Seção II Começo e Crítica
1. Na superfície a trindade: Propriedade, Liberdade e Igualdade
Na análise da circulação simples (M-D-M) parte-se “do princípio de que as mercadorias existem como valores de uso já prontos”63. Ou seja, nos situamos desde sempre no momento do encontro dos agentes da troca, já portadores de mercadorias, mesmo sabendo que há pressuposições não explicitadas para este encontro64. A circulação parte da metamorfose das mercadorias (m-d/d-m) como de um dado. É necessário que se encontrem dois portadores de mercadorias e do ponto de vista deste começo, tais mercadorias apenas podem ser “objetivação do indivíduo cujo trabalho ela representa”65. Assim aparece a primeira pressuposição fundamental (Grundvoraussetzung) da circulação simples, a lei de apropriação pelo trabalho próprio, ou, nas palavras de Marx: “o trabalho e a propriedade do resultado do trabalho próprio apresentam-se assim como a pressuposição
61 C, I, p.144. 62
Diz o texto inicial da seção: “trata-se agora de apreender as relações econômicas dos indivíduos – que são os agentes da troca – em toda a sua simplicidade, tais como elas se manifestam no processo de troca que estamos descrevendo, sem as referirmos a relações de produção mais desenvolvidas.” G, p. 267, [901].
63 G, p. 267. Ou como esclarece o próprio Marx a seguir: “o processo de criação das mercadorias, e, por
conseguinte também o seu processo inicial de apropriação, se situam fora da circulação”. G, p. 268, [902].
64 “A propriedade privada é a pressuposição da circulação, mas o processo de apropriação, esse não se
mostra, não aparece no quadro da circulação; sendo pelo contrário, supostamente anterior”. G, p. 268, [902-3] Tradução alterada.
42
fundamental sem a qual não teria lugar a apropriação secundária por intermédio da
circulação” 66.
Apenas são agentes do processo de troca que perfaz a superfície da sociedade burguesa os indivíduos que possuam valores de troca, mercadoria ou dinheiro, o modo como se tornaram proprietários está fora do âmbito da circulação simples67. “A circulação mostra simplesmente de que modo esta apropriação imediata transforma, por intermédio de uma operação social, a propriedade do trabalho próprio em propriedade do trabalho alheio”68. É, portanto, deste “lugar comum” a “todos os economistas modernos” que Marx faz ponto de partida da análise da circulação simples69.
Fica assim estabelecida a primeira pressuposição fundamental da circulação simples: “uma vez admitida esta lei da apropriação pelo trabalho próprio - que longe de ser uma hipótese arbitrária é uma pressuposição que resulta do estudo da própria circulação - sem dificuldade se descobre na circulação um reino da liberdade e da igualdade burguesa fundado nesta lei”70. A lei de apropriação pelo trabalho, além de instituir o regime da liberdade e igualdade burguesas é a primeira necessidade (erste Notwendigkeit) condicionante da troca. A segunda pressuposição, que aparece como necessidade, é apresentada a seguir: “depois da apropriação pelo trabalho ou da materialização do
66 Idem, p. 268. Grifo nosso. A questão da apropriação pelo trabalho aparece aos filósofos continentais, que
são fonte para a Economia Política, como resposta à pergunta: “como é possível converter o que deus deu a toda a humanidade em propriedade privada?” A resposta de Locke a tal problema, resposta esta que irá lhe conferir a autoridade de um pai fundador, parte do plano teológico em que é formulada por seus contemporâneos, mas já anuncia o patamar humano das relações como começo de que se deve partir. Sua resposta se fundamenta na propriedade originária da própria “pessoa” e das “ações que esta efetiva” na natureza. Assim ao adicionar trabalho ao que desde sempre é dado pela natureza, torno “minha propriedade” ao menos uma parcela do que era “comum” a todos os homens. Assim me aproprio pelo trabalho daquela parcela da natureza que por meio deste transformo. O trabalho inaugura um “título de propriedade” nas coisas que até então eram “comuns”, esse título é assegurado não por autoridade humana ou qualquer acordo ou convenção, mas por deus. Cf. Dois Tratados do Governo Civil, cap. V. Essa apropriação pelo trabalho ficará como marca definitiva nos herdeiros da tradição do Direito Natural e do empirismo continental, a Economia Política, bem como outra marca distintiva, a saber, esse estilo de filosofar sobre épocas adâmicas, remotas. Essa abstração do começo é outro traço que passa a essa nascente ciência.
