2. SOBRE A SOBERANIA COMO ATRIBUTO DO PODER
2.1. Da Construção de um Conceito
Não ambicionamos rumar em direção à etimologia das palavras, acreditamos que os vocábulos nada mais são do que expressões finitas e palpáveis de sentimentos e idéias, historicamente construídos e reatualizados. As mutações morfológicas das palavras, por mais radicais que sejam, não têm o condão de penetrar nos sentidos originais das concepções que incorporam.
Pouco importa saber se o termo soberania foi gerado no medievo, ou mesmo em qual época lhe foi atribuído o significado que revela a acepção imemorial de um poder que a todos suplanta. Interessa perquirir se a formatação ideológica que a modernidade lhe conferiu, reflete a certeza mitológica que acompanha os homens desde a sua origem ou criação, de que estão atados a uma força suprema que sacraliza a sociedade, enquanto ente coletivo, e a qualifica como estrutura dotada de poderes quase divinos.
Palavra com sentido, o termo soberania incorporou a significação da autoridade, da dominação, do império, da majestade, da superioridade, da supremacia e da potestade, que qualificam o poder do Estado como expressão do coletivo, dotando-o de autodeterminação e força coativa suprema, que o habilita a exigir obediência dos particulares que compõem a coletividade, a não reconhecer poder que pretenda ser superior, e a autolimitar-se impondo “a si próprio, obrigações, reservas e compromissos” (FERNANDES, 2004, p. 50).
Tal conotação recebe ajustes quando exposta à realidade comunitária supranacional, onde, além dos interesses individuais, concorrem as pretensões de outros entes estatais e não estatais, mas com estrutura e autuação de abrangência internacional, e não há espaço para idéia de subordinação e superioridade esboçada para alicerçar a supremacia estatal interna.
Evidencia-se um significado que valoriza a autolimitação matizada na necessidade de conferir às relações entre Estados o sentido de coordenação, de igualdade política e jurídica, de observância e acatamento das peculiaridades sociais, culturais e políticas e econômicas de cada nação. Mitifica-se, novamente, o qualificativo do poder para encobrir a absolutização da soberania dos Estados desenvolvidos, em detrimento daqueles taxados como subdesenvolvidos ou em desenvolvimento, e o reaparecimento do colonialismo no cenário mundial.
Ao sairmos do virtual despertamos para uma acepção de soberania externa aproximada da construção kelseniana, modificada pelo modelo integracionista e intervencionista da atualidade, mas consentânea com a noção de retorno à origem, de revisitação do embate entre o bem e o mal, o fraco e o forte, o subjugado e o dominador, e entre Estados economicamente eficazes e aqueles acostumados à dependência e à subserviência.
Prevalece o projeto de divórcio entre as idéias de soberania e de poder estatal, extraindo-se, da primeira, a essencialidade na identificação do coletivo como ente autônomo e independente, para proporcionar o realce de elementos pré-conceituais, vocacionados à sustentação de concepções que pendem para demonstração da soberania como instituto relativizado, suscetível às adaptações econômicas, culturais e sociais, e sujeito a supressões casuísticas, transitórias ou definitivas. Admite-se a construção de uma ideologia que permite a convivência e subsistência de Estados soberanos e Estados desprovidos de soberania e de força determinante, como instrumento oculto de reatualização do colonialismo e da dominação.
Reduzida ao reflexo restrito das interações de poder, entre o Estado e os partícipes do enlace político que o concebeu, a idéia de soberania perdeu o furor que o próprio termo incorpora, os predicados que integram a sua estrutura semântica são matizados com
intensidades abrandadas, para referenciarem apenas as estreitas veredas das relações intestinas entre o coletivo e o exclusivamente particular.
Todas as demais conexões de interesses que não toquem ou tangenciem essa moldura imaginária, mesmo se formatadas no território de abrangência do poder do Estado, são excluídas dessa concepção de soberania, e são vinculadas à idéia de supremacia que ampara o projeto global de unificação. Nessa senda de poucos atalhos, delinear a aderência a um espaço físico delimitado e exclusivo, como pressuposto necessário à ideação da soberania, torna-se contingente e inconcluso.
A soberania não mais pode ser jungida, de forma absoluta, à unidade do poder. Como manifestação de uma força suprema, radicada numa comunidade que a reconhece como vinculativa e exclusiva, não se sujeita à autoridade de outras sociedades enquanto domínio interno consolidado nas relações com os indivíduos, e na capacidade de reger e influir nas condutas particulares e nas interações conectadas sob o seu manto.
Sacralizada a partir de mitos domésticos e tribais, a percepção de poder e de supremacia, embora submetida ao constante e interminável processo de reatualização, nunca se desvinculou da origem, mesmo quando alargado para o coletivo ou enclausurado em um governante. Por mais extensas que tenham sido as metamorfoses de sentido e de significação, tal processo é marcado pela nota de retorno ao princípio, de volta ao começo. A idéia de soberania, mais do que nunca, se depara com a ambigüidade em si atada, desde os seus primórdios, de regressar ao doméstico ou expandir-se rumo à unificação. A humanidade há muito vem tentando resolver essa dubiedade, não raro à custa de extermínio e guerras.
