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COGNIÇÃO E DECISÃO

No documento PROCESSO DE DECISÃO (páginas 55-59)

3 A PERSPECTIVA COGNITIVA NO PROCESSO DECISÓRIO

3.2 COGNIÇÃO E DECISÃO

Este trabalho terá seu foco no processo decisório individual, por este motivo, enquadra-se, segundo classificação de Schneider e Angelmar (1993), no foco indivíduo. Por outro lado, as dimensões que se propõe a abordar serão estrutura e processo cognitivo dos decisores.

Anghern apud Borenstein (1997) chama a atenção para o fato de que a grande falha dos SAD consiste em desprezar aspectos cognitivos do processo de decisão para priorizar, simplesmente, os aspectos matemáticos.

A percepção é tributária da memória, e esta, por sua vez, é tributária do meio em que cada ser humano cresceu e se desenvolveu. O modo de viver e as conversações que guiam esse viver determinam o que se percebe e o que se faz. A leitura que cada um de nós faz do mundo é inteiramente subserviente à nossa estrutura biológica, cultural e comportamental.

As primeiras teorias sobre processo decisório e cognição estavam destinadas a obter modelos matemáticos práticos de tomada de decisão e presumiam que os tomadores de decisão são totalmente informados, infinitamente sensíveis à informação e completamente racionais. As teorias subseqüentes começaram a reconhecer que os humanos freqüentemente usam critérios subjetivos para essa tomada; que os elementos aleatórios muitas vezes influenciam os resultados das decisões; que os humanos seguidamente usam estimativas subjetivas para considerar os resultados e que não são ilimitadamente racionais ao tomarem decisões.

Simon (1986) alerta para a importância de relacionar aspectos cognitivos com SAD, afirmando que aumentar o conhecimento empírico do processamento cognitivo humano e as técnicas para lidar com a complexidade continuam sendo objetivos de pesquisa altamente prioritários.

Corroborando a defesa da inclusão de novas variáveis, Medin e Bazerman (1999) criticam a escola comportamental, não a ponto de ser considerada irrelevante, mas propõem a necessidade de avançar para além dela. A escola comportamental teve seu paradigma focado em descrever o que os tomadores de decisão não fazem; o desafio agora é avançar para descrever o que os decisores efetivamente fazem. Assim, entende-se que o processo será descrito no seu todo, e não apenas em fragmentos.

Nesse veio, Simon afirma que, de 1950 até 1970, o comportamento humano foi simplesmente ignorado pelos economistas, que defendiam uma teoria completamente racional. Parte dessa ignorância pode ser atribuída a interesses próprios de manutenção de poder e, também, parte pode ser atribuída à habilidade dos economistas para explicar os argumentos da pesquisa na área comportamental dentro de seu paradigma.

Mao e Benbasat (2000), num estudo onde abordam a perspectiva cognitiva, procuram entender como os indivíduos utilizam as explicações fornecidas pelos Sistemas Especialistas.

Sugerem que a Teoria Cognitiva pode auxiliar no entendimento de como as pessoas utilizam as explicações dadas pelos sistemas, através da perspectiva do esforço cognitivo, da explanação, da resposta a questões, da compreensão do discurso, de diferenças entre indivíduos com alta e pouca especialização, e entender quando, por que e como as explicações são utilizadas.

Segundo Medin e Bazerman (1999), os trabalhos de Tversky e Kahnemann (1974) – heurísticas, disponibilidade, representatividade, ancoragem e ajustamento – foram caminhos através dos quais pesquisadores racionalistas simplificaram suas pesquisas utilizando essas heurísticas. A rede utilizada para validar pesquisas, eles argumentam, pesou mais que os benefícios de pesquisas mais completas.

Como sugestão para pesquisas atuais em decisão e processo decisório, Medin e Bazerman (1999) sugerem que o processamento da informação deva ser estudado em seus diferentes níveis de análise. Eles sugerem que o estudo deva ser realizado em três diferentes níveis de análise:

1) Nível computacional: nesse nível, a questão central é quais são os objetivos que decidirão quais as informações relevantes e quais as ações apropriadas.

2) Nível algorítmico: pode ser descrito como o estudo de como a utilidade é determinada e como os processos computacional e decisório funcionam para maximizar a utilidade.

3) Nível de implementação de Marr – (Marr, 1970): nesse nível, busca-se entender como os objetivos globais associados à computação (processamento) são executados por um dispositivo físico.

