2 PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS QUE INFORMAM UMA TRIBUTAÇÃO
2.3 Classificação dos princípios e regras constitucionais
Muitas são as classificações formuladas pela doutrina em relação aos princípios constitucionais, entretanto, não é fácil sistematizar uma classificação que esteja imune a críticas e controvérsias. Uma classificação de categorias ou institutos
jurídicos poderá ser de grande utilidade didática, mas, no entanto, poderá carecer de rigor científico, pois, muitas vezes, utiliza-se critérios que não podem ser entendidos como universais.
Dworkin (2002, p. 36), embora não tivesse a pretensão de formular uma classificação dos princípios, ele observa que em determinados casos, sobretudo aqueles casos mais difíceis, quando os profissionais do Direito raciocinam ou debatem sobre direitos e obrigações legais, eles recorrem a padrões (standards) que não funcionam como regras, mas operam diferentemente, como princípios, políticas ou outros tipos de padrões. Nesse momento, Dworkin (2002) faz uma crítica ao positivismo jurídico que é um modelo de e para um sistema voltado apenas para as regras e ignora os papéis importantes desempenhados pelos padrões que não são regras. Propõe-se, então, a utilização do termo princípio como gênero e como espécies aqueles padrões que não são regras, ou seja, classifica “princípios” em dois modelos de padrões, primeiro os princípios e segundo as diretrizes políticas.
Estas são as pautas que estabelecem os objetivos a serem alcançados, geralmente referidos a algum aspecto econômico, político ou social e aqueles, por outro lado, as pautas que devem ser observadas não por que viabilizem ou assegurem a busca de determinadas situações econômicas, políticas ou sociais que sejam tidas como convenientes, mas, sim, por que a sua observância corresponde a um imperativo de justiça, de equidade ou de outra dimensão da moral.
Com base nessa distinção formulada por Dworkin (2002), Grau (2015, p. 156) faz uma correlação, relativamente à Constituição brasileira de 1988, com os seguintes princípios:
a) Princípios – Art. 1º, caput e incisos; art. 2º; art. 4º e art. 5º, caput e incisos;
b) Diretrizes políticas – Art. 3º; parágrafo único do art. 4º; art. 170, caput (parcialmente).
Canotilho (2003, p. 1164-1167) após afirmar que a Constituição é um sistema aberto de princípios e regras, passa, então, a delimitar o tema dentro dos quadros do direito constitucional, agrupando os princípios em quatro tipos: a) princípios jurídicos fundamentais (Rechtsgrundsätze); b) princípios políticos constitucionalmente conformadores; c) princípios constitucionais impositivos; e d) princípios-garantia.
Assim, com base na Constituição de Portugal, Canotilho (2003, p. 1164-1167) classifica os princípios da seguinte forma:
a) Princípios jurídicos fundamentais -, são “os princípios historicamente objectivados e progressivamente introduzidos na consciência jurídica e que encontram uma recepção expressa ou implícita no texto constitucional [...]”
(CANOTILHO, 2003, p. 1165). Tais princípios pertencem à ordem jurídica positiva, constituindo-se em importante fundamento de interpretação, integração, conhecimento e aplicação do direito positivo.
Segundo Canotilho (2001), eles possuem uma dupla função, primeiramente a função negativa, particularmente relevante em situações limites como no caso de negação do Estado de Direito (ou Estado de não Direito) ou da legalidade democrática (ditadura). Essa função é também importante mesmo num Estado Democrático de Direito quando visa, por exemplo, coibir o excesso de poder (ex. o princípio da vedação do excesso). Em relação a sua função positiva, informam materialmente os atos dos poderes públicos, como, por exemplo, o princípio da publicidade dos atos dos poderes públicos e do princípio do acesso ao direito e aos tribunais. Alguns princípios possuem as duas dimensões, negativa e positiva, como é caso do princípio da proibição do excesso, o qual necessita não apenas de uma proibição do arbítrio, mas também de imposições positivas, como a exigibilidade, a adequação e a proporcionalidade dos atos públicos em relação aos seus fins;
b) Princípios políticos constitucionalmente conformadores – são “os princípios constitucionais que explicitam as valorações políticas fundamentais do legislador constituinte”. São nestes princípios que se condensam as opções políticas nucleares, refletindo a ideologia dominante. São os princípios definidores da forma de Estado (princípios da organização econômico-social), da estrutura do Estado (unitário, com descentralização local ou com autonomia local e regional), da estruturação do regime político (princípios do Estado de Direito, princípio democrático, princípio republicano, princípio pluralista), da caracterização da forma de governo e da organização política em geral (princípio da separação de poderes, interdependência de poderes e os princípios eleitorais). Tal qual acontece com princípios jurídicos fundamentais, são normas basilares e operantes que vinculam qualquer órgão encarregado de aplicar o direito, quer seja em atividades meramente interpretativas quer seja em atos conformadores, tanto legislativos como executivos;
c) Princípios constitucionais impositivos - são todos “os princípios que impõem aos órgãos do Estado, sobretudo ao legislador, a realização de fins e a execução de
tarefas”. São princípios dinâmicos prospectivamente orientados para um fim, sendo também conhecidos por preceitos definidores dos fins do Estado, princípios diretivos fundamentais ou normas programáticas, definidoras de fins ou tarefas. Traçam diretrizes, sobretudo, para o legislador na sua atividade política e legislativa.
