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Circulação Simples: aparência necessária e real do sistema

Seção II Começo e Crítica

2. Circulação Simples: aparência necessária e real do sistema

“A circulação simples é uma esfera abstrata do processo global”85.

Marx, ainda nesta versão primitiva de Para a Crítica, combate a ilusão simetricamente oposta, a de que as contradições que se opõem à circulação simples, aquelas que encontramos ao deixar a superfície luminosa da sociedade capitalista, são meras ilusões e que o que vigora em todos os momentos são as leis da circulação simples. Isto é:

Pretende-se e tenta-se provar, abstraindo da forma específica das esferas mais desenvolvidas do processo de produção social, abstraindo das relações econômicas mais desenvolvidas, que todas as relações econômicas são sempre as da troca simples, da troca de mercadorias e das determinações correspondentes da propriedade (liberdade e igualdade), aparecendo simplesmente de cada vez com um outro nome86.

Esta passagem é importante para a determinação de um dos resultados de nossa pesquisa anterior e de que partimos neste estudo. A saber, que estas ideias que resultam e determinam a circulação simples, por mais que a crítica as revele portadoras de ilusão, seguem sendo “a consciência de todos os agentes sob o capitalismo”. Independente da esfera em que se dê sua ação, a consciência que o sujeito terá sempre será determinada pelas ideias que perfazem a circulação simples. O ilusório deixa de ser a simples afirmação de sua vigência, mas antes a admissão de que as leis desta esfera formal e abstrata não sejam, por uma necessidade interna do sistema, invertidas nas esferas mais concretas e essenciais por um funcionamento próprio do sistema.

Se a trindade que perfaz e resulta da circulação simples não é mera ilusão, ela tampouco é o real capitalista como tal. Aqui reside o engano. O enganoso não é a admissão de que haja liberdade e igualdade e não também, e talvez de modo ainda mais determinantes, seus contrários diretos. A ilusão combatida aqui é da parte que se pretende o

85 G, p. 922. 86

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todo. A circulação simples é uma esfera abstrata do sistema capitalista, mas que produz a

ilusão87, na qual se enredam os agentes e parte dos economistas, de ser o todo do sistema.

2.1 - Circulação Simples - Sistema de aparências.

A relação entre a circulação simples e as determinações mais concretas do sistema capitalista pode ser esquematizada assim pela relação da parte com o todo. Nesta relação a ilusão consiste em tomar-se a parte como sendo o todo88. Mas não é o caso que a parte seja (apenas) falsa em contraposição com o todo. Ela é o todo tal como a princípio aparece89. Ela é forma de aparecimento de um conteúdo que é seu contrário. Mas o conteúdo, que por meio desta forma aparece, oculta em seu próprio modo de aparecimento suas determinações essenciais, tais como os modos de subordinar a si todos os elementos da sociedade e particularmente a população trabalhadora, etc. Todas essas determinações essenciais estão abstraídas e ocultas sob a forma da circulação de mercadorias. Ao invés de o sistema capitalista aparecer como tendo como finalidade última a extração de mais-valor, o que aparece é a sociabilidade mediada pela troca, tendo na satisfação de necessidades sua finalidade última.

Cabem aqui algumas breves palavras sobre a circulação simples como dimensão econômica permanente ou a circulação no circuito M-D-M tal como segue existindo no capitalismo. Marx em O Capital, como já houvera feito em Para a Crítica90, tipifica a circulação simples como movimento que ocorre todo dia em um país91. Ela opera sempre que ocorrem “metamorfoses unilaterais de mercadorias” ou meras vendas e meras compras.

87 Ao se distinguir aparência de ilusão há que se levar em conta que a aparência não é uma ilusão subjetiva,

erro de observação. Norman Geras cita uma formulação de Maurice Godelier que nos parece precisa: “não é o sujeito que se engana, é a realidade que o engana”. Ver: “Essência e aparência: a análise da mercadoria em Marx”, in Cohn, Op. Cit.

88 Do ponto de vista da análise, contudo, nos deteremos nas determinações da parte, isto é, da aparência.

Como diz Marx, do ponto de vista da circulação simples tais determinações, as quais está contraposta na análise, inexistem completamente.

89 A circulação simples corresponderia a uma dimensão que por analogia chamaríamos de “obvio

econômico” e que faz com que pareça trivial a apresentação da relação social das pessoas como relação entre

coisas. Nas palavras de Para a Crítica: “não é outra coisa senão a rotina da vida cotidiana o que faz parecer trivial e óbvio o fato de uma relação social de produção assumir a forma de um objeto; de tal maneira que a relação das pessoas em seu trabalho se apresenta como sendo um relacionamento de coisas consigo mesmas e de coisas com pessoas”. Para a Crítica, p. 63. Ver igualmente p. 75.

90 Em Para a Crítica a “circulação simples” expressa a circulação do dinheiro no interior de uma

comunidade (p. 121) ou uma circulação interna (p. 129).

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É a circulação da qual participa o trabalhador e mesmo o capitalista quando seu consumo não é produtivo, ou seja, não está determinado por esferas mais complexas do sistema. O dinheiro opera aqui apenas como medida de valor. O horizonte da circulação simples é aquele da circulação interna de mercadorias em uma comunidade, na qual o dinheiro circula apenas como dinheiro e não ainda como capital92.

