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Cidadania entre o Divino e o Soberano

2. SOBRE A SOBERANIA COMO ATRIBUTO DO PODER

2.4. Cidadania entre o Divino e o Soberano

O alto grau de mutabilidade da sociedade global aparentemente não tem afetado as fórmulas nem os caminhos comuns cunhados para viabilizar o exercício da cidadania, em todas as comunidades que conseguiram edificar um sistema de garantia da efetividade das prerrogativas dela decorrentes, os caracteres fundamentais que as legitimam permanecem sem alterações relevantes visíveis, mormente porque, entre os herdeiros do liberalismo, o equilíbrio dos direitos e obrigações emergentes dos laços de pertinência firmados entre as sociedades e seus integrantes, os quais permitem a participação política de cada um e de todos na fixação dos destinos e na gerência da coletividade política, é mantido, ainda que no imaginário popular, como mecanismo de contenção da permanente tensão que contrapõe o lado público e a dimensão privada dos indivíduos.

Reproduzida pelo capitalismo como qualificativo político e jurídico do homem livre que aliena sua força de trabalho, a cidadania, na visão liberalizante, é essencial para legitimar o poder político constituído, justificar a privatização da convivência social e o divórcio entre as dimensões pública e privada, ao passo que na percepção republicana serve para alicerçar a sobressalência do público, do coletivo, do político e da participação ativa, nada obstante a valorização do parlamento atrelar-se à percepção liberal da representação como mecanismo de demonstração da cidadania, e não como mero fator de influência dos indivíduos na gestão pública.

A idéia de cidadania civil foi, dessa forma, construída sobre um substrato que congrega todas as acepções da liberdade, inclusive a de participar do manejo do poder quer como integrante de órgãos com autoridade política, quer como habilitado a eleger seus componentes, entretanto, o distanciamento das classes, o acirramento das relações de dominação, a diminuição das expectativas sócio-econômicas e as diferentes formas de

conceber o bem comum dificultam a composição dos interesses impostos com base na liberdade individual garantida por esta modalidade de cidadania, provocando o aumento do número de sindicatos, partidos e associações de classe, permeados por teorias políticas que refutam o domínio da burguesia e professam a tomada do poder pelo proletariado, convicção guerreada pela casta dominante por intermédio do incremento da burocracia estatal.

A disputa pela preeminência ideológica acirra a luta de classes, estandartiza as liberdades como expressão da insurgência contra a irresistibilidade a inatingibilidade da potestade estatal, e como aparelho de limitação do poder, da mesma forma que posiciona os direitos sociais na direção inversa, ao vincular a sua efetivação ao acréscimo dos poderes estatais.

A tônica da proteção social abalizou a reação às mutações políticas, econômicas e sociais exsurgentes da quebra das tradições feudais e da revolução industrial, e inaugurou os movimentos em favor da regulamentação das condições de trabalho e de redução da miséria em tempo de liberação dos mercados e de desprendimento dos poderes do Estado, dado à convicção de que a intervenção restringia a liberdade individual, e o protecionismo desqualificava o novo cidadão, visto como único responsável pelo próprio fracasso, reduzindo-o à condição de mero servo.

A despeito do caráter punitivo atribuído às políticas de assistência social, porque inconciliáveis com o real exercício da cidadania, os direitos sociais não foram excluídos da base de sustentação do sistema representativo, foi o combate às desigualdades sociais emergentes da economia de mercado que propiciou o surgimento das organizações coletivas, a materialização dos direitos políticos e a progressiva incorporação do conceito de cidadania, como gerador da obrigação do Estado de viabilizar a subsistência dos cidadãos, à concepção de direitos sociais.

Consolidaram-se, em razão dessas circunstâncias, várias fórmulas de atendimento às demandas sociais, no paradigma liberal assistencialista os direitos sociais são desprendidos da exclusiva vinculação às relações de trabalho, para serem alargados a fim de atingirem os comprovadamente necessitados, não no sentido de garantir um direito fundado na cidadania, mas um benefício estigmatizante cujo acesso produz como punição pelo fracasso social e produtivo do beneficiado, a perda de outros direitos.

