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3.4 A PESSOA COM CEGUEIRA E A BELEZA: O PODER DAS IMAGENS NA

3.4.1 A cegueira

Desde a Antiguidade, as pessoas entenderam o "não ver" como ausência de sabedoria, trevas e escuridão, pois a luz era a representação simbólica do bem, da esperança e só a partir do olhar era possível compreender e se relacionar com a luz que torna visível o mundo, as pessoas e as formas/objetos. Entendia-se que a pessoa cega estava fadada a uma vida de isolamento e dependência, relacionando essa característica com possíveis poderes sobrenaturais e/ou divinos, inferidos sobre estas pessoas, tirando- lhes a visão para que fossem punidas pelos pecados e erros cometidos no passado. A visão, desde então, passou a ser a forma de percepção mais valorizada e explorada em nossa cultura (AMIRALIAN, 1992).

Ainda é possível notar na contemporaneidade a força destas representações históricas e culturais e “entender a força da estigmatização dos indivíduos cegos no jogo social pelo processo de reificação do imaginário ocidental, tendo a visão relacionada à razão, e logo, a cegueira, a falta de visão, ligada à irracionalidade.” (CORREA, 2007, p.32).

Queiroz e Otta (2000), ao descreverem a importância cultural e simbólica atribuída a determinadas partes, órgãos e sentidos do corpo humano, advertem que a visão receberia um dos maiores destaques observáveis, por exemplo, em usos discursivos e expressões verbais recorrentes no cotidiano, como “ver para crer”, “os olhos são a janela da alma”, “amor à primeira vista”, “pessoa iluminada”, “até à vista”, “pessoa bem-vista”, entre tantas outras.

Correa (2007) ressalta que a utilização de termos como “vidente”16 ainda carregam em sua raiz uma representação valorativa da visão, oriunda de tempos passados, enquanto que, o vidente ou a prática da vidência pode, ainda hoje, estar/ser associada com um olhar ao desconhecido, a um mundo invisível ao demais. O vidente

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Termo comumente utilizado para se referir às pessoas que não apresentam comprometimentos visuais, ou seja, diz respeito a todas as pessoas que gozam de eficiência visual.

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configuraria um “dom” assegurado por uma ordem divina, uma visão ou a visão que Deus coloca a serviço de outrem.

No Brasil, a educação e a preocupação com o desenvolvimento e instrução das pessoas com cegueira teve como marco histórico a criação no município da Corte, pelo decreto 1.428 de 12 de setembro de 1854, o Imperial Instituto dos Meninos Cegos (JANNUZZI, 2004).

Este Instituto se transformaria décadas mais tarde no atual Instituto Benjamin Constant (IBC) por meio do

(decreto n. 1.320 de 24 de janeiro de 1891 in Diário Oficial [D.O.] de 18 de dezembro de 1981), tem sua origem ligada ao cego brasileiro José Álvares de Azevedo, que estudara em Paris no Instituto dos Jovens Cegos, fundado no século XVIII por Valentin Haüy. Azevedo regressara ao Brasil em 1851 e, impressionado com o abandono do cego entre nós, traduziu e publicou o livro de J. Dondet “História do Instituto dos Meninos Cegos de Paris”. O médico do imperador, José Francisco Xavier Sigaud, francês, destacado vulto, pai de uma menina cega, Adèle Marie Louise, tomou conhecimento da obra e entrou em contato com o autor, que passou a alfabetizar Adèle. O doutor Sigaud despertou o interesse de Couto Ferraz, que encaminhou o projeto que resultou no Imperial Instituto dos Meninos Cegos. Destinava-se ao ensino primário e alguns ramos do secundário, ensino de educação moral e religiosa, de música, ofícios fabris e trabalhos manuais (JANNUZZI, 2004, p. 11-12).

Existe um desacerto construído e enraizado na sociedade atual, que de maneira alienante, passa a entender a pessoa com deficiência visual como sendo uma pessoa totalmente cega, ou seja, com ausência total da visão, desconsiderando o fato de que as incidências destes casos dentro das deficiências visuais são mínimas e que os prejuízos visuais se dão em diferentes graus, impossibilitando entendê-las a partir de uma mesma classificação. Desta forma, compreender as deficiências visuais dentro das suas múltiplas variações possibilitará a modificação nas estratégias e ações que comporão os sistemas de apreensão e interpretação do mundo por parte desta pessoa (AMIRALIAN, 1997).