Segundo esses autores, a teoria clássica (racional) de estudo da decisão baseou seus estudos somente no nível computacional. Essa teoria afirma que as pessoas buscam maximizar a utilidade e não descreve o que a pessoa valoriza; ela simplesmente diz que diferentes alternativas têm diferentes valores ou utilidades e o decisor escolhe a opção que maximiza esta utilidade.

Uma crítica apresentada à teoria clássica é de que ela silenciou sobre o processo associado com a formulação do objetivo por parte do decisor, objetivo este que precede o processo de decisão.

Outra crítica a essa teoria, feita por Medin e Bazerman (1999), é que ela implica que, se o decisor preferir A a B, e preferir B a C, então obrigatoriamente deverá preferir A a C.

Segundo os autores, outros pesquisadores identificaram que os decisores não procedem desta maneira, jogando por terra toda a teoria racional de decisão.

As preferências apresentadas acima podem ser encontradas em French (1991) como Axioma da Transitividade, um dos axiomas do processo decisório clássico, numa literatura relativa a teorias matemáticas da decisão.

Num trabalho também relevante na área de processo decisório, Boff (2000) realizou uma pesquisa na qual procurou compreender como analistas de investimento, representando neste estudo os trabalhadores do conhecimento, processavam informações em função de algumas diferenças previamente estabelecidas. O autor também verificou como a informação do ambiente é utilizada pelos trabalhadores de conhecimento para orientar sua atividade, e como as diferenças nos níveis de complexidade da informação influenciam o processo de trabalho e os resultados gerados por estes trabalhadores. Entre outras sugestões de pesquisas futuras, Boff sugere que sejam realizadas comparações dos processos de trabalho e resultados produzidos por especialistas e novatos e também que se realizem investigações com grupos experimental e de controle para verificar com maior rigor os efeitos de um determinado estímulo.

Medin e Bazerman afirmam que a economia tradicional tem assumido que os indivíduos querem agir racionalmente em seus propósitos e interesses. Fazendo eco ao sentimento de limitação da teoria racional clássica, Anderson (1991) argumenta que o melhor caminho para desenvolver modelos de cognição é analisar quais os objetivos dos decisores, e então determinar o mecanismo que produzirá um comportamento ótimo.

Segundo Markman e Medin (2001), existe hoje um grande número de demonstrações das limitações no processo decisório humano, e a publicação Teoria Prospectiva, de Kahneman e Tversky (1979), marca um ponto de inflexão no aumento do interesse e influência dos modelos psicológicos no processo de tomada de decisão.

Markman e Medin (2001) sugerem que, para que haja um verdadeiro avanço no estudo do processo decisório, necessário se faz que incluamos nas pesquisas componentes da ciência da Psicologia. A seguir, são apresentadas sucintamente algumas delas. Quando escolhas são avaliadas, dever-se-ia atentar para a descrição dos objetivos, da motivação e da emoção. As duas últimas estão fortemente interligadas e há evidências de que estados emocionais são relevantes para determinar avaliação de alternativas.

Conhecimento, explanação e solução de problemas são componentes sugeridos para outra abordagem possível de ser realizada. Uma importante corrente no estudo do processo decisório relaciona-se à intensiva utilização de conhecimentos anteriores no processo de construção do processo, principalmente na escolha da alternativa.

Os autores dividem a decisão em dois tipos, quando a mesma está relacionada à Psicologia Cognitiva. O primeiro tipo de decisão a ser avaliada relaciona-se a imparcialidade, valores e escolha de opções do tipo uma ou outra. Outro tipo de decisão, segundo os autores, relaciona-se a nível de conhecimento e a diferenças culturais. Esta última encaixa-se no tipo de decisões em que são avaliadas as diferenças individuais dos decisores, onde novamente a Psicologia Cognitiva encarrega-se de auxiliar no estudo dos processos.

Realizando uma análise das publicações dos autores neste campo, em que se relaciona cognição e processo decisório, a conclusão a que se chega é que os estudos envolvendo esta relação tinham uma preocupação pragmática muito forte no sentido de prescrever modelos e comportamentos de indivíduos. Medin e Bazerman (1999) afirmam que o processo que teve sua ancoragem em modelos e teorias prescritivas deverá, num futuro próximo, estar focado muito mais em modelos descritivos.

No documento PROCESSO DE DECISÃO (páginas 55-59)