O modelo conservador previdenciário estrutura-se numa grade de benefícios amplos, prestados compulsoriamente pelo Estado, porém, atrelados às contribuições dos empregados e empregadores, dosadas com base nos níveis remuneratórios praticados, com o objetivo de manter as condições sócio-econômicas dos beneficiários, já o arquétipo universalista é fundado na oferta indistinta de benefícios básicos e iguais, consistentes em rendas, bens e serviços, financiados principalmente pelo Estado que, a seu turno, os manipula como instrumentos de equalização das riquezas e das disparidades produzidas no mercado, orientado pela necessidade de alcançar a concretização da concepção dominante de justiça social.

De acordo com a vertente chancelada é possível identificar Estados que garantem um nível básico de assistência subsidiando a iniciativa privada para atuar com maior presença nas áreas não tangenciadas pelo sistema oficial, Estados que igualmente operam de maneira subsidiária, no entanto, com a finalidade de conservar os diversos níveis sociais, e Estados totalmente assistencialistas que dispensam a intervenção do mercado no sistema assecuratório da participação dos menos abastados nas benesses desfrutadas pelos detentores de maiores fortunas.

A cidadania em qualquer uma dessas molduras mantém o seu caráter contraditório ao servir de justificação tanto à dominação social, como aos conflitos de classe e ao

ressurgimento, em tempo de integracionismo globalizante, do ‘exclusivismo nacional’ que provoca os movimentos discriminatórios contra os estrangeiros.

A integração européia, que inaugurou um modelo de internacionalização econômica revelador da incompatibilidade do Estado nacional clássico com o processo de mundialização do processo produtivo, forçando-o a assumir táticas reguladoras arrimadas em políticas monetárias e fiscais, destinadas a convencer e a influenciar as decisões dos demais atores econômicos globais, e em políticas protecionistas adaptadas ao ideal de ‘bem-estar’ social eleito, trouxe novos sentidos à concepção de cidadania.

No padrão europeu de integração fala-se da ‘Cidadania da União’, delineada no artigo 8º do Tratado da Comunidade Européia e recepcionado pelo Tratado de Maastricht, com a pretensão de solidificar uma realidade política não adstrita às fronteiras nacionais, num estatuto comunitário capaz de gerar efeitos na órbita jurídica dos nacionais dos vários Estados envolvidos no processo, sem, necessariamente, excluir as prerrogativas asseguradas no plano doméstico, ou seja, concebe-se um sistema de sobreposição em que os direitos e deveres dele decorrentes não obstam a fruição e validez dos direitos e deveres incluídos na esfera jurídica dos cidadãos por cada Estado. Permite-se com base nesse ordenamento que indivíduos transitem, trabalhem e residam livremente em qualquer parte do território dos Estados pertencentes à comunidade, e se submetam ao mesmo regime jurídico dos nacionais.

Contudo, tanto na União Européia como nos demais modelos de integração o descompasso entre produtividade e emprego, decorrente das reestruturações tecnológicas e econômicas, tem debilitado a capacidade dos Estados de disciplinarem o capitalismo com o fito de promover um bem-estar mínimo, e de manter um nível de ocupação laboral que facilite a debelação das tensões resultantes da crescente insatisfação popular, sobretudo, porque a desregulamentação dos mercados de trabalho e a flexibilização das políticas salariais nas

realidades comunitárias têm sido apontadas como estratégias eficazes na contenção das perplexidades.

Tais medidas são sentidas com maior intensidade na América Latina onde o processo de integração apresenta traços distintos, especialmente no que tange à afirmação da cidadania e ao exercício da democracia, e encontra sérias dificuldades em superar o contexto de estagnação econômica e de mitificação da ordem política numa versão “minimalista de democracia, reduzida à institucionalização de um sistema legal centrado na governabilidade e na eficiência administrativa, alheio à realidade social plena de contradições que domina o cenário da região” (CAMPOS, 2002, p. 238).

Nos países que compõem essa região, a histórica ‘dívida social’ revela-se numa estrutura que privilegia poucos e não toma conhecimento ou exclui a maioria da população, locada em um espaço caracterizado pela discriminação, estratificação, desigualdade, nepotismo, burocracia exacerbada, clientelismo, corporativismo, desnaturação dos sistemas financeiros e descaso para com a coisa pública. Ainda assim, há quem defenda que, mesmo nessas regiões, a reorientação dos valores da cidadania, em consonância com as inovações globais “contribuirão para a formação de uma cidadania global, onde o núcleo valorativo da forma de governo republicana servirá para as formas de organização política em escala planetária” (AGRA, 2005, p. 79).

