CAPÍTULO 3 RESULTADOS
3.2. TEMA 2: COMO É QUE A TERAPIA PROMOVE O BEM ‑ESTAR?
3.2.6. Cliente explicita o tipo de relação
Nesta grande categoria agrupam-se os aspetos da relação terapêutica que foram considerados pelos participantes importantes no aumento ou na diminuição do seu Bem -Estar.
É interessante verificar que os participantes distinguem claramente a psicotera- pia como processo, da pessoa do terapeuta e ainda da relação estabelecida com este. Esta distinção é explícita, por exemplo, no discurso de uma participante ao descrever como decidiu interromper um processo de terapia de grupo devido à relação com o terapeuta, sendo simultaneamente clara para si a importância de um processo psico- terapêutico, para o seu Bem -Estar.
“ ‘Olhe é assim, e como eu ainda não paguei o mês todo’ porque isto foi a meio do mês… ‘é assim, eu nem vou esperar… eu vou já aí para a semana, porque como não aceita che- ques… ou mando um vale de correio, ou então vou aí com o cheque e vou-me despedir outra vez das pessoas, para terem a certeza que eu me vou embora’. E assim foi… pronto, e depois pensei: ‘Bem, mas eu preciso de fazer terapia… agora o que é que eu vou fazer à minha vida? O que é que eu vou fazer à minha vida… ?’” (P11, E)
Procura-se agora compreender o modo como os participantes se referem à rela- ção terapêutica. Em primeiro lugar é importante o modo como estes definem esta rela- ção. Tipicamente os participantes definiram ou descreveram a relação terapêutica como “ativa” e “mútua”, “natural”, “próxima”, “cúmplice” e “forte”. No entanto, alguns partici- pantes referiram ter tido relações terapêuticas que foram “pouco empáticas”, desrespei- tantes, “condescendentes” e de curta duração. Voltamos a recordar que muitos destes pacientes têm a experiência de mais do que um processo e relação terapêuticos.
Para além destas descrições, procurámos compreender o que os participantes disseram que sentiam ter recebido na relação com o terapeuta. Aqui agrupam-se, quer aspetos sentidos pelos participantes como positivos e construtivos, quer aspetos sentidos como negativos e destrutivos da relação.
Em relação aos aspetos positivos, os participantes referem que sentem que rece- beram dos seus terapeutas “Confiança”, “Empatia e Compreensão”, “Atenção focada”,
uma certa “Direção suave, tranquila e de esperança”, Aceitação e ainda o sentimento de que são” Importantes para os terapeutas”.
No trecho que se segue, transcreve-se uma passagem de uma das entrevistas que integra várias destas ideias, nomeadamente a confiança ou segurança, a com- preensão e ainda a direção de esperança, sentidas na relação com o terapeuta.
“… e ele (o terapeuta).… e eu sentia que era uma pessoa que me entendia, está a ver… que me ia agarrar… eu sabia que ele não me ia deixar cair… e que eu podia fazer de uma forma ah… sem ser… ah… sem ser, sem ter alguém a apontar-me o dedo e a dizer: ‘olha pronto esquece, deixa isso pra trás, já passou’ não… (…) primeiro, era uma pessoa ex- tremamente afetiva… mas não era um afetivo ah… há pessoas que são muito afetivas mas não chegam aos outros… pronto… o que ele tinha sempre, era um discurso… con- descendente, muito compreensivo, muito afetivo… e no fim, com uma possibilidade de qualquer coisa, que era uma coisa que eu nunca tinha encontrado na vida… ou seja… isto existe, é doloroso, é traumático… mas há uma solução… e pode haver uma coisa melhor a seguir.” (P06, E)
Em relação aos aspetos negativos, mais raramente, os participantes referiram sentir dos terapeutas: “demasiado silêncio” (“O silêncio dele era tão grande, sempre…” P01, E), “falta de informação” ou enquadramento sobre a terapia; “falta de respeito” (por exemplo: “não perguntar pelos trabalhos de casa”), falta de abertura ou imposição de ideias relativas ao modo (por exemplo, “deitar-se no sofá”) ou conteúdos a trabalhar (“Se for para trabalhar tem que ser uma coisa em que a gente decida que é preciso tra- balhar em conjunto, não é mandar uma mensagem.” (P05, E). Referiram, ainda, falta de espaço para dizer o que pensavam e sentiam perante o que descrevem como reações negativas, “culpabilizantes”, agressivas ou “defensivas” dos terapeutas. De referir que estes aspetos são, geralmente, mas não só, referidos em contextos de terapias que não foram satisfatórias para os participantes, embora de duração variável.