Exemplifica, a partir da Constituição portuguesa, o princípio da independência nacional e o princípio da correção das desigualdades na distribuição da riqueza e do rendimento;
d) Princípios-garantia – são os princípios que visam, de forma direta e imediata, uma garantia dos cidadãos. Possuem uma densidade de autêntica norma jurídica e uma força determinante, positiva e negativa. Como exemplo, extraído da Constituição portuguesa, o princípio de nullum crimen sine lege e de nulla poena sine lege, o princípio do Juiz natural, os princípios de non bis in idem e in dúbio pro reo.
Numa análise sistemática da atual Constituição brasileira, a partir do critério classificatório de Canotilho (2003, p. 1164-1167), é possível agrupar, não em sua totalidade, os princípios relacionados a cada tipologia descrita pelo referido autor: a) Princípios jurídicos fundamentais – art. 5º, XXXV (princípio da inafastabilidade jurisdicional ou acesso à justiça) e LV (princípio do contraditório e da ampla defesa);
art. 37, caput (princípio da publicidade); b) Princípios políticos constitucionais conformadores – art. 170 (forma de Estado); art. 1º, caput (estrutura de Estado); art.
1º, V (regime político); art. 2º e art. 14 (forma de governo e organização política); c) Princípios constitucionais impositivos – art. 2º e art. 170, caput (assegurar a existência digna); d) Princípios-garantia – art. 5º, III, VIII e XXXIX.
Canotilho (2003, p. 1168-1173), também, apresenta uma classificação das regras constitucionais, partindo da distinção entre regras jurídico-organizacionais e regras jurídico-materiais.
As regras jurídico-organizacionais regulam, basicamente o estatuto da organização do Estado (são normas de ação) e podem ser divididas em:
a) Regras de competência - são regras que estabelecem competências a determinados órgãos constitucionais ou a esferas de competência entre vários órgãos constitucionais;
b) Regras de criação de órgãos (ou regras orgânicas) - estão relacionadas com as regras de competência, mas visam disciplinar a criação ou instituição
constitucional de certos órgãos e quando fixam as atribuições e competências dos mesmos, diz-se que são normas orgânicas e de competência;
c) Regras de procedimento – as normas procedimentais geralmente são remetidas para leis ordinárias, porém, nos casos em que o procedimento é um elemento fundamental da formação da vontade política e do exercício das competências constitucionalmente consagradas, são estabelecidas no próprio texto constitucional. Exemplos encontrados na Constituição portuguesa: direito eleitoral, procedimento de controle de constitucionalidade e os procedimentos especiais de revisão constitucional.
Já as regras jurídico-materiais se dividem em:
a) regras de direitos fundamentais – São todos preceitos constitucionais de reconhecimento, garantia e conformação dos direitos fundamentais. Direta ou indiretamente asseguram um status jurídico-material aos cidadãos;
b) regras de garantias institucionais – destinam-se a proteger instituições tanto públicas como privadas. Muitas vezes estão associadas as regras de direitos fundamentais, visando proteger formas de vida e de organização sociais indispensáveis a própria proteção de direitos dos cidadãos. Exemplos da Constituição de Portugal: proteção à família como instituição, paternidade, maternidade e ensino;
c) regras determinadoras de fins ou tarefas do Estado – estes tipos de normas devem associar-se com os princípios impositivos. São aqueles preceitos que, de uma forma global e abstrata, fixam essencialmente os fins e as tarefas prioritárias do Estado. Algumas estão relacionadas com a realização e garantia dos direitos dos cidadãos, sobretudo, com os direitos econômicos, sociais e culturais. Tais normas, muitas vezes, não têm a densidade suficiente para realizar direitos e deveres dos cidadãos, mas qualquer outra norma contrária ao seu conteúdo vinculativo é inconstitucional;
d) regras constitucionais impositivas – tem estreita conexão com as regras determinadoras de fins ou tarefas do Estado e com os princípios constitucionalmente impositivos. Em sentido amplo são todas as normas que estabelecem tarefas e diretivas materiais ao Estado. Contudo, em sentido estrito, correspondem às imposições de caráter permanente e concreto. Essas imposições se subdividem em dois grupos: imposições legiferantes e ordens de legislar.
