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1. SOBRE A IDÉIA DE PODER

1.6. No Apogeu do Capital

Não podemos negar que a perspectiva dualista que distancia o público do privado influenciou a arquitetura do poder, e que o rompimento revolucionário do arcabouço de poderes paralelos ocasionou o seu deslocamento. De potestade unificada e concentrada no monarca, (re)posicionou-se no congresso popular, sendo (re)mitificada como expressão da vontade de todos. A contingência entre soberania (constituinte) do povo e poder constituído torna-se evidente e reclama a ideação de um lugar comum onde a coletividade, imaginada ao mesmo tempo como depósito da potestade e cenário da sua realização pelo agir político, possa compartilhar diretamente com o poder, instituído (constituído) como estrutura de comando, uma mesma realidade dialética composta por indivíduos igualados pela indiferença, e entrelaçados numa teia social que permite a consolidação do mito que deifica o manejo do poder como único mecanismo de manutenção da ordem.

Reatualizada a concepção contratual do pacto constituinte, o poder estatal, reconfigurado como manifestação da vontade geral, é delegado a organismos institucionais, legitimados e capacitados para gerirem o corpo político na medida dos limites constitucionalmente impostos, com o objetivo de garantir a liberdade dos indivíduos. O movimento contra-revolucionário repudiou veementemente esse novo paradigma fundado na constitucionalização do exercício do poder e na rejeição do esquema pluralista, não igualitário, de poderes sociais e naturais, que caracterizara o antigo modelo.

O projeto de inclusão política e social inaugurado na modernidade esbarra nas reservas decorrentes da expansão liberalizante, a reprodução do quadro estamental no processo

emancipatório do cidadão como agente transformador da natureza, (re)inaugura, no espaço comunitário, a antítese da exclusão, e (re)conduz o Estado ao papel de catalisador das distorções sociais e de guardião das liberdades, num substrato constitucional de notável mutabilidade e que exige das instituições “uma nova forma de articulação que, a partir do contexto irrenunciável das liberdades fundamentais, permita governar as tendências anárquicas e as forças disjuntivas inerentes à conflituosidade que cresce na sociedade” (DUSO [6], 2005, p. 332).

A evocação contra-revolucionária de poder, embora marcada por objetivos restauradores, teve importância no estabelecimento de aspectos ideológicos, essenciais à instalação das novas nuances da soberania, (re)elaborada como predicado do poder e desvencilhada das tradições políticas e teológicas que no antigo regime lhe atribuíam a tonalidade de verdade inatacável, eternizada em alegoria deificada.

Numa atmosfera de retorno, edificou-se um conjunto de idéias dedicadas à disseminação do descrédito aos motivos e aos fins históricos e políticos da escalada revolucionária, e à negação das assimetrias sociais e do constitucionalismo de quebra como mecanismo redutor das desigualdades. As disparidades e perplexidades sociais eram apontadas como fenômenos naturais, decorrentes das relações comunitárias baseadas na cadência perpétua entre submissão e proteção próprias do medievo feudal. O processo revolucionário é maquiado como sistema deliberado de usurpação e de neutralização do poder, potestade que flui, necessariamente, das discrepâncias que permeiam a sociedade e é manejada, na redoma secular e no imaginário religioso, em consonância com regras dimanadas de uma instância metafísica absoluta e suprema.

Idealizado como fruto de uma ordem transcendente e preexistente que se renova, continuamente, por ato soberanamente divino e não por intervenção profana, o poder, além de não se comunicar por meio de pactos constituintes, nem ser legitimado pela vontade geral,

afasta a idéia de igualdade originária. Nesse espectro, é impossível a construção de um corpo coletivo equânime porque a isonomia afasta as possibilidades de cedência de liberdade a um senhoril eleito entre os partícipes da empreitada comunitária. Os retaliadores do levante consideravam paradoxal o reconhecimento do direito de cada indivíduo de escolher livremente um governante, e de voluntariamente a ele se subjugar, para eles, os homens, mesmo convencionando “sobre as modalidades de constituição de uma livre sociedade de iguais, nunca poderiam encontrar um termo comum que fosse bom para todos” (CHIGNOLA [2], 2005, p. 342).

O discurso anti-revolucionário não tardou a ser fragilizado pela própria dinâmica da sociedade, a certeza da validez da vontade de todos como elemento instituidor de um poder que a todos suplanta, apto para compor os embates e conservar a integridade estrutural e a estabilidade da força fundacional da comunidade, acabou por abafar os derradeiros anseios de retorno ao absolutismo monárquico.

Tem início o período de reafirmação democrática que relançou, no cenário mundial, as tensões não resolvidas entre supremacia popular e manejo do poder constituído, entre esfera pública e dimensão privada da convivência, entre construção política e efetividade dos direitos dos cidadãos, e entre constitucionalização de prerrogativas e redução dos espaços sociais, numa época em que as limitações às liberdades são identificadas como inevitáveis à viabilização de uma fórmula jurídico-constitucional de gestão da comunidade.

Na compatibilização do ordenamento social ao quadro do poder estatal, desmistifica-se a idéia de coincidência plena e absoluta da vontade particular e interesses da coletividade, reconhecendo-se que a persistência de uma gestão política orgânica não impede a subsistência de situações de desequilíbrio entre a liberdade política e os direitos sociais. Facilitada a desintegração do caráter essencial da igualdade como critério distintivo de um ordenamento

assecuratório dos direitos e garantias fundamentais, o direito de propriedade assume o papel de precursor da efetividade e da supressão dos direitos afetos à cidadania.