Outra forma que os participantes utilizaram para expressar o modo como con- cebiam a relação terapêutica, foi através do relato de episódios da relação que expli- citam o modo como, a reação do terapeuta aos comportamentos do cliente pode ser construtiva ou destrutiva dessa relação. No episódio que se apresenta de seguida, face à zanga da cliente (pela terapeuta lhe ter pedido uma alteração da data da sessão e não
ter compreendido que ela se sentia incapaz para lhe recusar qualquer pedido), a tera- peuta reage de uma maneira que a cliente sente como reparadora da relação.
“porque a (terapeuta) conseguiu… primeiro: passar a sessão sem se zangar comigo; se- gundo: pôr-me limites a cada segundo, porque eu não parava; terceiro: assumir completa responsabilidade por não ter percebido que eu lhe ia dizer que sim; quarto: garantir-me, porque a dada altura eu comecei a ficar aflita com isso, que não era por causa daquele escabeche todo que eu ia deixar de ter os meus minutos de despedida tranquilos no fim; mais, em momento nenhum me deixou de dizer que aqueles minutos no fim não eram só por minha causa, ela também apreciava… E eu ainda hoje fico maluca a pensar que alguém consegue fazer uma coisa destas… portanto, se quiser uma grande, esta é grande!” (P12, E)
Pelo contrário, num outro episódio face à expressão do descontentamento da clien- te, o comportamento do terapeuta é sentido pela cliente como destrutivo da relação:
“eu um dia disse: ‘Olhe eu venho aqui dizer que me venho despedir, porque vou tentar arranjar outra coisa, porque isto não serve e tal, não sei o quê…’. E ele fez uma coisa horrível que foi… nessa noite ligou-me e disse: ‘Oh (nome da Participante) mas vai-se mesmo embora? A (nome da Participante) não é capaz! A (nome da Participante) conse- gue lá viver sem…’. Bem, então aí é que eu me fui mesmo embora e fiz uma coisa… tipo desafiei-o e disse: ‘Olhe é assim, e como eu ainda não paguei o mês todo, porque isto foi a meio do mês… é assim, eu nem vou esperar…’” (P11, E)
Um aspeto comum a algumas destas situações é que na perspetiva dos parti- cipantes, elas têm origem no confronto feito ao terapeuta através da expressão das opiniões, descontentamentos ou críticas. Das situações referidas, onde o comporta- mento do terapeuta desagradou ao cliente ou criou algum tipo de rotura na relação, é de sublinhar que algumas delas se referem a situações fora das consultas, a contactos extra-sessões, telefonemas ou mensagens.
De notar que, por vezes, os participantes disseram ter comunicado aos terapeu- tas os seus sentimentos, mas noutras não. Alguns dos desagrados na terapia tiveram origem nos terapeutas fazerem algo de que os clientes não gostavam ou em não faze- rem algo que os clientes sentiam que precisavam ou queriam, o que vai ao encontro do estudo sobre os mal-entendidos terapêuticos de Rhodes, Hill, Thompson e Elliott (1994). No entanto, há que sublinhar que os participantes do nosso estudo referem, em alguns casos, terem abordado essa sua insatisfação com os seus terapeutas. Essa
revelação, umas vezes permitiu a resolução da rotura da relação, outras vezes não, já que, na perspetiva dos participantes, o terapeuta reagiu negativamente a essa revela- ção. Quando o terapeuta reagiu negativamente os participantes revelam que deixaram de sentir espaço para dizer o que pensavam, por anteciparem uma reação negativa do terapeuta. Nesses raros casos, essa reação negativa foi causadora de sentimentos de “mágoa”, “zanga”, afastamento, “desistência” e ainda do término da terapia.
Por último, focamo-nos nas descrições dos participantes dos seus sentimentos em relação ao terapeuta. De um modo geral, os sentimentos mais comummente re- feridos pelos participantes face aos terapeutas são sentimentos de afeto, de gratidão e de admiração pelo terapeuta: O terapeuta “é quase como uma pessoa da nossa família” (P08, E). No entanto, são também recordados e expressos sentimentos raros e fortes de “zanga” e “mágoa”, especialmente relativas a momentos ou a sessões específicas, que, no seu conjunto, demonstram a existência de laços terapêuticos fortes.