De acordo com Aguiar (2007), desde os primeiros anos de vida a visão caracteriza-se como uma das principais fontes de estímulo ao desenvolvimento físico e cognitivo; desta forma, a visão passa a ter um significado imensurável para a sociedade, que por meio deste feedback visual transmite suas significações, conceitos e valores. Então, para aqueles dotados de um harmonioso funcionamento visual, o processo de interação entre a pessoa e o meio cultural é facilitado, uma vez que a relação consigo e com os demais elementos sociais tem um percurso orientado pelas formas e imagens

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que compõem o mundo visual; no entanto, nem todos podem gozar desta eficiência visual, sendo relegados a um desenvolvimento muito aquém do ideal e a todos os tipos de estigmas e preconceitos.

A classificação das deficiências visuais sempre esteve centrada em diagnósticos clínicos ao longo do percurso histórico. Porém, a constatação de que muitas pessoas identificadas como cegas e posteriormente, tendo sua escolarização desenvolvida por meio do método Braille, utilizavam-se da visão e não do tato para realizar as leituras, provocou significativas mudanças neste cenário. Atualmente, além de um diagnóstico clínico-oftalmológico, as pessoas precisam ser avaliadas por profissionais da Educação, Psicologia e outras áreas, antes de serem identificadas como deficientes visuais que necessitam de ensino pelo método Braille (AMIRALIAN, 1997).

Com relação às possíveis alterações na visão, entende-se que representam "uma condição em que há uma diminuição da capacidade visual. Pode ser em consequência da diminuição da acuidade visual, e/ou campo visual e/ou diminuição da sensibilidade de contraste, estando o paciente com a sua melhor correção em ambos os olhos" (CASTRO, 1994, p.1).

O Manual de Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais, publicado pela American Psychiatric Association, tendo a sua 4ª edição conhecida pela designação “DSM-IV”, define a cegueira como sendo uma perda total da visão ou ausência de projeção de luz e a baixa visão como sendo redução drástica desta visão, apresentando- se em diferentes níveis (APA, 2002). Dialogicamente a esta definição, Ventorini (2007, p.11) argumenta de maneira objetiva que “o termo deficiência visual engloba pessoas cegas e pessoas de baixa visão. A identificação dos deficientes visuais consiste na acuidade visual medida pelos oftalmologistas”. Desta forma, seria um equívoco inaceitável universalizarmos estas pessoas, solapando suas especificidades.

Rocha (2000) explicita que a deficiência visual de origem congênita é aquela que ocorre no nascimento e suas principais causas são: coreorretinite macular, atrofia ótica, catarata congênita, retinopatia da prematuridade (fibroplasia retrolental), glaucoma e retinose pigmentar. Segundo Carvalho et. al. (1992) a deficiência visual adquirida ocorre por acidentes ou por doenças como diabetes, deslocamento de retina, glaucoma, catarata, degeneração senil e traumas oculares.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) define Cegueira Legal como sendo a condição na qual a acuidade visual, no olho de melhor visão, igual ou menor que 3/60,

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ou correspondente à perda de campo visual, com a melhor correção óptica (WHO, 1997).

A partir dos estudos desenvolvidos por Rocha (2000) e Bicas (2002) pode-se entender a cegueira total, denominada também como amaurose, como sendo aquela em que a acuidade visual é inferior à capacidade para distinguir luminosidade, pressupondo a perda completa de visão. Pessoas com este tipo de severidade visual não podem distinguir nenhum tipo de contorno, formas ou estruturas, tampouco discriminar a presença e deslocamento de sombras/vultos, não há nenhum tipo de resquício visual.

Assim, a base conceitual e estrutural deste presente estudo referencia como temática norteadora o universo das pessoas com deficiência visual, direcionando-se, mais especificamente, às pessoas com cegueira; desta maneira, acredita-se ser de extrema relevância a construção de uma teia de conhecimentos, identificações e demais saberes que permeiam este contexto, possibilitando a fixação de parâmetros que viabilizem um caminhar mais límpido e coeso para as propostas objetivadas.

Isto posto, admite-se que o presente estudo incidirá sobre as pessoas com deficiência visual com cegueira total (amaurose), optando, desta forma, por uma definição médico/clínica (apenas e, exclusivamente, como uma opção que torna possível o delineamento dos participantes e não por entendê-la como melhor ou pior do que os outros modelos de definição) para este estudo, intencionando trilhar na contramão dos (des)entendimentos e das práticas excludentes, desmedidas e ilegítimas, que ainda hoje teimam em cercear essas pessoas.

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