Forçados a adotarem os Programas de Ajuste Estrutural ditados de fora, são submetidos a um regime produtivo caracterizado pelo desemprego, pelo decréscimo remuneratório e pela vulnerabilidade do mercado interno às especulações financeiras e cambiais, e às políticas de controle inflacionário, repassadas, não raro, por organismos supranacionais, em razão da inexistência de um controle interno capaz de intervir e regular as opções econômicas importantes. Os ajustes impostos são aplicados à custa de um alto gasto social, serviços e benefícios sociais antes implementados pelos Estados passam a ser vinculados à órbita

privada a fim de reduzir a função pública à mera certificadora das capacidades empresariais e profissionais.

Entre as transformações sociais e econômicas globais, e os desafios impostos pela demandas causadas pela busca da efetivação da cidadania, numa realidade mundial que resiste em abandonar a arquitetura que valoriza a relação ‘centro-periferia’, e a imagem de um direito fossilizado, a concepção de soberania entrega-se à crise que afeta o Estado-nação como fórmula de organização política do coletivo, e, “no plano econômico, o ‘princípio do equivalente’ rege a relação do homem com a exterioridade, transformada em mercadoria, a qual cabe pura e simplesmente a fungibilidade universal” (ALVES JÚNIOR, 2003, p. 38).

Apesar das transferências de poderes infligidas pelos novos atores do teatro mundial, e da imposição das suas decisões como sendo as únicas habilitadas para responderem, satisfatoriamente, às tensões das sociedades contaminadas pela forma capitalista de pensar, os mitos de Estado e de soberania são mantidos no imaginário, paradoxalmente, como elementos indispensáveis à preservação da sociabilidade ameaçada pelo “individualismo possessivo neoliberal” (FERREIRA & PUPIO, 2004, p. 143).

Forçado a abandonar a função de efetivar direitos sociais, o Estado resigna-se a exercer o poder conforme as exigências econômico-financeiras globais. Com o deslocamento do processo de deliberação para a órbita econômica internacional, blindada contra mecanismos de controle, o poder político perde a capacidade de emitir as decisões fundamentais da sociedade.

Tradicionalmente vinculado à territorialidade, o Estado-nação não mais consegue exercer qualquer domínio sobre “uma economia em vias de imaterialização e os espaços globais ‘virtuais’ de ação”, numa realidade onde o governo é manipulado pelas multinacionais e sua atuação transnacional, e pelas agências capitalistas centrais, como o FMI, o Banco

Mundial, a OCDE e a OMC, que acabam por desempenhar a função de “Executivo mundial de fato” (MÜLLER, 2002, p. 31).

No plano interno, a soberania, concebida como atributo do poder estatal, aparentemente, não sofre mutações substanciais, continua evidenciando a legitimidade constitucional do Estado de perseguir a realização do bem comum e a valorização da cidadania como expressão da dignidade humana, de proteger a propriedade privada, observando a sua função social, e de garantir a participação do homem nos instrumentos de manejo do poder.

Entretanto, tem sido comum distinguir, em realidades estanques, e não interativas, a soberania interna daquela que se mostra nas relações internacionais, mesmo diante das ingerências neoliberais globalizantes que tendem a induzir à desconsideração das demonstrações de autonomia do Estado-nação.

Para os teóricos do novo liberalismo, não mais existe razão fática para a subsistência de fronteiras entre nações tendo em vista a sua iminente extinção pela cadência do mercado. Tais doutrinadores tentam maquiar o processo histórico de reconquista de posições encetado pela “burguesia imperialista mundial” ávida por “destruir as enormes conquistas da classe dos trabalhadores, dos povos e das nações oprimidas, logradas ao curso do século XX, e particularmente da nova constelação de forças surgidas no fim da segunda guerra mundial” (LAPOLLA, 1999, p. 16).

Sustentam que a ética mercadológica neoliberal garante a ‘prosperidade e a estabilidade esperadas nas democracias desenvolvidas’, desconsiderando que a crise acarretada pelo desemprego assustador evidencia que “a riqueza e o liberalismo político não são suficientes para assegurar a harmonia e o pleno emprego das democracias afluentes, vencedores da Guerra Freia” (ALVES, 2003, p. 120).