As imposições legiferantes vinculam constitucionalmente os órgãos do Estado, sobretudo o legislador, ao cumprimento de tarefas, fixando, inclusive diretivas materiais (exemplos na Constituição portuguesa: imposição de criação do sistema de segurança social, imposição de criação do Serviço Nacional de Saúde, política de ensino).
As ordens de legislar se referem a imposições constitucionais únicas que impõem ao legislador a edição de uma ou várias leis destinadas a possibilitar a instituição e funcionamento de órgãos constitucionais.
Após formular essas classificações de princípios e regras constitucionais, Canotilho (2003, p. 1173) esclarece que esse conjunto articulado de princípios e regras, de diferentes tipos e características formam um sistema interno alicerçado em princípios estruturantes que, por sua vez, assentam em subprincípios e regras constitucionais concretizadores desses mesmos princípios. Por conseguinte, a constituição é formada por regras e princípios com diferentes graus de concretização ou diferente densidade semântica.
Assim, esclarece Canotilho (2003, p. 1174), por exemplo, o princípio estruturante do Estado de Direito é densificado ou concretizado por vários outros princípios e subprincípios denominados de princípios constitucionais gerais (da constitucionalidade, da legalidade etc). Estes princípios constitucionais gerais, por sua vez, podem ser densificados ou concretizados pelos princípios constitucionais especiais (da legalidade da Administração, reserva da lei etc). Mas, os princípios estruturantes não são apenas densificados por princípios constitucionais gerais ou especiais. A sua concretização também é feita por várias regras constitucionais. E todos esses princípios e regras poderão obter maior grau de concretização e densidade através da concretização legislativa (leis ordinárias) e jurisprudencial (decisões jurisdicionais).
Convém salientar, “que um sistema baseado apenas em princípios também se mostra inaceitável, pois esse se caracterizaria pela total indeterminação, dada a carência de regras precisas” (RODRIGUES, 2003, p. 210).
Torres (2013, p. 89), os princípios são a porta de entrada dos valores na ordem jurídica, representam o primeiro estágio de concretização dos valores a que se vinculam. A justiça e a segurança jurídica começam a ganhar densidade ou concretude normativa através dos princípios e subprincípios. Os subprincípios se situam na etapa seguinte de concretização dos valores. Entretanto, os princípios e
subprincípios ainda comportam um alto grau de abstração e de indeterminação. As regras ocupam o lugar seguinte no processo de concretização do direito, subordinando-se sucessivamente ao subprincípio, que por sua vez, subordina-se ao princípio e ao valor a que todos se vinculam. Por fim, Torres (2013, p. 90) afirma que
“o grau máximo de concretude do direito surge quando o juiz, por sentença, reconhece e fixa os direitos e obrigações das partes, com o que realiza a justiça e garante a paz”.
Como ponto de partida para elaboração deste trabalho, é de fundamental importância refletir sobre os seguintes questionamentos: a concentração de riqueza é justa? De que forma o Estado pode intervir para reduzir essa concentração de riquezas? A tributação é um instrumento eficaz? Qual a justa e melhor distribuição da carga tributária? Quem deve suportar essa carga tributária em maior proporção?
As respostas a esses questionamentos requerem a identificação dos princípios que se deduzem do valor justiça que, determinando finalidades e diretivas ao sistema jurídico, orientam as possíveis interpretações das normas jurídicas.
Do ponto de vista dos objetivos desse estudo, deduz-se que o valor a ser alcançado seria a justiça social e, seguindo o raciocínio de Canotilho (2003) sobre a densificação ou concretude dos princípios e regras, o ponto de partida seria a análise do princípio estruturante de todo ordenamento jurídico constitucional, ou seja, o princípio do Estado Democrático de Direito (art. 1º, da CF/1988), em seguida, o princípio constitucional geral da isonomia (art. 5º, da CF/1988), em seu aspecto formal e material e, logo após, o princípio constitucional especial da isonomia tributária (art. 150, II) e, por fim, o subprincípio da capacidade contributiva (art. 145,
§1º, da CF/1988). Ainda para se obter o maior grau de concretude e densidade, pode-se adotar o critério da progressividade tributária como instrumento necessário a realização da igualdade substancial.