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Desigualdades de rendas e a justificativa da progressividade tributária

No documento PROGRAMA DE PÓS (páginas 118-121)

4 A TRIBUTAÇÃO PROGRESSIVA SOBRE A RENDA COMO INSTRUMENTO

4.2 Desigualdades de rendas e a justificativa da progressividade tributária

O Brasil foi um dos poucos países que ficaram de fora das pesquisas do economista francês Piketty (2014) que fornecem uma perspectiva global sobre concentração de renda no topo da distribuição, a partir de dados das declarações do imposto de renda divulgados pelos órgãos oficiais de cada país. Na maior parte dos países mais ricos, a concentração de renda é mais elevada no topo da distribuição.

Os estudos sobre as desigualdades de renda, no Brasil, normalmente, são feitos a partir de dados do Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios – PNAD e da Pesquisa de Orçamento Familiares – POF e, também, pela pesquisa do Censo Demográfico, todas realizadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas - IBGE. Entretanto, esses levantamentos domiciliares, normalmente utilizados para analisar a distribuição de renda tendem a subestimar os rendimentos mais elevados, seja por limitações inerentes à amostragem e aos desenhos dos questionários, seja por omissão de respostas ou desconhecimento real dos rendimentos (MEDEIROS;

et tal, 2015).

Portanto, as informações do imposto de renda são essenciais, podendo complementar esses dados na medida em que ajudam a revelar a renda dos estratos superiores que não é totalmente alcançada pelas pesquisas domiciliares.

Nas pesquisas, a análise, normalmente, é dividida em grupos de 10%, os chamados decis. A parcela dos 10% mais ricos é subdividida em faixas que são os

5% mais ricos, o 1% mais rico e o 0,1% mais rico. Na tabela 4 abaixo, demonstra a participação das faixas de rendas com base em dados fiscais de alguns países selecionados.

Tabela 4 – Participação das faixas de rendas por decis (%).

País Ano 10% mais ricos 5% mais ricos 1% mais rico 0,1% mais rico

EUA 2014 47,2 34,36 17,9 7,5

Itália 2009 33,9 23,2 9,4 2,7

Alemanha 2008 39,5 28,1 13,9 5,9

França 2012 32,3 21,5 8,9 2,9

Reino Unido 2012 39,1 27,5 12,7 4,6

Japão 2010 40,5 26 9,5 2,5

Fonte: http://topincomes.parisschoolofeconomics.eu/#database

No Brasil, dados recentes divulgados pela Receita Federal do Brasil a partir das Declarações de Imposto de renda das Pessoas Físicas - DIRPF, mostra que a concentração de renda no país supera qualquer outro país. O décimo mais rico concentra pouco mais da metade da renda (52%); o centésimo mais rico detém algo próximo a um quarto (23,2%); e o milésimo mais rico chega a um décimo (10,6%). O mais impressionante é quando alcançamos o meio milésimo mais rico que corresponde a 71 mil pessoas que se apropriam de 8,5% de toda a renda brasileira (GOBETTI; ORAIR, 2016, p. 25).

Segundo a OCDE, no Brasil, constata-se que os gastos sociais e a tributação desempenham um papel menor na redução da desigualdade do que na maioria dos países da OCDE. O papel redistributivo do sistema tributário brasileiro é pouco explorado. A Organização também ressalta que embora o Brasil tenha uma carga tributária total semelhante à média da OCDE (acima de um terço do PIB), o sistema tributário brasileiro como um todo, levando em conta os impostos diretos e indiretos, na verdade aumenta a desigualdade (OCDE, 2015).

Isso se deve à alta dependência em impostos indiretos – que são regressivos, como na maioria dos países; baixa progressividade do Imposto de Renda da Pessoa Física, em parte como resultado de lacunas significativas que favorecem os indivíduos com rendimentos acima da média; e um teto sobre as contribuições previdenciárias (OCDE, 2015).