67 Bem como, aliás, o consumo que está, evidentemente, fora da circulação. 68 G, p. 269, [903].
69 “Seja como for, tal como se manifesta à superfície da sociedade, o processo de circulação não conhece
outro modo de apropriação, e no caso de aparecerem contradições ao longo do nosso estudo seria necessário deduzi-las do desenvolvimento do próprio valor de troca, tal como fizemos com esta lei da apropriação primitiva pelo trabalho. G, p. 269-270, [904]. Marx aqui antecipa, por assim dizer, a Umschlag destas “leis da circulação simples” como desenvolvimentos contraditórios desta mesma base de que se parte.
70
G, p. 270, [904]. Veja-se que não é o reino da “liberdade e igualdade enquanto tais”, mas da “liberdade e igualdade burguesas”.
43
trabalho, a sua alienação ou a sua conversão em forma social aparece com a segunda lei”71. A segunda necessidade é o próprio movimento da troca de equivalentes, a conversão do trabalho próprio em trabalho social. Essa é a base da igualdade em que se encontram os agentes da troca.
A terceira pressuposição insere os trabalhos no “sistema de carências diversas” (verschiedenen Systemen von Bedüfnissen). “Todos os agentes da troca produzem nas condições da divisão do trabalho social”72. Esta pressuposição fundamental de que os sujeitos da troca já produzem no quadro de uma divisão social do trabalho determinada historicamente “encerra uma quantidade de pressuposições73 que não resultam nem da vontade do indivíduo, nem de sua natureza imediata, mas de condições e relações históricas que fazem já do indivíduo um ser social determinado pela sociedade”74. Sendo assim, esta terceira pressuposição, que mesmo sendo fruto de um processo histórico aparece aos sujeitos mercantis como uma “necessidade natural” (Naturnotwendigkeit) insere a
liberdade dos produtores na sistemática social.
O caráter privado da produção do indivíduo produtor de valores de troca manifesta-se como um resultado da história - o seu isolamento, a sua redução a uma pequena autonomia no quadro da produção são condicionadas por um sistema de divisão do trabalho que, por seu lado, se baseia em toda uma série de condições econômicas determinando as relações do indivíduo com os outros indivíduos e fixando o seu próprio modo de existência sobre todos os pontos de vista75.
A inserção de seu trabalho independente na sistemática social da divisão do trabalho faz com que sejam componentes de sua liberdade, por um lado, a “independência da produção individual”, e, por outro, essa independência é completada ou necessita para a sua efetivação da “dependência social”. Conseqüência disto é que a forma geral que o trabalho assume na circulação simples é apenas a de valor de troca. Nas palavras de Marx:
71 Idem.
72 G, p. 270, [905]. 73
“Resultaria, pois, que para que os indivíduos possam enfrentar-se nas simples relações de compra e venda como produtores privados livres, no decurso do processo de circulação e figurar neste processo como agentes independentes, isto já supõe outras relações de produção mais complexas, relativamente em conflito com a liberdade e a independência dos indivíduos, outras relações econômicas prévias”. G, p. 273, [907].
74
G, p. 271, [905].
44
Os agentes da troca produzem mercadorias diversas (verschiednen) como resposta a necessidades diversas; se cada indivíduo depende da produção de todos, todos dependem também da sua, porque se completam reciprocamente; e assim, graças ao processo de circulação, o produto de cada indivíduo torna-se para ele o meio de participar na produção social em geral, proporcionalmente à grandeza de valor que possui76.
