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CAPÍTULO 3 RESULTADOS

3.2. TEMA 2: COMO É QUE A TERAPIA PROMOVE O BEM ‑ESTAR?

3.2.4. Contributos do cliente para o processo

Para além de descreverem os impactos positivos e negativos da terapia, no geral todos os pacientes referem e refletem sobre as suas contribuições para a psicoterapia, ou seja, sobre o modo como eles próprios contribuíram para que o processo terapêu- tico fosse bem-sucedido. Os participantes referiram, quer as suas atitudes e compor- tamentos, quer as suas características pessoais que tiveram, na sua perspetiva, um impacto positivo no processo.

Tipicamente para os participantes, a sua disponibilidade ou abertura durante o processo foi um dos aspetos determinantes, sendo que alguns dos participantes re- lacionam essa abertura também com a gravidade da situação, com a “necessidade de ser ajudada” ou “mais do que a vontade de ser feliz, com vontade de deixar de sofrer”.

“Sim, eu acho que também parte muito do nosso lado. Uma pessoa que vá para a terapia de pé atrás e que vá disposta a esconder coisas, e não sei o quê, aquilo não vai funcionar de certeza, pelo que eu percebi, não vai funcionar mesmo… porque vai haver ali um gato e rato que só vai prejudicar mais nada…”(P04, E)

Esta abertura integra a abertura, no sentido de exposição, do ser verdadeiro e autêntico, mas também abertura, no sentido recetivo, para ouvir e aceitar as sugestões do terapeuta.

“mas sim, recapitulando, é isso… se tivesse que dizer qual o fator que faz toda a diferença ou é crucial para uma pessoa que procura acompanhamento psicoterapêutico tirar al- guma coisa e conseguir algum resultado positivo da experiência é… quando se pretende abordar ou procurar a ajuda, aceitar que é preciso saber ouvir e aceitar a ajuda (P14, E)

Os participantes apresentaram ideias claras sobre os seus contributos, enquanto clientes no processo, e é interessante verificar que o aspeto principal referido – a aber- tura e disponibilidade para o processo terapêutico e dentro do processo terapêutico, foi sublinhado como um dos contributos para que este tivesse sido bem-sucedido.

Os participantes falaram de abertura, no sentido de disponibilidade para o pro- cesso, “mente aberta” e “coração aberto”, o permitir-se sofrer e confiar e ainda de uma abertura para receber e agir de acordo com as sugestões do terapeuta, isto é, como uma disposição ou atitude geral face à terapia.

No entanto, também é claro para os participantes que essa abertura foi também possível graças à postura do terapeuta e à relação construída. Como nos diz uma par- ticipante:

“embora essa confiança seja, de facto construída e, apesar de eu achar que estava muito disponível para o processo, porque fui muito com uma postura de: se é para ser é para ser, se é para resolver eu ah… eu faço o que for preciso, fui muito nesta… mas também ao mesmo tempo… perceber se a pessoa, se aquilo, me fazia sentido… se o que a pessoa me fosse solicitar ou… se aquilo me fazia sentido ah… e portanto, claro que a relação de confiança teve de ir sendo construída, apesar de eu estar disponível para ela.” (P03, E).

Para além da sua disponibilidade, os participantes consideraram que, como clientes, contribuíram para o processo através do seu pensamento, elaboração e discussão, dentro e fora das sessões, sobre aquilo que se passava na terapia:

“(…) mas às vezes sinto muito isso, que foi realmente que, que é os vários raciocínios que eu fui fazendo, ao longo da terapia que… porque a terapia… eu estava lá 2 horas e de- pois vinha de camioneta e continuava a terapia e depois chegava a casa e muitas vezes, aquilo continuava a funcionar. (que uma das coisas que tu achas que ajudou foi o teres tido tempo para pensar… ?) Se calhar a viagem de autocarro era boa (hum hum) nunca pensei nisso, mas sim, se calhar, se calhar haver esse processo, em que não acontecia nada mais nada até voltar a casa, ou mesmo a conduzir de carro até casa, se calhar sim, isso foi… uma mais valia… se calhar sim… pronto partir de agora já sabem, vão mandar os pacientes todos 100 km longe: ‘Para si o seu caso é melhor ter um psicoterapeuta no Porto!’” (P04, E).

Para além de elaborarem sobre a terapia e sobre a sua disponibilidade para o processo, os participantes consideraram ainda que algumas das suas qualidades pessoais como a “coragem”, a “intuição”, o “compromisso” ou a sua capacidade para acreditar na possibilidade de mudança contribuíram igualmente para os resultados da terapia.

“pronto foi a força e a determinação, a persistência, tudo isso são qualidades que eu te- nho e que me fez não cair no buraco, pronto… podia ter caído na bebida, enfim qualquer coisa, que era fácil na altura… e isso fez-me, deu-me algum suporte, portanto… (…) Sim, perseverança sempre tive… não, isso sempre tive, muito…” (P14, E)

A reflexão profunda dos participantes revela-se em muitos aspetos dos seus dis- cursos ao longo das entrevistas. Aqui, a participante, que se cita de seguida, articula não só uma característica pessoal que considera ter contribuído para a psicoterapia e para o seu Bem -Estar ao longo da vida, mas também como essa característica se pode tornar num aspeto que dificulte o processo e, ainda, como tudo isto se liga com as pró- prias características da terapeuta.

“uma prodigiosa imaginação… e que imaginação claramente é um recurso e sim requer isto… e requer esta coisa de, precisamente, perante uma coisa que não está, eu poder imaginar alguma coisa que é quase inimaginável, no sentido em que a qualidade daquela coisa que eu estou a imaginar é tão completamente diferente daquilo que é a minha experiência neste momento, não é… e eu acho que isso é um recurso na minha vida e desde miúda… foi aquilo que de certo modo me protegeu, me foi permitindo, mesmo com uma data de dificuldades ir ultrapassando certas fases, mas que tem o seu lado complexo, porque depois… ou que tem um lado que começa a tornar-se perturbador, quando nós percebemos que isto também significa que temos dificuldade em ficar com o que existe no presente e em valorizá-lo… mas por exemplo, do ponto de vista de um processo terapêutico, é uma coisa que pode ser extremamente útil, porque a pessoa começa o processo terapêutico e tem à partida a capacidade inata de acreditar que as coisas vão mesmo ser diferentes e vai mesmo haver diferença e isso é uma coisa que a (nome da Terapeuta) também transmite às pessoas claramente, seguramente ela tem essa capacidade, mas que é uma coisa que eu tinha minha…” (P12, E)

Estes resultados relativos ao modo como os participantes ponderam sobre a sua contribuição para o processo terapêutico vem mostrar como os participantes valorizam a sua participação e contribuição ativas, quer dentro quer fora das sessões, durante o processo. Mostram também como os participantes ponderam certas características pessoais como recursos ou características facilitadoras e promotoras da sua resiliência durante a sua vida e na terapia.