Essas lacunas a que se refere a OCDE (2015) diz respeito às isenções dos lucros e dividendos e, também, a opção que as empresas têm de pagá-los como

juros sobre capital próprio, que são tratados como despesa, ou seja, não estão sujeitos à tributação sobre o rendimento das empresas (IRPJ). Isso tem efeitos regressivos sobre a distribuição de renda e reduz também a poupança corporativa.

A organização também reconhece que o papel redistributivo do sistema tributário brasileiro é pouco explorado e faz recomendações no sentido de aumentar a progressividade dos impostos diretos, corrigindo as lacunas da legislação, revisando as alíquotas e as isenções dos lucros e dividendos do IRPF (OCDE, 2015).

Essa concentração de renda no topo superior das rendas em todo mundo teve a contribuição das políticas governamentais, principalmente, as mudanças na tributação. Convencido de que a progressividade do sistema tributário era um mal a ser eliminado, por penalizar os indivíduos e empreendedores mais capazes e obstruir a prosperidade econômica, a taxa marginal do imposto de renda mais alta foi baixada de 70% para 28%, na administração de Reagan; subiu para 39,6%

durante a administração de Clinton e desceu finalmente para 35% durante a presidência de George W. Bush (STIGLITZ, 2013).

Mais escandaloso, segundo Stiglitz (2013), foi a redução da taxa de imposto para 15% dos ganhos de capital, que para ele foi uma espécie de benesse para os ricos, contribuindo mais ainda para incrementar as desigualdades.

Essa orientação foi seguida por outros países desenvolvidos e em desenvolvimento que reduziram as alíquotas marginais do imposto de renda e, também, da alíquota sobre a distribuição de lucros e dividendos.

Mas, no Brasil, foi ainda mais radical, além da redução da alíquota sobre os lucros que caiu para 15%, na administração do presidente Fernando Henrique Cardoso, procedeu-se a isenção do IRPF dos lucros e dividendos distribuídos aos sócios e acionistas. Atualmente, dos países membros da OCDE, somente o Brasil e a Estônia que continuam isentando os lucros e dividendos, pois todos os países que concederam tal isenção recuaram e voltaram a tributar. Essas ações contribuíram para concentração de rendas e, por conseguinte, intensificaram as desigualdades na distribuição de rendas.

Essas mudanças nos Sistemas tributários surgiram, principalmente, por influência concepções restritivas da literatura da tributação ótima, num contexto em que a revolução neoclássica dos anos 1970-1980 questionava toda a política fiscal do keynesianismo, construindo-se uma espécie de consenso no mainstream e entre

policymakers de que a política tributária, para não introduzir distorções no sistema econômico, deveria se abster dos objetivos distributivos, transferindo-se ao gasto público essa função clássica da política fiscal (GOBETTI; ORAIR, 2016).

Esse foi o modelo de política fiscal que predominou e predomina até hoje no Brasil, mas que deve ser reavaliado frente aos sinais de esgotamento do gasto redistributivo e dos obstáculos ao seu financiamento (GOBETTI; ORAIR, 2016).

Os estudos de Piketty (2014) evidenciaram que foram as grandes crises e guerras que provocaram uma transformação na estrutura das desigualdades no século XX e que nesse século essas desigualdades estão prestes a voltar a seus picos históricos ou até mesmo ultrapassá-los no novo contexto da economia global.

Diante desses fatos, o autor afirma que as experiências históricas de crises econômicas, políticas e guerras exigem a retomada das instituições e políticas públicas de superação do capitalismo patrimonial de forma pacífica e mais duradoura antes que novas crises e uma verdadeira guerra mundial venham acontecer no século XXI. Para Piketty (2014), a instituição ideal que permitiria regular o capitalismo patrimonial seria o imposto progressivo sobre o capital.

Stiglitz (2013, p. 363) propõe, dentre outras mudanças, uma reforma fiscal urgente que crie um sistema tributário mais progressivo sobre os rendimentos individuais e os lucros da sociedade – com menos lacunas jurídicas. Defende, ainda, um sistema de imposto progressivo sobre a herança.

No documento PROGRAMA DE PÓS (páginas 118-121)