Embora Marx o nomeie como “sistema de carências diversas”, o que aqui se descreve é o correlato do que em linguagem hegeliana se denomina “Sistema de Dependência Omnilateral77 dos sujeitos mercantis representados por seus trabalhos. É devido a isso que os agentes da troca só existem um para o outro como “coisa” e sua relação monetária é só desenvolvimento desta relação. Mais do que encerrar a liberdade individual na trama social das necessidades, a inserção dos agentes no sistema das necessidades faz da particularidade individual um momento da particularidade social. Sendo assim, do ponto de vista da circulação simples, ao buscar atingir os meus fins particulares, alcanço, por conseqüência, os fins da sociedade mercantil. Ou na formulação de Marx: “O interesse comum, que aparece como conteúdo do ato global de troca é realmente um fato presente na consciência de ambas as partes, mas em si ele não é o motivo da troca, ele só existe, se assim se pode dizer, camuflado por detrás dos interesses individuais que reflete”78. Os sujeitos da troca têm plena consciência de que em suas relações mercantis são fim para si e meio para o outro e da reciprocidade que faz de cada “trocante” fim e meio79.
76 G, p. 273, [907-8].
77 “O fim egoísta, assim condicionado pela universalidade, funda um sistema de dependência omnilateral, tal
que a subsistência e o bem-próprio do singular, bem como o seu ser-aí jurídico, estão entrelaçados com a subsistência, o bem-próprio e o direito de todos, estão fundados nestes e só nesta conexão são efetivamente reais e assegurados”. Filosofia do Direito. § 183. Hegel em sua “recepção” dos clássicos da Economia Política já houvera identificado uma tensão entre o “lado solar” da sociedade civil-burguesa, representado pela dependência e satisfação omnilateral, por um lado, e o “lado sombrio”, tipificado pela presença da plebe como modo de vida, por outro. Esta tensão seria responsável a um só tempo pelo dinamismo moderno e pela tendência à desagregação social, sendo assim tal “tensão” suspensa na totalidade ética do Estado. Ver neste sentido: MÜLLER, M. “A Gênese Conceitual do Estado Ético”. Rev. de Filosofia Política. - Nova Série, II (1998), p. 9-38.
78
G, p. 277, [912].
79 Na formulação da Filosofia do Direito hegeliana estes elementos que aqui vemos operando são os “dois
princípios” da sociedade civil-burguesa: “A pessoa concreta, que como particular é fim para si, enquanto ela é um todo de carências e uma mistura de necessidade natural e arbítrio é um princípio da sociedade civil, - mas a pessoa particular, enquanto ela está essencialmente em relação a outra tal particularidade, assim que cada uma se faça valer e se satisfaça mediada pela outra e, ao mesmo tempo, pura e simplesmente só enquanto mediada pela forma da universalidade, é o outro princípio”. FD. §182. É ao entrelaçamento destes dois princípios, mediados pelo cultivo, que se deve a dependência omnilateral. Em Hegel o cultivo (Bildung) determina “o querer, saber e agir” do particular segundo um universal (ainda) formal, impedindo a afirmação unilateral de apenas um destes princípios esgarce o tecido social. A seu modo a recepção especulativa da
45
Determinada pela apropriação pelo trabalho próprio (propriedade); conversão do trabalho privado em trabalho social (igualdade) e pela divisão social do trabalho (liberdade), a circulação simples se mostra a um só tempo como “a realização da liberdade individual (Verwirklung der individuen Freiheit ist) e a plena e total realização da igualdade social (die völlige realization der Gesellschaftlischen Gleichheit). Usando uma expressão do próprio Marx em O Capital, o valor de troca nos aparece então como “leveler” radical, pois uma vez que nossos cambistas só se defrontam “como valores de troca subjetivados”, não há só igualdade entre eles: “não há mesmo qualquer diferença entre eles”. Assim, a partir de “um dado momento, a circulação faz de cada um não só igual ao outro, mas identifica-o com o outro, e o seu movimento consiste em transferir cada um, alternadamente -, do ponto de vista da função social - para o lugar do outro”80.
Do ponto de vista da circulação simples a relação de valor que a circulação de mercadorias desenvolve é mais do que compatível com a liberdade e a igualdade, é esta relação mesma que lhes servem de fundamento e as determinam como criações suas.
Como ideias abstratas são expressões idealizadas das suas diversas fases; o seu desenvolvimento jurídico, político e social é apenas a sua reprodução em outros planos. Aliás, esta afirmação foi historicamente verificada. Esta trindade - propriedade, liberdade e igualdade - foi em primeiro lugar formulada teoricamente, nesta base, pelos economistas italianos, ingleses e franceses do século XVII e XVIII; mas não só: estas três entidades só foram realizadas na moderna sociedade burguesa81.