De fato, em tempo de preponderância violenta do capital, o cenário do mundo sofre profundas atualizações, para suportar as novas fórmulas interativas, permeadas por

organismos governamentais e não governamentais, de atuação supra-estatal, por empresas transnacionais, por partidos políticos e órgãos de classe interligados ideologicamente, e indiferentes às fronteiras nacionais, por uma opinião pública totalmente manipulada pelas redes de informação e comunicação, e pelo crescimento da sensação de pertinência a uma comunidade global, problemática e contingente, supostamente dotada de valores comuns fincados no respeito aos direitos humanos, na preservação do meio ambiente, no combate à exclusão social, na reverência aos direitos políticos e na alternância democrática do poder.

Esses princípios suplantam os territórios nacionais e são manejados pelas potências hegemônicas para alicerçar um novo modelo de dominação ‘colonialista’ baseado no intervencionismo que reproduz as mesmas mazelas herdadas das ondas expansionistas invasivas que marcaram a história das civilizações, inclusive a primazia dos mercados globais e a “privatização do conceito de cidadania construindo a metáfora da soberania popular triunfando sobre os Estados coercitivos para assegurar a liberdade individual” (DUPAS, 2003, p. 14).

Na esteira das novas invasões mascaradas como intervenções benéficas, as matanças em massa, as guerras, a fome, a violência e a exploração, antes de constituírem inovações, configuram meras reatualizações, especialmente porque, na retaguarda da decisão de intervir subsiste o interesse pela assunção do poder, pela manutenção da vontade do mais forte, ainda que contestada, e pela manipulação da soberania como justificativa para prática de torturas e execuções.

As ingerências, normalmente consubstanciadas na imposição, aos Estados, de condutas omissivas ou comissivas por eles não desejadas, mas identificadas, pelos interventores, como necessárias para consumação de um fim aparentemente comunitário e importante para a estabilidade das relações internacionais, tendem a ser acatadas, mesmo que contrafeitas aos ordenamentos constitucionais internos. Nessa contextura, o “novo limite que separa pobre de

rico já não é mais um limite entre ‘primeiro’ e ‘terceiro’ mundo, mas entre zonas altamente capitalizadas e aquelas abandonadas” (SOUZA, 2002, p. 15).

Dentre as inúmeras formas de intervenção hodiernamente manipuladas, destacam-se as medidas forâneas que obrigam à observância dos compromissos financeiros assumidos, a adoção de programas de ajustes estruturais que estabeleçam níveis mínimos de produção, e mudanças políticas internas e externas, medidas punitivas de boicote a produtos, de interrupção das relações comerciais, de favorecimento aos países que respeitem as orientações políticas, sociais, ambientais e econômicas emitidas pelos organismos supranacionais, ou pelas nações hegemônicas, e atividades invasivas diretas de tutela ou ‘proteção’ a países onde as escolhas políticas, e os modelos de exercício do poder, não se coadunam com as opções eleitas pelas potências centrais.

Entretanto, a despeito de parecerem inescusáveis e irresistíveis, a indiscriminada utilização das ‘intervenções solidárias’ e das ‘ingerências necessárias’, tem servido, exclusivamente, para demonstrar a insuficiência do conceito de soberania para explicar a complexidade contemporânea do ‘poder’ Estatal, e para perpetuar a histórica dominação dos países fortes sobre os fracos (SEITENFUS, 2004, p. 307).

De fato, nada obstante a Carta das Nações garantir a autonomia dos Estados, ainda que mantenedores de regimes totalitários, despóticos, ditatoriais ou fundamentalistas, o acirramento das mutações globais depois da Segunda Guerra produziu efeitos esgarçadores na idéia de Estado-nação e, em conseqüência, nas concepções tradicionais de soberania. As intervenções (forças externas) e os movimentos de integração (forças internas) têm acarretado a distensão do espaço utópico da soberania, dilargando o território de participação e de unificação.

Na sociedade pós-industrial globalizada o Estado primitivo individualiza-se para incorporar-se a outros entes coletivos, com maiores dimensões e densidades, e com tendências

políticas universalizantes, alicerçados numa realidade econômica assentada em altíssimos níveis de produtividade, mas reveladora de índices de desemprego assustadores, porque atrelada a estruturas de produção que cada vez mais dependem “menos da presença humana – seja qualitativa, seja quantitativamente”, girando “em torno de mecanismos nos quais o ser humano é apenas uma engrenagem” (COELHO, 2003, p. 125).

