renda, compartilham regularidades em relação à forma como veem a profissão, notadamente quando tratam das dificuldades no início da carreira.

3.5. PERCEPÇÕES DOS ENTREVISTADOS A PARTIR DE SUAS EXPERIÊNCIAS