Assim essa trindade, a propriedade, a igualdade e a liberdade, é apenas “realizada” na moderna sociedade do capital. Como ideias podem ter uma existência antediluviana, mas como “realidade” só existem na epiderme da sociedade capitalista, sua esfera própria de efetivação e na qual esta trindade funciona como um transcendental, isto é, apresentando-se como condição de possibilidade da sociabilidade mercantil . Daí a crítica de Marx ao
socialismo de boa alma, especialmente o francês, quando este se propõe a tarefa de
“realizar as idéias” que a Revolução de 1789 teria liberado, mas que o dinheiro ou o capital
Economia Política já é crítica da suposta capacidade de o mercado se auto-organizar, sendo por isso integrado em uma esfera ética mais abrangente e que deve operar já em seu interior.
80 G, p. 279, [914]. 81 G, p. 281, [915-6].
46
suprimiriam82. Para tal socialismo a história ainda não foi capaz de realizar estas ideias plenamente, sendo a liberdade e a igualdade mediadas pela troca meras falsificações. Ao contrário, diz Marx:
O sistema do valor de troca, e mais ainda o sistema monetário, é na realidade o sistema da liberdade e da igualdade. Mas as contradições que surgem no seu desenvolvimento são contradições imanentes, implicações próprias desta propriedade, desta liberdade e desta igualdade que, na devida altura, se convertem no seu contrário83.
Não é que sejam irreais pura e simplesmente, tais ideias são resultado da circulação simples dos valores, são seu produto nas relações e nas ideias que temos de nossa sociabilidade mediada pela troca. Criticá-las de modo exterior ao desenvolvimento das relações que as fazem reais não é mais que “súplica piedosa e desejo ingenuamente simplório”. O que é preciso demonstrar é como o desenvolvimento das mesmas relações implica sua conversão em seu contrário, e assim entender que estamos diante de um sistema social cujas premissas fundamentais são negadas e invertidas, não por intenção externa ou defectibilidade, mas antes naturalmente, ou por seu próprio desenvolvimento.
Esse “Éden dos direitos naturais do homem”, que é a circulação simples, não é uma invenção ou charlatanice de economistas, é aparência necessária e real do sistema do capital84. Ela é a consciência que resulta de seu próprio funcionamento e aparece como natural. Os economistas, tanto quanto os piedosos “socialistas”, se equivocam por não perceberem a conexão entre esta aparência e sua inversão igualmente necessária.
82 Tudo se passa nesta modalidade caridosa de socialismo como se a liberdade e a igualdade fossem meras
ilusões complementares e não aparência necessária da sociedade capitalista. Necessidade, ao nível da circulação simples, pensamos, é necessidade formal ou relativa. É extremamente complexa a construção hegeliana das categorias da modalidade, especialmente a categoria de necessidade que, como diz a anotação do § 147 da Enciclopédia: “é muito difícil, e na verdade por ser ela o conceito mesmo”. Voltando à circulação simples, a necessidade é aqui relativa, não apenas por ser necessidade de uma esfera formal, mas especialmente porque dependente de “pressuposições”. Ver neste sentido a seção B do segundo capítulo da
Lógica da Essência: Necessidade Relativa, ou melhor, Efetividade Real, Possibilidade e Necessidade. WL, II,
Werke 6, 207, trad. p. 484.
83 G, p. 282, [916]. Esta liberdade e esta igualdade como definidoras do nexo social capitalista são suspensas
e rebaixadas a momentos do processo global. Sabemos que a teoria ao nível do capital como sujeito, e mais ainda no processo de sua reprodução, a circulação simples passa a ser “mera forma de aparecimento” de um processo mais abrangente e que é, de fato, seu inverso.
84 Mas para além do desenvolvimento categorial, que penso ser preciso agora explorar, há uma dimensão de
sua necessidade como condição prévia da consciência burguesa moderna. Essa liberdade e essa igualdade são como “condições de possibilidade”, são como dissemos algo como um transcendental na organização da experiência capitalista e da consciência que os agentes da troca têm nesta esfera.
47