Construir um novo cidadão político, uma nação unificada, não adstrita aos limites físicos e territoriais, representa o maior desfio da atualidade. Como criar um regime comunitário capaz de resistir à diversidade e às turbulências que dela decorrem? Como estatuir uma fórmula suficientemente idônea para assegurar uma equânime partilha do exercício do poder sem acarretar dissensões? Como manter o equilíbrio entre forças díspares, sem afetar os traços históricos e culturais que fornecem semblante e identidade aos indivíduos e aos seus grupos?

Tudo parece fazer crer que o soerguimento de uma ´nova cidade` desprovida de fronteiras, prescinde da participação do cidadão e de uma arquitetura apta para congregar os indivíduos e fornecer-lhes plenas condições para realizarem os seus anseios, mesmo em tempo de intempéries. Compreender a complexidade das condições nas quais ocorrem estes processos de interação humana é pressuposto para responder, a contento, as exigências da nova constituição política (CARDOSO, 2003, p. 120).

Finalidade primordial de qualquer comunidade política é proporcionar aos seus integrantes realização plena, garantindo-lhes liberdade para desenvolverem suas potencialidades sem interferências externas. A herança histórica tem demonstrado que a divisão e articulação dos poderes soberanos, associada ao permeio e ao incentivo da educação moral e intelectual dos cidadãos, como pontificavam os antigos, é o que viabiliza a concreção dos mencionados propósitos. As objetividades individuais, nessa versão, integram os fins

comuns apenas no ponto de contato ou de intercessão com os objetivos sociais e políticos, nos moldes admitidos pela vontade geral.

A construção moderna de que um pacto original empreendido pelos homens visando, em última análise, a consecução dos seus interesses individuais e naturais, é o que confere consistência e existência ao povo, não é consentânea com essa concepção. Apesar das contingências teóricas, a formulação clássica no sentido de que o fundamento das associações humanas comunitárias não passa pelo campo instável e efêmero dos vínculos originados nas inclinações individualizáveis, mas encontra suporte na consecução de um bem que suplanta particularismos e reflete o objetivo superior que costura a aliança comunitária de forma estável e universal, prepondera e se adequa a ideação de que a corrente complexa de relacionamentos, que dá sentido e essência ao Estado, é resultado de um consenso constante entre cada indivíduo e a sociedade, e da aceitação recíproca das limitações que essa convivência acarreta, bem como da superação das diferenças e dos receios que naturalmente surgem desse convívio intimamente bélico.

Ao lado do aparente encaixe perfeito das peças humanas no imenso quebra-cabeça que é o Estado, subsiste com igual peso, o domínio das consciências e o manejo das fobias que residem no ser humano, como barreiras naturais aos infindáveis horizontes que a existência lhe proporciona.

A sensação de finitude desperta o temor duplo da perda da vida e do mistério do desconhecido. Incapacitado de oferecer respostas a estas agruras e de aplainar o desconforto que delas decorre, o Estado cede espaço às promessas espirituais das religiões ou as incorpora, para enveredar-se nas raias do misticismo. Nessa hipótese, os mitos são mistificados, e os cidadãos reduzidos a espectros de uma orientação espiritual e divina superior. Elegendo a primeira via limitadora do seu poder, a comunidade política cria a vala comum das leis naturais, de conveniente caráter principiológico, para justificar a subsistência

de normas imunes ao controle social direto, e edificar órgãos destinados a aquilatar os enigmas insertos nos textos normativos.

Conceber estruturas que amenizem a sensação de desprendimento e desconforto espiritual é fator importante para resguardar a paz social, da mesma forma que a manutenção de um conjunto governamental básico é indispensável à coesão e à sustentação do poder estatal. É por isso, que a religião mitificada sempre influenciou na construção e desenvoltura do ‘político’. A secularização da concepção do poder político no ocidente, e em parte do oriente, não afetou a essencialidade do espiritual na constituição do Estado. O político e o temporal, no jogo do poder, refletem espaços distintos do exercício da cidadania, é o político, porém, que garante a livre fruição do religioso na esfera pública, não como reflexo da