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Divisão do trabalho e manufatura de tipo capitalista

Seção II Começo e Crítica

Capítulo 4 O Desenvolvimento das Forças Produtivas como Limite

2. Métodos Particulares de extração do Mais-valor relativo

2.2. Divisão do trabalho e manufatura de tipo capitalista

A manufatura capitalista surge da base em que se constitui a cooperação, a saber, seu fundamento é a reunião de um grande número de forças de trabalho operando sob o comando de um mesmo capital. Há, no entanto, uma origem dúplice da manufatura, mas que, não obstante esta duplicidade de origem, a conduz a um resultado unitário. Ela se forma como “combinação do diverso” ou como “decomposição do particular”. Como combinação do diverso ela despe os ofícios autônomos de sua autonomia e os torna partes unilaterais do processo de produção de uma única e mesma mercadoria. O ofício de origem se torna em gesto parcial que apenas encontra sentido pela unidade planejada da direção capitalista. Como decomposição do particular parte da união de artífices de mesma espécie, decompõe o ofício em suas partes mais elementares, isola e unilateraliza cada ação produtiva e cria o trabalhador especialista, tornando uma única parcela de seu antigo ofício em função exclusiva. Em ambos os casos o resultado é o mesmo: a criação de “um mecanismo de produção, cujos órgãos são seres humanos”.

Como espécie particular do gênero mais amplo que é a cooperação, a manufatura igualmente forma o “trabalhador coletivo combinado” composto de trabalhadores parciais. Contudo nosso interesse reside em um resultado específico desta composição, o fato de que “em comparação com o ofício autônomo produz por isso mais em menos tempo ou eleva a força produtiva do trabalho” (K, I, 359; C, I, 269). Pois como veremos todos os métodos de

de existência do capital. O mecanismo social de produção composto de muitos trabalhadores parciais individuais pertence ao capitalista. A força produtiva originada da combinação dos trabalhos aparece (erscheint) por isso como força produtiva do capital” (K, I, 381; C, I, 283). A forma acabada que este processo adquire na obra de Marx é o autômato vampírico da fábrica.

197 “Do mesmo modo que a força produtiva social do trabalho desenvolvida pela cooperação aparece como

força produtiva do capital, a própria cooperação aparece como forma especifica do processo de produção capitalista, em contraposição ao processo de produção de trabalhadores isolados independentes ou mesmo dos pequenos mestres. É a primeira modificação que o processo de trabalho real experimenta pela sua subordinação ao capital”. (K, I, 354; C, I, 265. Grifo nosso).

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elevação da força produtiva do trabalho contribuem conjuntamente para tornar o limite em que se constitui a jornada de trabalho em barreira. O modo específico desta “superação em

si” do processo capitalista ainda não nos apareceu, contudo a sua base já aparece em sua

figura mais simples na manufatura, pois o “aumento da produtividade se deve aqui ao dispêndio crescente de força de trabalho em dado espaço de tempo, portanto crescente intensidade do trabalho ou decréscimo do dispêndio improdutivo da força de trabalho” (K, I, 361; C, I, 270)198. Como veremos a intensificação do trabalho aparece como satisfação do ímpeto do capital por uma jornada de trabalho ilimitada, sendo o fundamento da extração de mais-valor relativo.

Há além do que temos exposto um outro “filão” na análise de Marx e que só acidentalmente temos feito menção, a saber, aquele que diz respeito aos resultados destes processos produtivos na sociedade, ou mais especificamente na população que vive do trabalho. Muito mais que uma divisão entre trabalho manual e trabalho intelectual, que seria uma conseqüência da subdivisão das tarefas baseadas em habilidades pessoais, o que Marx descreve como característico do período manufatureiro, e que no entanto parece se confundir com as tendências imanentes da produção capitalista, é a apropriação por parte do capital “das potências intelectuais” da sociedade, de um lado, e a criação, do lado dos trabalhadores, de um pólo de ignorância e brutalização. Citamos uma passagem extensa e que, no entanto, se justifica pela precisa ilustração da questão:

As potências intelectuais da produção ampliam sua escala por um lado, porque desaparecem por muitos lados. O que os trabalhadores parciais perdem, concentra-se no capital com que se defrontam. É um produto da divisão manufatureira do trabalho opor- lhes as forças intelectuais do processo material de produção como propriedade alheia e poder que os domina. Esse processo de dissociação começa na cooperação simples, em que o capitalista representa em face dos trabalhadores individuais a unidade e a vontade

198 Como diz Marx: “o período da manufatura [...] proclama conscientemente como princípio a diminuição do

tempo de trabalho necessário para a produção da mercadoria” (K, I, 368; C, I, 275). A manufatura pode até, em casos isolados, utilizar-se de máquinas, contudo “a maquinaria específica do período manufatureiro permanece o trabalhador coletivo, combinação de muitos trabalhadores parciais” (Idem). Certamente que decompondo o trabalhador coletivo temos funções diversas para as quais se estabelece salários diversos. “A manufatura desenvolve portanto uma hierarquia das forças de trabalho, à qual corresponde uma escala de salários” (K, I, 370; C, I, 276). Isto significa no texto de O Capital que ao lado da gradação hierárquica dos trabalhos, se cristaliza a divisão entre trabalho qualificado e não qualificado, sendo uma característica desta divisão no interior da manufatura a queda do valor da força de trabalho em ambos os casos. Pois do trabalhador não qualificado se exige o mínimo que qualquer homem é capaz de realizar, desaparecendo os custos de aprendizagem por inteiro. Para o trabalhador qualificado os custos irão se reduzir dada a função parcial e simplificada que este exerce no trabalhador coletivo. Como conclui Marx: “a desvalorização relativa da força de trabalho, que decorre da eliminação ou da redução dos custos de aprendizagem, implica diretamente uma valorização maior do capital, pois tudo que reduz o tempo de trabalho necessário para reproduzir a força de trabalho amplia os domínios do mais-trabalho” (K, I, 371; C, I, 276).

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do corpo social de trabalho. O processo desenvolve-se na manufatura, que mutila o trabalhador, convertendo-o em trabalhador parcial. Ele se completa na grande indústria, que separa do trabalho a ciência como potência autônoma de produção e a força a servir ao capital (K, I, 382; C, I, 283).

Neste ponto Marx faz questão de ressaltar que mesmo os economistas clássicos, como Smith, haviam percebido as conseqüências sobre o trabalhador da parcialidade e unilateralidade dos trabalhos. O “aparvalhamento” (Stumpfsinn) e “certa deformação física” seriam, contudo, pensam alguns economistas, amenizados pela marcha do progresso199. Sabemos que esta marcha do progresso tem outro nome, desenvolvimento das forças produtivas da sociedade. Nesta medida a divisão manufatureira do trabalho “é apenas um método especial de produzir mais-valor relativo ou aumentar a autovalorização do capital – o que se denomina riqueza nacional, Wealth of Nations, etc. – à custa dos trabalhadores” (K, I, 386; C, I, 286). Pois na medida em que o capital aprofunda sua subjetividade, isto é, na medida em que o capital põe as condições de sua própria produção, ele o faz apenas com a condição de subtrair a subjetividade do trabalhador, que se “coisifica”. As condições materiais do trabalho, as potências genéricas do trabalho social, as obras do espírito, com as matemáticas e as ciências, são apropriadas por um pólo antagônico ao trabalho. Elas não são opostas ao trabalho, mas antes são postas por sua apropriação como capital em relação antagônica com o trabalho, no sentido de que sua apropriação como capital se dá como subtração ao trabalho, ou que elas se acumulem como capital por se subtraírem a toda a sociedade. Do lado do trabalho resta a ação abstrata, que apenas recebe sentido por meio do comando do capital, ou da totalidade que lhe confere sentido. Como veremos este processo apenas se aprofunda, fazendo da aplicação consciente das ciências índice da produtividade e do trabalhador com mero vigia e auxiliar das máquinas.