Em Para a Crítica Marx formula claramente sua teoria da circulação simples como “esfera superficial e formal”, isto, é, na qual faltam (embora estejam sempre pressupostas) as determinações do caráter global do sistema:

O caráter superficial e formal da circulação simples de dinheiro manifesta-se precisamente em que todos os fatores que determinam o número dos meios de circulação, como a massa das mercadorias em circulação, os preços e sua variação, o volume das compras e vendas a um dado momento, a velocidade do curso do dinheiro, dependem do processo de metamorfose do mundo das mercadorias, que por sua vez depende do caráter global do modo de produção, do montante da população, da relação entre a cidade e o campo, do nível de desenvolvimento dos meios de transporte, do grau da divisão de trabalho, do crédito, etc., em resumo, depende das circunstâncias que estão todas elas fora da circulação simples do dinheiro e nela apenas se refletem93.

Estas determinações aparecem na circulação simples, mas o fazem apenas por mediações que invertem seu sentido. O modo especificamente capitalista como estas determinações se manifestam na consciência dos agentes faz com que a circulação pareça

ser o todo que preside sua relação com a produção. Não é que não haja circulação com base

na satisfação de necessidades. É que o sistema capitalista tem como objetivo único a valorização do valor como “auto-finalidade” da “substância semovente” como veremos a partir do capítulo 2 desta tese. A parte do sistema capitalista na qual nos movemos como agentes da troca, contudo, nos aparece como o todo da relação capitalista e assim encobre que por detrás das trocas que visam satisfazer necessidades se processa o sistema cego da valorização do valor que condiciona e determina nosso consumo94.

92 C, I, p.127. 93

Zur Kritik, Dietz Verlag, Berlin. Band 13, 7. p, 120, [85-6].

94 Esta aparência credenciaria a circulação a se constituir como capacidade de automensuração do capital. A

produção, assim, parece ser momento da circulação. Como diz Grespan: “com isto o aspecto da igualdade no mercado entre vendedores e compradores da força de trabalho oculta o da desigualdade. “Tal desigualdade é que se mostra o fundamento da igualdade e também o todo da relação na qual a igualdade é mero momento”. ”. O Negativo do Capital, p. 275.

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Como formaliza Grespan, a aparência não nega a “relação de fato” com a qual entra em oposição, antes é sua forma de aparecimento. Sua oposição as coloca com “processo superficial” e “processo subjacente”, mas sua oposição não faz de uma verdade oculta da outra, antes, sua relação é tal que a igualdade é modo de manifestação da desigualdade. Marx não negaria que liberdade e igualdade pertençam ao universo capitalista, mas apenas as mostra como limitadas a uma esfera formal que pertence a um contexto mais amplo onde vige a desigualdade. Contudo, o sistema capitalista necessita da ideia da igualdade para sua reposição e conclui Grespan: “esta aparência existe enquanto ilusão não por não existir realmente; o que é ilusório é que só exista igualdade e liberdade, e não também desigualdade”95.

O capitalismo é um sistema de produção tal que se assenta em uma desigualdade fundamental que determina seu próprio modo de aparecer como igualdade. “A separação entre propriedade e trabalho torna-se conseqüência necessária de uma lei que aparentemente partia de sua identidade”96. Isto porque a relação entre capitalista e trabalhador não é apenas aquela entre comprador e vendedor da força de trabalho – esta é a parte que aparece como todo – tal relação é antes uma relação específica do mundo burguês na qual capitalista e trabalhador se encontram opostos como proprietário e não-proprietário dos meios de produção. É esta relação, que em última análise se fundamenta na “acumulação originária”, que forma “o todo” ou a totalidade da relação capital-trabalho e que tem a circulação simples como forma de aparecimento. A acumulação originária explicaria “o porquê” da dupla “liberdade” do trabalhador no início do processo de troca. O todo, na verdade, é o nexo entre circulação e produção ou o capital como totalidade.

Se abandonarmos os marcos categoriais da circulação simples veremos que, como comenta Grespan: “a reprodução afeta o nexo entre igualdade e desigualdade de trabalhadores e capitalistas, levando à inversão do princípio de apropriação do produto pelo trabalho, sobre o qual se pensa constituir a sociedade burguesa”97. Na teoria da reprodução, onde o ciclo de produção e valorização é constantemente repetido, a troca de equivalentes “se torce de tal modo que se inverte em mera aparência”. Apenas analisando o ato da troca com em um instante que não se repete é que se chega à suposição da troca de equivalentes

95 Idem, p. 113-4. 96

C, I, 2, 166.

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na circulação simples. A reposição ininterrupta deste processo revela por si só que o capital inicial era já trabalho alheio não pago, como veremos no Capítulo 5 desta tese. Aqui aparência é ilusão mistificadora, “simples forma que é alheia ao conteúdo”. A forma é a troca de equivalentes, o conteúdo a apropriação não paga do produto do trabalho alheio.

Como bem salientado por Grespan98 é a forma (mistificada) que prevalece na consciência e sociabilidade burguesas. A forma da troca de equivalentes e a liberdade devem permanecer como aparência do sistema, mesmo que seu conteúdo a negue por completo. A mistificação: “é que a forma apareça adequada ao conteúdo, que a produção capitalista se caracterize só pela igualdade dos agentes, definidos simplesmente enquanto vendedores e compradores em geral”99.

Marx reconhece que tais ilusões não desaparecem apenas com a descoberta de sua parcialidade100, mas que tal fato é também fruto de um longo e penoso processo histórico. Contudo nos situamos ainda neste capítulo no plano da aparência, ou da parte que aparece

como todo. Vejamos como estas aparências se mostram como o consumação da Economia

Política.