Qual o objetivo de conceber a soberania a partir dos qualificativos de unidade, inseparabilidade, intransferibilidade, singularidade, atualidade e limitação, senão domesticá- lo, confinando-o numa realidade territorial circunscrita ao espaço onde as manifestações diretas e indiretas de poder são reduzidas às relações intestinas entre o particular e o coletivo.
No orbe, tais predicativos são revestidos com significados amplos que os libertam dos grilhões que os aprisionam aos particularismos internos. As interações globais que perpassam territórios, não permitem a subsistência da idéia de unidade e exclusividade do exercício do poder, antes anunciam o compartilhamento.
Somente na perspectiva interna, especificamente na dimensão onde se situam as amarras do coletivo no seio popular, é que se perfaz a construção de uma soberania em sentido pleno. É nesse substrato que se pode afirmar a indivisibilidade do poder, nele, o Estado plenifica a soberania como qualificativo essencial à existência da comunidade, como estrutura de poder capaz de reagir às investidas de outras coletividades.
Nesse núcleo intocável e protegido das pressões externas, também é vedado falar-se em alienação de poder, em dependência ou qualquer modalidade de sujeição às manifestações de vontade, igualmente soberanas, de outros entes, exceto de certas instituições internas, delegatárias de funções estatais, vinculadas a determinados fins, fixados pelo Estado que se mantém na titularidade do exercício do poder.
Ao lado desses atributos afetos ao âmago da idéia de soberania como expressão interna de poder, os qualificativos da originalidade, da imprescritibilidade e da limitação servem tanto à sua perspectiva interna, nas versões lata ou estrita, como à sua significação externa e internacional.
Como força impositiva, a soberania mantém-se atual, não se fragiliza, nem desaparece com o passar do tempo. A percepção do poder é uma constante em qualquer substrato que a encerre, não prescindindo de qualquer situação fática para se materializar. Fortaleza originária que é não encontra fundamento na singularidade jurídica e política de outros ordenamentos. Enquanto predicado da autoridade interna, é validada pela unidade do sentimento de pertinência que qualifica a comunidade como coletividade política institucionalizada, enquanto característica da potência externa encontra validez na ideação de interesses
supranacionais capazes de eclipsar os particularismos domésticos estatais, e de conferir à sociedade internacional distinção na coordenação suprema das políticas e das relações jurídicas de relevância mundial.
Potestade não se traduz por ilimitabilidade. Expressão do poder, a soberania só é absoluta quando qualifica o mais proeminente, e incorpora a capacidade de autodeterminação como mecanismo de repulsa à assimilação ou aceitação de imposições estranhas à ordem jurídica interna, instituída para regular a diversidade intestina da comunidade.
Esse potentado não resiste às limitações impostas pelo poder constituído, com o fito de viabilizar a governabilidade e o intercâmbio com outros atores da cena mundial, nem às pressões intervencionistas e integracionistas das entidades supranacionais, fundadas numa potestade qualificada pelo desprendimento das amarras espaciais ou territoriais, e pela possibilidade de ser repartida e transferida para instituições ou organismos comunitários, ou até mesmo para coletividades de Estados.
Tal visão bidimensional e antitética da soberania como atributo do poder que ora se expressa como autoridade absoluta, quando aflora contida no restrito universo estatal ‘doméstico’, ora se exprime com força relativa, sujeita às contingências emergentes da amplitude das interações sobre as quais incide, não a caracteriza como acidente histórico “válido apenas para determinado momento da existência espaço-temporal humana” (FERNANDES, 2004, p. 59), como pretendem jurisconsultos do gabarito de Jellinek.
A percepção de um poder, sagrado ou laico, que se sobrepõe, afeta e manipula as vontades humanas, se confunde com o próprio despertar do homem para a coletividade, entretanto, a identificação desse poder como atributo indispensável à instituição e personificação de uma estrutura orgânica coletiva, capaz de se justapor aos interesses individuais, de autodeterminar-se e de refutar poderes outros que pretendam ser superiores, é produto do processo de reformulação que continuamente afeta a idéia de supremacia.
Defender, na modernidade, o matrimônio entre Estado e soberania, bem como a impregnação da nota de indissolubilidade e essencialidade mútua a essa comunhão, configura tarefa estéril ante a falibilidade e efemeridade do Estado com organismo político confiável, e apto para garantir a realização plena das expectativas da sociedade que o alicerça, e a involubilidade mitológica da concepção de soberania que não permite evocá-la como imanente a uma estrutura temporal transitória.
Acreditamos que o enleamento da idéia de soberania com a do poder que predica, e deste com o Estado, invenção da coletividade organizada para otimizar a supremacia, conduz à equivocada tese da concepção gemelar da soberania e do Estado, supostamente fecundados no alvorecer da modernidade.