• Nenhum resultado encontrado

CAPÍTULO 3 RESULTADOS

3.2. TEMA 2: COMO É QUE A TERAPIA PROMOVE O BEM ‑ESTAR?

3.2.5. Cliente explicita o que o terapeuta fez

Para além das suas contribuições para o processo, todos os participantes se re- ferem também àquilo que os terapeutas fizeram que consideram que foi importante no processo. Nas descrições sobre as atividades do terapeuta durante a terapia, que pa- recem ter ajudado, surgem duas ideias centrais. A primeira ideia é a de que houve uma participação ativa do terapeuta na terapia através do diálogo e do fazer perguntas, mas também através da sugestão ou da proposta de soluções, da proposta de exercí- cios, do ensinar, do sinalizar o importante e orientar, dar sentido e explicar.

Raramente os participantes referiram momentos especialmente significativos do processo e que implicaram uma autorrevelação do terapeuta, quer falando da sua ex- periência pessoal, quer chorando empaticamente em resposta à revelação do cliente.

“Não, o terapeuta aí foi fantástico, porque eu falei-lhe do meu episódio e o terapeuta começou a chorar… (hum, hum…) e eu: ‘O terapeuta está a chorar?…’ e aquilo inco- modou-me de alguma forma e depois ele perguntou-me: ‘Não está a perceber onde é que esteve, o que é que lhe aconteceu?’… ah… e eu vá… e saí daquela sessão e depois comecei a pensar… portanto eu não vejo… o que ele… o que ele vê… é por isso é que não choro na verdade… ah… e depois percebi porque é que ele estava a chorar… e de- pois percebi… depois foi tudo, as coisas todas atrás umas das outras… porque é que eu nunca percebi, porque é que eu tinha andado sempre sozinho, porque é que eu nunca tinha fechado nada, porque é que bebia, porque que é que… ah… e depois foi o assumir isso. Isto é, fechei-me para a vida… para fugir da vida, porque a vida não foi boa comigo na verdade (…)” (P01, E)

Assim, na sequência das atividades do terapeuta, os participantes refletem sobre como estas possibilitaram um conjunto de outras atividades dos clientes. Nas descri- ções dos participantes os acontecimentos terapêuticos encadeiam-se através da parti- cipação ativa, tanto dos terapeutas como dos pacientes.

“(…) ela (a terapeuta) expunha aquilo que eu tinha falado e eu expunha aquilo que eu tinha pensado sobre isso e andávamos assim, sempre para a frente e para trás e isso ajudava-me a perceber as minhas melhorias, a ver as minhas melhorias claramente, não sou só eu que…, porque há coisas que nós fazemos, quase que naturalmente, e não nos apercebemos disto e, ter alguém que nos diga: ‘Conseguiu fazer isto’, e pronto, isto aju- dou-me muito a ver melhorias e vendo melhorias eu também confiava mais, por muito que houvesse ali coisas que eram difíceis de falar, de assumir… ah… mas isso foi uma das coisas que me ajudou, foi o ter havido sempre feedback, foi ter havido sempre o ponto da situação: ‘O que é que aconteceu até aqui? O que pensas? Como é que melhoraste?’… e

isto era feito em 20 minutos, mas que era muito confortável para mim, era, que me dava realmente a sensação de que estava a ser ouvida”. (P2, E)

Neste testemunho a participante realça a interação e a importância do feedback do terapeuta e de como este lhe permite tomar consciência das suas melhorias e mu- danças e assim aumentar a sua confiança no processo e sentir que estava a ser ouvida.

“Eram perguntas, quando ela me fazia a pergunta… tornava-se tudo tão óbvio (ri) que eu, ao juntar A mais B, às vezes o problema estava resolvido (ri) o problemas estava resolvido e eu às vezes começava-me a rir… realmente, como é que eu não pensei nisso antes? (ri) Pronto. Isso era, foi, um processo que eu achei engraçado. É que nunca, lá está, ela nunca me disse… nunca me fez, nunca me deu uma receita!… Eu, pura e simplesmente, fui sen- do encaminhado, não é. É quase a casca da banana no bom sentido (ri). Era um bocadinho isso (ri) eu ia andando e de repente escorregava numa coisa… Ah! Espera lá! não, faz todo o sentido, realmente não pode ser. Assim sim, assim é que está certo e isto resolve-me. E eu acho… é essa história de não ter tido receita, eu acho que foi fantástico. (hum hum) porque no fundo, é quase como se eu próprio tivesse resolvido os problemas” (P04, E)