Perpetuada para se sobrepor à restauração, a revolução tende a ameaçar os próprios alicerceres da sociedade. Do aumento do grau de igualdade, impulsionado pela redistribuição da propriedade das riquezas e pela diluição da carcaça estamentária, evidencia-se o estabelecimento da apatia que põe em risco a coesão social e a integridade do Estado como corporificação do poder político. Para reduzir o perigo constante de (des)constituição, a idéia de sujeição à lei é reatualizada, a submissão incondicional aos comandos passa a ser apontada como instrumento jurídico imprescindível à manutenção da paz e do equilíbrio entre liberdade privada e coletiva.

Idealizada uma moldura igualitária de direitos, a todos é viabilizada a possibilidade de adquirirem livremente propriedade e cidadania. Estes direitos tornam-se efetivos no âmbito social, ou seja, no mesmo ambiente onde são fincados óbices ao exercício das liberdades, a partir de expedientes que limitam ou vedam a implementação das potencialidades individuais. Tais mecanismos impedem que o Estado desempenhe uma das suas principais funções, a de positivar, no mundo concreto, a idéia de igualdade consubstanciada “na forma de uma abertura indiferenciada, a todos e a cada um da possibilidade de ascensão e de reconhecimento social” (CHIGNOLA [3], 2005, p. 364), que deveria ser garantida, como direito, não só a nível constitucional, mas em todas as ações administrativas.

A lógica do poder também foi objeto de análise por Karl Marx, que não deixou escapar como o fenômeno da separação entre público e privado influencia o processo de (des)politização do coletivo. Visualizando o poder soberano como capacidade de decidir e impor a sujeição ao comando mediante a utilização legítima de coação, aponta, na sistemática hodierna da potestade, uma situação paradoxal.

Ao ser alicerçado na igualdade, por obstar o império particular entre os homens, o poder dos modernos, para se firmar como experiência política legítima e eficaz, é arrastado para instâncias diferentes, qualificadas pela pluralidade unificada, mediante um processo de estruturação de classes no qual é subtraída do indivíduo a capacidade de agir politicamente e de tomar decisões, e é ocultada a politicidade da comunidade, atribuindo-se exclusivamente ao Estado as prerrogativas decorrentes da soberania. Na torrente desse pensamento, a política, que espiritualiza a sociedade, emana do Estado como única dimensão do poder (político) constitucionalmente (re)conhecido, as interações econômicas e sociais revelam-se despolitizadas, parecem insignificantes, portanto, as relações entre capital e trabalho remunerado.

Enquanto instância neutra e suprema, legitimada pela vontade geral, o Estado emite comandos objetivamente garantidos para disciplinar os relacionamentos entre seus órgãos e assegurar os direitos dos cidadãos, no entanto, a partir da politização estatal do aspecto coletivo exsurgente da modelação da classe trabalhadora assalariada como único sujeito de dominação, apto a influir direta e radicalmente no processo de acumulação de capital, não mais é possível falar-se em eqüidistância do ordenamento jurídico.

A identidade política edificada no processo de constituição e união do proletariado em classes, não se confunde com a instituição comunitária de um sujeito político soberano “porque isso significaria voltar à lógica do poder e da unidade política” (RAMETTA [2], 2005, p. 382).

Em verdade, a dissolução representativa das classes e a persistente situação de conflito entre proletariado e burguesia acarretam a superposição do econômico ao político, revelando uma realidade ilusória, construída com base numa equivocada simetria entre igualdade e liberdade, na suposta identidade convencional da relação remunerada e na falsa harmonia

interativa do processo de transformação de interesses particulares em públicos, que serve de lastro à dominação burguesa e legitima a expropriação privada do trabalho proletário.

A lógica da exploração é assimilada como realidade política, e é jurisdicizada. A concorrência, a acumulação de riquezas e de capital são remodeladas como aspectos determinantes das relações de autoridade. O poder social junge-se à força do capital metamorfoseando o sentido da soberania política, vinculando-o à idéia de domínio absoluto do dinheiro. Arquitetado como nexo social entre cidadãos indiferentes que se alienam, o dinheiro é reificado usurpando o lugar do soberano no processo de despersonificação da potestade, que passa a ser apreendida como expressão da riqueza que cada um acumula.

Na sociedade burguesa e autofágica, o cidadão, enquanto vendedor da sua força de trabalho, mostra-se desprovido de objetividade, e como antítese à pretensão estatal de refletir uma realidade livre e igualitária. O Estado capitalista, imaginado como processo histórico delimitado pelos meios de produção e de trabalho, é estruturado como mecanismo de disciplinamento das divergências pontuais que antecedem a instalação do sistema produtivo, bem como daquelas que dele emergem, “todas as relações de soberania e dependência derivam da específica relação jurídica proprietária de domínio e servidão que o modo de produção capitalista gera” (MERLO [2], 2005, p. 389).

No capitalismo, é na desigualdade das classes que se desenvolvem as interações entre trabalho e poder. As camadas sociais são constituídas, limitadas e estruturadas a partir da valorização do capital corporificado na potência que domina, expropria e se apodera da força produtiva do cidadão transformado em operário, remunerando-a conforme o pacto de ‘cooperação capitalista’ do qual dimana o seu poder despótico. O capitalista é alçado como elemento unificador, e como titular exclusivo da vontade do corpo laboral da sociedade, capaz de emitir comandos aos quais as massas de trabalhadores devem se submeter, para tanto é

preciso que o capital se realize como poder constituído e se articule como instituição política formal.