Como se pode ler neste último exemplo, os clientes valorizaram a atividade dos terapeutas e até a sua orientação, no entanto, frequentemente e simultaneamente, os participantes valorizaram posturas de não liderança do terapeuta. Os participantes referiram que, enquanto clientes, sentiram que o terapeuta não decidia por eles, pois sentiam que a decisão era sua, ajudada, suportada ou orientada pelo terapeuta, mas assumida e integrada pelo cliente como sua. Esta ideia é expressa de modos muito va- riados pelos diversos participantes. Seguem-se dois exemplos que ilustram esta ideia:

“Ah… Em boa medida, acho tinha a ver com isso que a minha terapeuta fazia de (…) ela não me dava a palavra dela para nomear aquilo. Por exemplo, eu estava a chamar-lhe isto de… por exemplo: Houve uma coisa, agora lembrei-me, de dizer que estava a mentir, ou que estava… Por exemplo, ligavam-me, e como estavam sempre a ligar, eu às vezes não atendia e dizia que estava ocupada ou que estava… que não dava para atender e depois, sentia-me mal com isso. Ah… e… ela nunca deu um outro nome a isso, o que fazia era, não sei, íamos falando e não sei, íamos chegar a uma outra coisa significação para isso, e lembro-me que, na altura, o que me surgiu foi: isto é autopreservação. Assim como hou- ve essa, houve muitas e isso foi importante, para já, porque não era a pessoa de fora… que me estava a dar um nome para aquilo que eu estava a sentir e eu agora tenho que integrar isso em mim, ah sim… porque afinal é isso. Não. Ela fazia-me chegar, de facto, a uma significação diferente da coisa mas minha na mesma, que me fizesse sentido a mim, porque eu é que lá tinha chegado e por isso, integrado à partida, não era uma coisa ex- terior, que eu tivesse que integrar, acho que isso foi importante para ter, para reformular sim, às vezes a imagem que tinha de mim.” (P03, E)

Um outro participante, ao refletir sobre o que fez a diferença na intervenção da terapeuta, expressa a mesma ideia, não sem alguma perplexidade:

“(…) e acho que a abordagem da psicóloga foi mais do levar-me a mim próprio a reconhe- cer onde existiam os problemas e fazer com que eu sugerisse as soluções para eles, tudo isto mantendo uma certa ou tendo uma certa capacidade de fazer parecer que a ideia partiu do lado de cá e não do lado de lá, mas que, para mim fazia sentido quase como se tivesse sido eu a dizer…” (P15, E)

Dito de outro modo, por um lado o terapeuta é ativo e em muitos casos diretivo mas, em simultâneo, os participantes enquanto clientes mantêm a noção de agência, liderança e autoria, sentindo-se eles os responsáveis ou decisores máximos durante o processo:

“como é que eu consegui lá chegar ou o que é que a Dra. fez?… eu penso que foi através deste diálogo ou destas questões muito subtis que a Dra. me ajudou a lá ir… quase que ela ia comigo pela mão, mas era eu que ia à frente, era eu que ia enfrentando as coisas… quase a medo, é um facto… mas fui, fui eu que fui… enfrentei, organizei, limpei e recon- ciliei-me com muitas coisas e acho que isso foi importante…” (P08, E).

Estes contributos parecem apontar no sentido da importância dada pelos parti- cipantes às atividades do terapeuta, como dar feedback, orientar ou sugerir, ou seja, de comportamentos ditos diretivos mas que fazem emergir um outro aspeto central, o da importância atribuída pelos clientes a sentirem que são eles próprios, e não os terapeu- tas, que têm o poder de ação e de decisão, ou seja que são os agentes. Os participantes valorizaram as participações ativas do terapeuta tendo até referido, por vezes, que gos- tariam que os terapeutas tivessem sido mais desafiantes ou ativos na sua participação. Sugerem, por exemplo, que o terapeuta poderia ter proposto certos “exercícios mais confrontantes” (P01, E) ou ainda que gostariam que o terapeuta tivesse falado sobre o modo como a terapia se estava a desenrolar, antecipando-se à meta-comunicação por parte da participante, de modo a agilizar o processo. No entanto, todas essas ativida- des do terapeuta são bem-vindas e consideradas úteis para o processo, quando é claro relacionalmente que, em última instância, isso é feito para o “bem” do cliente e que é ele finalmente o centro e o agente.